Análise Da Narrativa - Dom Casmurro

12/01/2010 • Por • 5,439 Acessos

Análise da Narrativa

1. Narrador e Foco Narrativo

Narrado em 1º pessoa por um narrador-personagem, que se coloca como escritor, a história de Dom Casmurro tem como primeira chave para tentarmos nos aproximar de seu enigma a própria figura deste que ao mesmo tempo a vive e relata.

Trata-se de um velho homem solitário, apelidado de Dom Casmurro, que por cansaço da monotonia em que vive, passa a relatar sua história. Outro ponto a ser mencionado, é o fato de seu narrador não ser confiável. Ele mente, distorce, confunde o leitor, com quem conversa ao longo da narração, anunciando a metalinguagem da literatura do século XX.

Machado adota um narrador unilateral, fazendo dele o eixo da forma literária, então inscrevia entre os romancistas inovadores, além de convergir com os espíritos adiantados da Europa, que sabiam que toda representação comporta um elemento de vontade ou interesse, o dado oculto a examinar, o indício da crise da civilização burguesa – como já fora citado anteriormente.

No romance, a dramatização do ato de narrar é um dos componentes essenciais do enredo e da vida do protagonista.

Tal dramatização consiste no seguinte: em vez de simplesmente escrever uma estória, Machado inventou uma personagem (um pseudo-autor) de quem nos é dado ver o ato de escrever o seu próprio romance.

O romance Dom Casmurro também pode ser entendido como uma auto-análise de Bento Santiago, sobrevivente único de uma estória de amor, com um final amargo: pois o mesmo julga-se traído pela amada esposa e pelo seu melhor amigo Escobar. Vários anos após a morte da esposa, ele decide escrever o livro para restaurar no presente o equilíbrio perdido no passado

O ponto de vista de Bentinho domina tudo na narrativa. Até mesmo os demais personagens que passam de projeções de sua alma. São lembranças do seu passado, que vão ressurgindo do subsolo da memória à medida que ele procura a reconciliação em si mesmo.

 

2. Linguagem

Em Dom Casmurro, Machado de Assis utiliza de alguns aspectos centrais na linguagem do mesmo. São reflexões metalingüísticas, as ironias às expectativas do leitor, as digressões. Através delas, o narrador nos revela, como se estivesse escondendo, não só os “bastidores” sombrios da personificação de Bentinho, mas também a própria arquitetura do romance.

Ao lermos o capítulo 59 encontramos:

 

“(...) nada se emenda bem nos livros confuso mas tudo se pode meter nos livros omissos (...) é que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher também as minhas”.

 

Esse fluxo é trabalhado literalmente ao longo do romance. Portanto, na linguagem de Dom Casmurro há reflexões metalingüística – sempre recoberta pela ironia se seu ritmo, se sua não linearidade, da presença de “reticências”.

 

3. O Espaço

No romance Machadiano, Dom Casmurro, o protagonista – Bentinho –viveu sua infância toda na Rua Matacavalos, em companhia se sua grande amiga, que era também sua vizinha.

Bento Santiago só vai sair de lá, para entrar no seminário – promessa de sua mão que não poderia ser quebrada – mas deixa lá em sua terra natal a sua mãe, o seu tio, e além de outras pessoas, seu grande amor, Capitulina.

Após sair do seminário, casa-se com seu grande amor, que era também sua grande amiga, e eles vão os dois juntos morar nos altos da Tijuca, na praia da Glória, mas fazem visitas freqüentes a Matacavalos, onde agora moram o pai de Capitu, a mãe de Bentinho, assim como parentes e o agregado.

 E é explorando cada uma dessas regiões, bem como as pessoas com quem conviveram e que interagem no enredo, que o livro é narrado, com emoção e riqueza de detalhes.

 

4. As personagens

Bentinho, quando ainda mais jovem, era um pouco mais baixo que Capitulina, não apresentando traços físicos definidos, revelava-se como um moço rico, mimado pela mãe, talvez, por isso, não tinha a mesma personalidade forte, espírito vivaz e iniciativa da amiga.

A priori, Bento Santiago se dividia entre o amor de sua mãe, e o amor de Capitu. Enquanto escreve o livro, também se divide, mas agora é entre o passado e o presente; acusando e louvando a já morta, Capitu.

Bentinho jamais pretendeu ser padre, mas fora sua mãe que o determinou a tal atitude. Seus planos eram de se casar, futuramente, com sua amiga e amada, Capitulina.

Depois de velho, e após tantas perdas, como a morte de seus familiares e amigos, passou a viver solitário e totalmente isolado. Ele mesmo afirma isso: “(...) uso louça velha e mobília velha. Em verdade, pouca pareço e menos falo. Distrações raras, o mais do tempo e gasto em horta, jardins e ler, como bem e não durmo mal”.

Quanto a Capitulina, apelidada de Capitu, no início da narrativa, estava com 14 anos, e um pouquinho mais alta que Bentinho, como já fora antes citado. Ela tinha os cabelos grossos negros e compridos até a cintura. Seus olhos eram negros e misteriosos a ponto de despertar no narrador a comparação com a ressaca do mar. Era esperta, inteligente, extrovertida e criativa. Foi ela quem pensou, primeiramente, em tomar atitudes quanto ao fato de Bentinho tornar-se padre. Após a entrada dele no seminário, ela passou a maior parte do tempo com D. Glória, e tornam-se muito ligadas.

O narrador-personagem, Bento Santiago, deixa transparecer nas entrelinhas um defeito de Capitu, que era o fato dela ser pobre.

Escobar era um rapaz polido de olhos claros e dulcíssimos – opinião de José Dias.

 

“A cara raspada mostra uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa,... era interessante de rosto, boca fina e chocarreira, o nariz curvo e delgado. Olhos claros, esbelto, era um pouco fugitivo, com as mãos,... com tudo”.

 

Escobar e Bentinho se conheceram no seminário e rapidamente tornam-se bons amigos. Ele, pelo fato que tinha facilidade com os números, sonhava ser comerciante e assim que abandonasse o seminário se dedicaria ao cultivo do café.

Ele era peça fundamental da trama, pois Bentinho pensava que Escobar e Capitu eram amantes.

José Dias, aquele o qual usava calças brancas engomadas, presilhas, rodaque e gravata de mola. Era muitíssimo magro, com um princípio de calva, e dedicado a família de Bentinho, até a morte. Ele era agregado em casa de D. Glória; apresentava-se como médico, mas não o era.

Já a mãe de Bentinho era D. Glória, que era muito religiosa, e já viúva.

 

5.  O Tempo

 

A narrativa decorre de uma forma chamada de flashback, o qual domina no romance não é o tempo cronológico, mas sim o tempo psicológico, o que se passa na lembrança de Bentinho, sendo assim, suas vivências e lembranças.

 

Perfil do Autor

Profª Bia Senday

Professora pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura.