Análise Da Narrativa - Dom Casmurro

Publicado em: 12/01/2010 |Comentário: 0 | Acessos: 4,948 |

Análise da Narrativa

1. Narrador e Foco Narrativo

Narrado em 1º pessoa por um narrador-personagem, que se coloca como escritor, a história de Dom Casmurro tem como primeira chave para tentarmos nos aproximar de seu enigma a própria figura deste que ao mesmo tempo a vive e relata.

Trata-se de um velho homem solitário, apelidado de Dom Casmurro, que por cansaço da monotonia em que vive, passa a relatar sua história. Outro ponto a ser mencionado, é o fato de seu narrador não ser confiável. Ele mente, distorce, confunde o leitor, com quem conversa ao longo da narração, anunciando a metalinguagem da literatura do século XX.

Machado adota um narrador unilateral, fazendo dele o eixo da forma literária, então inscrevia entre os romancistas inovadores, além de convergir com os espíritos adiantados da Europa, que sabiam que toda representação comporta um elemento de vontade ou interesse, o dado oculto a examinar, o indício da crise da civilização burguesa – como já fora citado anteriormente.

No romance, a dramatização do ato de narrar é um dos componentes essenciais do enredo e da vida do protagonista.

Tal dramatização consiste no seguinte: em vez de simplesmente escrever uma estória, Machado inventou uma personagem (um pseudo-autor) de quem nos é dado ver o ato de escrever o seu próprio romance.

O romance Dom Casmurro também pode ser entendido como uma auto-análise de Bento Santiago, sobrevivente único de uma estória de amor, com um final amargo: pois o mesmo julga-se traído pela amada esposa e pelo seu melhor amigo Escobar. Vários anos após a morte da esposa, ele decide escrever o livro para restaurar no presente o equilíbrio perdido no passado

O ponto de vista de Bentinho domina tudo na narrativa. Até mesmo os demais personagens que passam de projeções de sua alma. São lembranças do seu passado, que vão ressurgindo do subsolo da memória à medida que ele procura a reconciliação em si mesmo.

 

2. Linguagem

Em Dom Casmurro, Machado de Assis utiliza de alguns aspectos centrais na linguagem do mesmo. São reflexões metalingüísticas, as ironias às expectativas do leitor, as digressões. Através delas, o narrador nos revela, como se estivesse escondendo, não só os “bastidores” sombrios da personificação de Bentinho, mas também a própria arquitetura do romance.

Ao lermos o capítulo 59 encontramos:

 

“(...) nada se emenda bem nos livros confuso mas tudo se pode meter nos livros omissos (...) é que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher também as minhas”.

 

Esse fluxo é trabalhado literalmente ao longo do romance. Portanto, na linguagem de Dom Casmurro há reflexões metalingüística – sempre recoberta pela ironia se seu ritmo, se sua não linearidade, da presença de “reticências”.

 

3. O Espaço

No romance Machadiano, Dom Casmurro, o protagonista – Bentinho –viveu sua infância toda na Rua Matacavalos, em companhia se sua grande amiga, que era também sua vizinha.

Bento Santiago só vai sair de lá, para entrar no seminário – promessa de sua mão que não poderia ser quebrada – mas deixa lá em sua terra natal a sua mãe, o seu tio, e além de outras pessoas, seu grande amor, Capitulina.

Após sair do seminário, casa-se com seu grande amor, que era também sua grande amiga, e eles vão os dois juntos morar nos altos da Tijuca, na praia da Glória, mas fazem visitas freqüentes a Matacavalos, onde agora moram o pai de Capitu, a mãe de Bentinho, assim como parentes e o agregado.

 E é explorando cada uma dessas regiões, bem como as pessoas com quem conviveram e que interagem no enredo, que o livro é narrado, com emoção e riqueza de detalhes.

 

4. As personagens

Bentinho, quando ainda mais jovem, era um pouco mais baixo que Capitulina, não apresentando traços físicos definidos, revelava-se como um moço rico, mimado pela mãe, talvez, por isso, não tinha a mesma personalidade forte, espírito vivaz e iniciativa da amiga.

A priori, Bento Santiago se dividia entre o amor de sua mãe, e o amor de Capitu. Enquanto escreve o livro, também se divide, mas agora é entre o passado e o presente; acusando e louvando a já morta, Capitu.

Bentinho jamais pretendeu ser padre, mas fora sua mãe que o determinou a tal atitude. Seus planos eram de se casar, futuramente, com sua amiga e amada, Capitulina.

