A incerteza e a prática escolar

Publicado em: 07/11/2010 |Comentário: 0 | Acessos: 495 |

 

A incerteza e a prática escolar

 

O presente artigo tem como principal objetivo analisar e repensar a prática escolar à luz da teoria dos "sete saberes", de Edgar Morin, detendo-se na incerteza.Para isso, falaremos um pouco de cada saber e, em seguida, nos aprofundaremos no aspecto da incerteza, já o situando com a sala de aula. Morin afirma que os setes saberes são "buracos negros" que descobriu na educação após uma análise profunda e generalizada desta. E que estes funcionam como base (pilares) da educação considerada ideal nos dias de hoje.

 

O conhecimento é o primeiro buraco negro. A educação, que naturalmente ensina conhecimentos, não se detém no conhecimento. Edgar Morin diz que o ser humano, equivocadamente, toma as ideias pela realidade, esquecendo que todo conhecimento não passa da impressão, tradução e reconstrução da realidade em si. Em vista disso, é imprescindível que a educação se encarregue de mostrar os pressupostos do conhecimento, os riscos, erros e ilusões que este encerra em si. Da mesma forma, deve buscar e auxiliar seus alunos na busca de suas origens.

 

O conhecimento pertinente é o segundo buraco negro. Sua composição é a ação de dar contexto ao saber, de dar-lhe situação global, geográfica e historicamente. A escola deve ensinar através de disciplinas que interajam entre si, no intuito de não atrofiar os alunos na habilidade de assimilar o que aprendem com o mundo em que vivem e suas necessidades.

 

A condição humanaé o terceiro buraco negro. Para estudar o homem de modo fragmentado temos as mais diversas áreas do conhecimento. Porem ignora-se a identidade do homem como um ser total. As áreas encontram-se totalmente desintegradas entre si, e por maior que seja sua profundidade de estudo, a questão maior continua a ficar sem resposta. O homem se esquece que é um ser social e animal, simultaneamente e que deve estudar-se nesses dois aspectos, não de modo aleatório, mas do modo que é. Para que conheça sua identidade o ser humano dispõe das artes, da literatura, que o auxilia na difícil tarefa de conhecer-se, encontrar sua identidade e definir sua condição humana.

 

A compreensão humana é o quarto buraco negro. Morin afirma, enfático, que não se ensina compreendermos uns aos outros. O mundo moderno está extremamente carente de compreensão e esta é de fundamental importância para o desenvolvimento e progresso do homem.

 

A incerteza é o quinto buraco negro, do qual falaremos logo em seguida.

 

A era planetária é o sexto buraco negro. Nesse aspecto, o objetivo é fazer com que o homem entenda que o mundo hoje não se separa mais em partes, mas que há uma grande pátria e isso tem tendência de crescer. Ao longo da História, a Terra foi se transformando pela ação do homem e se tornando um grande lugar sem fronteiras. E a ideia mais difundida hoje é a de uma pátria terrestre.

 

A antropoética é o sétimo buraco negro. A ética em escala humana faz exigências ao homem quanto a se conhecer e realizar em suas diferentes condições e concepções. Apesar de seus diferentes aspectos serem antagônicos, completam-se entre si, afirmando sua natureza complexa.

 

O quinto buraco negro da educação, segundo Edgar Morin, parece-nos bastante importante e digno de uma análise e atenção especiais, dada sua contribuição inegável na construção do saber. A incerteza é uma das maiores conquistas da consciência, visto que a aventura humana sempre teve caráter desconhecido ao homem. A própria ciência já nos mostrou que existem coisas que não podemos saber precisamente. No entanto sempre foram ensinadas as certezas, em detrimento das incertezas. O que é um erro gritante, pois a História nos mostra que os acontecimentos envolvendo a humanidade e a vida na Terra, em geral, não podem ser vistas de modo linear.

 

Ao longo da História, os acontecimentos nos mostraram, implacavelmente, que confiar em qualquer certeza e não contar com o acaso é um equívoco que pode custar caro. Poderíamos citar inúmeros exemplos, segundo Morin, para provar que a História da Humanidade está marcada por episódios onde a certeza falhou e praticamente foi como uma armadilha para quem a possuísse. A própria existência do homem é fruto de uma obra do acaso.

 

Impérios que pareciam indestrutíveis foram destruídos pelo fato do mundo não basear-se em certezas e linearidade. O próprio rumo da História é marcado pelo acaso e pelas incertezas. Os fundamentos da incerteza se mostram imprescindíveis na sala de aula. E eles sequer são mencionados.

 

Quando o homem pratica uma ação, ele projeta a reação que esta vai causar, porém a reação que ele imaginou não passa de uma mera probabilidade. A incerteza.  "Uma ação não obedece nunca às intenções daqueles que a fazem." (pág. 95) Essa afirmação, por si só, nos coloca no sensato dever de contarmos com o acaso.  No momento que uma palavra é dita, um ato é feito, ele já não nos pertence. Tem destino próprio. Vai penetrar no meio social e cultural, onde tomará um rumo diferente do imaginado por nós, pois há diversos fatores em jogo. As circunstâncias, o local, o momento, os imprevistos, tudo é indicio de que a certeza é uma coisa perigosa.

