A Luta De Classes Sociais Em O Primo Basílio: Relações Entre Dominadores E Dominados

Publicado em: 05/02/2010 |Comentário: 0 | Acessos: 2,467 |
  1. 1.     Introdução.

 

 

O seguinte artigo apresentará as características realistas na obra O Primo Basílio. Além disso, irá enfatizar os conflitos entre a burguesia e o proletariado (dominadores e dominados). Durante a discussão, destacaremos os meios utilizados pelos “oprimidos” na busca por um espaço na sociedade. Podemos evidenciar que essa análise das questões sociais presentes nas obras literárias são de grande importância para estabelecermos relações entre ficção e realidade, pois o confronto entre as classes baixa e alta não aparecem apenas nos romances, e sim, fazem parte da nossa realidade atualmente.

A primeira parte do estudo apresentará uma análise do realismo, ressaltando algumas características desse período literário presentes na obra. Na segunda parte será apresentada uma discussão a respeito do confronto entre as classes sociais. A terceira parte vai ressaltar, através de fragmentos do livro, os métodos coercivos utilizados pela personagem Juliana na busca pela ascensão social.

Concluiremos o artigo com comentários finais, apresentando os resultados das questões investigadas.

 

 

  1. 2.     O Realismo: Características presentes na obra.

 

 

O espírito crítico, totalmente contrário aos ideais românticos, impulsionou grandes escritores a denunciarem a realidade expondo seus defeitos. A base espiritual e sentimental do Romantismo cedeu espaço para concepções materialistas e cientificistas. Envolvido por esse espírito realista, Eça de Queirós publicou em 1878 sua obra prima do Realismo O Primo Basílio.

De acordo com Massuad Moisés (1972), os realistas reagiram de forma violenta e contrária ao Romantismo. O Realismo pregava a filosofia da objetividade, o foco de interesse era o objeto, ou seja, aquilo que está fora do indivíduo, o “não eu”.

Para tal, os realistas tinham que abolir o sentimentalismo romântico em vistas à realidade objetiva. Nesse sentido, pode-se dizer que o Realismo tinha como característica o racionalismo, uma vez que procurava denunciar a sociedade burguesa movidos por um pensamento racional.

 

 

[...] o romance passa a ser, no Realismo, obra de combate, arma de ação reformadora da sociedade burguesa dos fins do século XIX. Transformando-se em instrumento de ataque e demolição, por um lado, e de defesas implícitas de ideais filosóficos e científicos, por outro. ( MOISÉS, 1972, p.234).

 

 

 

O romance O Primo Basílio é classificado como realista de acordo com algumas características deste estilo literário que aparecem frequentemente na obra:

Há a descrição física real das personagens e o enfoque na minúcia dos detalhes, como podemos analisar no seguinte fragmento:

 

 

[...] ficara sentada à mesa, a ler o Diário de Notícias, no seu roupão de manhã de fazenda preta, bordado de soutache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco de calor de travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras... (QUEIRÓS, Eça, p. 19).

 

 

O escritor realista tinha por função revelar as regras, os problemas, os comportamentos e o funcionamento inadequado da sociedade. Por isso, podemos evidenciar que o texto está localizado em um ambiente de realidade social, pois as personagens são caracterizadas e situadas dentro de um contexto que leva em conta a realidade social da burguesia de Lisboa dos fins do século XIX.

 

 

 

[...] para pôr a mostra o declínio completo da instituição burguesa, os realistas atacaram de frente o seu núcleo; o casamento, trazendo nuas as misérias que o destroem como alicerce da burguesia, misérias essas condenadas no adultério, tornando lugar comum elegante. ( MOISÉS, 1972, p.235).

 

 

 

Diferentemente dos Românticos os realistas apontam as moléstias da sociedade e mostram que o pensamento burguês se funda na luxúria e no conforto material, o que implica na destruição do casamento pelo adultério.

Na obra O Primo Basílio, Eça faz uma severa crítica aos ideais românticos, pois deixa transparecer a seguinte idéia: o casamento deixava-se atingir pelo adultério devido à literatura romântica lida por Luísa.

Nesse contexto realista, vale lembrar do determinismo enquanto característica evidente na obra na medida em que a personagem Luísa comete adultério motivada por circunstâncias do meio em que estava inserida, ou seja, a traição acontece porque o primo chegou justamente no momento da viagem de Jorge. Isso significa que o meio “deu oportunidade” para que o adultério acontecesse.