Depois de velho, e após tantas perdas, como a morte de seus familiares e amigos, passou a viver solitário e totalmente isolado. Ele mesmo afirma isso: “(...) uso louça velha e mobília velha. Em verdade, pouca pareço e menos falo. Distrações raras, o mais do tempo e gasto em horta, jardins e ler, como bem e não durmo mal”.

Quanto a Capitulina, apelidada de Capitu, no início da narrativa, estava com 14 anos, e um pouquinho mais alta que Bentinho, como já fora antes citado. Ela tinha os cabelos grossos negros e compridos até a cintura. Seus olhos eram negros e misteriosos a ponto de despertar no narrador a comparação com a ressaca do mar. Era esperta, inteligente, extrovertida e criativa. Foi ela quem pensou, primeiramente, em tomar atitudes quanto ao fato de Bentinho tornar-se padre. Após a entrada dele no seminário, ela passou a maior parte do tempo com D. Glória, e tornam-se muito ligadas.

O narrador-personagem, Bento Santiago, deixa transparecer nas entrelinhas um defeito de Capitu, que era o fato dela ser pobre.

Escobar era um rapaz polido de olhos claros e dulcíssimos – opinião de José Dias.

 

“A cara raspada mostra uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa,... era interessante de rosto, boca fina e chocarreira, o nariz curvo e delgado. Olhos claros, esbelto, era um pouco fugitivo, com as mãos,... com tudo”.

 

Escobar e Bentinho se conheceram no seminário e rapidamente tornam-se bons amigos. Ele, pelo fato que tinha facilidade com os números, sonhava ser comerciante e assim que abandonasse o seminário se dedicaria ao cultivo do café.

Ele era peça fundamental da trama, pois Bentinho pensava que Escobar e Capitu eram amantes.

José Dias, aquele o qual usava calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Era muitíssimo magro, com um princípio de calva, e dedicado a família de Bentinho, até a morte. Ele era agregado em casa de D. Glória; apresentava-se como médico, mas não o era.

Já a mãe de Bentinho era D. Glória, que era muito religiosa, e já viúva.

 

5.  O Tempo

 

A narrativa decorre de uma forma chamada de flashback, o qual domina no romance não é o tempo cronológico, mas sim o tempo psicológico, o que se passa na lembrança de Bentinho, sendo assim, suas vivências e lembranças.

 

Avaliar artigo
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 1 Voto(s)
    Feedback
    Imprimir
    Re-Publicar
    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/literatura-artigos/analise-da-narrativa-dom-casmurro-1708063.html

    Palavras-chave do artigo:

    narrador

    ,

    foco narrativo

    ,

    tempo

    Comentar sobre o artigo

    Marcos Suel dos Santos

    O texto analisa o conto machadiano "A causa secreta", que conduz o leitor a percorrer um mundo que, aos poucos, revela traços de suspense, aguçando a curiosidade do leitor. Além de discorrer sobre o comportamento dos personagens e suas relações afetivas, é possível entender o universo sombrio que envolve Fortunato. Por outro lado, investigam-se os elementos euforia versus disforia para uma compreensão global da obra, através da Semiótica.

    Por: Marcos Suel dos Santosl Educação> Línguasl 03/01/2012 lAcessos: 1,769
    Ana Claudia Matos Goncalves

    Pretendemos neste artigo, estudar a Enunciação e o Enunciado no conto A Cartomante de Machado de Assis.

    Por: Ana Claudia Matos Goncalvesl Literatural 18/04/2010 lAcessos: 6,477 lComentário: 1

    Este trabalho analisa o conto machadiano "Pai contra mãe" sob a perspectiva da semiótica, enfocando o percurso gerativo de sentido do texto. Através da análise dos elementos semânticos e sintáticos detalha-se o nível fundamental, narrativo e discursivo desse conto, o qual foi construído em seu entretecimento com a cultura e a sociedade, cuja ideologia do racismo perpassava o momento histórico da época.

    Por: Maira Cristiane Kummerl Literatura> Ficçãol 07/06/2011 lAcessos: 702
    Keila Soares de Quadros

    RESUMO: A pesquisa realizada propõe-se a dinamizar uma reflexão a respeito da personagem na narrativa, destacando as semelhanças e diferenças entre “personagem e pessoa”, sua caracterização, bem como as suas funções dentro das narrativas literárias. O estudo teve como ponto de partida a leitura e análise das seguintes obras: Introdução a Análise da Narrativa, de Benjamin Abdala Junior, A Personagem, da autora Beth Brait e A Personagem de Ficção, de Antônio Cândido. Além disso, foram realizadas a

    Por: Keila Soares de Quadrosl Literatural 01/02/2010 lAcessos: 2,065
    Profª Bia Senday

    A produção do contista Machado de Assis se inicia em 1858 (com Três tesouros perdidos) e estende-se aos inícios do século XX, com a produção de quase 300 contos, publicados nos jornais e revistas da época. "O conto se tornou em suas mãos matéria dúctil, com fisionomia reconhecível, na qual [...] exercia a magia encantatória de suas variações sobre o tema predileto: a humanidade com seus vícios intemporais."

