A Luta De Classes Em O Primo Basílio De Eça De Queirós

Publicado em: 04/06/2009 |Comentário: 1 | Acessos: 6,068 |

INTRODUÇÃO

 

 

 

O fato de o livro O primo Basílio tratar, dentre outros assuntos, da relação dominadores e dominados, fato percebido na relação entre Luísa e Juliana, foi o que levou-me a escolhê-lo para este artigo, a fim de mostrar que o oprimido, levado pela revolta de ser submisso e subjugado, utiliza, ás vezes, de meios que vão de encontro à ética e aos bons costumes, para conseguir a tão sonhada ascensão social, isto é, a passagem do mundo dos dominados para o mundo dos dominadores.  

Diante disso, esse artigo visa estudar o romance O primo Basílio, de Eça de Queirós, a partir da luta de classes; pesquisar as relações socioeconômicas (dominadores e dominados) e; identificar os meios utilizados pelo quarto poder (Povo) na luta pela ascensão social em O primo Basílio.

            Para tal, esse artigo está dividido em três partes assim intituladas: O primo Basílio: um romance realista/naturalista; Das relações entre dominadores e dominados em O primo Basílio e; Juliana: de dominada à dominadora.

 A primeira parte apresentará inicialmente uma breve análise do realismo, ressaltando as características realistas presentes em O primo Basílio. Posteriormente, será apresentada uma fundamentação teórica em torno do tema relações socioeconômicas entre dominadores e dominados, tomando por base diferentes autores.

A terceira parte apresentará uma análise do livro O primo Basílio, onde será ressaltado o efeito boomerang da personagem Juliana para com a personagem Luisa, ilustrando, com fragmentos do livro, o uso de meios coercivos pela personagem Juliana, com a finalidade de passar de dominada à dominadora, visando apenas à ascensão social.

 

 

O PRIMO BASÍLIO[1]: UM ROMANCE REALISTA/NATURALISTA

 

            De acordo com Massuad Moisés (1972), os realistas reagiram de forma violenta e contrária ao Romantismo. Ao contrário do Romantismo, o Realismo pregava a filosofia da objetividade. O foco de interesse era o objeto, ou seja, aquilo que está fora do indivíduo, o “não-eu”.

            Para tal, os realistas concentram-se no objeto e tinham de destruir a sentimentalidade e a imaginação romântica com vistas à realidade objetiva: a razão ou a inteligência. Nesse sentido, pode-se dizer que o realismo tinha como característica o racionalismo, uma vez que os realistas procuravam ser racionais na visão do objeto e na busca da verdade impessoal e universal.

            Em relação à arte, o realismo funcionava como um espelho da sociedade burguesa do tempo que se via patenteada da sua larga e profunda descomposiçao moral. Como obra de ataque, o realismo satisfazia-se em mostrar o mal sem lhe dar remédio, salvo o que ia implícito na análise, que era o fato de deslocar a classe burguesa da hegemonia social.

 

O romance passa a ser, no Realismo, obra de combate, arma de ação reformadora da sociedade burguesa dos fins do século XIX. Transforma-se em instrumento de ataque e demolição, por um lado, e de defesa implícita de ideais filosóficos e científicos, por outro. (MOISÉS, 1972, p. 234).

 

 

Visando a destruição do pensamento romântico, o romance realista/naturalista mostrou que a burguesia, o clero e a monarquia, poderes sobre os quais se apoiava o estilo de vida no romantismo, não tinham forças suficientes para resistir às novas descobertas científicas e filosóficas da segunda metade do século XIX.

O período realista/naturalista foi marcado pelo desejo de redefinir as relações entre literatura e sociedade, no sentido dos leitores tomarem consciência de uma realidade que muitos não queriam ou não podiam ver. O escritor realista/naturalista tinha por função revelar as regras, os problemas, os comportamentos e o funcionamento inadequado da sociedade.

