Iracema: Uma História Do Novo Mundo

Publicado em: 03/05/2008 |Comentário: 1 | Acessos: 11,395 |

IRACEMA: UMA HISTÓRIA DO NOVO MUNDO

Com objetivos bem definidos, guiado por motivos muito claros e concretos, José de Alencar idealiza e escreve Iracema ( 1865 ). Esta não é uma obra isolada, fora de contexto ou nascida do sopro maravilhoso de alguma musa inspiradora. Faz parte de um grande projeto intelectual.
Naquele momento histórico, os intelectuais brasileiros, assim como muitos outros americanos, estavam procurando o rosto, a alma da nação. Os traços desse espírito coletivo e indefinido precisava ser delineado. Era necessário criar o espelho no qual os povos do Novo Mundo pudessem reconhecer-se.
Duas culturas estavam em evidente choque: a do colonizador e a do indígena. A História estava sendo escrita a cada instante, como resultado direto daquele confronto.
Na tentativa de esboçar esse sentimento, essa noção de pátria, os intelectuais descobriram uma realidade inegável: não existia um lastro cultural e, nas regiões onde o desenvolvimento indígena tinha sido significativo, aquilo que existia não era suficiente para definir o rosto da nova nação. Os brasileiros, os americanos em geral, deparavam-se com a dura verdade: eram mais europeus que indígenas.
O grande projeto de José de Alencar, dos indianistas em geral, era criar uma base cultural, um lago-espelho que refletisse a alma e o rosto do povo brasileiro. Assim, ele constrói uma obra que se transforma na melhor expressão da literatura indianista.
Em Iracema, existe uma mitificação da história, um toque épico, que populariza a obra, permitindo que o leitor se identifique com ela.
O autor, num claro esforço para fundamentar historicamente seu trabalho, movimenta-se em dois planos. Por um lado, temos uma narração linear, onde as personagens vivem, amam, lutam, sofrem e morrem, rodeados por um ambiente exuberante, mágico, natural, colorido como só na mãe pátria pode existir. Por outro, no rodapé, e não menos importante, o autor insere notas que fundamentam e justificam fatos, palavras, expressões. Está resgatando, criando, nessas notas, a linguagem de um povo. Não é um processo muito claro. Em alguns casos, como no nome Iracema, existe um pensamento europeu levado para a linguagem indígena e forçando a criação da nova palavra.
Essas notas cerceiam, em muitos momentos, a liberdade de leitura e interpretação. Podemos ignorá-las e partir para as peripécias, aventuras e desventuras das personagens ou aceitar o jogo do autor e intercalar a leitura das notas. Com certeza serão duas leituras completamente diferentes.
Interferindo no prólogo, durante a narração e depois do texto, José de Alencar parece temer por uma interpretação errônea da história. Com isso, ele reconhece a incapacidade do seu texto para defender-se e caminhar sozinho pela imaginação do leitor.
Iracema, “lábios de mel”, será o modelo de mulher para a pátria brasileira. Mais que indígena, ela parece responder a conceitos europeus, apesar de estar revestida com elementos próprios do solo americano. Ela é descrita dentro dos padrões que a nossa cultura cristã e ocidental determinam, tanto no sentido ético como no estético. Mesmo assim, ela serve como catalisador das características que irão definir a brasilidade.

