Criação de Personagem Tipo para Teatro de Rua - Os Atores

07/07/2011 • Por • 165 Acessos

Os Atores


A Commedia dell'arte teve sua imagem mais propagada, como a de ser um teatro marginal e ao mesmo tempo maravilhoso. Em sua humildade escondia tesouros que se forem bem compreendidos ao serem reutilizados se tornarão preciosos. Esse teatro advindo do popular foi feito por atores geniais. "Foi um teatro do mais alto profissionalismo cênico europeu" (Taviani,1996/97, p.18).

As companhias traziam, entre outras coisas, a novidade do ator profissional, fazendo dele uma figura importante. Estes atores eram submetidos a uma forte disciplina. Dedicavam-se totalmente a seus personagens e o interpretavam pela vida toda.

Era um teatro de atores e de atrizes, o que era novidade na época. As atrizes se integraram às companhias logo no inicio, por volta de 1560. Elas não faziam rir, "eram profissionais educadas na literatura do amor. Tinham a mesma cultura de ‘prostitutas decentes'." As prostitutas decentes não eram simples prostitutas. Elas recebiam e divertiam ilustres hóspedes com canto e dança. Recitavam poesias italianas, latinas e inclusive gregas, improvisando versos e canções. (Taviani,1996/9, p.4)

Na metade de 1500 a Itália já apresentava as raízes do Concílio de Trento. Foi quando começou a moralização dos ambientes. A profissão de ‘prostitutas decentes', que eram em grande número, entra em crise.

"Estoura então a mudança, o fenômeno das atrizes: também elas exibiam, de maneira profissional, cultura e poesia amorosa, sentimentos platônicos ou seduções eróticas, dança e canto, mas não vendiam nada diferente que o espetáculo."(Taviani,1996/97, p.4)

O cômico dell'arte era uma fusão de ator, autor, diretor, bailarino, malabarista e coreógrafo. Eles tinham que organizar a representação em função do grupo e utilizar o espaço de forma sempre renovada. Para tanto é necessário pleno domínio corporal e " a arte de substituir longos discursos por alguns signos gestuais"(Pavis,1999, p.61).

O caráter único e espetacular da Commedia deve-se a forma revolucionária de se fazer teatro e pelo papel absolutamente único assumido pelos artistas. Não deve-se somente pelo uso das máscaras e pelos personagens estarem  em estereótipos fixos, como acreditam alguns.

Eram chamados de atores histriões, pois eram autores, diretores, montadores e fabulistas. Iam do papel de escada ao de protagonista espontaneamente. Não surpreendiam apenas o público como também os outros atores participantes do jogo. De acordo com Fo, de tudo isto é formado um ator histrião.

Apesar da exaltação de alguns teóricos em relação à Commedia dell'arte, ainda existem intelectuais que a desprezam. Afirmam que eram miseráveis, incultos, alguns semi-analfabetos, cafetões e saltimbancos. Desprezados pelos cidadãos honestos, só podiam ocupar feiras e festins de senhores, em que no final eram desprezados a chutes, como as prostitutas.

Dario Fo (1998), um dos grandes exaltadores do movimento, recebe essa postura como ignorância generalizada. Segundo o autor existiam companhias charlatães que viviam dessa forma, mas isso era limitado. Na verdade, "o teatro da Commedia, aquele que se refletiu na história do espetáculo de toda a Europa durante aproximadamente três séculos, foi construída por um grupo de pessoas cultas, bem preparadas e de gosto moderno" (p. 26).

Taviani (1996/97) nos revela esta preparação cultural dos atores dell'arte, ao citar Andrea Perrucci:

"Mais do que transmitir sua própria experiência, se preocupavam por enobrecê-la. Assim por exemplo, o sistema pelo qual os atores profissionais recorriam aos livros de imagens, frases e notícias para inseri-las nos diálogos da comédia, o sistema pelo qual eles estudavam distintas maneiras de entrar e sair de cena, de saudar, de brigar, de fazer cumprimentos, de dizer frases de duplo sentido, se converteu, na conclusão de Perrucci, num conhecer de figuras retóricas, muitas e toda a arte retórica." (Taviani,1996/97, p.11)

De acordo com Taviani a afirmação de Perrucci nos confirma que a improvisação dos cômicos era resultado de um preparo. Consistia em um acúmulo de acontecimentos e fragmentos que eram montados e remontados continuamente. De forma sempre nova e composto rapidamente, o espetáculo exigia atores com longo e lento adestramento.

O conjunto de conhecimentos adquiridos pelos cômicos era composta de inúmeros recursos. Com seu grande sentido de timing, construíam seus espetáculos com um incalculável número de situações, gags e diálogos. Por ter tudo em sua memória bastava que as utilizassem no momentos certo, dando a impressão de estarem criando no momento. "Era uma bagagem construída e assimilada com a prática de infinitas réplicas, de diferentes espetáculos, situação acontecidas também no contato direto com o público"(Fo,1998, p.17).

Dessa forma a improvisação dos atores se caracterizava pela dramaturgia do ator. O que acontecia era uma composição dramaturgica realizada pelos próprios atores, a partir de uma divisão prévia de trabalho. Esta capacidade de criar dramaturgicamente all'improviso provinha de sua capacidade de compor precisamente seus papéis. Assim não falamos precisamente de improvisação, e sim de dramaturgia do ator. (Taviani,1996/97, p.18).