Outra característica importante presente na obra é a observação do homem como animal. Há uma cena dramática em O Primo Basílio que retrata certos tipos de reações quando Juliana e Luísa entram em confronto. Aqui, pode-se ver um episódio de caráter realista:

 

 

[...] Quanto você quer pelas cartas, sua ladra?- disse Luísa, erguendo-se direita, diante dela.

[...] - A senhora ou me dá seiscentos mil réis, ou eu não largo os papéis!

- Seiscentos mil réis! Onde quer você que eu vá buscar seiscentos mil réis!

- Ao inferno! – gritou Juliana. – Ou me dá seiscentos mil réis, ou tão certo como eu estar aqui, o seu marido há de ler as cartas.

[...] Luísa, quebrada, sem força para responder, encolhia-se sob aquela cólera como um pássaro sob o chuveiro. “Juliana ia-se exaltando com a mesma violência da sua voz”. (QUEIRÓS, Eça, p.233; 234).

 

 

Podemos destacar que uma das principais características realistas presentes nesta obra é a temática do adultério. Tema tabu no Romantismo, mas um dos preferidos dos realistas. A superficialidade da personagem Luísa, que é “levada” a traição pela influência do primo, foi peça fundamental para incitar os leitores da época que já estavam enfadados pela subjetividade do Romantismo. Nesse contexto, convém lembrar a crítica do mestre Machado de Assis, publicada em “Obras completas vol.III”, à personagem Luísa:

 

 

 

[...] Depois de analisar o caráter de Luísa, de mostrar que ela cai sem repulsa nem vontade, que nenhum amor nem ódio a abalam que o adultério é ali apenas uma aventura passageira...

[...] Esses traços de caráter é que me levam a dizer, quando a comparei com a Eugênia, de Balzac, que nenhuma semelhança havia entre as duas, porque essa tinha uma forte acentuação moral, e aquela não passava de um títere... (ASSIS, Machado, p.910; 911).

 

 

 

Segundo Machado de Assis, Luísa adulterou por “futilidade”, pois não demonstrava nenhum sentimento amoroso por Basílio. Os encontros com o primo eram apenas um capricho da personagem. Além disso, o autor caracteriza o caráter de Luísa como “leviano”, pois ela não sente remorsos pela traição, mas tem medo de ser descoberta pelo marido.

A análise dos mecanismos do casamento e da pequena burguesia reforça ainda mais as características realistas da obra de Eça de Queirós, pois o autor denuncia a falta de caráter das personagens, que representam um casamento construído por “bases falsas”. Fato que não ocorria no Romantismo, época na qual pessoas eram idealizadas por serem “perfeitas” em suas atitudes.

 

 

  1. 3.     Diferenças sociais: confrontos entre opressores e oprimidos.

 

Podemos evidenciar que as classes ricas e pobres se separam umas das outras por diferenças sociais e culturais. Essas diferenças acentuam-se pela atitude indiferente com que as classes dominadoras olham para os menos abastados, de onde retiram a força de trabalho de que necessitam.

Para Marx, “sociedade organiza-se de modo a dar origem a duas classes sociais: os burgueses e os trabalhadores” (MEKSENAS, 2001, p.84). Os primeiros são considerados compradores da força do trabalho, enquanto os segundos são os que nada têm, além da sua capacidade de trabalhar, a qual vende à burguesia em troca de um salário. A classe dominadora detém o poder efetivo sobre a sociedade, graças ao apoio da classe dominada, que são os pré-destinados a viverem a margem da sociedade. Como exemplo podemos citar a situação vivida por Juliana em O Primo Basílio. As péssimas condições de vida da personagem ficam evidentes nos seguintes fragmentos:

 

 

[...] Dormia em cima, no sótão, ao pé da cozinha...

[...] O quarto era baixo, muito estreito, com o teto de madeira inclinada: o sol aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado como um forno: havia sempre a noite um cheiro requentado de tijolo encandescido...

[...] E o único adorno nas paredes sujas, riscadas da cabeça de fósforos, era uma litografia de Nossa Senhora das Dores por cima da cama... (QUEIRÓS, Eça, p.70).

 

 

 

A classe baixa e alta relaciona-se de modo a criar um conflito, o que é evidenciado se ficarmos atentos ao fato de que a burguesia nunca paga ao empregado um salário condizente à sua força de trabalho, visto que os trabalhadores são obrigados a se alimentarem mal e a morar em péssimas condições, como é o caso da personagem Juliana. Devido à falta de reconhecimento pelo seu esforço, o proletariado acaba trabalhando apenas por obrigação.