 

Por maiores que sejam os avanços tecnológicos alcançados pela ciência não se consegue prever nada para o futuro. O que vem aí é a mais pura e simples incerteza.

Nosso destino como indivíduos, como seres sociais e como animais é incerto. Já dizia, sabiamente, Sócrates: "Só sei que nada sei."  A única verdadeira certeza é a da incerteza

ela está presente quando o homem olha para o passado, para o presente e, principalmente, para o futuro. Tudo são hipóteses e conjecturas.

 

A filosofia nos elucida sobre os riscos de ignorarmos a incerteza. Todo conhecimento está sujeito a erros e ilusões, por mais precisos que possam parecer ser num determinado momento. O conhecimento só é possível no momento em que algumas certezas inexoráveis caírem por terra e o novo e a descoberta encontrarem lugar. Então o saber, o conhecimento se fará construir, esclarecedor e, do mesmo modo, suscetível a erros e mudanças.

 

Apesar da certeza que temos da existência e importância da incerteza, é fato que as escolas ignoram esse aspecto do saber abertamente. É surpreendente como a opinião do professor que está atuando ativamente na sala de aula sobre métodos de ensino e avaliação são baseados em coisas certas, como, por exemplo, um suposto (errôneo) potencial comum a todos os alunos. As informações que são "passadas" aos alunos são todas tidas como certas.

 

O professor, quando questionado acerca de seu conceito pessoal de conhecimento, elabora repostas nas quais não há margem de erro. "Conhecimento é capacidade de tomar atitudes corretas na vida diária." É uma resposta que nos leva a pensar que o conhecimento nada mais é do que um manual que nos fará, com certezasaber sempre o que fazer nos diversos momentos e impasses ao longo da vida. Opinião  simplista e perigosa para um educador.

 

A incerteza propriamente dita, para o professor, acontece quando o conteúdo aplicado em sala de aula não foi bem compreendido, fixado, vivenciado. Nada é mencionado sobre sua importância como introdução da construção do saber. Ignora-se que a incerteza é o principio de qualquer conhecimento. Se tivéssemos sempre certeza de tudo, as ciências exatas já teriam previsto muitos fenômenos e acontecimentos inesperados, transformando o rumo da história e deixando a vida na terra sem surpresas.

 

 

É necessário alertar o educador sobre os riscos de não se ensinar sobre os pressupostos e fundamentos da incerteza. É de suma importância mostrar ao aluno que a dúvida, a incerteza, são criadoras. Quando nos sentimos certos e seguros de tudo que nos rodeia alguma coisa está errada, não está na ordem natural das coisas, que são por natureza, incertas.

 

A sala de aula deve ser um espaço onde o professor construa saber inovador e transformador com seus alunos, auxiliando-lhes na obtenção de uma consciência clara sobre os riscos de não se contar com o acaso e não duvidar do que sabe e do que lhe é dito. O preço pode ser a falta de criticidade e capacidade de questionamento. O mundo é movido por perguntas e estas são movidas pelas incertezas.

 

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/linguas-artigos/a-incerteza-e-a-pratica-escolar-3623817.html

    Palavras-chave do artigo:

    sete saberes educacao conhecimento

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    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Educação> Ensino Superiorl 20/06/2013 lAcessos: 39
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    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Educação> Ensino Superiorl 20/06/2012 lAcessos: 159
    Edjar Dias de Vasconcelos

    A grande questão que o imprevisto é absolutamente desconhecido, perigoso para a manipulação da cultura, apenas nesse momento da história da civilização humana que se admite que não se conheça o destino da aventura do homem.

    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Educação> Ensino Superiorl 01/09/2013 lAcessos: 58

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    Apesar de a disciplina Sociolinguística existir já há vários anos no curso de Licenciatura Plena em Letras e mesmo nos cursos de Especialização da Universidade do estado de Mato Grosso (UNEMAT), em Alto Araguaia, nos Trabalhos de Conclusão de Curso, ou seja, nas monografias finais, verificam-se poucos trabalhos que versam sobre tal tema.

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    Lucimar Hammes

    A observação escolar é de suma importância para saber quais são os métodos avaliativos mais adequados e eficazes para que no futuro, como docentes, possamos aprimorá-los e aplicá-los de uma forma verdadeiramente significativa. Tudo isso, tendo como base os Sete Saberes Necessários a Educação do Futuro de Edgar Morin.

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    O conceito de dialogismo surgiu através da obra do teórico russo Mikhail Bakhtin, o qual examina o dialogismo em diferentes ângulos e estuda detidamente as suas manifestações. Para Bakhtin, a língua em sua totalidade, no seu uso real, tem a propriedade de ser dialógica. Todos os enunciados no processo de comunicação são dialógicos.Neles existe uma dialogização interna da palavra, que é repassada pela palavra do outro, ou seja, todo enunciador para constituir um discurso,leva em conta o discurso.

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    Lucimar Hammes

    Segundo Émile Benveniste, a linguística reconheceu que a linguagem devia ser descrita como uma estrutura formal. Seu objeto não devia ser separável do método que o define e seria necessário utilizar os mesmos conceitos e critérios para descrever fenômenos estudados.

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