 

Para pôr a mostra o declínio completo da instituição burguesa, os realistas atacaram de frente o seu núcleo; o casamento, trazendo nu as misérias que o destroem como alicerce da burguesia, misérias essas condensadas no adultério, tornando lugar comum elegante. (MOISÉS, 1972, p. 235).

 

 

Nesse sentido, os realistas mostram que o pensamento burguês se funda na luxúria, no conforto material trazido pelo dinheiro ou convenções sociais, o que implica na destruição do casamento pelo adultério. 

Segundo Massuad Moisés (1972), Eça de Queirós adere à teoria realista a partir de 1871, quando passa a escrever obras de combate as instituições vigentes (monarquia, clero, burguesia) e de ação e reforma social. Com O Primo Basílio, Eça faz a análise de uma família pequeno-burguesa e sonda as moléstias degenerescentes no centro nelvrágico da nação e penetra no recesso de um lar burguês “sólido e feliz”, e descobre a existência de igual podridão moral e física: o casamento deixava-se atingir mortalmente pelo adultério. Nesse sentido, Eça denuncia o adultério como conseqüência nefasta da literatura romântica lida por Luisa.

Eça de Queirós definiu o Realismo como uma base filosófica para todas as concepções de espírito - uma lei, uma carta de guia, um roteiro do pensamento humano, na eterna região do belo, do bom e do justo. Para ele, o realismo é a crítica do Homem para condenar o que houver de mau na nossa sociedade. É não simplesmente o expôr (o real) minudente, trivial, fotográfico, mas sim partir dele para a análise do Homem e sociedade.  

          As características gerais do Realismo são: a análise e síntese da realidade com objetividade, em oposição à subjetividade romântica; exatidão, veracidade e abundância de pormenores, com o retrato fidelíssimo da natureza; total indiferença perante o "Eu" subjetivo e pensante perante a natureza (o "Eu" romântico); neutralidade de coração perante o bem e o mal, o feio e o bonito, vício e virtude; análise corajosa de vícios e podridão da sociedade; relacionamento lógico entre as causas desse comportamento (biológicas ou sociais, e a natureza interior e exterior da personagem); admissão de temas cosmopolitas na literatura; uso de expressões simples e sem convencionalismos (por oposição ao tom declamatório romântico).

É importante ressaltar que o Naturalismo difere do Realismo, mas não é independente dele. Ambos crêem que a arte é a representação mimética e objetiva da realidade exterior. Foi a partir desta tendência geral para o Realismo mimético que o Naturalismo surgiu, sendo por isso muitas vezes encarado como uma intensificação do Realismo. As características principais são: tentativa de aplicar à literatura as descobertas e métodos da ciência do séc. XIX (filosofia, sociologia, fisiologia, psicopatologia, etc), tentando explicar as emoções através da sua manifestação física (apresenta, assim, mais razões científicas do que o simples descrever dos fatos do Realismo); resultou muitas vezes na escolha de assuntos mais chocantes (alcoolismo, jogo, adultério, opressão social, doenças, as suas causas e conseqüências).

Eça de Queirós, “maior nome do Naturalismo em Portugal” (ELIA, 1971, p. 279), foi um impiedoso crítico da sociedade portuguesa, que era representada, de acordo com seu pensamento, pelo mundo burguês, sentimental e explorador. Eça, como crítico, muitas vezes impiedoso, da sociedade portuguesa, sentiu a necessidade de reformas sociais, por isso, a tudo moralizou.

Eça deixa transparecer que escreve com o objetivo social, ao atacar a família lisboeta, que para ele é produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem e, ao atacar a pequena burguesia, através de um grupo social alicerçado em falsas bases no meio da transformação moderna.

O Primo Basílio é um de seus livros mais polêmicos, visto que ele tematiza o adultério, tema tabu no romantismo, mas um dos preferidos dos realistas/naturalista. O livro é uma crítica profunda aos padrões burgueses e tenta demonstrar, a todo o momento, as características maléficas dessa classe, sobretudo a lisboeta.