De acordo Oliveira, “os proprietários dos meios de produção sempre gozam de maior prestígio social do que os trabalhadores” (OLIVERIA, Pérsio Santos, p.79). Podemos analisar que a classe dominadora detém total poder sobre a sociedade. Entretanto cabe aos oprimidos o papel de renová-la e tentar mudar a própria situação e a de todos os outros explorados. Nesse contexto devemos ressaltar que a classe dos oprimidos não é homogênea, o que dificulta a união dos trabalhadores em prol de uma luta em comum. Como exemplo disso, podemos citar Juliana e Joana. Enquanto a primeira não se conformava com a vida que levava e queria ascensão social, a outra acreditava que a vida sempre seria daquela forma. Nesse sentido, Joana apresenta uma visão de mundo “passiva”, pois aceita a exploração da patroa como sendo algo natural.

Juliana reconhecia-se como explorada e quando os trabalhadores se sentem submissos aos patrões começam a lutar por uma transformação, pode-se dizer que nesse momento começam a luta entre as classes, ou seja, o oprimido passa a lutar por um espaço na sociedade e a burguesia tenta manter o poder sobre as classes inferiores.

Através das atitudes de Juliana percebe-se uma devastadora “aversão” aos mais abastados, além do caráter irracional animalesco, de sua busca por ascensão social, vistos nas perspectivas do estilo realista. Exemplificaremos com o seguinte fragmento da obra:

 

 

[...] Servia havia vinte anos, como ela dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em cacifos, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha doença, a esfalfar-se quando voltava à saúde! . Era demais! Tinha agora dias que só de ver o balde das águas sujas e o ferro de engomar se lhe embrulhava o estômago. Nunca se acostumara a servir...

[...] Fez-se má; beliscava crianças até lhes enodar a pele, e se ralhavam, a sua cólera rompia em rajadas. Começou a ser despedida. Num só ano esteve em três casas. Saía com escândalos aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas pálidas, todas nervosas...

[...] A necessidade de se constranger trouxe-lhe o hábito de odiar; odiou sobretudo as patroas, com um ódio irracional e pueril... (QUEIRÓS, Eça, p.73; 74; 75).

 

 

 

Cansada de servir as patroas durante toda a vida, Juliana queria reverter o processo de exploração recusando-se a continuar sendo subjugada. Para tal, começa a buscar ascensão financeira, deixando de lado qualquer limite imposto pela ética e pelos bons costumes, pois lança mão de meios inadequados para alcançar seus objetivos. Para a personagem, os fins justificam os meios, por isso, ela não se importa com a honestidade.

 

 

  1. 4.     Juliana: a classe oprimida em busca pela ascensão social.

 

Servindo os patrões há vinte anos sem nunca se acostumar a servir, Juliana foi alimentando um desgosto pela vida que resultou em maldade e inveja, movida pelo sentimento de inferioridade econômica, social e afetiva. Observando a convivência entre patroa e empregada em O Primo Basílio, podemos perceber que a sociedade é dividida, de um lado por uma situação de status que implica na dominação, no poder, evidenciado pelo prestígio e honra; do outro por uma situação baseada na submissão e na pobreza. Há assim, a existência dessas classes que estão em permanente oposição e conflito, o que indica a existência de opressores e oprimidos.

No romance de Eça de Queirós, percebe-se que o autor utiliza a personagem Juliana para representar o povo e Luísa como representante da burguesia. Assim, a obra nos remete a uma leitura sociológica na medida em que mostra a dura realidade das desigualdades sociais, fato claramente percebido nesse fragmento:

 

 

[...] Tenho passado anos e anos a ralar-me! Para ganhar meia moeda por mês, estafo-me a trabalhar, de madrugada até à noite, enquanto a senhora está de pânria!

[...] Há um mês me ergo com o dia, pra meter em goma, passar, engomar!

[...] E a senhora, são passeios, tipóias, boas sedas, tudo que lhe apetece. (QUEIRÓS, Eça, p.268). 

 

 

 

Pode-se perceber no fragmento, que temos de um lado a burguesia corrupta representada pela mulher que tinha tudo em mãos sem precisar trabalhar; e do outro, a criada Juliana, que pretende a todo o custo reverter à situação de opressão e dominação a qual era submetida. Para tal a empregada vivia em busca de um segredo, por menor que fosse. Pois via nisso a possibilidade de mudar de vida. “Era também muito curiosa. Vivia escondida atrás das portas, vasculhava o lixo a procura de papéis. Examinava as visitas. Andava sempre em busca de um bom segredo!” (CONY, Carlos Heitor, p.26).

