1ºActo
Cena 1
O batizado de Damiano. Estão presentes o próprio, o Padre, o Pai, a Mãe e o Avô. A discordância acerca do nome a dar à criança é tanta, que o Padre começa já a apresentar sinais de impaciência.
Padre (Sarcástico e aborrecido)
Que nome darás a esta criança ?
De preferência ainda este ano.
Pai
Que não há qualquer engano,
Miano se combinou, se chamará Miano.
Padre (Olhando a criança e respirando de alivio)
Vou então prosseguir...
Mãe (Interrompendo bombásticamente, referindo-se ao marido)
Que não se fique ele a rir,
Miano é que não há-de convir.
Pai (Irritado)
Ouve lá, minha desavergonhada.
Já não basta estarmos casados,
aturar-te embriagada
e fingir que não estamos zangados!
Mãe
Miano é nome de cão.
Pai (Colérico)
Ai que levas um chapadão...
Avô (Confuso)
Macarrão ?
O senhor Padre também alinha ?
Padre
Meus filhos, pela criancinha,
pelo Divino...
Pai (Impetuosamente)
Não se arme agora em fino.
Mãe
Porquê Miano ? Que desatino.
Pai (Explicando)
Mi de Michelle, que sou eu,
Ano de Anolinni, meu bisavô que faleceu.
Mãe
Só por isso ? Pensamento insano.
Pai (Grita virando-se para o Padre)
Mi de Michelle, Ano de Anolinni.
Junto dá Miano.
Padre (Distraído mas definitivo)
Damiano de Ciccillanti
io te batizzo, i nome dil Padre, dil Fillo
i dil Espiriti Santi.
Cena 2
Em casa, Michelle de Ciccillanti, a mulher, o filho (agora chamado Damiano), o Avô e o Padre, festejam a ocasião com um belo almoço.
Mãe (Intrigada)
Ouve lá meu teimoso
de onde vém este nome ?
Avô
Não chames o homem de presunçoso,
Pai (Mudando de assunto)
Que me diz então Prior,
vamos ao calccio, daqui a pouco ?
Padre
Pois saiba o senhor,
sou muitas coisas. Não sou louco.
Mãe (Acusadora apontando o marido)
Vês, Vês.
Ai senhor Padre, fosse ele assim.
Já levou porrada este mês.
Pai (Olhando a mulher de soslaio)
Ouve lá, desgraçada. Isso é pra mim ?
Padre (Continuando a conversa, triste e saudosista)
O que lhe falo é de violência.
Tém visto algum jogo ultimamente ?
Uma tristeza, uma demência,
nem um pontapé... Como antigamente
Pai
Tém razão, tém razão.
Olhe, bem não sei,
mas o culpado da situação
parece ser o tal de Fair-Play.
Mãe (Olhando Damiano)
Meu lindo filho,
que sejas, de quem aos seus não sai..
Porque cá em casa para empecilho,
Já me basta o teu pai.
Damiano (Dizendo a primeira palavra, amorosamente)
Desgraçada.
(E com isto dá à sua mãezinha um lindo murro)
Pai (Emocionado)
O puto não é burro.
Que grande cacetada.
Que me diz Prior, tém bom murro ?
Padre (Benzendo-se)
Mio Signore,
que alegria.
Um Bravissímo Calcciatore
(A ultima frase é pronunciada em tom profético)
Cena 3
À noite no quarto, Michelle tenta fazer as pazes com a mulher, utilizando para isso os todos seus dotes de D. Juan.
Michelle (Com ternura)
Minha esposa adorada,
queria que me ouvisses.
Mulher
Não me venhas com bacorada,
que eu não vou em pieguices.
Michelle (Ainda com mais ternura)
Minha ragazza
me queres matar do coração ?
Sabes bem que cá em casa
mandas tu e eu não.
Mulher
Posso então eu comandar ?
Michelle
O que quiseres, se não for muito.
Mulher
Armas-te em bruto ?
Michelle
Minha querida bambina,
Maltratas-me mais uma vez ?
Mulher
Deixa-me mas é apagar a lamparina
e dorme. Só conto até três.
Michelle
Não vês que és o meu lume.
Mulher (Quase a cair na lábia do marido)
Lá me convences com o costume.
Avô (Acorda a gritar, depois de ter tido um pesadelo)
Ai que me queriam levar.
Michelle (Espumando de raiva)
Oh velho duma figa, vou-te já calar.
Mulher (Esbofeteia o marido)
Damiano (Acorda e chora)
Mulher (Ordena ao marido, estarrecido com a agressão)
Vê se ficas resoluto,
vai ver o velhote,
muda a fralda ao nosso puto,
senão levas um grande pinote.
(Olha o marido esperando resposta)
Michelle (Acena positivamente com a cabeça, esfregando a cara com a mão)
2ºActo
Cena 1
Damiano abandona a prática do Calccio aos 33 anos. No momento comunica-o à massa associativa com um discurso, no final de mais uma vitória.
Damiano
E é como lhes digo,
nesta breve conversação.
A vós que estais aqui comigo
me despeço com emoção.
Ser Calcciatore foi meu sonho
Também foi esse o meu fado.
E o ponto final que aqui ponho,
não é por estar aleijado
Estou feliz, estou rico, estou inteiro
e agora recordo quem fui ali.
Adeus meu povo companheiro,
Adeus, até sempre, arrivedercci.
Assistência (Em euforia grita o nome de Damiano)
Damiano (Retira-se chorando,e aproxima-se do padre, seu empresário)
Pronto acabou. Calccio nunca mais.
