"CHAPEUZINHO VERMELHO"
São tantos olhares e interpretações sobre essa estória narrada por Perrault e pelos irmãos Grimm que, às vezes, ela nos causa estranheza e questionamentos. Acredito que a análise da psicologia sobre "Chapeuzinho Vermelho" pode desvendar alguns mistérios que, aos olhos desatentos dos adultos, podem passar despercebidos. Quanto às crianças, a sua imaginação é livre para pensar e sentir as fábulas do jeito que elas quiserem.
Segundo Bruno Bettelheim (2007, p.236.}, no seu livro A psicanálise dos contos de fadas, "Todos os bons contos de fadas têm vários níveis de significados; só a criança pode saber quais aqueles que são importantes para ela no momento. À medida que cresce, a criança descobre novos aspectos desses contos [...]".
Aos adultos, não cabe dizer se é mentira ou verdade. SegundoShakespeare, na sua poesia "O menestrel", "[...] nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso [...]".
Este texto, que toma como referência teórica o psicólogo Bruno Bettelheim, analisa as simbologias presentes nas duas estórias, que foram narradas em momentos históricos diferentes. Perrault publica "Capuchinho Vermelho" no final do século XVII, e os irmãos Grimm no início do XIX, com a denominação "Chapeuzinho Vermelho". Aqui faço algumas problematizações: as diferentes narrativas, apresentadas em momentos históricos distintos, se dão por conta do modo de produção? Essas já teriam existido em momentos históricos anteriores e sofreram modificações, porém mantendo sua essência? A lenda tenta mostrar um perfil psicológico de um indivíduo ou de um grupo social?
São perguntas que demandam estudo e pesquisa para serem respondidas no campo da história, sociologia e antropologia. A psicologia, acredito, já fez a sua parte.
CHARLES PERRAULT, JACOB GRIMM E WILHELM GRIMM
Charles Perrault foi um francês nascido em Paris no início do século XVII, em plena Monarquia Absoluta, ou seja, da transição do feudalismo para o capitalismo. Perrault é filho do seu tempo em que a estrutura feudal é baseada numa economia agrária onde 90% da sua população vivia no campo. A sociedade francesa, na sua totalidade, era católica.
A vida no campo e com forte interferência da igreja eram ingredientes naturais para a liberdade de se imaginar história e estórias diversas. Perrault, poeta, advogado e escritor principalmente de contos de fadas, escreveu várias estórias como "Capuchinho Vermelho", "O pequeno polegar", "Barba Azul", "Cinderela", entre outras. Perrault fazia parte de uma ala de escritores que criticavam os literatos clássicos (gregos e romanos), achando que estes eram inferiores quando comparados aos escritores da sua época.
Tratando-se de outros escritores de fábulas, podemos citar Jacob Grimm e Wilhelm Grimm, os irmãos Grimmm, lembrando também que estes desenvolveram estudos na área da linguística, da história e do folclore. Nasceram na Alemanha feudal do século XVIII e, no começo do século XIX, começam suas publicações de estórias infantis oriundas de suas pesquisas com as narrativas populares que faziam parte da tradição oral da sociedade alemã. Sem sombra de dúvida, em minha opinião, eram historiadores, antropólogos ou etnólogos por conta dos seus estudos e pesquisas na cultura popular.
A Alemanha dos irmãos Grimm era agrária, dividida em feudos aos moldes da França de Perrault, ou seja, terra fértil para o imaginário social "fabricar" milhares de estórias que os irmãos Grimm registraram: "Branca de Neve", "Cinderela", "Rapunzel", "João e Maria", "Chapeuzinho Vermelho" e outras.
Diante do exposto, perguntamos: existem diferenças entre a estória de "Chapeuzinho Vermelho" contada pelos irmãos Grimm e a de Perrault? Quais os significados simbólicos presentes nessa história?
A estória que é contada pelos irmãos Grimm apresenta uma versão diferente mais branda, fugindo de um final trágico ou violento, se comparada à narrativa de Perrault. A narrativa dos irmãos Grimm apresentando um tom romântico, humanista, em que a vida precisa ser boa e vivida em paz, regada de amor ao próximo, presente nessa estória, não tem uma relação direta com a influência do Romantismo alemão presente no século XVIII, em contestação à racionalidade iluminista francesa? Jacob Grimm e Wilhelm Grimm, ao escreverem essa estória, já não eram influenciados por ares "civilizatórios" oriundos da burguesia em ascensão na Europa, que rompia com estruturas feudais em decadência? As diferentes narrativas em Perrault e os irmãos Grimm não são apenas textuais mas históricas, em que novos valores culturais e morais se forjam.