A busca pela ascensão financeira começou muito tempo antes de Juliana vir para a casa de Luísa. Desde jovem a empregada tinha ambição. Queria ter seu próprio empreendimento, pois tinha muita vontade de ser patroa, como podemos ver nesse trecho da obra:

 

 

[...] Um dia teve, enfim, uma grande esperança. Entrara para o serviço de D.Virgínia Lemos, uma viúva rica, tia de Jorge, muito doente, quase a morrer com um catarro de bexiga...

[...] Durante um ano, roída de ambição, foi enfermeira da velha. Que zelos! Que mimos!...

[...] A velha tinha então um gemido mais aflito. – É agora! –pensava - Morre!... E o seu olhar ansioso ia logo para a gaveta da cômoda, onde estava de certo o dinheiro, os papéis. Mas não! A velha queria beber, ou voltar-se... (QUEIRÓS, Eça, p.76, 77).

 

 

Quando a velha morreu e não deixou nem um conto de réis para Juliana, ela ficou ainda mais desgostosa da vida. Ficou tão infeliz que lhe deu febre. Então, Jorge agradecido pelos cuidados que a empregada teve com a tia, levou Juliana para trabalhar em sua casa, pois se sentia em dívida com ela.

A vontade de “subir na vida” não parou por aí, podemos ver no seguinte fragmento:

 

 

[...] E muito curiosa; era fácil encontrá-la de repente, cosida por detrás de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta que vinha era revirada, cheirada... Remexia sutilmente em todas as gavetas abertas; vasculhava em todos os papéis atirados. Tinha um modo de andar ligeiro e surpreendedor. Examinava as visitas. Andava a busca de um segredo, de um bom segredo! Se lhe caía um nas mãos!...(QUEIRÓS, Eça, p.76).

 

 

 

Segundo Fanon, “a questão da violência do subjugado justifica a utilização de meios violentos para derrubar o dominador e vê na violência uma práxis totalizante que liberta o oprimido de suas alienações” (CABAÇO, 2004, p.73). Podemos perceber que muitos estudiosos das ciências sociais apresentam justificativas para o comportamento obsessivo da personagem Juliana.

 

Observemos as palavras de Machado de Assis quando se refere à Juliana:

 

 

[...] Juliana, o caráter mais completo e verdadeiro do livro, está enfadada de servir; espreita um meio de enriquecer depressa; logra apoderar-se de quatro cartas; é um triunfo, é a opulência. Um dia em que a ama lhe ralha com aspereza, Juliana denuncia as armas que possui... (ASSIS, Machado, p. 906)

 

 

 

 

Ao descobrir a traição de Luísa, a criada passa a utilizar métodos coercivos a fim de progredir financeiramente. Para isso, rouba algumas das cartas amorosas da patroa e passa a chantagear a personagem em troca de seiscentos mil réis-“Ao inferno! - ou me dá seiscentos mil réis, ou tão certa como eu estar aqui, o seu marido há de ler as cartas!” (QUEIRÓS, Eça, p. 233).

Nesse ponto do romance podemos ver uma Juliana transformada, que começa a exercer tirânico e vingativo domínio sobre Luísa. De posse das cartas, a empregada para de trabalhar deixando todo o serviço doméstico para a patroa.

Impulsionada pelo ódio e frustração com as patroas que a escravizaram por vinte anos, Juliana faz desmoronar o mundo de Luísa, através da humilhação da patroa que teve que trabalhar para compensar o dispêndio da aventura. Mas é nesse ponto do romance que percebemos a transformação social, de dominada Juliana passa a ser dominadora. De seu lugar social desprivilegiado, a empregada cobrou a conta da imprudência de Luísa. Cobrança de uma conta antiga, pautada na humilhação e sofrimento que enfrentara durante anos.

O discurso cada vez mais agressivo de Juliana revela claramente a vantagem em que se encontrava. Aguardava a obtenção do dinheiro e até lá não ia dizer nada. Mas tinha com pressa, porque afinal, ela estava cansada de trabalhar. Além do mais, demonstrava claramente a sua inveja e seu ressentimento contra a vida fácil e a felicidade sexual e amorosa que Luísa acabava de viver enquanto amante e esposa amada de Jorge.

 

 

[...] A senhora chora! Também eu tenho chorado muita lágrima! Ai! Eu não lhe quero mal, minha senhora, certamente que não! Que se divirta,que goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu dinheiro aqui escarrado, ou o papel há de ser falado! Ainda este teto me rache, se eu não for mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, à vizinhança toda, que há de andar arrastada pelas ruas da amargura!...(QUEIRÓS, Eça, p.234).

 

 

 

 

Depois de aceitar as condições, começa o calvário de Luísa, que se submete passo a passo a todas as exigências da criada. Juliana reivindica um novo quarto, pois o dela, embaixo do sótão, lhe fazia mal a saúde.