Que Deus me ajude.
Padre
Pensa bem, nunca é demais.
Com umas liras talvez tudo mude...
Damiano (Indignado)
Padre que dizeis ? Que queres que faça ?
Padre (Assumindo postura etérea)
Meu filho, a memória é curta...
Damiano
E eu com isso. O que se passa ?
Padre (Atrapalhado)
É que ouve uma permuta.
Afinal tua mansão,
não é tua. Houve aldrabão...
Damiano (Imperturbável)
Ora adeus, meu bom Prior
tenho as terras, que estão aradas...
Padre
Foram todas confiscadas.
Damiano
E a conta na Suiça ?
Padre (Encolhendo os ombros)
Não a abri. Foi por preguiça.
Damiano (Pondo as mãos na cabeça)
Estou então arruinado.
Padre (Fazendo o sinal da cruz)
Pobre, mas abençoado.
Damiano
Fico então em estado precário.
Padre
Que não te fiques pelo ócio.
Lembras-te do teu tio, o Boticátio ?
Pois deixou-te o seu negócio.
Damiano (Levantando a cabeça e passando a manga do casaco pelo nariz)
Que assim seja eu, pelintra por cá.
O passado passou, só no presente existo.
Como Calcciatore a História me esquecerá,
Como Boticário na História serei escrito.
(Sai abanando a cabeça)
Cena 2
Faz já algum tempo que Damiano se tornou no Boticário das redondezas. De muitos lugares, chegam pessoas esperançosas, aguardando uma cura para os seus males. Em casa Damiano vive com sua velha mãe, já que a mulher fugiu com o Padre, que enganou o pobre calcciatore.
Damiano (Fazendo um pequeno embrulho)
Para a dor de garganta,
fume a erva que lhe vendo.
Cliente (Desconfiado)
Para quê tanta ?
Damiano
É como S.Tomé ? Acredita apenas vendo.
Digo-lhe que é boa
e porque se assoa,
leva também um bagacinho.
Cliente (Interpelativo)
E não me faz um descontinho ?
Mãe (Gritando da cozinha)
Damiano, vém jantar.
Damiano (Soprando descontente)
Mãe, não vê que estou a trabalhar.
Mãe
A papinha já está pronta.
A mamã vai dar-te à boca.
Cliente (Perguntando baixinho)
Sua mãe está tonta ?
Ou apenas louca.
Damiano (Despachando o cliente)
Pague mas é a conta.
(Sai o cliente e entra a mãe de Damiano)
Mãe (Olhando Damiano e confundindo-o com o falecido marido)
Michelle meu maroto,
mas tu não estavas morto ?
Damiano (Agastado)
Sei que a sua vida é um tédio,
mas pra isto não dar pró torto,
vá tomar mas é o remédio.
(E vai empurrando a mãe para a cozinha)
(Nisto chega um novo cliente)
Cliente
Ò de casa, quem me atende
que eu pago em bom dinheiro.
Damiano (Colocando-se atrás do balcão sem olhar para o cliente)
Digo-lhe já, que aqui aprende,
a saude vém primeiro.
Cliente (Não responde)
Damiano (Olhando em frente e reconhecendo o cliente)
D.Francesco de Bililli
Cliente (Empertigando-se todo)
Damiano (Fazendo uma vénia)
Queira dizer o que deseja,
basta somente e só mandar.
Cliente
Minha esposa D. Breteja
pede que a vá lá consultar
Damiano (Arrumando um pequeno saco para levar)
De que se queixa sua esposa.
Cliente
Diz que é de qualquer coisa.
Damiano (Sorrindo)
Lá passarei mais à tardinha
Cliente (Saindo e lembrando ao Boticário)
E depois faça o favor,
de entrar pela cozinha.
Cena 3
Damiano visita D. Breteja e depressa cura sua indisposição. No momento conversam os dois sobre a fisioterapia mais adequada a tais doenças.
Damiano
D. Breteja lá saberá
a que mais lhe vai convir.
D. Breteja
É que me custa decidir.
Damiano (Matreiramente)
Talvez se Vossa Excelência,
fizesse mais uma experiência.
(D. Breteja vai responder, quando é subitamente interrompida por uma criada)
Criada (Nervosa)
Ai senhora peço perdão
D. Breteja (Ofendida)
Como ousaste entrar assim ?
Criada
É D. Franscesco, o patrão,
que me pôs nesta aflição.
D. Breteja
Ai de mim.
Estes passos que estou a ouvir.
Criada
São os dele que vém a subir.
Damiano (Dando um salto e olhando em volta)
Criadita chega aqui,
Vês aquele tabuleiro.
Vai buscá-lo para aqui.
D. Breteja (Assustada)
Fugi primeiro.
Damiano (Puxando dois bancos para junto do tabuleiro de xadrez)
Sente-se a senhora desse lado
e ponha um ar preocupado.
(E dirigindo a palavra para a criada)
E tu sem emoção
finge olhar-nos com atenção.
(A porta abre-se e entra D.Francesco)
D. Francesco (Escandalizado)
Que vejo eu, São Santuário,
Jamais vivi momentos piores.
Quase nu está o Boticário
e minha esposa em trajos menores.
Damiano (Levantando-se do seu banco e dirigindo-se para D. Francesco)
Meus parabéns aqui e agora.
Pois já lhe digo que nunca vi
na minha vida tamanha jogadora.
D. Breteja (Esfrega as mãos fingindo-se vitoriosa, quando na verdade o faz para as tentar aquecer)
D. Francesco
Mas então...
Damiano
Qual então,
