Linguagem: a interferência das redes sociais na escrita

29/06/2012 • Por • 4,080 Acessos

Introdução

A sociedade exige que as pessoas sejam extremamente rápidas, principalmente na forma de comunicar-se, por isso, recorrem aos meios tecnológicos para conseguirem a comunicação em tempo ágil, e é esta rapidez do dia-a-dia e a velocidade com que a comunicação, principalmente virtual está acontecendo, que preocupa os estudiosos da Língua Portuguesa.

A linguagem tanta escrita como falada é um dos meios mais certos da comunicação entre as pessoas. O estudo da linguagem é necessário para uma compreensão maior de mundo e do meio em que cada pessoa está inserida.

Esta preocupação dos linguistas ocorre devido a utilização de um meio rápido e instantâneo, no caso, as redes sociais, sendo estas, responsável, ao ver de muitos estudiosos pela desestrutura da norma culta da língua, pelo fato de ser um meio comunicativo ágil e que permite um número de infinitos artifícios para a velocidade na comunicação, principalmente relacionado à escrita.

Ao que diz respeito à escrita, a problemática maior está relacionado a expansão que as redes sociais tomaram e a linguagem utilizada nas mesmas, conhecida como internetês, linguagem esta que permite uma forma rápida e sem regras específicas para a comunicação, sendo identificada, principalmente, por causa das abreviações que tornam esta comunicação virtual veloz, principalmente entre os jovens e os adolescentes, gerando, assim, questionamentos a respeito deste novo paradigma textual.

A proposta deste artigo é buscar uma reflexão através da opinião de alguns autores e de um estudo a temas relacionados, sobre os desafios que esta nova forma de escrita e porque não dizer dessa nova forma de linguagem, está causando no cotidiano das pessoas, em especial a de jovens e adolescentes, que tem desafios constantes a respeito da língua e da escrita.

Linguagem falada e escrita

Para uma compreensão e uma comunicação satisfatória, todo indivíduo necessita conhecer o que escreve e o que fala. Não tem como haver um diálogo, mesmo que virtualmente, senão há um domínio daquilo que se pretende falar com aquilo que se escreve. A língua falada e escrita não se diferencia uma da outra, elas se complementam, até porque aprendemos primeiramente a falar e depois a escrever, sendo a escrita uma consequência de nossa oralidade.    

Historicamente e validado através de estudos, a escrita real proporcionou ao homem valores significativo para a sua trajetória, pois em determinado contexto marcou e registrou suas conquistas de forma a não ficar esquecido, diferente da linguagem falada, que acaba por se transformar em uma comunicação mutivariada, onde cada um fala aquilo que entende, dentro de sua própria oralidade.

O que causa pânico entre os estudiosos não é o acesso em si as redes sociais ou a tecnologia da informação virtual, pois não resta dúvidas que é um meio prático e necessário, mas o que assombra é como esta ferramenta está sendo utilizada, pelo fato de o que era feito separado poder ser encontrado em um mesmo lugar, como diz Chartier (1998).

Com a revolução industrial da imprensa, os papéis do autor, editor, tipógrafo, distribuidor, livreiro, estavam separados. Com as redes eletrônicas, essas operações podem ser acumuladas. (Chartier, 1998, p.15)

As transformações que nossa língua tanto escrita como falada passou para chegar até o nível que se encontra hoje são inúmeras, e que a cada proposta de mudança ou descoberta, há sempre uma transformação tanto individual como para a sociedade. Dessa forma com a inovação da linguagem virtual estamos presenciando questionamentos e a busca por soluções para que essa nova forma de linguagem seja utilizada em prol do sucesso dos indivíduos que a utilizam e não causar prejuízos, muitas vezes irreparáveis.

A expansão das redes sociais

O surgimento da internet ocasionou uma revolução na vida das pessoas, primeiramente pela praticidade que a máquina, no caso, o computador proporciona aos seus possuidores, sem esquecer a internet, esta ferramenta considerada hoje indispensável para a praticidade diária do ser humano.

Para muitos é quase inaceitável alguém não ter acesso a internet, devido a expansão que este meio de comunicação de massa tomou na vida das pessoas. Crianças já nascem praticamente acessando, muitas delas com cinco anos de idade já sabem mexer e brincam com a máquina como se fosse um brinquedo simples de manusear, deixando de lado outras brincadeiras simples, na busca da adaptação de uma sociedade praticamente tecnológica.  Isso nos mostra que desde cedo, o indivíduo já é inserido nesta "febre" que se tornou o computador, mais precisamente a internet e suas ferramentas.

Uma das ferramentas da internet mais acessadas, principalmente entre jovens e adolescentes são as redes sociais. É público e notório a epidemia de páginas que funcionam para a comunicação instantânea e em tempo real das pessoas. Este acesso exagerado veio aumentando a cada ano, principalmente na última década, em que muitas pessoas tiveram acesso a internet e acabaram por se adaptar, muitas vezes, viciando-se nestas redes sociais, desqualificando o principal foco que deveria ser a internet, no caso, a pesquisa e informação em tempo rápido.

