Tradição Gramatical E Ensino De Língua Portuguesa: Desafios E Perspectivas

Publicado em: 03/02/2010 | Comentário: 0 | Acessos: 94

Sabemos que muitas práticas de ensino de Língua Portuguesa têm sido insuficientes e falhas, fato que tem sido amplamente debatido nos centros acadêmicos de todo país. Na verdade estamos assistindo à ultrapassagem dos limites de uma realidade em que a gramática era - e ainda é, em muitos casos - prescrita de forma unilateral e autoritária.

Esta prática exige dos alunos a memorização e o labor por meio de exaustivos exercícios de fixação; de maneira que, no ano seguinte, já nem suspeitam sobre as regras aprendidas na série anterior. Em analogia propícia, comparamos o fato ao rompimento devastador, mas já previsto, de uma grande represa. Imagine as conseqüências para os que "dela" necessitam!

A eminência dos estudos lingüísticos tem nos proporcionado uma reflexão complexa e inovadora acerca das práticas educacionais. As propostas de discussão sobre algumas mudanças essenciais estão amparadas no debate ora travado pela sociolingüística, que atesta a relação indissociável da sociedade com a língua.

Em seu Ensino de português: do primeiro grau à universidade Muriee (2001) discute as práticas de ensino até então levadas a caba, bem como, os conceitos desta disciplina em uso na sociedade. No capítulo Reflexões sobre o ensino/aprendizagem de gramática, inicia o texto falando sobre a regra gramatical, que os alunos apreendem no dia-a-dia, em contato com um conjunto de imposições e um conjunto de liberdades.

Assim, observando-se a necessidade de uma aprendizagem significativa e contextualizada, a autora discute a necessidade do ensino da gramática. Para ela, existem distinções entre a língua oral e a escrita, lembrando que a oralidade é precedente, já que é contextualizada e instantânea, ao contrário da escrita, que é mais organizada, polida e elaborada, mesmo que seja uma transcrição da fala.

Muriee enxerga uma necessidade explícita de criação de uma gramática da oralidade, que leve em consideração os processos de interlocução, o contexto situacional e a essência fundamentalmente dialógica da comunicação verbal. Tudo isto, com vistas a uma aproximação entre a fala e a escrita, possibilitando a construção de textos escritos e orais nos mais diversos gêneros.

Acerca dos tipos de gramática, a autora enumera as seguintes:

1)     Gramática normativa, que pressupõe uma forma correta, única, que deve ser seguida, sem questionamento da realidade do educando, seu contexto sociocultural, valorizando o acerto e repudiando o”erro” etc.;

2)     Gramática descritiva, que pressupões a regra que é seguida, isto é, o trabalho é feito com base na língua como ela realmente é usada pelos escritores e falantes. Assim, o que era “errado” passa a ser considerado diferente; e

3)     Gramática internalizada, aquela que admite que as regras e estruturas básicas da língua estão na cabeça do indivíduo e que, portanto, ele já sabe, restando-lhe apenas descrer e sistematiza-los.

Com relação às metodologias, Muriee diz que é necessário aprender o sistema como ele se realiza, como funciona, conhecer o uso efetivo da linguagem e estimular a pesquisa, a análise e a síntese do material utilizado. Mas é preciso levar em conta, ainda, as necessidades diagnosticadas e aquilo que é relevante ou não para o aluno.

Ela também aborda a questão dos resultados contrários obtido pelos profissionais ao utilizarem uma metodologia antiquada e tradicional, baseada na utilização exclusiva da nomenclatura, na esperança de formar bons usuários da língua nas suas instâncias de comunicação (oral, escrita).

Com efeito, deve-se procurar levar o aluno a compreender a complexidade e a funcionalidade da Língua Portuguesa em qualquer das variantes que ela possa se manifestar. Enfim, o monopólio estabelecido pela tradição pedagógica acaba comprometendo as relações semânticas e pragmáticas da língua, causando distorção em relação ao que é e ao que não é relevante e significativo para os educandos. Panorama este que deve ser transformado com urgência, a fim de cumprir a verdadeira finalidade do ensino da Língua Portuguesa.

Referência

MURRIE, Zuleika de Felice (org). O ensino de português: do primeiro grau à universidade. São Paulo: Contexto, 2001.

(Artigonal SC #1817863)

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    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/linguas-artigos/tradicao-gramatical-e-ensino-de-lingua-portuguesa-desafios-e-perspectivas-1817863.html

    Palavras-chave do artigo:

    ensino de língua materna; linguística; tipos de gramática.

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