A Carta De Caminha: Uma Perspectiva Oswaldiana

Publicado em: 23/07/2009 |Comentário: 1 | Acessos: 3,998 |

"Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. (...)Tupi or not tupi, that is the question (...)."

(Manifesto da Poesia Pau Brasil, Oswald de Andrade,Correio da Manhã, 18 de março de 1924.)

 

  Oswald de Andrade foi sem dúvida um dos maiores disseminadores dos ideais modernistas na literatura brasileira. Publicou dois notáveis manifestos: O Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropofágico. É considerado um grande poeta de nossa literatura, notável por seu ideal combatista na poesia e na sua incansável busca por uma identidade genuína da nossa cultura. É inegável para todos que a literatura brasileira sempre esteve ligada aos padrões estéticos portugueses. Para os Modernistas, uma ruptura com esses padrões era mais do que necessária.  Assim como as artes plásticas já haviam rompido com o antigo tradicionalismo estético da beleza através das formas perfeitas e de um modus fazendi que buscava aproximar-se do real, a literatura brasileira precisava romper com os tentáculos que a prendiam à Europa, ao passadismo, e buscar uma nova identidade, livre e genuinamente brasileira.

  É nesse cenário de busca pela firmação da cultura e literatura brasileiras que o poeta modernista Oswald de Andrade aparece. Oswald opôs-se aos convencionalismos, ao falar/escrever rebuscado em prol de uma linguagem despida do velho erudito e arcaico e mais comum. Seria a língua “sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos”. Defendia a poesia ingênua, sendo essa ingenuidade um desapego aos padrões do que é e de como se faz arte. Segundo escrito em seu manifesto, “[a poesia deveria ser] ágil e cândida. Como uma criança”. Com o Manifesto Pau-Brasil (publicado em 1924), Oswald de Andrade expõe seu desejo de tornar a cultura brasileira uma cultura de exportação, assim como o pau-brasil outrora fora produto brasileiro vendido ao mercado europeu. Defende que a sua poesia “seja um produto cultural que não deva nada à cultura européia e que possa, inclusive, vir a influenciá-la” [1]. Graças ao Futurismo e ao Cubismo europeus, a arte mais avançada ganhara elementos de cultura africana e polinésia (e por que não brasileira?).

  Com os olhos voltados para as origens do Brasil, vários cronistas e poetas contemporâneos se lançaram numa empreitada que culminaria numa releitura, reescrita e reinvenção dessas origens. E, como era de se supor, o documento alvo das atenções dos modernistas foi a carta de Pero Vaz de Caminha ao então Rei D. Manuel, nossa certidão de nascimento que, além de conter os fatos(?) históricos e os detalhes das (re)ações dos portugueses em terras brasileiras, mostra-nos o quão tendencioso um simples documento que pretende ser puramente descritivo pode se tornar quando o que se está em jogo são interesses pessoais. Através dos modernistas como Oswald de Andrade, a história passa a ser vista como um misto de contradições e que mostra-se necessária uma investigação crítica do processo de colonização brasileira.

   A ousada proposta do poeta Oswald de Andrade é a da reconstrução da história do Brasil aos olhos não do explorador, mas do explorado. E, como bem se sabe, toda reconstrução implica, de certo modo, numa desconstrução. A proposta oswaldiana era de uma reconstituição do “descobrimento” a partir da visão do outro (o índio), repudiando as visões etnocêntrica, unilateral e política do colonizador.

  A sua poesia pretende ser irônica e ambígua, como no título “Pero Vaz ‘Caminha’” (“caminha”, “percorre”, “explora”) e nos versos “Os selvagens/ mostraram-lhe uma galinha” (selvagens: os índios ou os portugueses?). Tudo isso constitui-se num jogo semântico.  Mas toda essa irreverência só acontece para tornar real sua ideologia combativa e a busca da definição da cultura brasileira.

  Oswald explora também a presença do cômico nas linhas da carta. Essa comicidade é patente nos relatos de Caminha sobre as índias e suas “vergonhas expostas”. Para o olhar português advindo de uma cultura onde a nudez explícita é torpe e pecaminosa, a ausência de pudor no comportamento das índias é notável. Vemos também uma denúncia nos versos “as meninas da gare/ eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis”, de “A descoberta”, que denotam a transformação dessas índias em mero objeto sexual dos portugueses.

  Além da desconstrução dos fatos pseudo-históricos dos portugueses, Oswald propõe uma desconstrução da imagem do índio feita por Caminha: um nativo dócil e que de modo algum poderia subestimar a inteligência do europeu branco e letrado. Essa docilidade entra em contradição com a própria história, que nos mostra que houve sim resistência indígena. Os dados falam por si só. Segundo estudos de demografia histórica, a população de índios no Brasil chegava a cinco milhões (Borah 1962, 1964; Dobbyns e Thompson 1966), caindo, durante os séculos seguintes, para 519.000 - 0,4% da população do país [2]. Isso mostra que os índios ao longo dos séculos foram dizimados, lutando uma luta desigual, sendo massacrados física e culturalmente.

  Oswald de Andrade denuncia também a despreocupação do português com a cultura dos nativos. A partir de um etnocentrismo (des)mascarado, eles pretendiam impor-lhes suas crenças usando o “ide por todo mundo”[3] cristão fadado de um sentimento de compaixão por um, religiosamente falando,  povo incircunciso, buscando disseminar-lhes a fé, mas de modo algum escondendo suas intenções ideológico-mercantilistas. Ora, esse era o “espírito da coisa”: dê-lhes religião e bons modos que eles nos dão o que quisermos.

  Como brilhantemente exposto por Oswald de Andrade e outros poetas e cronistas da contemporaneidade, é preciso se rever nossas origens, quebrar com alguns paradigmas e ter, acima de tudo, um posicionamento crítico em relação ao nosso passado. A Carta de Caminha é um documento histórico, mas não passível de erros, do subjetivismo do escrevente, das suas impressões ideológicas e de seus pressupostos. Reler, reescrever e recontar nossa história significa olhá-la de modo analítico, despindo-nos do que nos foi passado através da escola e dos livros didáticos: a imagem do Brasil que deve comemorar momentos deprimentes de sua história.

 

 

 

 

 

NOTAS:

 [1] Pequeno fragmento do Manifesto de Oswald sobre o novo fazer poético proposto, publicado em 1924.

[2] Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 0,4% são o que constitui a população indígena atual em solo brasileiro.

 [3] O “ide por todo mundo” cristão significa a missão conferida a cada seguidor do Cristianismo de disseminar a fé cristã por toda a terra. Como cristãos, os portugueses não esqueceram-se dessa nobre missão, embora seus desejos com a evangelização dos novos povos não fossem tão virtuosos quanto os de Cristo.]

 

 

 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA WEBSITE:

http://www.ibge.gov.br

MANIFESTO DA POESIA PAU BRASIL NA WEB:

 http://www.lumiarte.com/luardeoutono/oswald/manifpaubr.html

 CAMPOS, Haroldo de - Uma poética da radicalidade. In: ANDRAE, Oswald - Poesias reunidas. 3ª ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1972.

 

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    maria souza 01/10/2009
    Olá Bruno!! muito bom seu artigo, me ajudou muito a entender essa pespectiva oswaldiana.
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