    Por: Profª Bia Sendayl Literatural 20/08/2010 lAcessos: 9,259 lComentário: 2
    mauro rosso

    Eventos como a entrega do Oscar -- e de resto, festivais regularmente realizados em distintas cidades,temáticas e enfoques, o Festival de Cannes , de Berlim, de Veneza, etc -- são excelentes por permitirem uma reflexão sobre a sempre vigente relação literatura-cinema , com suas interseções, confluências ...e divergências

    Por: mauro rossol Literatural 24/02/2011 lAcessos: 290
    FELLIPE KNOPP

    Análise crítico-literária sobre a obra de Patrícia Melo (supracitada). O livro Valsa Negra, publicado no ano de 2003, é uma das mais recentes obras da jovem escritora Patrícia Melo que muito cedo alcançou uma relativa, mas considerável maturidade literária, e cujos procedimentos estético-lingüísticos autenticam sua performance narrativa, seguindo Rubem Fonseca, no panorama literário pós-modernista. Embora seja jovem, Patrícia publicou diversos livros, tais como Inferno, Acqua Toffana, O Matador

    Por: FELLIPE KNOPPl Literatural 05/02/2010 lAcessos: 985
    Ana Claudia Matos Goncalves

    Propomos no presente artigo um estudo sobre o estilo da obra Memórias de um Sargento de Milícias (1954). E assim faremos, por meio da análise do livro no Ensino Médio, na Academia, e de fragmentos da obra, os quais, apontam características anti-românticas.

    Por: Ana Claudia Matos Goncalvesl Literatural 04/07/2009 lAcessos: 4,746 lComentário: 1
    Manuella Santos da Hora

    O presente trabalho objetiva discutir a organização e a linguagem, em Os sertões (1902), de Euclides da Cunha (1866-1909). A partir desse objetivo, relatam-se algumas das relações que vinculam as narrativas históricas e culturais no corpo da obra citada, destacando a sua organização e linguagem na composição do enredo euclidiano.

    Por: Manuella Santos da Horal Educação> Línguasl 03/02/2014 lAcessos: 88

    A política brasileira além de ferver virou um inferno. Um inferno com muitos diabos que não têm medo da cruz. Deus, o nosso Pai morreu e Jesus não estão mais em seus corações. A caridade, a fraternidade e os bons princípios não foram sublimados, e sim exterminados juntamente com a ética. No coração do brasileiro só resta esperança, as forças já estão combalidas, vítimas de uma politicagem escarnecida. O encanto do Brasil antigo evaporou-se diante das aberrações e das corrupções eleitorais.

    Por: Antonio Paiva Rodriguesl Literatural 13/10/2014

    Pensei nas pessoas sofredoras e fui orando para as entidades protetoras. Vi no semblante de uma criança solitária, a fome que a consumia. Imantei o amor em prol de um pequeno ser. Vi no sol da primavera seus momentos bons e ruins, mas não almejamos sofrimentos, principalmente para os seres indefesos e inocentes. Como diria Cornélio Pires, sempre noto com reserva as dores que vêm do herdeiro; não sei se o choro é de mágoa ou de briga por dinheiro.

    Por: Antonio Paiva Rodriguesl Literatural 03/10/2014

    Lágrimas são emoções materializadas que romperam bandeiras do corpo físico. Em realidade, representam os excessos de energia que necessitamos extravasar. Nem sempre são as mesmas fontes que determinam as lágrimas, pois variadas são as nascentes geradoras que as expelem através dos olhos. Em épocas de política o Brasil se transforma, e denotamos como são grandes os aparatos, que os candidatos fazem para chamar a atenção do eleitor. Festival de publicidades, bandeirolas são tremuladas pelo vento d

    Por: Antonio Paiva Rodriguesl Literatural 24/09/2014

    Não temos como negar a influência da literatura da Idade Média, na literatura do cancioneiro popular da atualidade. Mesmo escritores eruditos, como Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e outros, buscam fontes para suas obras, na literatura antiga.O cancioneiro popular adapta suas canções, sem negar o conhecimentos adquirido, ainda nos tempos de Carlos Magno, que forneceu assunto vasto para a poesia popular.

