ÉTICA NA GESTÃO DE PESSOAS: DISCRIMINAÇÃO EM VIAGENS A SERVIÇO

05/01/2011 • Por • 360 Acessos

Flavio Farah*

Tempos atrás, uma matéria publicada na imprensa especializada dava conta de pesquisa realizada por uma empresa de consultoria com 31 grandes empresas brasileiras. A pesquisa informava em que classe os profissionais eram colocados nas viagens aéreas de mais de 7 horas de duração, de acordo com o cargo. Para resumir, em um extremo estavam os Presidentes: 35% voavam de 1ª classe, 62% de classe executiva e 3% de classe econômica. Na outra extremidade, estavam os gerentes de linha: 55% voavam de classe executiva e 45% de classe econômica.

Certa vez, fiz uma viagem aérea internacional noturna de 9 horas de duração na classe econômica. O avião estava lotado e eu fui colocado na primeira fileira, aquela que dá de frente para a parede. Não havia espaço para esticar as pernas. Como eu não consigo dormir em viagens de avião, aquela viagem foi uma tortura. Eu passei 9 horas com os joelhos dobrados, sem dormir e sem ter o que fazer.

O espírito que preside a política das empresas nas viagens aéreas a serviço é o mesmo que orientava uma construtora em que trabalhei. A empresa dava aos operários que dormiam nas obras um colchão de espuma de apenas 5 cm de espessura e não instalava água quente nos alojamentos, obrigando os trabalhadores a tomar banho frio mesmo no inverno. Esse mesmo espírito também dá origem às políticas que estabelecem diárias de viagem de valores diferentes conforme o nível hierárquico do funcionário.

Essas políticas têm a mesma origem: a discriminação decorrente do autoritarismo. O pensamento autoritário consiste, basicamente, na crença de que as pessoas são desiguais, ou seja, na crença de que existem seres humanos "superiores" e "inferiores". E mais, que essa desigualdade é natural, biológica, genética, não podendo ser alterada.

Para o indivíduo autoritário, não existe o conceito de igualdade: os homens não são, de modo algum, iguais em dignidade e direitos. O autoritário vê o mundo em termos de uma rígida hierarquia. A sociedade compõe-se de pessoas "superiores" e "inferiores" que estão inseridas em classes hierarquicamente ordenadas. Os membros das classes "superiores" possuem "maior dignidade" que os membros das classes inferiores. Por esse motivo, os "superiores" devem ter mais direitos e privilégios do que os "inferiores", sendo que os membros das classes "inferiores" merecem menos respeito do que os membros das classes "superiores", e tanto menos respeito quanto mais "inferior" for o indivíduo. Para as pessoas autoritárias,  pessoas "inferiores" têm menos dignidade do que as "superiores" e, portanto, têm direito a menos benefícios.

Em minha vida, fiz várias viagens de trem, na época em que ainda existia o transporte ferroviário de passageiros. Em particular, certa vez fiz uma viagem noturna de trem para o Rio de Janeiro. De trem-leito. Naquela época, não passava pela cabeça de ninguém fazer uma viagem ferroviária noturna que não fosse de trem-leito. Hoje, continua sendo comum se fazer uma viagem rodoviária noturna em ônibus-leito. Ora, se isto é comum e natural, também deveria ser comum e natural fazer viagens aéreas noturnas de avião-leito.

Nenhum funcionário, mesmo aquele situado na base da pirâmide hierárquica, deveria ser obrigado a viajar a serviço sofrendo a tortura de um vôo noturno de longa duração em classe econômica. Ainda mais tendo que trabalhar no dia seguinte no local de destino.

Os critérios de decisão sobre a classe em que um funcionário será colocado nas viagens aéreas a serviço deveriam ser a duração do vôo e o período em que este será realizado: diurno ou noturno, sem levar em conta o nível hierárquico do viajante.

 

Perfil do Autor

Flavio Farah

Flavio Farah, Mestre em Administração de Empresas, professor universitário, palestrante e articulista, é autor do livro "Ética na Gestão de...