A Estética Clássica Nos Sonetos Camonianos
A ESTÉTICA CLÁSSICA NOS SONETOS CAMONIANOS
EDNEIDE FERRREIRA DA COSTA
O presente trabalho visa analisar a estética clássica nos sonetos camonianos. O corpus analisados são os sonetos Eu cantarei de amor tão docemente, Busque amor novas artes, novo engenho e o Amor é fogo que arde sem se ver, numa perspectiva de reconhecer nestes, as características da estética clássica.
O aporte teórico consubstancia-se nas idéias de Massaud Moisés em A literatura portuguesa (2006) e A literatura portuguesa através dos textos (2004), sobre o classicismo, e Leodegário A de Azevedo Filho em Renascimento, Maneirismo e Barroco (internet), que traz a idéia de que alguns sonetos camonianos fogem à estética renascentista ou clássica.
Luiz Vaz de Camões foi um poeta português, cujos sonetos foram profundamente marcados pela estética clássica de cunho intelectual. A estética clássica, como o próprio nome diz, vem do Classicismo, movimento literário que começou no século XVI e que se baseou nos ideais renascentistas.
Camões, enquanto autor do período clássico busca mostrar em sua obra, a perfeição formal; a significação universal e humana; a imitação dos autores clássicos gregos e romanos da antigüidade que valorizavam dentre outras coisas, o soneto; o uso da mitologia; o predomínio da razão sobre os sentimentos expressando verdades universais; o uso de uma linguagem sóbria, simples, sem excessos de figuras literárias; o idealismo com a busca da perfeição estética, da pureza das formas e dos ideais de beleza; o amor platônico que deve ser sublime, elevado, espiritual, puro, não-físico; a busca da universalidade e impessoalidade através da expressão de verdades universais e eternas, desprezando o particular, o individual e o relativo.
Em Portugal, o Classicismo desenvolveu-se durante o século XVI e trouxe em seu bojo profundas transformações de cunho social e cultural. Essas transformações foram reflexos da “atmosfera de exaltação épica e desafogo financeiro que cruza as primeiras décadas do século XVI [...]” (MOISÉS, 2006, p. 50).
A estética clássica tem como características a exaltação da dignidade humana que se centraliza na confiança plena na razão, na exteriorização das paixões, na força do instinto sobrepujando a moral cristã; o predomínio da razão sobre o sentimento que faz com que a mesma seja essencialmente intelectualista, o que criou nos escritores classicistas o ato de cultuar a lucidez durante o processo de criação artística; a imitação da arte e sua expressão através da verossimilhança que excluía da literatura o que era estranho, irregular, restrito ao local, particularizado e acidental para deixar vir à tona o intemporal, o eterno e o essencial ao imitar a natureza humana, sentimental, apaixonada e instintiva, porém perfeita com suas ações, costumes e afetos; imitação dos autores greco-romanos através da adoção de temas paradigmáticos, do uso da mitologia e de paráfrases e na criação de formas fixas na poesia; a valorização da Arte baseada na cultura, no estudo e no bom gosto pela valorização da cultura literária e histórica; a sujeição a regras de conteúdo e forma com a implantação de regras fixas que não deviam ser violadas; a justa proporção e comedimento que com a ausência do homem autêntico e uma linguagem que descrevia os ambientes descoloridos localmente, deram as obras artificialidade e convencionalismo; o uso de paradoxos e antíteses. Essas características, de acordo com Moisés (2006), “decorrem dessa obediência a regras e modelos preestabelecidos.” (p. 51)
Camões usou em seus poemas o lirismo que tinha uma medida nova e era apresentado em forma de sonetos, odes, elegias, canções, églogas, sextinas e oitavas. Mas aqui trataremos exclusivamente dos sonetos com a medida nova e que tinham em sua estrutura, antíteses e paradoxos.
A partir dessa premissa analisamos os sonetos em questão buscando encontrar em cada um deles a presença das características da estética clássica.
Tomamos para primeira análise o soneto Eu cantarei de amor tão docemente, que segue abaixo.
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dous mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, sospiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigurosa
Contentar-m'-ei dizendo a menos parte.
Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.
No soneto acima, percebemos as seguintes características da estética clássica: a exaltação da dignidade humana quando o eu lírico exterioriza a paixão para a mulher amada; a imitação da arte e sua expressão no momento em que o poeta ao usar o eu lírico para falar de amor deixa vir à tona a perfeição da natureza humana com sua sentimentalidade, paixão e instinto. Nos versos “Brandas iras [...] / temerosa ousadia [...] há a presença de paradoxos o que mostra o aspecto maneirista do autor. O racionalismo se apresenta pelo fato do poeta não se deixar abandonar pelo fluxo do sentimentalismo que mesmo aparecendo no poema, é exercido e controlado pela razão. proporcionando equilíbrio e harmonia ao soneto.