A influência das redes sociais ocupa um lugar tão significativo na vida das pessoas, que para muitos hoje, é inadmissível alguém não possuir um facebook, Messenger, skype, Orkut, dentre outros. Caso não se adéque a este mundo virtual, a primeira coisa que irão definir é que tal pessoa não é informada. Ai se vem o questionamento, então o que é ser informado, é possuir algum tipo de rede social e ficar conectada a internet praticamente o dia todo só nesta ferramenta, então é necessário se fazer urgentemente uma reflexão do papel da internet e sua função, como também das redes sociais, ou acabaremos por não entender o que mesmo seja uma notícia.

É certo que a influência da internet e das redes sociais, ocasionará implicações, ou melhor, já está ocasionando implicações sérias no âmbito educacional dos usuários, sendo os mais atingidos os jovens e os adolescentes, estes com acesso diretamente a esta ferramenta, como mesmo dizia Lévy, a internet:

Está se tornando um lugar essencial, um futuro próximo de comunicação humana e de pensamento humano. O que isso vai se tornar em termos culturais e políticos permanece completamente em aberto, mas, com certeza, dá para ver que isso vai ter implicações muito importantes no campo da educação, do trabalho, da vida política, das questões de direito.

Não se pode negar a importância que a internet e o acesso as demais ferramentas oriundas dela ocasionou a sociedade, pois é de suma importância para muitas pessoas e para muitas empresas. O que se está buscando mostrar com o questionamento desta influência, é que o mau uso deste meio ocasionará prejuízos a vida das pessoas. A expansão não é errada, muito pelo contrário, é necessário sim, mas o que deve ser esclarecido é como esse uso deve ser utilizado para que não acabe prejudicando no lugar de ajudar, principalmente no âmbito educacional, já que sabemos o que a expansão destas redes sociais causaram e estão causando a língua portuguesa, principalmente na escrita dos usuários assíduos deste meio de comunicação. 

A linguagem da internet e a interferência na escrita padrão

A nossa língua é composta por diferentes modalidades e pelo difícil domínio que muitas pessoas sentem em relação à mesma, devido as inúmeras regras que são necessárias para se obedecer ao que é exigido pelo padrão da  norma culta. Devido a isso, a expansão que a internet e principalmente a expansão que as redes sociais nesta última década tomaram, causaram a necessidade de se usar no mundo virtual uma linguagem que proporcionasse agilidade na comunicação entre seus usuários, linguagem essa denominada como internetês.

Nesse sentido, a Internet também criou sua variante da língua. Hoje, milhões de pessoas no Brasil utilizam a Internet. Todos os dias, milhares de novos brasileiros se conectam a essa enorme rede. Cada vez, mais e mais pessoas estão acessando as chamadas salas de bate-papo. Com isso, mais pessoas vão aprendendo o "internetês", o linguajar do internauta (Miglio, 2001, p.3)

Para o pesquisador Possenti, esta nova forma de escrita não pode ser considerado uma língua, mas somente uma nova forma de grafia para a comunicação ágil dos usuários do mundo digital.

Trata-se da grafia utilizada por certos usuários dos computadores, em geral, jovens adolescentes que passam horas teclando, isto é, trocando mensagens por escrito. Em resumo, trata-se apenas de grafia, nada mais que da grafia." (Possenti, 2010, p.60)

Pode ser realmente que a linguagem virtual seja somente um meio encontrado para a rápida comunicação entre os usuários da internet, mas não se pode negar que esta nova forma de escrita está influenciando a escrita padrão do brasileiro e afetando diretamente no âmbito escolar de jovens e adolescentes, estes em sua maioria por estarem em fase escolar e também por serem frequentadores assíduos de redes sociais e não possuírem constantemente acesso a norma culta da língua escrita.

Para muitos jovens a linguagem utilizada na internet é mais atraente do que a nossa linguagem padrão, primeiro pela rapidez que estas abreviações (internetês) causam ao processo de comunicação, segundo porque não há regras específicas como no caso da linguagem culta, que é necessário estar por dentro de inúmeras regras para se chegar a escrita desejada pelo padrão da norma culta da Língua Portuguesa.

É claro que o internetês não pode ser considerado um campo da Língua Portuguesa, já que muitos estudiosos são contra esta nova forma de linguagem surgida, mas é necessário que se tenha consciência que esta nova forma da escrita está influenciando diretamente as pessoas no seu processo de comunicação seja virtual ou não e que merece sim a atenção dos estudiosos.

