De Quando O Povo Modifica O Povo: A Etimologia Popular Influenciando A Vida De Toda Uma Comunidade

Publicado em: 12/01/2008 | Comentário: 8 | Acessos: 708

 

   A linguagem é, sem qualquer dúvida, a faculdade mais importante do ser humano. Ela é a principal característica que nos diferencia dos outros seres. De acordo com Borba (1989), “todos os animais se comunicam de alguma forma e em algum período de sua vida”, para isso, fazendo uso dos diversos meios que existem. Contudo, “à diferença dos outros animais, os homens se servem desses e de outros expedientes, para entrarem em contato uns com os outros”. Destarte, desde que percebeu o poder da linguagem, o homem a vem desenvolvendo, aperfeiçoando-a, para seu melhor usufruto.

 

 

 

   A comunicação proveniente de uma interação em um determinado grupo social se dá de forma complexa entre o emissor e o(s) receptor(es) de qualquer mensagem e que, se não sofrer ruídos durante o processo de enunciação, se satisfaz plenamente. No entanto estes problemas podem aparecer a todo o momento. Numa situação hipotética, se um falante deseja expressar a cor secundária, formada pela união das primárias vermelho e amarelo, ele dirá ‘laranja’. Todavia, havendo três receptores, pode ser que essa comunicação não se dê plenamente satisfatória, se, por exemplo, o primeiro entender ‘laranja’, como o fruto rico em vitamina C, o segundo, como uma metáfora de pessoa participante de um crime sem sabê-lo, e o terceiro, não-falante de língua portuguesa, logo despojará esse ordenado de fonemas de um sentido e isso nada haverá de lhe acrescentar ou indicar.

 

   Outras vezes, essas distorções se dão no âmbito semântico, quando, ao invés de um vocábulo conter vários significados, o mesmo significado está contido em mais de uma expressão. Nesse caso, enquadram-se os vocábulos ‘falecer’ e ‘morrer’, que se destinam a significar o término do viver de um ser. Como uma das principais leis regentes da linguagem humana é a que favorece impreterivelmente o menor esforço, é de se estranhar que, na mesma língua, haja mais de um vocábulo para se referir ao mesmo plano de conteúdo. Eis que, a Etimologia, ciência que busca conhecer as origens das palavras, surge, de um único rompante, tal qual os super-heróis dos quadrinhos, disposta a esclarecer esses mistérios.

 

   Assim, a Etimologia nos aponta para o latim, em que ‘falecer’ expressava a idéia de ‘faltar’, já em desuso no português atual. Assim, subentende-se que logo quando alguém morria, este fazia falta. Obviamente que há diferenças entre ‘falecer’ e ‘morrer’, porém estas já são tratadas pela Semântica, analisando o grau de sinonímia existente entre vocábulos e, até mesmo, frases completas, o que não se faz aqui interesse principal.

 

   Há, ainda, o que se convencionou chamar Etimologia popular, conhecida também por pseudoetimologia, que funcionalmente age da mesma forma que sua prima científica. Porém, difere-se daquela no fato de ser o conhecimento do povo a sua mola propulsora. Na visão de Ullmann (1977), esta modalidade etimológica “pode alterar quer a forma quer o significado de uma palavra pela conexão errada que estabelece com outro termo, com o qual tenha uma semelhança fonética”. Verifique, nesse caso, as expressões ‘toucinho defumado’ e ‘cemitério’, que em muitos casos são tratadas por, respectivamente, ‘toucinho perfumado’ e ‘sumitério’. Sugestiona-se que as pessoas não conhecem essas palavras e as aproximam dos conhecimentos lexicais que possuem. Dessa maneira, por ‘perfumado’, substitui-se ‘defumado’, a fim de se ressaltar que a fumaça do fogo perfume o toucinho, e ‘cemitério’ por ‘sumitério’, pois ao serem enterrados, os corpos somem.

 

   A etimologia popular afeta não necessariamente apenas vocábulos de uma mesma língua. Há diversos registros de contribuições, oriundas de outros idiomas, que sofreram alterações em português como arrow root que se tornou araruta. Outros casos de etimologia afetam os nomes próprios.

 

   Estes acontecimentos pouco freqüentemente são abordados de forma analítica. Note-se o tratamento dado por PIEL (1962-65), no tocante à análise vocabular de aleluia:

 

  • “(…) ‘nome dado aos alados (macho e fêmea) do cupim, quando saem do cupinzeiro para, fecundando-se, formarem nova colónia’. Sendo aleluia sinónimo de sililiui e siriruia, não há dúvida que também aqui estamos em presença de uma interpretação etimológica popular de um termo indígena. Na gênese da sugestiva denominação podem ter intervindo a visão do movimento ascensório das térmites respectivas, por um lado, e o seu carácter alado, pelo outro”. (PIEL, 1962-65, p.18).

