OS PERSONAGENS NEGROS NA OBRA DE LOBATO "O SITIO DO PICAPAU AMARELO"

11/08/2010 • Por • 4,603 Acessos

OS PERSONAGENS NEGROS NA OBRA DE LOBATO "O SITIO DO PICAPAU AMARELO"

Leide Vilma Pereira Santos

Os personagens negros vêm ao longo do tempo sendo representadas de maneira estereotipadas, nos diversos meios de comunicação como novelas, obras literárias, teatro, cinema, dentre outros, sendo o objetivo  fazer uma analise de como o negro é representado na literatura de Monteiro Lobato, focalizando a problematização nos personagens de Tia Anastácia, Tio Barnabé e o próprio Saci, pois discutir essa questão sobre o racismo possibilita ampliar o debate, presente na sociedade e na ficção. A esse respeito, as pesquisas de Marisa Lajolo (1996) e Regina Zilberman (1985), revelam que apesar do tratamento afetivo destinados a esses personagens, seus espaços se reduzem ao confinamento no interior dos sítios, fazendas, mansões e florestas, um estigma de desqualificação social, representando uma forma de conhecimento sempre desdenhada na cultura dominante. Monteiro Lobato tinha uma personalidade dividida, entre apresentar o racismo e ao mesmo tempo o respeito por aqueles personagens que considerava autênticos, a forma ele construiu os personagens e contou suas histórias, revela muito sobre como enxergava, apreendia, entendia o tema tratado. Os ângulos que seu olhar procurava o foco que escolhia, os detalhes que iluminava, o recorte que fazia, podem revelar um pouco da idéia que fazia de seus personagens. São sinais que podem levar a identificação de uma maneira de pensar de um observador privilegiado daquela República que começava e porque Lobato participou ativamente, como intelectual e empresário da época.

O que se pretende é discutir a identidade dos personagens negros, bem como analisar as diferentes formas de representações na obra do Sitio do Picapau amarelo, na qual verificamos que esta obra está sustentada na ação, dando ao leitor uma linguagem ideológica pautada numa perspectiva de emancipação do individuo, criando uma literatura adequada ao publico infantil que se expandiu da preocupação com a educação de seus filhos para as demais crianças brasileiras, destacamos com isso a finalidade de suas criações, bem como a necessidade de trabalhar a fantasia existente nos seres humanos, em especial, na infância. Discutindo assim, as posições de personagens da cultura folclórica brasileira misturando-os com outros com predominância familiar e a relação com a representação com a imagem do negro construída por Lobato.  É inegável a contribuição de Lobato para a literatura brasileira, pois ele fez surgir um novo estilo literário no Brasil baseado num aspecto ideológico, no qual sua disseminação foi extremamente relevante para literatura brasileira. O estilo inteiramente novo com que Lobato fazia a sua aparição e maneira original e pitoresca com que lançava as suas histórias, mais discutir a representações do negro na obra Lobatiana, além de contribuir para um conhecimento maior deste grande escritor brasileiro, pode renovar os olhares com que se observam os sempre delicados laços que enlaçam literatura e sociedade, história e literatura e similares binômios que tentam dar conta do que, nas paginas literárias ficam entre seu aquém e seu além. Dentro desse contexto de sua formação, Lobato coloca e integra em seus livros infantis um diferente grupo social, cultural e racialmente. Fora dos livros, na sociedade real, as relações eram marcadas por uma espécie de hierarquia de classe social e de raça: Branco senhor, preto serviçal, senhor culto, empregado inculto etc. Esse mesmo tratamento ambíguo com relação ao negro transparece no contexto do Sitio do Picapau Amarelo. Segundo Lajolo (1998) as figuras de Tia Anastácia, Tio Barnabé e o Saci, representam uma forma de conhecimento que consiste na sabedoria das lendas, crenças, crendices e saberes específicos da herança africana. Através deles transmite-se um tipo de cultura oral e interiorana, sempre desdenhada pela cultura dominante. Essa forma de saber, carregada de magia e de experiência ancestrais da humanidade, coloca a crença em contato com a herança africana de nossa formação, herança escamoteada da cultura, que é branca e européia em país mestiço, fortemente marcado pelo negro. A autora revela que a trama urdida por Lobato em algumas de suas obras aborda mais a inteligência dos brancos que sempre acabam vencendo, vindo destacar também posições ambíguas do escritor. Em seus livros fica clara a superioridade racial, em outros momentos, esse autor resgata o elemento de origem africana e reconhece seu papel na cultura brasileira, como na caracterização de Tia Anastácia, Tio Barnabé e o Saci personagens representantes do saber popular. A escritora Regina Zilberman, reconhece que a representação do negro, em Lobato, não é diferente da produção de boa parte da intelectualidade brasileira. Longe de desqualificar a questão, essa ambigüidade torna-a ainda mais relevante, mas os melhores ângulos para discuti-la não se esgotam na denuncia bem intencionada dos xingamentos de Emília, do desdém de Pedrinho e das perguntas de Narizinho, absolutamente verossímeis e, portanto, esteticamente necessários numa obra cuja qualidade literária tem lastro forte na verossimilhança das situações e na coloquialidade da linguagem. O Sitio do Picapau Amarelo, criação de Lobato, é uma das obras mais originais da literatura infanto-juvenil no Brasil e o primeiro livro da série, foi publicado em dezembro de 1920, a partir daí, Monteiro Lobato continuou escrevendo livros infantis de sucesso, com seu grupo de personagens que vivem histórias mágicas são eles, a turminha do sitio: Emília, Narizinho, Pedrinho, Marquês de Rabicó, Conselheiro, Quindim, Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Tia Nastácia, Tio Barnabé, Cuca, Saci etc. Os personagens principais moram ou passam boa parte do tempo no sítio pertencente à avó dos garotos, batizado com o nome de Picapau Amarelo. O estilo literário lobatiano passou a ter tanta credibilidade no Brasil que se tornou gênero do século XX renovando a literatura. Diante desse fato, os demais escritores, principalmente, os regionais elevaram outro olhar para seu estilo, em especial, nas primeiras décadas onde foi o eixo central de sua influência.                Segundo Gouvêa (2005), os personagens negros tornam-se freqüentes, descritos de maneira a caracterizar uma postura de integração racial, bem definida, mediante a descrição das características físicas e cognitivas dos personagens negros, de sua relação com os personagens brancos, sua inserção no espaço social, configura-se uma visão da temática racial endereçada ao público infantil. Os negros aparecem como personagens estereotipados, descritos a partir de referências culturais marcadamente etnocêntricas que se buscam construir uma imagem de integração, o fazem a partir de embranquecimento de tais personagens.

Perfil do Autor

Leide Vilma

Formada em Letra Português- Francês pela Universidade Federal de Sergipe