 

DAS RELAÇOES ENTRE DOMINADORES E DOMINADOS EM O PRIMO BASÍLIO DE EÇA DE QUEIRÓS.

 

            Segundo Darcy Ribeiro (1995), as classes ricas e as pobres se separam uma das outras por distâncias sociais e culturais quase tão grandes quanto as que medeiam os povos distintos. Essas diferenças sociais são remarcadas pela atitude de fria indiferença com que as classes dominantes olham para o depósito de miseráreis, de onde retiram a força de trabalho de que necessitam.

            Para Marx (apud MEKSENAS, 2001, p. 84), “sociedade organiza-se de modo a dar origem a duas classes sociais: os burgueses e os trabalhadores”. Os primeiros são considerados compradores da força de trabalho, enquanto os segundos são os que nada têm, além de sua capacidade de trabalhar, a qual vende ao burguês em troca de um “salário”.

            Ainda segundo Marx (apud MEKSENAS, 2001) essas duas classes relacionam-se de modo a criar um conflito, o que é percebido se nos atentarmos ao fato de que a burguesia nunca paga ao trabalhador um salário condizente à sua força de trabalho, visto que os trabalhadores são condenados a se alimentarem mal, a se vestirem mal, a morar em péssimas condições e a ter uma saúde deficiente, como é o caso de Juliana em O primo Basílio. “O trabalhador, por sua vez, luta por sua saúde: por arrancar mais um par de horas de descanso por dia, nas quais poderá sentir-se humano, e não um animal nascido para trabalhar, comer e dormir” (MEHRING, 2003, P. 23).

 

            Assim, a classe dominadora, detém, graças ao apoio da classe dominada, o poder efetivo sobre a sociedade, e a classe dominada, por sua vez, são os excluídos, os “pré-destinados” a viverem a margem da sociedade.

            Em contrapartida, Darcy Ribeiro afirma que para que os dominados tenham perspectivas de integrar a vida social rompendo toda a estrutura de classes, cabe a classe oprimida “o papel renovador da sociedade como combatente da causa de todos os outros explorados e oprimidos” (RIBEIRO, 1995, p. 210).

 

Marx atribui aos trabalhadores a condição de classe revolucionária, quer dizer, aquela classe que pode contribuir para a construção de uma nova sociedade sem explorados nem exploradores, por sua capacidade de se organizar e de lutar por seus direitos.(MARX apud MEKSENAS, 2001, P. 86).

 

 

            Entretanto, é mister ressaltar que a classe dos oprimidos não é homogênea. No interior da classe trabalhadora existem diversas divisões que podem dificultar a união dos trabalhadores em função de uma luta em comum. A exemplo, pode-se citar Juliana e Joana, as duas empregadas domésticas em O primo Basílio. Enquanto Juliana não se conformava com a vida que lavava e queria ascender financeiramente, Joana acreditava que a vida sempre foi e sempre seria daquela forma, restando a ela apenas a fidelidade e a amizade a sua patroa.

            Nesse sentido, Joana ao contrário de Juliana, possui uma visão de mundo acrítica e passiva, uma vez que aceita a exploração como sendo algo natural que sempre existiu e sempre existirá. Nessa perspectiva afirma Tânia Quintaneiro:

 

O trabalho produtivo acaba por tornar-se uma obrigação para o proletário, o qual, não sendo possuidor dos meios de produção, é compelido a vender sua atividade vital que não é para ele mais do que um meio para poder existir. Ele trabalha para viver. (QUINTANEIRO, 2002, p.52).

 

 

                Juliana, ao contrário, reconhecia-se como explorada e quando o oprimido percebe-se como submisso e subjugado e a partir de então começa a lutar por uma transformação, pode-se dizer, que nesse momento, começa a luta de classes. O oprimido lutando por um papel participante e legítimo na sociedade, ou seja, por uma vida melhor e; o a burguesia lutando para manter a hegemonia sobre a classe oprimida.