A história serve como cenário para legitimar algumas ações e para criar, principalmente, aproveitando o choque de culturas, o suporte de uma cultura brasileira.
De acordo com o ângulo focado podemos chegar a uma interpretação ou, mudando o foco, a outra totalmente diferente. Para começar, Iracema é um anagrama de América, conforme já havia sido dito por Ribeiro Couto, com toda a carga de simbolismos que possa ser imaginada. Iracema (América) no seu primeiro encontro com o conquistador Martim, tem uma reação defensiva que, rapidamente, transforma-se em arrependimento perante a cordialidade do invasor. Nesse preciso instante, começa a submissão de Iracema e de toda uma raça. A vitória da raça branca sobre os índios será só questão de tempo, principalmente devido ao poder militar e tecnológico que os estrangeiros tinham. Mas a entrega pura e simples, sem tentar lutar, transforma o ato da conquista num momento de humilhação, de degradação.
Entre Iracema e o homem branco surge uma atração que, pouco a pouco, desviam a virgem, servidora de Tupã, do seu caminho, do seu destino. Ela acaba negando sua raça, religião, cultura, participando, por omissão, da morte dos seus irmãos, submetendo-se ao desejo do homem branco, enganando a confiança do seu povo, aceitando passivamente as normas de uma cultura estranha. Gerando um filho, Moacir, que será a culminação dessa união, não muito eqüitativa, pois a todo instante prevalecem as necessidades, prioridades e desejos de Martim. Cumprida a sua missão, morre.
Os outros indígenas estão fadados à morte ou à submissão, a dobrar os joelhos e aceitar a força e a persuasão do invasor. Alguns deles, como Poti, o pitiguara amigo de Martim, muda até o nome, passando a ser chamado Antônio Felipe Camarão. Esse novo nome segue uma norma: o nome do santo do dia (Santo Antônio), o nome do rei ao qual servirá (Felipe) e a tradução de seu nome nativo (Camarão).
Mas, apelando ao seu romantismo, José de Alencar mostra indígenas bonitos, principalmente quando fala de Iracema, saudáveis, cheios de energias e em perfeita comunhão com o seu meio ambiente.
Iracema é apresentada como modelo de feminilidade, de beleza, confundindo-se com a exuberante natureza. Só perde sua rebeldia, sua coragem, sua agressividade quando está com o seu amado. Ele consegue dominar seus impulsos, seu pensamento. Iracema perde seu poder de decisão, sua liberdade de agir e de pensar.
Martim é apresentado como o símbolo do homem cordial, o gentil conquistador de terras e corações, que fraternalmente toma conta de tudo
As peripécias do casal podem, perfeitamente, simbolizar a ação da conquista da América. Com a cruz e a espada, com a cordialidade e a agressividade, tudo dosado e calculado, o branco tomou posse da terra, destruiu culturas, arrasou comunidades inteiras e tentou vender a imagem de que tudo não passava de um esforço de evangelização e civilização.
Nessa relação homem-mulher, Iracema (América) passa de um papel protagonista para uma atuação secundária, resignando-se a ser a esposa fiel, obediente e submissa, cumprindo religiosamente com seu papel de mulher ocidental, sofrendo no momento da maternidade, mas fazendo tudo para dar ao seu amado o herdeiro.
Essa transformação de Iracema é dolorosa. Ela vive vários dilemas, todos eles tendo como centro o homem que ama.
Há, em toda a obra, uma clara desumanização do índio, respondendo em muitos momentos a arquétipos. Percebe-se, também, um claro maniqueísmo, um jogo no qual os índios que resistem são maus, sanguinários, mal-intencionados e sempre prontos para agredir e destruir tudo aquilo que existe de bom na civilização.
Encontramos em Iracema, diversos elementos que, no futuro, funcionariam como rótulos para a população indígena. Parece que as sementes que destruiriam, humilhando e maltratando, as comunidades indígenas, foram lançadas já no primeiro encontro entre conquistadores e conquistados.
Moacir, filho da dor, o primeiro cearense, será como uma síntese do encontro desses dois povos diferentes. Essa miscigenação, que alguns consideram um fator negativo, será uma característica marcante em todas as nações americanas, com maior ou menor incidência, dependendo da região.
A mulher, mesmo fantasiada de índia selvagem, é dócil, submissa, consciente da sua função de reprodutora e do papel secundário que lhe restou.
O branco, superior, preparado, cristão cordial e elegante nos seus gestos, é o lado positivo, o lado iluminado.
O índio é inferior, caiu antes mesmo de lutar; deve acatar, obedecer aos mandamentos dos conquistadores, sucumbindo e aceitando, quase sem resistências, o domínio, a cultura, a religião e os costumes estrangeiros. Além de ceder suas terras, entregar sua alma. Moacir , mameluco, não é branco nem índio, será a base de uma nova raça, de uma pátria incipiente que tenta criar sua história.
É injusto que hoje, comodamente instalados numa ponta do tempo, com muita informação e perspectiva, julguemos, condenando ou não, o projeto ambicioso e arrojado, para aquele momento de José de Alencar e outros autores. Devemos lembrar que, com exceção da deslumbrante natureza, pouco ou nada existia da pátria. Ela, como quase tudo, estava sendo construída.
Iracema continuará reclamando olhos e mentes pensantes, pois nas suas páginas encontramos os elementos básicos da nacionalidade brasileira. É uma lenda que não explica tudo, mas permite pensar, investigar e concluir sobre muitos aspectos da nação, a maioria deles com reflexos em nossos dias. Só por isso vale a pena ler e reler a obra.