 

   É mister, também, assinalar esse comentário toponímico, de Lind (1963), em que se afirma “induzindo-nos em erro, Bananal (perto do Araguaia) provém do nome do chefe Abananá”. Kehdi (1996), em seu Morfemas do Português, traz os exemplos de ‘bambu’, ‘tomate’ e ‘taquara’ que, acrescidos do sufixo –al, indicador de conjunto, compõem novos nomes: ‘bambual’, ‘tomatal’ e ‘taquaral’. Assim, poder-se-ia atribuir, erroneamente, à localidade supracitada ter seu nome oriundo do seguinte processo de formação de palavras:

 

Banana + al = Bananal

 

    Contudo, caso ainda mais complexo se dá em relação a um dos trinta e dois bairros do município de Praia Grande (SP): a conhecida Cidade Ocian. O local como hoje se conhece, cujas origens são datadas da década de 50 – há a seguir a reprodução de um postal da época –, impulsionadas pela construção de 22 prédios, num total de aproximadamente 1600 apartamentos, é hoje um dos bairros mais importantes, com mais de 10 mil moradores [mais que inúmeros municípios do interior do Brasil], cerca de 4% da atual população do município que, em 2008, está em cerca de 250 mil habitantes.

 

 

   Esta grandiosa obra, inaugurada em 27 de maio de 1956, quando Praia Grande ainda não era emancipada político-administrativamente (pertencia a São Vicente, tendo se desmembrado em 19 de janeiro de 1967), foi considerada até 1960, ano de fundação de Brasília, “a cidade mais bem planejada” e “a estrutura urbana mais moderna do Brasil”.1

 

   O conjunto de edificações e, por conseqüência, todo o bairro ganharam a alcunha de ‘Cidade Ocian’ devido ao fato de possuir infra-estrutura que não era encontrada nem mesmo em cidades emancipadas e à empresa responsável pela execução da obra – a Organização Construtora e Incorporadora Andraus – cuja sigla era OCIAN. Veja imagem do helicóptero da empresa.

 

 

   Dotada de invejáveis base e conforto, a Cidade Ocian tinha, e ainda a tem, mais de 50 anos depois de sua inauguração, como seu símbolo-mor a estátua de Netuno, localizada defronte à atual praça Roberto Andraus e ao Espaço Ocian. E onde está a etimologia popular?

 

 

   Como foi dito anteriormente, o tempo passa e os mais velhos se vão, deixando seus lugares aos mais jovens e, muitas vezes a história se perde nessas idas e vindas. E alguns anos depois, o bairro passou a ser grafado, nos mais diversos locais, como Cidade Ocean ou, simplesmente, Ocean. Entendendo-se que esse fato seja um caso típico de etimologia popular que se deu no âmbito vocabular, pois a alteração se concretiza apenas na grafia e não na fonética, as razões deste estão intimamente ligados à forte presença da estátua de Netuno – marco que presenciou a comemoração de muitas conquistas do município, como a vitória do plebiscito pró-emancipação político-administrativa, em 1963, quando muitas pessoas se reuniram em volta do Netuno, festejando o fato entusiasmadamente –, além de se tratar de um bairro praiano (atente que ‘ocean’ significa ‘oceano’, em inglês). Há, ainda, de se ressaltar o nome de um dos logradouros mais importantes da Cidade Ocian, a Rua Oceânica Amábile2, situada paralelamente às avenidas D. Pedro II e Vicente de Carvalho (principal corredor comercial do bairro).

 

 

 

   A grafia errônea ‘Ocean’ também é encontrada em muitas propagandas, como no folder abaixo de um evento do Moto Clube de Praia Grande, em que há ambos os registros. É curioso observar como são detectadas ambas as formas no mesmo impresso comercial, do que pode se deduzir a convivência dos dois vocábulos, tanto que, seja apresentada qualquer uma das formas, a compreensão se dá plenamente.

 

 

   Conforme já se assinalara, este caso estudado, precisamente, tem a sua relação fonética estabelecida para que a ocorrência deste fato se desse, afinal ‘Ocian’ dificilmente se obliteraria para, por exemplo, ‘mar’, vocábulo com que pouco se vincula foneticamente, pois consoante Almeida (1990), ao citar o exemplo de Sant’Iago, que originou São Tiago, “são as conformidades fonéticas que dão causa a tais assimilações semânticas de etimologia popular”. Porém, há outros fatores contribuintes para essa mutação, considerando-se parâmetros de determinadas correntes, e como afirma Bragança Jr (1995).:

