Luis Garcia mora na cidade de Tomar. Decidiu seguir a sua carreira como Formador. Actualmente ministra formação nas áreas de Informática e Formação Pedagógica de Formadores.
AS MÃOS DO LARÁPIO
Muitos anos depois, já longe da terra que o vira nascer como filho de Jerónimo Emílio, João Patudo fazia a manchete dos jornais sensacionalistas da capital, não porque provocara qualquer arritmia no caudal da sociedade vigente, mas pura e simplesmente porque fora apanhado a roubar dois pacotes de pastilhas elásticas, no hipermercado da zona nobre da cidade.
Os mais sensatos viram-se obrigados a comprar revistas com resumos da novela da tarde, os outros remeteram-se à velocidade de mais um dia, e os que não resistem às novidades pseudo noticiadas, fizeram daquele dia mais um momento histórico de tiragem no universo da imprensa escrita.
Curiosamente, ninguém conhecia João Patudo, muito menos lhes interessava quem era o fulano; o prazer era retirado do facto de a miséria humana não poder descer mais baixo do que praticar actos ilegais no corredor de doces do hipermercado.
Quando o agente Ivo Santana chegou ao local, já o rapaz da segurança tinha imobilizado o criminoso, facto a que não deve ter sido alheio o pé partido na semana anterior, quando efectuara um encore da tentativa frustrada de hoje. O agente confiou o bigode farto à mestria dos dedos da mão direita, soltou um esgar de gozo e conduziu o Patudo até ao carro patrulha que estava parado em segunda fila, no estacionamento do hipermercado.
Ninguém se importou com o Patudo. O Gerente ficou com os dois pacotes de pastilhas que por nojo deitou na sanita do wc privado. Quando depois do almoço reflectiu na manhã atribulada que tivera, o segurança gabou-se de ter imobilizado um criminoso perigoso e convidou a miúda da perfumaria para beber um café na hora da saída. O agente Ivo Santana decidiu-se por concluir a tarde na cervejaria da baixa, a beber umas imperiais, depois de ter deixado o Patudo a prestar declarações na esquadra da Rua 27.
No final da noite, quando já toda a gente com aspecto de gente se retirara para uma noite de exposição televisiva, João Patudo recebeu ordem de abandonar a esquadra e ir para casa. Em todas as casas, a noite já começara, mas para o Patudo aquela era uma palavra com sabor a saudade.
O FILHO DA MERETRIZ
Na aldeia não há quem saiba trabalhar melhor a madeira, nem quem saiba o melhor uso a dar ao formão do que o filho da Vitória Cautela. Senhora de reputação duvidosa, refugiara-se há muitos verões na rua mais curta da aldeia, na casa do António Africano, assim chamado por mor dos estilhaços que trouxera com ele por troca com a alma que deixou em Moçambique.
Quando viu Vitória a ser escorraçada da Tasca do Chico da Mula, António não teve piedade da meretriz, nem quis saber dos gritos que adornavam o desfilar de palavrões nascidos dos lábios da mulher. E talvez porque a esperança que não havia nos olhos dela fosse da cor do seu olhar no momento em que se fizera soldado no Ultramar, foi a sua mão que pegou na mão da Cautela e mais ao ser que crescia nela. Nunca António lhe pediu nada, nunca usou o seu corpo, apenas pôs como exigência que o rapaz se chamasse Jerónimo Emílio, não porque fosse um nome de família, mas apenas e só porque era esse o seu desejo.
Vitória Cautela nunca fora mulher de homem só, mas talvez porque o mundo nos enche de mágoa que não conseguimos perder, encontrou em António o marido que nunca tivera, e o marido que nunca chegou a ter. Quando a bicicleta que era a sua foi encontrada quebrada no meio da estrada e o seu corpo mais além, quebrado também e sem vida, Vitória percebeu que naquela estrada ficara o único amor que alguma vez sentira na vida. Nunca mais se falou de António Africano na casa que era a sua, mas também nunca mais Vitória Cautela soube o que era estar com um homem.
O CARPINTEIRO
Quando Jerónimo Emílio fez dezoito anos, Vitória Cautela desistiu de tentar obrigar o filho a permanecer numa escola que o olhava de soslaio e fazia das suas costas átrio para as mais mesquinhas piadas de mau gosto, acerca dos pormenores mais ou menos fantasiosos, ainda que muito verdadeiros, que circulavam de boca em boca por mor da ocupação menos digna que a mãe tivera.
Como o rapaz não mostrasse também grandes aptidões intelectuais, ao que não deveria ser alheio, pensava Vitória, o facto de quando em vez tropeçar com a língua em algumas palavras, produzindo assim um discurso mais ou menos aproximado a uma certa gaguez, julgou-se por bem encaminhar o rapaz como aprendiz de Mestre Zeca Marceneiro, artista da madeira e de alguns aglomerados.
Com o passar do tempo, o rapaz cresceu tanto que os mais antigos na aldeia começaram a questionar, coçando a cabeça de cabeleiras cor da neve, se não seria Jerónimo Emílio o filho que o Africano nunca tivera, por ser a altura tão bem similar nas suas aparências. Se a desconfiança seria fundamentada, nem o rapaz, nem a mãe, nem nunca qualquer cabeleira de neve chegaram a esclarecer, pelo menos de forma tão célere e tão simples, como qualquer pessoa na aldeia percebeu que o rapaz rapidamente passou a trabalhar com a qualidade do seu mestre.
Quem pagava os serviços de Mestre Zeca, pensava comprar todos os anos de experiência que os sulcos daquelas faces queimadas do sol ofereciam a quem com ele se cruzava e gastava um bom dia. Zeca Marceneiro sabia que os elogios que ouvia deitava-os ao seu coração, tentando ignorar que os devia não à mestria, mas ao talento natural do seu jovem aprendiz, aquele que falava com a madeira de uma forma que ele jamais teria falado, ainda que soubesse de cor cada pedaço de seiva de que era feita.