            Esse fato é claramente percebido em O Primo Basílio visto que o quarto poder (povo), representado por Juliana, insurge contra o segundo poder (burguesia) representado por Luísa, o que vai resultar numa luta de classes pautada na troca de papéis, quem começa mandar é a criada.

 

E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito consigo – aquele gozo de ater “na mão”, a Luisinha, a senhora, a patroa, a piorrinha! [...]. Aquilo dava-lhe um orgulho perverso. Sentia-se vagamente dona da casa. Tinha ali fechada na mão a felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra! (QUEIRÓS, 1997, p. 247).

 

 

            Nesse sentido convém citar Tânia Quintaneiro quando afirma: “É por meio da luta de classes que as principais transformações estruturais são impulsionadas, por isso ela é dita “o motor da história”. A classe explorada constitui-se assim no mais potente agente de mudança. (QUINTANEIRO, 2002, p. 43)

            Dessa forma, em O primo Basílio, temos de um lado Luísa (burguesia), mulher ociosa que passa os dias lendo romances românticos e do outro Juliana (povo), uma criada amarga que pretende a nível individual, reverter o processo de exploração recusando-se a continuar sendo explorada e subjugada.

            Para tal, Juliana baseia-se na luta pela ascensão financeira, livre dos limites “impostos” pela ética e pelos bons costumes. Para ela os valores só são úteis até que sejam extremamente necessários para alcançar seu objetivo.

            Nesse sentido, convém fazer alusão ao pensamento de Max Weber em relação a ação do indivíduo, que no caso específico de Juliana é uma ação classificada como  racional com ralação a fins, visto que para atingir seu objetivo, ela lança mão dos meios necessários ou adequados para conseguir alcançá-lo.

 

A questão para o agente que visa chegar ao objetivo pretendido recorrendo aos meios disponíveis é relacionar entre estes os mais adequados. A conexão entre fins e meios é tanto mais racional quanto mais a conduta se dê rigorosamente e sem a interferência perturbadora de tradições e afetos que desviem seu curso.(QUINTANEIRO, 2002, p.116).

 

 

Assim, para Juliana os fins justificam os meios e por isso ela usa de todas as “armas” possíveis e cabíveis para alcançar o seu objeto de desejo, o que resulta na busca do TER em detrimento de SER.

  

JULIANA: DE DOMINADA À DOMINADORA

 

            Segundo Reinaldo Dias (2000), é a posição social do indivíduo que determina o comportamento ou o papel do indivíduo, estabelece normas de conduta para serem seguidas, fixa direitos e obrigações, torna as pessoas objeto de dominação ou de recriminação. A relação entre as pessoas é determinada primeiramente por seu status.

            Para ele, o que caracteriza o status é um modo de vida, uma maneira de consumir, de morar, de vestir-se, e uma certa forma de educação no sentido mais amplo da palavra.

            Percebe-se, então, que a sociedade é dividida, de um lado por uma situação de status que implica na dominação, no poder, evidenciado pelo prestígio e honra; e do outro por uma situação de status baseado na submissão e na pobreza. Há, assim, a existência de classes que estão em permanente oposição o que indica a existência de opressores e oprimidos.

            Entretanto, quando os grupos têm consciência de suas divergências, existindo entre eles a rivalidade, estabelece-se, então, o conflito, que segundo Dias (2000, p. 93) “é um processo pelo qual pessoas ou grupos procuram recompensar pela eliminação ou enfraquecimento dos competidores”.

            No romance O primo Basílio de Eça de Queirós, percebe-se que o ficcionista utiliza a personagem Juliana (povo) como superfície de contraste à personagem Luisa (burguesia), porquanto parece representar a classe oprimida e sofredora dos criados de servir em litígio com os privilégios patronais.