Luigi Riccoboni, em sua Historie du theatre italien, afirma que o inconveniente deste tipo de comédia é que ela necessita que os atores estejam mais ou menos no mesmo nível de habilidade. O espetáculo depende unicamente do talento dos atores (apud Taviani, 1996/97,p.16).

Se o ator dialoga com um companheiro que não sabe captar com precisão o momento em que deve dizer sua frase ou com um ator que interrompe incorretamente, todo o discurso enfraquece e toda a vitalidade de seus pensamentos se sufoca.(Taviani,1996/97, p.16)

Jean-Augustin-Julien Desboulmiers descreve como se dava o jogo de improvisação nas cenas e o que trazia a naturalidade. (apud Taviani, 1996/97, p.17)

Suponhamos que dois atores se encontram em cena: cada um leva consigo o caráter de seu próprio personagem e a situação em que se encontra nesse determinado momento. Tanto um como o outro estão no mesmo ponto da ação, porém são obrigados a responder mutuamente de maneira sensata e que tenham a ver com a necessidade, com os mesmos argumentos, devem abandonar uma e outra vez, o caminho que cada um havia escolhido por sua conta, premeditado, para responder a aquele que o outro queira seguir: isto é o que imprime a cena uma naturalidade e uma verdade que o melhor dos escritores alcança em muitas poucos ocasiões. (Taviani,1996/97, p.17)

A improvisação da Commedia dell'arte difere-se então do que na cultura ocidental entende-se por improvisar. Na nossa cultura improvisar é variar pessoalmente sobre uma obra dramatúrgica. A improvisação na Commedia consistia em unir as informações necessárias, alternar sua seqüência prevista e dizê-las com naturalidade.

Quando iniciaram suas excursões pela Europa a dificuldade de comunicação levou ao extremo a utilização dos lazzi. O grammelot[1] também foi um dos recursos muito utilizados.

Mas nem tudo era perfeito. As confusões também eram freqüentes. Aconteciam: perda de ritmo; congestionamento de piadas; girava-se em torno do nada; o espetáculo ficava enjoativo; etc. Nas apresentações a cumplicidade era algo muito importante. A cumplicidade entre os cômicos e entre os cômicos e o público.

Imprevistos também aconteciam, e não eram desconsiderados. Na tradição da Commedia, insere-se o incidente, a exploração dos acontecimentos inesperados, assim como os tipos e a improvisação. Todos estes recursos criados pela Commedia dell'arte foram a grande contribuição dos cômicos deixadas para o aprimoramento do ator. Por isso foi considerada o primeiro grande laboratório do ator moderno.

"Esse ator resultante de um processo evolutivo e nascido das manifestações espontâneas do popular vai de imediato contagiar outros povos. Na França, onde condições de vida eram mais estáveis com o crescimento de Paris como capital, o ator parece ter alcançado melhor posição social."(Carvalho,1989, p.45)

Todos os segredos dos cômicos, todo seu estudo e a maneira como faziam eram passadas de pai para filho dentro das próprias companhias. Os atores imortalizavam seus repertórios em cadernos de anotações denominados Zibaldoni. Neste livrinho continha tudo que tivesse sido experimentado em cena e obtido êxito. Estavam registrados todo o seu repertório, de piadas a truques. Este material era respeitado, colecionado e colocado a prova. Dessa forma ocorreram as fixações dos tipos por séculos.

Em um manuscrito de Dominique Biancolelli, encontrado por Thomas-Simon Gueullette, este descrevia seu trabalho. Biancolelli  resumia sua forma de compor os papéis (por ele mesmo representados) de Arlequim nas diferentes comédias italianas. Ele descrevia o que Arlequim devia dizer em cada momento. Algumas vezes suas anotações descreviam palavra por palavra e a maneira certa de dizê-las para suscitar o riso (apud Taviani, 1996/97, p.11).

O comportamento de cena de Arlequim também era exposto minuciosamente . Haviam exemplos de lazzi, quais gags usar em certo ponto do texto. Biancolelli recriava seu papel todas as noites, assim como recriava continuamente um papel que já fora feito por outros. Após a morte de Biancolelli o papel passou a ser continuamente recriado por Evaristo Gherardi. Gherardi fez uso das anotações de Biancolelli mas não de todas. 

"Era sua vez de compor seu rol em cada comédia.(...) Os espectadores viam a mesma comédia que haviam visto dezenas de vezes com Biancolelli. Viam que Arlequim fazia contudo viam algo novo. Diziam que ‘improvisava'."(Taviani,1996/97, p.19)

No século XIX a Commedia desaparece por completo, deixando sua bagagem cênica aos que souberem aproveitá-la. "A formação de seus atores tornou-se modelo de um teatro completo, baseado no ator e no coletivo, redescobrindo o poder do gesto e da improvisação" (Pavis,1999, p.62).                  

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[1] Grammelot é uma palavra de origem francesa, inventada pelos cômicos dell'arte e italianizada pelos venezeanos, que pronunciavam gramlotto. Apesar de não possuir um significado intrínseco, sua mistura de sons consegue sugerir o sentido do discurso. Trata-se, portanto, de um jogo onomatopéico, articulado com arbitrariedade, mas capaz de transmitir, com o acréscimo de gestos, ritmos e sonoridades particulares, um discurso completo. (Fo,1998, p.97)

Perfil do Autor

Camila Prietto

Camila Prietto é atriz há quinze anos e integrante da Cia. Truks de Teatro de Bonecos há seis anos. A autora teatral com alguns textos...