O soneto que se segue assim como o primeiro a ser analisado, também fala de amor, porém não do amor físico, mas do Amor ideal perfeito.
Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquiva
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.
Neste soneto percebemos que o sujeito lírico ao afirmar que o Amor poderá usar de pretextos para matá-lo, não conseguirá se apropriar da sua esperança, pois a mesma não existe. Com isso o eu lírico marca a presença de antíteses, o que é comprovado nos versos “Que não pode tirar-me as esperanças, Que mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho!” Se ele não tem esperanças, não pode se manter delas. O paradoxo também se faz presente no verso “Vede que perigosas seguranças!”, pois o sujeito poético ao tratar desse tema lança dúvidas sobre as possibilidades de se conceituar o amor. Há ainda a presença da razão predominando sobre o sentimento ao cultuar a lucidez: o eu lírico tem consciência de que o Amor é um mal que mata, porém mesmo cometendo tal atrocidade não conseguimos vê-lo. Os versos “Busque Amor novas artes, novo engenho reporta-nos à imitação o que para Moisés (2004) pode ter sido feita pelo poeta ao imitar os autores greco-latinos, como pôde ter sido realizada por autores do quinhentismo.
O terceiro soneto escolhido para análise é um poema no qual o eu lírico conceitua o amor numa concepção neoplatônica conforme veremos abaixo.
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
O sujeito poético ao definir o amor traz para o poema o sentimento e a razão, sendo que esta sobrepuja aquela, por isso podemos dizer que uma das características bem marcantes no poema em questão é o predomínio da razão sobre o sentimento, o que o torna um poema essencialmente intelectualista e as antíteses presentes tem o objetivo de fazer uma ressalva ao paradoxismo presente nesse sentimento amoroso. Essa marca característica pode ser notada em todo o soneto, mas principalmente no último verso, no qual o eu lírico reconhece o caráter contrário do amor ao afirmar: “se tão contrário a si, é o mesmo Amor.” O amor Físico de acordo com o sujeito lírico sempre será contrário ao Amor ideal perfeito.
Contrapondo-se as idéia de Massaud Moisés que afirma que “Tais sonetos, dos mais perfeitos de quantos produziu Camões e dos mais belos da Língua, apresentam pontos de contato os quais pudemos observar nas análises feitas, naquilo que diz respeito á estética clássica.“ (grifo nosso), surge Leodegário A. de Azevedo Filho, para quem, os poemas de Camões se afastam da estética clássica por ter um caráter maneirista, pois, de acordo com o autor
[...] o Maneirismo continuou a manter alguns padrões clássicos como modelo, exatamente como o Renascimento, mas, aos poucos, iria ocorrer a inevitável distorção, pois já não se tinha uma estética da identidade, centrada no conceito de imitatio, mas uma estética da distorção e da ruptura.
A comprovação disto para Azevedo Filho está dentre outros, no soneto “Busque Amor novas artes novo engenho” no verso “Vede que perigosas seguranças!”. Para o autor, esse e outros versos “logo atestam a ruptura, numa angustiante experiência amorosa de viver "um mal, que mata e não se vê."”, pois, os versos exprimem uma incerteza com relação ao Amor. Essa incerteza traz à tona contradições emocionais que fazem com que o soneto se afaste da estética clássica. Mesmo assim, a presença das características da estética clássica é marcante nos três poemas estudados
Destarte, notamos uma maior predominância da presença das características da estética clássica nos três sonetos em estudo neste trabalho. O que nos leva a concluir que mesmo os autores se contrapondo quanto a este aspecto, o lirismo de Camões vai sempre obedecer às regras do classicismo.
Referências
AZEVEDO FILHO, Leodegário A. Renascimento, Maneirismo e Barroco. Disponível em: http://www.filologia.org.br/abf/vol4/num1-06.htm. Acesso: 10. Nov. 2009.
MOISÉS, Massaud. A literatura Portuguesa. 34. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
_______________ A literatura Portuguesa através dos textos. 29. ed. São Paulo: Cultrix, 2004.
(Artigonal SC #1523623)
Palavras-chave do artigo:
analise; características; estética clássica; sonetos.
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