Quanto às imagens e aos símbolos presentes no "Capuchinho Vermelho", faz-se necessário ouvir a voz da psicologia. Ou seja, como podemos analisar essa estória a luz dessa ciência?
OS SÍMBOLOS
Perrault usa a palavra "Capuchinho".De onde vem esse termo? Qual a sua origem? Ela é oriunda da ordem religiosa de São Francisco de Assis surgida no início do século XVI na Itália. Os franciscanos usavam uma indumentária onde as suas cabeças eram cobertas por um capuz pontudo. Será que esse estilo de se vestir não migrou para a França, a ponto de se tornar uma "moda", principalmente nas classes sociais menos abastardas tão frequentadas pelos franciscanos?
"Capuchinho Vermelho": a cor vermelha, talvez símbolo do sexo, é uma questão que passa a tingir este conto. A personagem que traja a roupa vermelha traz uma simbologia de atração sexual de forma prematura, e o lobo representa uma metáfora. Ou seja, o que aconteceu foi uma relação íntima entre a neta e a avó, que, nos dias atuais, poderia ser chamada de pedofilia. Lembrando que a Idade Média foi marcada por um grau de repressão sexual fomentada pelos valores cristãos, o que desencadeou uma série de violências sexuais das mais diversas, inclusive dentro da Igreja.
Para o psicólogo Bruno Bettelheim (2007, p.240-241), "[...] o vermelho é a cor que simboliza as emoções violentas, incluindo as sexuais. O chapéu de veludo vermelho dado pela avó a Chapeuzinho Vermelho pode então ser visto como símbolo de uma transferência prematura de atratividade sexual, que é ainda mais acentuada pelo fato de a avó ser velha e doente, demasiado fraca até para abrir uma porta [...]" Ele sugere, Bettelheim, que não é só o chapéu vermelho que é pequeno, mas também a menina.
Segundo esse psicólogo, essa menina não está preparada para administrar toda a simbologia presente nesse chapéu, como também as dificuldades que ela absorve durante a sua ida para casa de sua avó. Em outras palavras, conviver com as mazelas da vida é uma tarefa nada fácil para uma criança. "A pessoa imatura, que ainda não está pronta para o sexo, mas é exposta a uma experiência que suscita fortes sentimentos sexuais, recai nas formas edípicas de lidar com ele. A pessoa só acredita então que possa vencer no sexo livrando-se dos competidores mais experientes – daí as instruções específicas que Chapeuzinho dá ao lobo para que este chegue à casa da avó. É como se estivesse dizendo: Deixe-me sozinha, vá ter com vovó que é uma mulher madura [...]. (BETTELHEIM, 2007, p.241).
Na verdade, a menina não estava preparada para isso, mas a avó, sim. Nessa lenda, encontramos também valores educacionais presentes na relação mãe e filha, como a confiança depositada pela genitora de "Chapeuzinho Vermelho", ao permitir que ela vá ao encontro da sua avó sozinha, porém fazendo uma serie de recomendações, necessárias a uma criança: "Comporte-se no caminho, e de modo algum saia da estrada, ou você pode cair e quebrar a garrafa de vinho e ele é muito importante para a recuperação de sua avó [...]".
Na linguagem, fica expressa a necessidade da obediência, caminhar sempre na direção certa ditada pelos mais velhos, pois o contrário a levaria a graves erros e riscos, como conversar com estranhos. Porém a estrada seguida por Chapeuzinho pode significar aprendizado nas suas relações com terceiros, que podem ser boas ou não.
O lobo, ao aparecer, pergunta:"Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas?". E ela responde: "– O das agulhas". O alfinete pode ser o caminho mais curto e o outro, o mais longo, deixando "chapeuzinho" em desvantagem. O lobo tem o poder da palavra, do convencimento, um jogador da maldade que usa de toda sabedoria para seduzi-la:
– Escute Chapeuzinho, você já viu que lindas flores há nessa floresta? Por quê você não dá uma olhada? Você não está ouvindo os pássaros cantando? Você é muito séria, só caminha olhando para frente. Veja quanta beleza há na floresta.
O lobo não é um lobo e sim o homem, que é o lobo do homem ainda não conhecido pela menina. A relação menina e lobo talvez seja um ritual de iniciação no mundo adulto. Chapeuzinho, ao sair do seu lar protetor, passa a conviver com uma realidade com a qual ela ainda não sabe lhe dar.
Em Perrault, o final da história é assombroso, trágico, o lobo come as duas. Parece que ele tentou punir toda e qualquer criança que não obedece a seus pais, sem direito a outra chance.