Com o passar dos anos, Jerónimo Emílio, aquele que tão bem trabalhava a madeira, foi ele próprio trabalhado pelo tempo. A arte que respirava dos seus dedos, trocou-a pela ambição que entretanto provara, provavelmente como o ensinamento mais marcante e de utilidade que bebera do velho Marceneiro. Talvez por isso nunca se chegou a tratar o rapaz por marceneiro, talvez por isso haveria um dia mais tarde, em que muito se ouviria falar das mãos do carpinteiro.
A FESTA NA ALDEIA
No ano em que o velho Padre se aposentou, a aldeia ficou a conhecer o pároco indicado para o substituir, o jovem Padre Argentino Figueira. No primeiro domingo de Abril a capela parecia pequena para tanto povo que quis vir dar as boas vindas ao Padre Argentino, tanto povo no qual não cabia, em tempos por preconceito, hoje por vontade própria ou simplesmente hábito, a velha Vitória Cautela.
Jerónimo Emílio nunca fora menino para as coisas de Deus. Ainda assim, nas poucas folgas que tinha, - aquelas da sua carpintaria -, fazia em jeito de devoção privada imagens em madeira de Nossa Senhora, que guardava no quarto que fora de António Africano, uma daquelas divisões da casa que se tornara num local de quase culto a uma saudade que se fizera cedo demais.
Mas naquele domingo, talvez por uma destas coincidências sem qualquer tipo de explicação científica, Jerónimo Emílio regressava a casa na sua Vespa Amarela, quando deparando com um carro encostado na berma da estrada e o ocupante sentado como quem espera por algo, que não sabe bem quando chega e nem sequer o que é, fez uma daquelas escolhas que pode mudar a vida de quem a faz e parou expedito a sua acelera.
Talvez porque Deus escreve a direito por linhas tortas, o Padre Argentino chegou naquela manhã à boleia da Vespa de Jerónimo Emílio, o que para além de falatório esquecido no tempo, fez nascer uma ligação, próxima à amizade entre duas pessoas tão diferentes e, se calhar, tão parecidas em aspecto, feitio, crenças, duvidas e certezas. Os dois homens, carpinteiro e padre, tornaram-se com o tempo confidentes e amigos.
Ainda assim, para além da tropelia causada pela avaria do carro do novo padre, aquele seria o dia em que pela primeira vez Jerónimo Emílio havia de pousar o olhar sobre a bela Eulália Fernanda, a filha do meio do segundo casamento do presidente da Junta. Nunca os seus olhos verdes haviam de ter encontrado os olhos verdes dela, porque naquele dia em que a cor de um se tornou na cor do outro, começou a ser escrita a vida de alguém que haveria de marcar a aldeia de uma forma que os antigos, anos mais tarde, contariam como sendo uma história que se perdeu no tempo.
O VESTIDO VERMELHO
Quando o padrasto de Eulália soube que ela pouco ligava à honra de casar tal como a aldeia e os costumes exigiam que fosse, ou pelo menos como na sua cabeça as coisas se passavam, fitou a mulher com um olhar mais que ferido e não soube soltar palavras que se assemelhassem à coerência de uma frase com sentido. Nada tinha sentido se a sua Eulália se entregara assim às mãos do carpinteiro sem pai, filho de uma meretriz, incapaz de soltar uma frase inteira sem interrupções forçadas por uma tímida, mas perceptível, gaguez que tornava tudo ainda muito pior do que já era.
Como se tudo se resumisse ao que achava melhor, o velho homem fechou a filha no quarto, como se a sua virgindade algum dia encontrasse par na fechadura daquela porta e como se Jerónimo Emílio não falasse a língua de qualquer parte de uma casa, que utilizasse na sua construção a madeira que tão bem conhecia.
Nada o podia separar de Eulália, nem mesmo a sabedoria inerente ao sacerdócio do Padre Argentino parou o carpinteiro, que os olhos já cegos de Vitória Cautela não puderam ver arrancar ao lar paterno, nem mesmo quando o casal fugitivo se apoderou da sua sala sombria. E porque sentiam um receio quase tão grande de se apartarem, por qualquer razão que não pudessem supor, as mãos dele tocaram as mãos dela, e ambos sentiram aquele momento como uma promessa sem tempo.
Quando o dia acabou, Eulália Fernanda soube que já não tinha pai, nunca tivera, não que o mesmo abandonasse este mundo, mas muito simplesmente porque entre o choro convulsivo da mulher, arrancara aos ventos os laços paternos que possuía com a rapariga e entregara a sorte daquela aos ditos e não ditos de uma aldeia que mais uma vez voltava a falar de Jerónimo Emílio, como quem fala com propriedade daquilo que se não conhece mas se tem a certeza de compreender.
Quando a noite chegou, Jerónimo Emílio compreendeu o velho, não sem antes saber que jamais o deixaria de odiar. Não porque fosse o filho sem pai, não porque a mãe tivesse sido um dia quem foi, isso ele sabia bem como enfrentar. Não. O que lhe doía na alma era saber, agora, de onde tinha vindo o vestido manchado de vermelho que o velho levara ao Padre Argentino, para o acusar de roubar a honra da filha, aquela a quem criara como se dele mesmo e de si fosse filha tal como era da sua esposa.
Nem quando um dia mais tarde Jerónimo Emílio finalmente acedeu ao pedido do Padre Argentino e confessou todos os seus pecados pôde o sacerdote absolvê-lo, porquanto o carpinteiro jamais afastara do seu coração a sombra que o padrasto de Eulália ali semeara.
Continua...


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