  •    Quanto às leis fonéticas, máximas da escola dos neogramáticos, a Geografia Lingüística demonstrou que cada palavra tem sua evolução própria, não sendo somente a analogia fator de perturbação, mas toda uma gama de fatores psicológicos e sociais. Quanto a isso, é bom ressaltar que a linguagem começou a ser encarada dentro de dois outros pontos de vista, a saber, a biologia da linguagem e a sociologia da linguagem. A primeira, subdividindo-se na homonímia e na etimologia popular, demonstrando que esses fatores alteram e levam a palavra por caminhos distintos rumo à sua forma atual, enquanto o caráter social da linguagem está ligado a interpenetração da história externa das línguas, condicionando-as a fatores históricos e culturais. (BRAGANÇA JR.,1995)

   Portanto, balizando-se por estes conceitos, já que cada palavra evolui a seu modo, o par ‘Ocian/Ocean’ tem para o seu ponto de vista da ‘biologia da linguagem’ a semelhança gráfico-fonética e para o estudo social da mesma as condições de circunstâncias que abarcam todo esse processo de transição, como a localização do bairro em uma cidade praiana e o forte envolvimento da população com o mar.

   A presença maciça de ‘Ocean’ é ainda mais percebida em diversos websites, chats e páginas de relacionamento. Esse fato muito provavelmente esteja atrelado aos jovens, grande maioria dos usuários de internet, que, por desconhecerem a história oficial do bairro, ou terem sofrido influência, desde a infância, da variante irregular, só conhecem esta ou a consideram a forma padrão. E mesmo com o esforço de anos do poder público que, ao substituir placas grafadas erradamente e divulgar o nome e a história oficiais da Cidade Ocian, só o tempo poderá nos elucidar qual forma haverá de se sobrepor à outra, com Netuno a espreitar a sucessão de acontecimentos desse dilema.

 

 ¹Cf. Informativo Cultural, edição 28 (abril de 1980), da Associação Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande (ACEAM).

 

²Cf. imagem abaixo do mapa do bairro.

 

BIBLIOGRAFIA:

ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Dicionário de questões vernáculas. São Paulo: Ática, 1990.

BRAGANÇA JR., Álvaro Alfredo. O topônimo conservatória à luz da corrente “Wörter und sachen”. Revista Philologus, Rio de Janeiro, v.2, ano 1, pp. 19-28, 1995.

BORBA, F. S. Introdução aos estudos lingüísticos. São Paulo: Nacional, 1989.

INFORMATIVO CULTURAL, edição 28 (abril de 1980), da Associação Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande (ACEAM).

KEHDI, Valter. Morfemas do português. 3. ed. São Paulo: Ática, 1996. pp.62-3. (Série Princípios - 188).

LIND, Ivan. De Portugal ao Brasil. – Um pequeno estudo de toponímia brasileira. Lisboa: Casa Portuguesa, 1963, p. 77.

PIEL, Joseph M. Renovação e inovação lexical no português do Brasil. Revista Portuguesa de Filologia, Coimbra, v.13, t. ½, p. 18, 1962-65.

ULLMANN, Stephen. Semântica: uma introdução à ciência do significado. Trad. de J. A. Osório Mateus. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1977), p. 459.

(Artigonal SC #666019)

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    1. Ênio December 03, 2008
    Gabriel,
    Gostei muito!
    Você foi fundo... sem trocadilho com o mar...
    Boa sorte!
    Abração,
    Ênio
    0
    2. FRANZ December 04, 2008
    Parabéns pelo texto. História incrível que deveria ser contada nas escolas.
    0
    3. Rogério December 05, 2008
    Bom garoto!
    Adorei seu artigo. Você foi muito técnico. Utilizou vários argumentos. Vou discutir o que? Estive trabalhando em Praia Grande há um tempo atrás e não tomei conhecimento disso e nem pudera, porque minha passagem por ai foi breve, mas, quando voltar por estas \"bandas\", terei o que conversar com a comunidade local... Muito bom! Abraços
    0
    4. Rogério December 05, 2008
    Gabriel, adorei seu artigo. Você argumentou muito bem. Não há o que discutir. Já trabalhei em Ocian há alguns anos atrás, em uma Operação Verão da PM e não tomei conhecimento deste fato. Agora, quando eu retornar por estas \"bandas\", terei o que conversar... Parabéns! Abração
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    5. Kátia December 06, 2008
    Adorei o artigo... sério...
    moro na PG, e li coisas q eu nem imaginava
    sobre a cidade...
    1
    6. Cassiano December 06, 2008
    Gostei muito do artigo. Muito bem escrito e além da questão da língua muito bem abordada pelo autor,trouxe de certa forma a história do nome do bairro Ocian.
    Parabéns. Vou recomendar.
    0
    7. Claudio Cezar Henriques December 30, 2008
    Parabéns, Gabriel.
    Muito boa sua pesquisa filológica. Gostei e vou recomendar. Abraço e bom Mestrado em 2009.
    0
    8. lili April 06, 2009
    nada di jeito sinseramentxis
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