A Cidade Em Que Jesus Passou

22/09/2009 • Por • 1,062 Acessos

            A cidade do Rio de Janeiro de Jesus nem sempre foi assim. Não havia desenvolvimento e tanta gente a se aglomerar, pobres e ricos, buscando algo inexplicável. Na verdade o lugar não tinha esse nome, chamava-se Rio de Janeiro do Pará. Porque foi arquitetada para ser capital, ser uma cidade maravilhosa. Mas como o Nordeste é muitas vezes esquecido na planilha do governo, a sonhada capital ficou apenas no papel. As obras ficaram pela metade, sem asfalto, sem luz elétrica, sem esgoto, sem condições de vida. Mesmo assim a cidade fantasma atraiu muita gente. Famílias que perdiam suas roças, ficaram sabendo da cidade abandonada que poderia ser o começo de uma nova vida. Retirantes que andarilhavam pela poeira do Pará, também se instalavam na nova cidade.  E principalmente aqueles ditos “foras da lei”, que encontraram ali o refúgio perfeito da sociedade.

            Então o lugar populacionou-se, como o Rio de Janeiro, como a capital que deveria ser. Cada um acomodou-se como podia. Uns terminaram suas casa, outros nem tanto, outros até destruíram mais aquele lugar. Assim nasceu o Rio de janeiro do Pará, com arquitetura inacabada, populosa, atrativa para quem não tinha mais nada na vida e inexistente no mapa das autoridades políticas.

            Rio de Janeiro do Pará tornou-se Rio de Janeiro de Jesus, depois de muitos anos de habitação. Quando o asfalto, a água potável, o esgoto e a luz elétrica começavam a surgir em alguns bairros da cidade. Por conta de políticos que descobriram o novo eleitorado e em suas campanhas presenteavam aquela gente sofrida, para conseguir os votos decisivos, depois sumiam. Acredite quem quiser que a mudança do nome da cidade é atribuída a um menino, cuja história atraiu mais gente sofrida para o Rio de Janeiro do Pará.

            Era uma criança de fazer dó, dizia o povo.Cega de nascença e o parto complicado causou-lhe seqüelas nas pernas. Aos cinco anos apenas engatinhava, muito fraco e doente, talvez também pela escassez de alimento. O único leite que tomou foi o da mãe. A cabra, chamada de ingrata, que alimentou seus oito irmãos, morreu antes de ajudá-lo a crescer, por certo também já não tinha mais forças. Sem comida, o leite da mãe secava rápido, a cabra, mais forte, continuava no sustento dos filhos. Até que um dia seu leite também secou e ela morreu, dizem até que de desgosto, pois enquanto alimentava os filhos de seu dono, seu filhinho morreu de fome.

            O pai e a mãe dessa criança chegaram à nova cidade também atraídos pela esperança de nova vida. Trouxeram consigo já dois filhos, eram mais quatro na favela. E depois foram procriando, até que veio o Pedrinho. “Coitadinho”, diziam todos, “antes morrer do que viver assim”. Mas a família tinha fé e esperança de  que aquele estado era passageiro, no entanto durava cinco anos.

            Aconteceu que aquele ano parecia mesmo trazer boas novas. O quintal deu feijão para comer por dois meses. O poço não secou. A horta resistiu a estiagem. Os meninos encontraram uma cabra perdida na estrada de cana. O pai havia conseguido um emprego fixo em uma fazenda de cana-de-açúcar. Pedrinho estava mais fortinho e já conseguia se equilibrar segurando em um móvel. Só a visão não tinha jeito, “era vontade de Deus”, dizia aquela gente humilde.

            Mas apesar do sofrimento, Pedrinho tinha a inteligência de um adulto, mas claro a inocência de uma criança de cinco anos. Como todo cego sua audição era aguçada e ouvia coisas que ninguém imaginava, talvez fosse por isso tão inteligente.

            Já em meados de Dezembro, sentado a porta de sua casa ouviu duas senhoras falarem sobre um tal de Jesus Cristo. Rastejou rápido e chegou mais perto, as senhoras nem perceberam e continuaram a narrar os milagres de Jesus na Terra. O menino de repente ficou de pé e chamando a atenção das velhas perguntou:

            - Onde posso encontrar esse senhor!

            As senhoras espantadas, pois ainda não haviam tomado conhecimento da criança, passaram apara a ironia:

            - Que isso menino! Jesus já morreu, está junto de Deus, não podemos alcançá-lo.

            - Mas ele iria curar-me, se eu o encontrasse.

            -Você nunca o encontrará e o seu mal não tem cura, é vontade de Deus...

            Então a criança entrou para seu casebre, com um fio de lágrimas nos olhos e outro de esperança no coração. Sua mãe ao ver aquele coraçãozinho aflito, interrogou:

            - O que se passa com o meu Menino-Anjo?

            - Mamãe, eu quero falar com Jesus, pedir para ele curar-me.

            - Meu menino-Anjo, a única forma de falarmos com Jesus é rezando.

            - Mamãe, ensina-me então a rezar ?

            Na noite de Natal, como aquele ano era de fatura para eles, foi possível organizar uma pequena ceia da maneira que a humildade daquela família permitia. Na mesa cheia, mais de gente do que de comida, o pai levanta-se e começa a agradecer a Deus por aquele ano de fartura e pede ajuda para o próximo ano. Pedrinho chama a atenção de todos interrompendo o pai.

            - Papai, eu também sei rezar, a mamãe ensinou-me. Eu quero rezar para Jesus Cristo, pedir para ele vir curar-me.

            Os irmãos começaram a rir, o pai logo ralhou com os meninos. Na face da mãe viam-se duas lágrimas rolarem.

            Ao cantar do primeiro galo a mãe acordou, viu algum movimento junto à cama dos meninos. Pulou logo da cama para colocar Pedrinho novamente entre os irmãos, estava brincando no chão. A mãe sentiu a presença de alguém ali naquele lugar, não eram seus filhos e nem seu marido, era uma presença maior.

            - Mamãe, a senhora é tão linda...

            A mãe no espanto quase soltou a criança no chão. Como ele sabia que ela é bonita. Pôs em sua frente um brinquedo e perguntou se ele via, o menino sorrindo respondeu:

            - Mamãe, eu vejo tudo, Ele curou-me.

            A mãe aos soluços sai gritando pela casa e acordando todos. Logo saiu a família toda para a rua, chamando a todos para ver o milagre. Os lampiões e as poucas lâmpadas iam acendendo-se uma a uma, até que toda cidade andava em procissão louvando o menino que esteve com Jesus. Foi assim que Rio de Janeiro do Pará passou a chamar-se Rio de Janeiro de Jesus, “a cidade onde o Filho de Deus esteve”.

            Até hoje ninguém sabe ao certo a verdade. Mas a casa de Pedrinho virou um santuário e ainda há quem conte fielmente a passagem de Jesus por aquela casa. Essa história intensificou a atenção do povo para a cidade. Veio gente de toda parte do país para morar na cidade de Jesus. Todas as classes sociais, almejando ver o Cristo. Assim a cidade cresceu e progrediu. Saiu da poeira, da escuridão e da insalubridade.

            Os ateus atribuem o desenvolvimento da cidade ao governo e aos grandes fazendeiros que ali se instalaram. Mas ignoram a história de Pedrinho, pois não conseguem explicar o que aconteceu naquela noite de Natal.

 

 

 

 

Perfil do Autor

Adriana Paula Martins