Na opinião de Kehl (1987, p.470-471), o conto [...] parece uma tentativa de fornecer um continente para algumas paixões ameaçadoras – a crueldade, a violência, a fome (que não é uma paixão mas pode mobilizar paixões intensas), a sexualidade incestuosa (o que é que este lobo/avó representa?) etc. De alguma forma, trata-se de uma lenda civilizadora, pois as civilizações são construídas sobre a matéria bruta das paixões; são tentativas de se estabelecer os domínios, de se dar formas as paixões [...].
A professora Maria Rita Kehl, no seu texto A psicanálise e o domínio das paixões analisando a estória, segundo Perrault, prefere olhá-la dentro de uma perspectiva dos sentidos das paixões, que é capaz de "Comer a carne e beber o sangue da sua avó!".
Uma paixão descomedida (entre neta/avó), antropofágica, não por falta de alimentos ou fome, mas por falta de racionalidade. Os gregos não estabelecem diferenças entre amor e sexo e, sim, entre o homem seguro de si, aquele que usa a razão, e o homem que é escravo do prazer (que usa apenas a paixão). Ou seja, a paixão entre elas não tem limites e termina por apresentar um quadro psíquico doentio.
Existem diversos olhares ou interpretações sobre "Chapeuzinho Vermelho".
Nos irmãos Grimm, os caçadores salvam chapeuzinho e a avó e punem o lobo. Isso significaria que o bem sempre vence o mal, possibilitando à menina um repensar dos seus atos, para que ela veja a importância da orientação familiar e, assim, não incida no erro. O ato dos caçadores, ao abrirem a barriga do lobo, não aparece como um ato violento para as crianças e, sim, como um propósito positivo e salvador para os desobedientes. Todos têm direito a outra oportunidade.
Renascer nessa estória significa não ser estático, mas acreditar na possibilidade de mudanças no aspecto comportamental, social, histórico e cultural. Os modos de vida não podem e nunca foram invariáveis, e os irmãos Grimm, na sua estória sobre Chapeuzinho Vermelho, demonstram isso, afastando-se assim de Perrault em vários aspectos. Em Perrault, essa lenda "[...] recai sobre a sedução sexual, na história dos irmãos Grimm se dá o oposto. Nela, nenhuma sexualidade é direta ou indireta mencionada; ela pode estar sutilmente implícita, mas, essencialmente, o ouvinte tem de prover a idéia para facilitar sua compreensão da história [...]" (BETTELHEIM, 2007, p.244).
CONCLUSÃO
A minha formação em História não me permite penetrar em um campo que focaliza o comportamento individual humano, com uma análise apurada, que cabe de fato a psicólogos ou psicanalistas, por isso mesmo faço algumas citações, principalmente de Bruno Bettelheim, que é um estudioso no assunto.
Percebemos, de tudo que foi exposto, que o conto apresentado por Charles Perrault, Jacob Grimm e Wilhelm Grimm não deve ser analisado apenas à luz da psicologia e, quando se coloca um foco denso na sexualidade, termina por ofuscar – é uma percepção minha – a história, a sociologia e a filosofia. Faz-se necessário olharmos o contexto histórico, social, econômico e cultural em que essas lendas foram construídas, para termos uma visão melhor do objeto em questão. A minha preocupação é que os pesquisadores que trabalham com narrativas populares desistorizem o objeto, colocando assim o positivismo ou o idealismo como método de análise da realidade.
"Chapeuzinho Vermelho" faz parte da cultura popular, estando presente em diversos momentos da História, com narrativas próprias, com características diferentes, simbologias diversas, com formas de pensar e sentir especificas, como também apresentando nome próprio em cada época.
REFERÊNCIAS
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
CARDO, Sérgio et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
Capuchinho Vermelho. Disponível em:http://pt.wikipedia.org/wiki/Capuchinho. Acesso em: 9 ago. 2010
KEHL, Maria Rita. A psicanálise e o domínio das paixões. In. Cardoso, Sergio (org). São Paulo. Companhia das Letras. p 1987, p.470-471
SHAKESPEARE, William. O Menestrel. Disponível em: http://cindyriko.blogspot.com.Acesso em: 9/ 08/ 2010.
Perguntas e Respostas
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O que uma mulher é capaz de fazer quando é abandonada pelo homem que ama? Pode uma criança ser inocente e vilã ao mesmo tempo? Qual a capacidade de um homem preconceituoso e intolerante para infligir o mal? O que há por trás das intenções de cada pessoa, em seus sorrisos e palavras?
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