O fato do uso contínuo do internetês, que nada mais é do que um conjunto de abreviações de sílabas e simplificações de palavras que leva em conta a pronúncia e a eliminação de acentos está preocupando os estudiosos, pais e professores de língua portuguesa, pelo fato da invasão desta linguagem na vida estudantil dos jovens e adolescentes, principalmente na influência que está causando no processo de ensino/aprendizagem da norma padrão culta de nossa língua.

É notório a dificuldade que os estudantes possuem para o aprendizado e até para a utilização correta da pronúncia como da escrita da língua portuguesa, pelos fatos já dito linhas acima. O internetês acaba por se tornar uma maneira simples e rápida para a comunicação, e que está invadindo o campo da escrita dentro das escolas, principalmente em redações, o que torna preocupante, porque o domínio do padrão culto escrito é condição indispensável para o aprimoramento cultural e intelectual do indivíduo, principalmente na busca por uma inserção no mercado de trabalho como também para a inserção em uma universidade, já que um dos critérios de aprovação é a tão temida prova de redação, já temida pelo fato dos estudantes não terem conhecimento e domínio no padrão da norma culta brasileira.

Reportagens já foram apresentadas acerca dessa temática, da linguagem virtual na produção escrita dos estudantes. A utilização do internetês nas redações estudantis, muitas vezes é aplicada involuntariamente. O fato é que a contínua utilização desta linguagem acaba adaptando o indivíduo a escrever de forma que foge dos padrões exigidos pela Língua Portuguesa.

É por isso, que pais, professores e principalmente os usuários dos meios de comunicação instantâneos, no caso, as redes sociais, devem ter consciência de quando e de qual ocasião cabe a utilização destas abreviações, porque uma coisa é você falar a um grupo de amigos na página do facebook e outra é escrever uma redação para a análise de um professor da língua, saber diferenciar a situação é mais do que necessário para que a influência que esta nova forma de escrita exerça sobre os seus usuários seja apenas de contribuir para a comunicação rápida e não de prejudicar na busca do aprimoramento do conhecimento.

Considerações finais

O domínio da linguagem é muito importante para o processo de comunicação, mas não se pode focar como linguagem somente aquilo que está sob as regras que rege o padrão culto da Língua Portuguesa, mas que toda forma de expressão, seja ela escrita ou verbal, virtual ou real, proporcione a comunicação entre os indivíduos.

A linguagem virtual não deveria ser considerada ameaça para a escrita padrão da norma culta, porque se é uma forma de comunicação rápida que proporciona uma integração maior entre as pessoas, por que considerar ameaça, o que se deve analisar, é que o problema não está na inserção às redes sociais, ou na expansão delas, mas está no mau costume que as pessoas possuem em não estudar e conhecer a língua materna, mesmo que seja oriundas de outros povos, mas que é a linguagem que rege o nosso país.

As controvérsias são muitas a respeito da importância ou não que a internet exerce sobre as pessoas, mas o que é certo é que se os indivíduos soubessem dosar seu tempo em estudar e principalmente ler, porque através da leitura seria fácil diferenciar e saber escrever de maneira correta, a influência das redes sociais não estaria tão em questão, mas sim seria só mais um meio de comunicação a ajudar na integração de pessoas e uma forma de descontração da correria do dia a dia.

Tempo há, o que falta as pessoas é o bom senso e a vontade de adquirir conhecimento, porque querendo ou não muitos já se tornaram submissos a uma realidade precária e miserável de conhecimento, tornando se pessoas alienadas, sem criticidade para questionar sua própria realidade, mesmo existindo ferramentas que foram criadas justamente para auxiliar na correria do dia a dia.

O que se deve ter em mente que não é a linguagem utilizada na internet que vai ser fator determinante para a precariedade que é presenciada na produção escrita dos jovens hoje, e sim a falta de interesse dos mesmos em busca do conhecimento e em busca da melhoria intelectual de cada um, sendo a escrita e a língua portuguesa, mais uma vítima da falta de compromisso desta sociedade tão despreocupada na busca do aprimoramento de seus conhecimentos.

 Referência

ORLANDI, E.P. O que é Lingüística. 6.ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1993.

BEFFA, Sabrina Falcão. Linguagem da internet: do virtual para o não virtual  <http://www.fsma.edu.br/esfera/Artigos/Artigo_Sabrina.pdf > acesso em 23/05/2012.

SILVA, Gilson Sousa. Internetês: Praticidade na linguagem virtual  <http://www.webartigos.com/artigos/internetes-praticidade-na-linguagem-virtual/60031/> acessado em 23/05/2012.

STORTO, Letícia Jovelina; GALEMBECK, Paulo de Tarso. A Escrita virtual influencia a escrita escolar? <www.ple.uem.br/3celli_anaidtrabalhos> acessado em 13/06/2012.        

  

Perfil do Autor

Mikaelle Azevedo

Aluna do 6º Semestre do Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia da Faculdade de Educação de Crateús – FAEC, Campus da Universidade Estadual do Ceará – UECE.