 

[...] odiou, sobretudo as patroas, com um ódio irracional e pueril. [...] odiava a todas, sem diferença. É patroa e basta! [...] cada riso delas era uma ofensa à sua tristeza doentia; cada vestido novo uma afronta ao seu vestido de merino tingido.Detestava-as na alegria dos filhos e na prosperidade da casa. Rogava-lhes pragas. (QUEIRÓS, 1997, p. 77 – 78).

 

            Assim, O primo Basílio nos remete a uma leitura sociológica na medida em que ficcionaliza estratos sociais, fato claramente percebido nesse fragmento:

 

[...] tenho passado anos e anos a ralar-me! Para ganhar meia moeda por mês, estafo-me a trabalhar, de madrugada até à noite, enquanto a senhora esta de pânria! [...] Há um mês me ergo com o dia, pra meter em goma, passar, engomar! [...] E a senhora, são passeios, tipóias, boas sedas, tudo o que lhe apetece.(p.268).

 

 

            Pode-se perceber no fragmento, que temos de um lado, a burguesia, corrupta e sonolenta na mulher ociosa alimentada por romances românticos; e do outro, o povo representado por Juliana, criada subjugada que pretende a todo custo reverter a situação de opressão e dominação.

            No romance aludido, Juliana é retratada como uma mulher que servia há vinte anos e durante esse tempo vivia a dormir em cacifros, a levantar-se de madrugada para trabalhar como uma escrava até à noite, obrigada a comer restos e a vestir trapos. Entretanto Juliana nunca se acostumava a servir, sua ambição, desde nova, era ter um negócio onde pudesse mandar, ou seja, ser patroa.

            Juliana detestava patroas e a vida que levava, desde que servia percebia a hostilidade com que era tratada. Tornou-se amarga, repugnava as mazelas a que era submetida e queria a qualquer custo livrar-se dessa vida.

            Dessa forma, percebe-se que o passado de Juliana justifica todo o ódio e o azedume que nutre contra todos, sobretudo sobre Luísa, sua patroa.

 

E a cada dia detestava mais Luísa. Quando pela manhã a via arrebicar-se, perfumar-se com água-de-colônia, mirar-se ao toucador cantarolando, saia do quarto porque lhe vinham venetas de ódio, tinha medo de estourar! Odiava-a pelas toilettes, pelo ar alegre, pela roupa-branca, pelo homem que ia ver, por todos os seus regalos de senhora. (QUEIRÓS, 1997, p. 198).

 

 

            Para reverter toda a situação de submissão e humilhação, Juliana vivia em busca de um segredo, por menor que fosse, via nisso uma possibilidade de melhores dias de vida, por isso tinha um modo de andar ligeiro e surpreendedor. “Qualquer carta que vinha era revirada, cheirada... Remexia sutilmente em todas as gavetas abertas; vasculhava em todos os papéis atirados. [...] andava a busca de um segredo, de um bom segredo!” (p. 79).

Ao descobrir a traição de Luísa, a criada Juliana intercepta algumas das cartas amorosas da patroa e passa a ver nelas a conquista do seu objeto de desejo: a tão sonhada ascensão financeira e passa, a partir de então, a chantagear Luísa em troca de seiscentos mil réis. – Ao inferno! – ou me dá seiscentos mil-réis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido há de ler as cartas! (p.268).

À Juliana, a criada, uma imagem indelével da exploração e do sofrimento, caberia como sempre coube, pagar a conta, trabalhar dobrado para compensar o dispêndio da aventura. Mais é nesse ponto do romance que percebe-se a transformação social, de dominada Juliana passa a ser dominadora. Em vez de pagar, Juliana, do seu lugar social desprivilegiado, irá cobrar a conta da imprudência de Luísa. Cobrança de uma conta antiga, pautada na humilhação e exploração.

“[...] uma criada! A criada é o animal. Trabalha se pode, se não rua, para o hospital. Mas chegou-me a minha vez – e dava palmadas no peito, fulgurante de vingança. – quem manda agora, sou eu!” (p.269).

