Revisando a coesão e coerência do texto

Publicado em: 03/03/2012 |Comentário: 0 | Acessos: 461 |

Preocupação constante de quem revisa textos está focada em manutenção, recuperação ou estabelecimento de coesão e coerência textual. Naturalmente, essas preocupações do revisor devem se sobrepor às do autor, no sentido que ele já terá pensado nelas ou as terá incorporado com subsunção da própria redação natural. Todavia, o processo de revisão – além incorporar as habilidades linguísticas inerentes ao leitor e escritor privilegiado que é o revisor – deve incorporar a análise consciente e explícita de grande número de elementos textuais, dos quais aqui me deterei na coesão e coerência, apontando desde já que ambas incidem sobre estruturas microtextuais e macrotextuais das obras longas, alcançando as diversas escalas tópicas entre os parágrafos e capítulos.

© Públio Athayde - Revisor de textos naKeimelion.com

A qualidade comunicacional do texto se amplia na proporção em que ele incorpora elementos de coesão segundo a estrutura retórica eleita. Essa coesão é facilitada pelo uso adequado dos elementos de conexão, sequenciação e (re)ativação, dispostos segundo quantidade, qualidade e alternância necessárias, o que constitui não somente critério subjetivo de bom gosto mas implica ergonomia visual e legibilidade do texto – como tal compreendendo elementos visibilidade, estrutura intelectiva e empatia do leitor. Todos esses aspectos – dentre tantos outros – são considerações a serem processadas objetivamente na revisão.

Assim, considera-se coesão a ligação entre as partes do texto. Microestrutura e macroestrura do texto, na primeira instância propiciada pelos elementos de sequenciação frasal (conjunções, preposições, pronomes, certos advérbios e locuções), pelos de ativação proximal (anafóricos e catafóricos, e.g.) e, na segunda instância – em diversos graus, por sentenças ou parágrafos sintéticos e remissivos, umas sumariando e concluído e segmento anterior do texto e outras como sinopse do que se seguirá; sínteses conclusivas e remissiva, respectivamente.

Assim como na fala, as mensagens distantes se perdem na escrita. No que se escreve, a informação prévia deve ser reativada o suficiente para que o texto não perca fluência, inteligibilidade e as demais características necessárias à coesão. Importantes recursos para tanto são os elementos anafóricos e catafóricos.

Anafóricos são os elementos da construção textual em que um termo sem significado retoma a outro termo com ou sem significado. No sentido retórico, anáfora é repetição de uma palavra ou grupo de palavras no início de duas ou mais frases sucessivas, para enfatizar o termo repetido (Este amor que tudo nos toma, este amor que tudo nos dá, este amor que Deus nos inspira, e que um dia nos há de salvar.). No sentido da linguística, ela é processo pelo qual um termo gramatical retoma a referência de um sintagma anteriormente usado na mesma frase (comeram, beberam, conversaram e a noite ficou nisso – valendo por: comeram e a noite ficou nisso, beberam e a noite ficou nisso, conversaram e a noite ficou nisso) ou no mesmo discurso (Fui ao Museu de Artes Modernas. Lá, encontrei vários de meus amigos) [Houaiss].

Catafórico são os termos sem significado que se referem a outros, com ou sem significado, enunciados em seguida; referem-se a termos que ainda não foram ditos. Prendem a atenção do leitor no intuito de descobrir a informação a respeito desse termo, até aquele ponto desconhecido. Em linguística, catáfora é o uso de um termo ou locução ao final de uma frase para especificar o sentido de outro termo ou locução anteriormente expresso (A noite resumiu-se nisto: comer, beber e conversar) No texto, geralmente, tem função catafórica o que se segue à pergunta e também expressões como: por exemplo, isto é, ou seja, a saber e, na escrita, o que vem após os dois-pontos [Houaiss].

Outra estrutura da coesão a ser considerada é a dêixis, elemento em que um termo com significado se refere a outro também com significado. Dêixis, ou díxis, é a característica da linguagem humana que consiste em fazer um enunciado referir-se a uma situação definida, real ou imaginária, que pode ser: a) quanto aos participantes do ato de enunciação – díxis pessoal (1ª pessoa – o que fala; 2ª pessoa – aquele a quem se dirige a fala; 3ª pessoa – todo assunto da comunicação, que não sejam a 1ª e 2ª pessoas); b) quanto ao momento da enunciação (díxis temporal); c) quanto ao lugar onde ocorre a ação, estado ou processo (díxis espacial); Além da díxis linguística, existe a não linguística, feita com gestos, mímica, expressões faciais, ruídos [Houaiss].  Nas teses, por exemplos, há complexos elementos de díxis temporal, nas relações entre hipóteses, pesquisa e conclusão; há problemas de díxis pessoal entre as motivações e experiências pessoais da introdução imbricadas com um ideal de objetividade e impessoalidade nas investigações e conclusões.

Quanto a sua função ativacional, tem-se a dixís endófora (textual – denotativa), termo com significado que retoma outro também com significado dentro do texto e a díxis exófora (tradicional – conotativa) que retoma outro também com significado fora do texto.