    Por: lúcia nobrel Literatural 19/09/2014

    Através do ensino de literatura estaremos levando aos nossos alunos ao conhecimento do fenômeno literário em seus aspectos: histórico-estético-cultural, através do contato com os artistas da palavra. Sendo a obra literária reflexo de vida, exteriorização verbal de uma experiência humana, nós, professores, evidentemente faremos uso dela para orientar a educação integral dos nossos alunos.

    Por: Sandra da Silva Cavalaro Zagol Literatural 29/07/2014

    Na poesia, o elemento diferenciador – o verso e tudo que nele se implica -, não deve ser tomado como recurso exclusivo e caracterizado da poesia, pois ela exprime-se por metáforas, tomadas no sentido genérico de figuras de linguagem, isto é, significantes carregados de mais de um sentido, ou conotação. a prosa é genericamente entendida com aposta ao verso.

    Por: Sandra da Silva Cavalaro Zagol Literatural 29/07/2014

    A literatura é uma forma de conhecimento da realidade que se serve da ficção e tem como meio de expressão a linguagem artisticamente elaborada. Esta nossa definição apresenta, de uma forma sucinta, a natureza e a função da literatura, bem como sua diferenciação das ciências e das outras artes.

    Por: Sandra da Silva Cavalaro Zagol Literatural 29/07/2014
    Jeferson Lopes Ribeiro

    Uma introdução ao conto. Uma espécie de continuação de contos de filhos de deuses, como hércules filho de Zeus e Percy Jackson filho de Posseidon.

    Por: Jeferson Lopes Ribeirol Literatural 25/06/2014 lAcessos: 17
    Profª Bia Senday

    Os períodos da educação brasileira, desde o jesuítico até a atualidade., de forma resumida e direta.

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 25/08/2014 lAcessos: 16
    Profª Bia Senday

    Também chamada de Fonoestilística, trata dos valores expressivos de natureza sonora observáveis nas palavras e nos enunciados. Fonemas e prosodemas (acento, entoação, altura e ritmo) constituem um complexo sonoro de extraordinária importância na função emotiva e poética, segundo Martins (2000).

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 25/08/2014
    Profª Bia Senday

    FRASE: veicula os valores expressivos em potencial nas palavras, as quais, somente nela, têm o seu sentido explicitado e adquirem seu tom particular – neutro ou afetivo.

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 25/08/2014
    Profª Bia Senday

    Na sintaxe, quem fala ou escreve escolhe entre os tipos de frase, de acordo com as regras gramaticais, mas esse processo é, sobretudo, uma atividade criadora e, portanto, pertence tanto ao domínio gramatical quanto ao domínio estilístico. A frase veicula valores expressivos em potencial nas palavras, que adquirem seu sentido explicitado e o seu tom particular – neutro ou afetivo.

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 25/08/2014
    Profª Bia Senday

    A língua portuguesa origina-se do latim, língua falada pelos romanos – povo ao qual invadiu a península ibérica no Século III a.C. Nesta época, povos como os fenícios e gregos ali habitavam. No século V d.C., povos germânicos (suevos, vândalos, alanos e visigodos) invadiram a Península Ibérica. Os visigodos passaram a dominar a região. Por fim, eles abandonaram sua língua e a adotaram o latim. No século VIII, a Península Ibérica sofreu a invasão dos árabes, ao qual dominaram-na por 700 anos.

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 25/08/2014
    Profª Bia Senday

    Fonologia, palavra que reúne dois radicais gregos significando "som" e "estudo", significa, portanto, "estudo do som". É a parte da gramática que se ocupa não de qualquer tipo de som, mas do som como elemento distintivo na língua, do som como fonema.

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 10/02/2012 lAcessos: 569
    Profª Bia Senday

    Antes de falarmos da língua portuguesa propriamente dita, falaremos um pouco do indo-europeu. O indo-europeu não é uma língua, como podemos dizer, atestada, pois não existe nenhum documento escrito que prove que ele tenha existido.

    Por: Profª Bia Sendayl Literatural 10/02/2012 lAcessos: 103
    Profª Bia Senday

    Polêmicas divulgadas na imprensa no decorrer do ano de 1922, quando um pequeno grupo de artistas e escritores, liderados por Oswald de Andrade e Mário de Andrade, difamava as nossas glórias artísticas ditas de "praça pública", em razão da imitação servil, ou, como era alardeado, da "cópia sem coragem e sem talento".

    Por: Profª Bia Sendayl Literatural 10/02/2012 lAcessos: 418
    Perfil do Autor
    Categorias de Artigos
    Quantcast