Na Busca Da Inovação, Onde Deve Estar O Pesquisador?
A Lei da Inovação (Lei nº. 10.973, de 2/12/2004) chama atenção porque consiste num conjunto de medidas essencialmente voltadas para conectar a pesquisa e o setor produtivo. Um aspecto, bastante destacado, é o fato dela incentivar centros de pesquisa e empresas a compartilhar recursos humanos, financeiros e materiais, incluindo laboratórios cientÃficos.
Com base nessa lei, o processo de definição de estratégias é amplamente relacionado à identificação do lugar de trabalho mais apropriado para o pesquisador. Os esforços para tal identificação têm sido dominados por duas visões distintas e aparentemente opostas. Enquanto a primeira visão propõe a aproximação entre organização de pesquisa e empresa, a segunda sugere a fixação do pesquisador na empresa.
Conforme a primeira visão, o pesquisador deveria estar na organização de pesquisa, atuando em colaboração estreita com a empresa. A organização de pesquisa, além de ser o lugar onde são treinados cientistas e engenheiros, é vista como ator capaz de assumir funções importantes no crescimento econômico.
Para a segunda visão, o pesquisador deveria estar na empresa, dedicando-se às necessidades cotidianas do setor produtivo. A empresa é reconhecida como essencial para o aprendizado necessário à acumulação tecnológica e, portanto, é tratado como o lugar privilegiado da inovação.
As duas visões têm mérito de serem levadas em consideração no processo de definição de estratégias de inovação. Seus respectivos benefÃcios são bem evidentes.
Por um lado, as possÃveis modalidades de interação entre organização de pesquisa e empresa não podem ser negligenciadas. Um exemplo de grande relevância é a atividade de consultoria que deve ser freqüentemente realizada pelo pesquisador da organização de pesquisa na empresa e se adequar à s necessidades do setor produtivo. Nesse sentido, o modelo de assistência técnica da Embrapa, essencialmente orientado pelas demandas das empresas ou unidades de produção, é bem instrutivo.
Por outro lado, a consolidação das capacidades da empresa de integrar suas próprias atividades de pesquisa e produção é indiscutivelmente um fator importante de desenvolvimento de um processo de inovação contÃnuo. Uma das importantes potencialidades desta visão é a geração de empregos para os milhares de novos pesquisadores formados anualmente e disponÃveis no mercado brasileiro.
Concentrar os debates pró-inovação na oposição dessas duas visões não ajuda na procura de estratégias de inovação. Tanto a aproximação quanto a fixação do pesquisador em relação à empresa constitui caminho razoável em direção à inovação. A adoção de uma ou outra dessas alternativas pode levar a resultados satisfatórios. Portanto, é preciso deslocar o epicentro das trocas de idéias.
Sendo lugar privilegiado da inovação, a empresa merece especial atenção. Um aspecto muito importante a levar em consideração é a cultura empresarial. Pesquisas exploratórias e conclusivas devem ser realizadas para entender a dinâmica de atuação da empresa. Para isso, as ciências sociais aplicadas precisam ser valorizadas. Entre as principais questões a serem pesquisadas destacam-se as seguintes: Qual é a estratégia de negócios da empresa? Há incentivos públicos para a valorização de conhecimentos e tecnologias?
No que diz respeito à estratégia de negócios, é preciso, por exemplo, verificar se a empresa está praticando uma lógica extrativista, ou seja, uma estratégia de extração injusta de recursos do consumidor ou da sociedade. Em caso afirmativo, deve-se ensinar à empresa que a competitividade não se sustenta na manipulação de preços e/ou na sonegação de impostos. Quando os preços são manipulados para gerar mais receitas, o abuso esmaga o consumidor. Quando os impostos são sonegados para gerar mais lucros, o impacto negativo repercute na sociedade. Quando o consumidor e a sociedade não têm mais condições para sustentar falsos mecanismos de competitividade, a empresa desaparece inevitavelmente. Nesse sentido, deve-se ensinar à empresa que a inovação é a chave do sucesso econômico.
Quanto a incentivos públicos para valorização de conhecimentos e tecnologias, é preciso, por exemplo, estudar o perfil da empresa em termos de recursos. Tal estudo pode revelar o quanto a empresa se preocupa e tem propensão em contratar profissionais competentes para introduzir, assimilar e desenvolver inovações necessárias à geração e sustentação de sua competitividade. Assim pode ser possÃvel entender o ambiente institucional em que atua a empresa.
Em 2006, o Brasil atingiu a meta de formar cerca de 10 mil doutores ao ano. Segundo o Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG 2005-2010/Ministério da Educação), o objetivo é formar 16 mil doutores por ano a partir de 2010. Portanto, o PaÃs deve estar preparado para inserção desses profissionais no mercado de trabalho. Contentar-se apenas com a interação entre organização de pesquisa e empresa não é aconselhável. É preciso agir nas duas frentes, abrindo espaço para inserção de doutores também nas empresas.
No Brasil, uma estratégia de interação entre a organização de pesquisa e a empresa de produção deve ser acompanhada de ações sistemáticas de fixação de cientistas e engenheiros no setor produtivo. Os mecanismos de apoio podem ser efetivados de maneira gradual. Num primeiro momento, prioridade pode ser dada à interação interorganizacional sem negligenciar a fixação de pesquisadores na empresa. Num segundo momento, quando a empresa começa a valorizar o conhecimento, o raciocÃnio pode ser o inverso do anterior. De toda maneira, há urgência de criar polÃticas públicas aptas a abrir as portas da empresa para cientistas e engenheiros. Nesse sentido, as ações devem ser prioritariamente orientadas para estimular, no âmbito da empresa, práticas de gestão empresarial adequadas à inovação.
(Artigonal SC #1410374)
Palavras-chave do artigo:
empresa
,INOVAÇÃO
,politica pública
,organização de pesquisa
,estratégia de negócios
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