De posse das cartas, Juliana entra a exercer tirânico e vingativo domínio sobre Luisa, que adoece de morte. [...] a Juliana sempre na rua, ou metida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo ao deus-dará, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emagrecer! (p. 340).

  Assim como Basílio, Juliana tentará tirar proveito circunstâncias, reunindo provas do adultério para fazer chantagem. Mas ela pretende mais do que dinheiro - que exige de Luísa sem sucesso; ela quer a desforra. E os recursos que utiliza levarão o definhamento físico e emocional da patroa, até o desfecho da história.

            Pode-se perceber, então, que para Juliana os valores só são úteis até que sejam extremamente necessários para alcançar seu objetivo e para tal, usaria de qualquer arma.

 

Juliana bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pele, colchões macios, saboreava a vida; o seu temperamento adoçara-se naquelas abundancias.[...] E no meio daquela prosperidade – Luisa definhava-se. Até onde iria a tirania de Juliana? (QUEIRÓS, 1997, p. 310).

 

Sobre esse prisma, convém citar as idéias de Fanon (2004) quando ele afirma que a questão da violência do subjugado justifica a utilização de meios violentos para derrubar o dominador e vê na violência uma práxis totalizante que liberta o oprimido de suas alienações.  

            Para Fanon, “o colono criou o colonizado e é este que está fadado a destruí-lo, libertando-se e libertando-o” (apud CABAÇO, 2004, p. 73). Segundo ele, a revolta violenta do oprimido é a única tentativa realmente eficiente no caminho da libertação.

 

[...] se os amos tinham um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o dia em voz de falsete a Carta AdoradaI! [...] Todos os lutos a deleitavam e sob o xale preto, que lhe tinham comprado, tinha palpitações de regozijo. Tinha visto morrer criancinhas, e nem a aflição das mães a comovera. (p. 78).

 

            A criada Juliana faz desmoronar o mundo de Luísa ao chantageá-la com cartas roubadas. Ela se conduz pela revolta (não suporta sua condição de serviçal), pela frustração (fracassou na tentativa de mudar de vida), pelo ódio rancoroso contra a patroa (ódio, na verdade, contra todas as patroas que a escravizaram por 20 anos). “[...] A ama era para ela o Inimigo, o Tirano. Tinha visto morrer duas, - e de cada vez sentira, sem saber por quê, um vago alívio, como se uma porção do vasto peso, que a sufocava na visa, se tivesse desprendido e evaporado!” (p.78).

Nesse sentido Fanon (2004) defende o temido efeito boomerang do oprimido para com o opressor, o qual baseia-se no fato de que a violência que o colonizado sofrera deve voltar-se contra o colonizador, deve tornar-se contra-violência na recuperação da dignidade humana do colonizado. “Juliana pôs-se a olhar para ela do alto, triunfando[...] Uma alegria extraordinária acendia-lhe o olhar. Vingava-se! Fazia-a chorar![...]” . (p. 269).

            Dessa forma, pode-se afirmar que todos os meios utilizados pela personagem Juliana não podem ser considerados atos insanos, mas ferramentas para a resolução de conflitos como afirma Fanon (2004 p.69): “o homem colonizado liberta-se em e pela violência”.

 

Prosperava, com efeito! Não punha na cama senão lençóis de linho. Reclamara colchões novos, um tapete para os pés da cama, felpudo! Os sachets que perfumavam a roupa de Luísa iam passando para a dobra das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janela, apanhadas com velhas fitas de seda azul; e sobre a cômoda dois vasos da Vista Alegre Dourados! Enfim um dia santo, em lugar de cuia de retrós, apareceu com um chignon de cabelos! (p. 308).

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O Primo Basílio é o romance de maior êxito de Eça de Queirós.
Em parte, o sucesso é devido ao naturalismo de suas cenas eróticas. No entanto, três outros grandes méritos devem ser atribuídos ao romance: primeiro, a visão crítica da pequena burguesia lisboeta, cujo alvo é a família, produto de namoros insólitos e da educação romântica da mulher, entregue a sonhos idealizados e ao ócio. O segundo mérito do livro está na montagem do enredo, construído a partir de uma lógica bem norteada que contribui para a criação de uma atmosfera tensa.

