Risco De Vida Versus Risco De Morte: Uma Breve Reflexão Sobre O Cerne Da Questão

18/08/2009 • Por • 2,037 Acessos

 

Risco de vida versus Risco de morte: uma breve reflexão sobre o cerne da questão

  

Por Prof. Selmo Alves

Profselmoalves@Yahoo.com.br

                                                             Ago. 2009

 

Dias atrás, muito se veiculou nos meios de comunicação visuais e auditivos sobre o estado de saúde do piloto Felipe Massa. A televisão, considerada o veículo de maior alcance de todos eles, é a que mais denuncia a flutuação nos usos das duas expressões. Apresentadores, locutores e jornalistas, no afã de darem a notícia de primeira mão, usam a expressão que melhor lhes soa aos olhos e ouvidos. Por causa de tal variação, parece inevitável certa curiosidade diante do que se vê e, principalmente, se ouve.  A propósito de tais usos, cumprem algumas considerações.

Para melhor compreender as razões de ambos os usos, faz-se necessário lembrar que a língua é um fenômeno social e, como tal, está em franco e diuturno processo de evolução e mudança. Assim, Silva-Corvalán (1989) aborda, dentre outros aspectos, a relação dos fenômenos linguísticos com fatores sociais, tais como a organização sociopolítica e econômica de uma comunidade de fala, fatores individuais, como idade, gênero, etnia e nível de escolaridade, o que justifica o fenômeno da variação.

Com base em tais princípios, as expressões “risco de vida” e “risco de morte” seriam aceitas, indistintamente, já que, como bem mostra Silva-Corvalán, há uma estreita relação dos fenômenos linguísticos com os fatores sociais. Mas, ignorando tal orientação, numa espécie de contramão linguística, há uma outra vertente, a prescritiva, que elege uma ou outra expressão como aceita, ou melhor dizendo, como – correta. Daí, surge e prospera a tese de que se deve empregar apenas uma expressão em detrimento da outra. Veja-se, a seguir, o verdadeiro cerne da questão. 

A elipse consiste na figura de linguagem, ou no processo de omissão, intencional ou não, de determinada expressão que pode ser facilmente compreensível pelo contexto da frase. Tal fenômeno ocorre por vários fatores, sendo um deles a necessidade da comunicação rápida, fazendo com que surjam e se consagrem usos modificados pela elipse.

Assim é que, nos dias hoje, por exemplo, muito comuns e até bastante comunicativas parecem ser as expressões “estar em férias” ou “estar de férias”, que são reduções da expressão “estar em gozo de férias". O motivo de tal variação reside na ocorrência da – elipse. Assim, pode-se dizer, indistintamente, "estar em férias”, “estar de férias”, ou ainda, "estar em gozo de férias"; todas as três expressões são aceitas. Apenas por uma questão de economia linguística, costuma-se omitir a expressão “gozo de”, ou “em gozo”. 

O mesmo ocorre com as expressões “risco de vida” e  “risco de morte”.    Tanto em uma, como em outra, ocorre a elipse.

Na expressão “risco de vida”, está oculta a expressão "perder a", o que corresponde à frase completa "correr o risco de (perder a) vida".

Na expressão “risco de morte”, está oculta a expressão "encontrar a", o que corresponde à expressão "correr o risco de (encontrar a) morte".

Há registros da expressão – risco de vida - em grandes nomes da literatura, como Machado de Assis ("Salvar uma criança com risco da própria vida..." - Quincas Borba). Na Bíblia, traduzida por João Ferreira de Almeida no séc. 17 ("Ainda que cometesse mentira a risco da minha vida, nem por isso coisa nenhuma se esconderia ao rei" - II Samuel 18:13). As leis brasileiras também falam em "gratificação por risco de vida". O Código de Ética Médico fala de "iminente risco de vida", e o dicionário do Houaiss exemplifica a palavra risco com  a acepção de - risco de vida. O dicionário jurídico de Plácido e Silva também esclarece "riscos de vida”. Na expressão, a palavra riscos exprime perigo iminente ou - perigo de perda de vida.

Só para concluir, também no inglês tem-se “risk of life”;  no espanhol, “riesgo de vida”; e no francês, “risque de vie”. Todas elas correspondem à clássica expressão vernácula “risco de vida”. Portanto, não se trata de uma expressão exclusiva da língua portuguesa.

 Ler mais sobre o assunto em: www.paralerepensar.com.br.

Perfil do Autor

Selmo Alves

Doutor em educação pelo Mercosul e licenciado em Letras pela Universidade Católica do Salvador (UCSal)