Denotação refere-se à Ideia em seu sentido primeiro, sentido do dicionário. Denotação é a relação significativa objetiva entre marca, ícone, sinal, símbolo e o conceito que eles representam (a relação entre cruz e hospital, entre caveira com dois ossos cruzados e perigo ou veneno, entre a forma sonora [masã] maçã e o fruto da macieira. É a extensão do conceito que constitui o significado de uma palavra; propriedade que tem um significante de se referir genericamente a todos os membros de um conjunto. Designa o sentido literal das palavras. [Houaiss]

Conotação é a ideia em seu sentido figurado, sentido segundo. Conotação é o conjunto de alterações ou ampliações que uma palavra agrega ao seu sentido literal (denotativo), por associações linguísticas de diversos tipos (estilísticas, fonéticas, semânticas, sociais ou teoréticas), ou por identificação com algum dos atributos de coisas, pessoas e seres da natureza.

Essas relações ativacionais, referem-se às perguntas que se fazem ao texto: Em que sentido? Como assim? Literalmente? Ou procurando-se entender se ou autor está usando os morfemas em sentido literal e comum, se lhes está aplicando um sentido próprio (inovando) ou se está adotando os sentidos contextual, autoral ou grupal de outrem, os chamados conceitos.

Caberá ao revisor verificar se essas conexões deícticas se processão, se elas se amarram e se não sobram pontas na trama textual. Claro que isso se faz quase naturalmente, mas pode-se fazer sistemática e explicitamente.

Coerência é a lógica argumentativa. É a relação entre as partes do texto em análise vinculada ao mundo. É o sentido do texto. Também se aplica a aspectos micro e macroestruturais ao texto e considera simultaneamente a vários aspectos da textualidade importantes principalmente no campo dos textos acadêmicos: intertexto (referência direta a texto de autor diverso ou a si em outro texto), intratexto (referência ao próprio em outra passagem) e interdiscursividade (referência – adoção, crítica ou contestação a ideias de outras pessoas – em citação indireta), pode ser uma paráfrase (as mesmas ideias do texto original, mas com outras palavras ou estruturas diferentes) ou uma paródia (imitação com objetivo jocoso ou satírico).

Coerência é o resultado da confluência de todos os fatores internos e externos ao texto aliados a mecanismos e processos de ordem cognitiva, como o arcabouço cognitivo, o conhecimento compartilhado, o conhecimento procedural. A coerência resulta da construção de sentidos pelos sujeitos (autores, revisores, leitores) a partir do texto (e não somente no texto), para a qual estariam contribuindo, considerados os seguintes elementos: fatores de contextualização, consistência e relevância, focalização e conhecimento compartilhado, dentre outros.

Considera-se sempre o contexto, e os contextos, momento textual e momento social em que se encontra a mensagem. É fundamental para que se entenda em profundidade o texto. Exemplo são os textos que omitem referências monetárias numéricas para não se tornarem ultrapassados; ou outros textos de época que adotam o padrão monetário do período a que se referem, considerando que a referência histórica já estabelece a constante necessária. Assim, um texto situado no século XIX pode se referir a "tantos contos de réis", ao passo que um texto atual será mais durável se mencionar "o preço de um carro popular".

A verificação da coerência textual se deterá ainda na incidência e propriedade dos lexemas essenciais: os conceitos mais recorrentes em um texto. Lexemas são unidade de base do léxico, que pode ser morfema, palavra ou locução. Na terminologia de A. Martinet, o monema (unidade de primeira articulação), que contém o significado lexical, ou seja, a simbolização do recorte dos ambientes físico, biológico e social feita por determinada língua (em oposição ao morfema, que contém o significado gramatical); corresponde a raiz e a semantema; na terminologia de Bernard Pottier, morfema lexical. [Houaiss]. É importante avaliar a recorrência de tais lexemas e a homogeneidade de seu emprego; há casos de flutuações de campo léxico (relação entre as palavras – lexemas – mais importantes). Há ainda a intercorrência de variações de campo semântico (possibilidade de alternativas léxicas – substituições de palavras), mantendo-se o mesmo sentido original e registro.

Para o estudo da lógica argumentativa, cumpre recuperar as estruturas retóricas clássicas (aristotélicas) e seu sentido renascentista. Pontos sobre os quais não vou me estender, mas aqui, apenas remeter a eles.

A retórica capta o leitor em três elementos: logos, pathos e ethos. A elaboração do discurso e sua exposição exigem atenção a cinco dimensões que se complementam (os cinco cânones ou momentos da retórica): inventio ou invenção, a escolha dos conteúdos do discurso; dispositio ou disposição, organização dos conteúdos num todo estruturado; elocutio ou elocução, a expressão adequada dos conteúdos; memoria, a memorização do discurso e pronuntiatio ou ação, sobre a escrita do texto, onde a modulação do registro deve estar em consonância com o conteúdo, o que nem sempre é considerado [Wikipédia, adaptado].

É preciso entender, aplicar e verificar na redação, revisão ou leitura que retórica é forma constitutiva de linguagem de textos e deve ser definida de acordo com as suas situações e funções, uma vez que a relação entre custo e benefício da linguagem retórica apenas poderá ser reconstruída e avaliada a partir do seu uso específico. Uma análise do discurso retórico, portanto, que não visa a descrição de um código, mas a compreensão e a avaliação crítica do uso da linguagem escrita e deve partir da interpretação funcional estrutural de exemplos práticos [Wikipédia, adaptado]. No que se refere aos trabalhos acadêmicos longos, teses e dissertações principalmente, a retórica lhes é inerente e subsunção ao procedimento lógico de verificação de hipóteses. Cabe ao revisor mediar os aspectos estruturais e funcionais do texto, visando-lhe a comunicabilidade.

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