O mérito principal, no entanto, é a perfeita elaboração de personagens secundários, entre os quais se destaca Juliana, personagem de padrões naturalistas, construída para provar que os fins justificam os meios. O enredo não vai além de um caso banal de adultério (Luísa e Basílio), que atinge proporções mais amplas quando ameaçado pela chantagem da criada Juliana, o caráter mais completo e verdadeiro do livro.

Nesse sentido, convém fazer alusão a Massuad Moisés quando ele afirma: “Embora personagem secundária, Juliana concentra em si a causa dramática do conflito central dO Primo Basílio, e acaba encarnando uma das mais vivas e expressivas criações de Eça de Queirós( MOISÉS, 2004, p. 357).

Perceber-se, então, no romance um caráter sociológico, pois além de apresentar diferentes estratos sociais, Eça mostra ainda o conflito entre classes, ou seja, os meios que o oprimido é capaz de usar para livrar-se da opressão.

            Assim, convém afirmar que O primo Basílio é uma crítica profunda aos padrões burgueses. Além de tentar demonstrar, a todo o momento, as características maléficas dessa classe, sobretudo a lisboeta.

            Nesse sentido, vale ressaltar que Eça de Queirós é apontado como o autor que apresenta como principal forma de expressão o romance social, psicológico e de tese. O romance de Eça tornar-se meio de crítica às instituições, à hipocrisia burguesa, à vida urbana, à religião e à sociedade, interessando-se pela análise social, pela representação da realidade circundante, do sofrimento, da corrupção e do vício.

 

 

REFERÊNCIAS:

 

 

CABAÇO, José Luís e CHAVES, Rita. Frantz Fanon - Colonialismo, violência e identidade cultural. In: ABDALA, Júnior. Margens da Cultura: mestiçagem, hibridismo & outras misturas. São Paulo: Boitempo, 2004. 67-85.

 

DIAS, Reinaldo. Fundamentos de Sociologia Geral. 2ª ed. ampliada e atualizada. São Paulo: Alínea, 2000.

 

ELIA, Silvio.  Língua e Literatura. 4ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1991. p. 278-282.

 

FORACCHI, Marialice Mencarini & MARTINS, José de Souza. Sociologia e sociedade: Leituras de introdução à sociologia. 23ª tiragem. Rio de Janeiro: LTC, 1994.

 

MEHRING, Franz. O Capital. In: BENJAMIN, César (org). Marx e o socialismo. 1ª ed. São Paulo: Expressão popular, 2003. p. 11-57.

 

MEKSENAS, Paulo. Aprendendo sociologia. A paixão de conhecer a vida. 8ª ed. São Paulo: Loyola, 2001.

 

MOISÉS, Massuad. A Literatura Portuguesa. 10ª ed. Revista e aumentada. São Paulo: Cultrix, 1972.

 

MOISÉS, Massuad. A Literatura Portuguesa através dos textos. 29ª ed. São Paulo: Cultrix, 2004.

 

QUINTANEIRO, Tânia (org). Um toque de clássicos. 2ª ed. revista e ampliada. Belo Horizonte, UFMG, 2002.

 

 

 

 

[1] Edição utilizada: QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. Rio de Janeiro: Klick – especial para o jornal O Globo, 1997.

 

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/literatura-artigos/a-luta-de-classes-em-o-primo-basilio-de-eca-de-queiros-953921.html

    Palavras-chave do artigo:

    dominador dominado conflito ascensao efeito boomerang o primo basilio eca de queiroz realismo naturalismo

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    Jerfeson 11/09/2009
    Muito bom esse artigo, pois permite uma visão sociológica do livro de Eça de Queirós.

    Parabéns
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