Outro passo da empregada para garantir a ascensão financeira foi pedir “sutilmente” os vestidos da patroa. Com o maior descaramento ela toma posse das roupas de Luísa, que começa a usar nas horas de folga. Com o passar do tempo começa a desrespeitar os horários de trabalho e começa a sair quando bem entende. “Que blusa linda! A senhora não a quer, não é? –Leve, leve- dizia Luísa conformada... Por fim Luísa passou a vesti-la. Dava-lhe vestidos de seda, casacos. Como acabaria tudo, santo Deus?” (CONY, Carlos Heitor, p.96).

Uma das principais táticas de Juliana era enganar Luísa para que pensasse que tudo havia voltado ao normal. Iludia a patroa com frases do tipo: “Eu voltei para fazer o meu serviço como dantes...” (QUEIRÓS, Eça, p.244). Essas atitudes deixavam sua patroa perturbada e se sentindo dominada pela empregada.

O conflito chega ao extremo quando Luísa procura Sebastião, pedindo-lhe ajuda. Enquanto ela e Jorge assistem à ópera, o amigo da família vai a casa do casal e ameaça Juliana com o apoio de um policial. Amedrontada pela firmeza de Sebastião e empregada entrega as cartas e morre em seguida vítima da sua doença no coração.

Diante de todos os acontecimentos, podemos perceber que a busca pela ascensão social nem sempre dá bons resultados, principalmente quando o “oprimido” utiliza métodos desvinculados dos padrões éticos. Para Juliana os valores só eram úteis para alcançar seus próprios objetivos. Dessa forma, podemos afirmar que todos os meios utilizados pela personagem podem ser considerados insanos, mas são ferramentas para a resolução de conflitos envolvendo a burguesia e o proletariado. Como afirma Fanon: “o homem colonizado liberta-se em e pela violência” (CABAÇO, José Luís e CHAVES, Rita, p.69).

 

 

 

 

  1. 5.     Considerações Finais.

 

Neste artigo, ao traçar as conclusões, cabe enfatizar alguns aspectos relevantes ao estudo e análise das lutas de classes sociais em O Primo Basílio. Os conflitos existentes entre a burguesia e o proletariado nem sempre beneficiam essas classes, pois o confronto entre Luísa e Juliana não resultou em benefícios para nenhuma das duas. A empregada conseguiu uma “ascensão financeira momentânea” através da “dialética da inversão”, ou seja, quem passou a ditar ordens na casa foi Juliana. Mesmo assim não obteve nenhum êxito, pois morreu sem usufruir o “pouco” que conseguira.

O romance de Eça de Queirós é uma obra perfeita para delatar todos os pontos frágeis da sociedade. O autor faz questão em mostrar detalhes que tornam a obra repleta das mais variadas características realistas. A temática do adultério se fez presente para evidenciar o caráter realista, pois na época do Romantismo as pessoas eram idealizadas porque agiam conforme as regras impostas pela sociedade.

Percebe-se, então, no romance um caráter sociológico, pois além de apresentar diferentes estratos sociais, Eça mostra ainda o conflito entre as classes, ou seja, os meios que o oprimido é capaz de usar para livrar-se da opressão.

Devemos levar para a sala de aula o estudo da literatura a partir de uma perspectiva sociológica, pois dessa forma, incentivaremos o aluno a perceber essa união de ficção e realidade, a fim de pesquisarem questões e problemas sociais presentes nas obras literárias. Os educandos precisam ler “nas entrelinhas”, ou seja, sabendo que existe uma intenção social por parte de autores dos romances realistas.

 

 

6. Referências Bibliográficas:

 

CABAÇO, José Luís e CHAVES, Rita. Frantz Fanon-Colonialismo, violência e identidade cultural. In: ABDALA, Júnior. Margens da cultura: mestiçagem, hibridismo e outras misturas. São Paulo: Boitempo, 2004.

 

CONY, Carlos Heitor. O primo Basílio. São Paulo: Scipione, 2007.

 

MEKSENAS, Paulo. Aprendendo sociologia. A paixão de conhecer a vida. 8ª ed. São Paulo: Loyola, 2001.

 

 

MOISÉS, Massuad. A Literatura Portuguesa. 10ª ed. Revista e aumentada. São Paulo: Cultrix, 1972.

 

OLIVEIRA, Pérsio Santos. Introdução à sociologia. São Paulo: Ática, 1999.

 

QUEIRÓS, Eça. O primo Basílio. São Paulo: Martin Claret, 2008.

 

 

 

 

 

 

 

 

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