BIBLIOGRAFIA
ALENCAR, José de. Iracema. 8a edição, São Paulo, Ática, 1978.
RIBEIRO, Luís Felipe. Mulheres de papel: Um estudo do imaginário em José de Alencar e Machado de Assis. Niterói, EDUFF, 1996, p.217 – 226
SANTIAGO, Silviano. Iracema, o coração indômito de Pindorama in Mota, Lourenço Dantas & Abdala Júnior, Benjamin (org.) Personae: grandes personagens da Literatura Brasileira. São Paulo. Editora Senac, 2001.

Avaliar artigo
5
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 13 Voto(s)
    Feedback
    Imprimir
    Re-Publicar
    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/literatura-artigos/iracema-uma-historia-do-novo-mundo-403056.html

    Palavras-chave do artigo:

    iracema

    ,

    jose de alencar

    ,

    literatura indianista

    Comentar sobre o artigo

    Franklin Távora, um grande escritor cearense que escreveu uma obra importantíssima enfocando a vida dos índios brasileiros, e principalmente os silvícolas cearenses. Em sua obra “Os índios do Jaguaribe” ele conta detalhes e nuanças sobre os índios da região jaguaribana no hinterland cearense.

    Por: Antonio Paiva Rodriguesl Literatural 04/09/2008 lAcessos: 4,886

    A palavra do orador pode construir e elevar multidões. Porém, quando inconseqüente ou interesseira, pode levar à destruição e à cadência. Quem sabe, pode muito; quem ama pode mais. O escritor cearense Zelito Nunes Magalhães, conhecido pelo pseudônimo de Eça Queiroga concorreu ao Prêmio Osmundo Pontes de Literatura, ano 2002. Conquista - a vitória merecida do maior prêmio literário do norte e nordeste do Brasil, com a obra prima intitulada O ROMANCE CEARENSE Origem e Evolução

    Por: Antonio Paiva Rodriguesl Literatural 22/06/2008 lAcessos: 6,746
    Daniela Brito Ramos

    Este artigo objetiva fomentar uma discussão a respeito do processo de formação do povo brasileiro à luz dos escritos de Sílvio Romero e de suas consecutivas contribuições teóricas ao âmbito da história da literatura brasileira, que por diversos momentos marginalizou o negro e o mestiço de seus papeis protagonistas no espetáculo nacional, levando em consideração apenas os romances indianistas figurados pelo nativo.

    Por: Daniela Brito Ramosl Educação> Ciêncial 04/12/2011 lAcessos: 158

    A política brasileira além de ferver virou um inferno. Um inferno com muitos diabos que não têm medo da cruz. Deus, o nosso Pai morreu e Jesus não estão mais em seus corações. A caridade, a fraternidade e os bons princípios não foram sublimados, e sim exterminados juntamente com a ética. No coração do brasileiro só resta esperança, as forças já estão combalidas, vítimas de uma politicagem escarnecida. O encanto do Brasil antigo evaporou-se diante das aberrações e das corrupções eleitorais.

    Por: Antonio Paiva Rodriguesl Literatural 13/10/2014

    Pensei nas pessoas sofredoras e fui orando para as entidades protetoras. Vi no semblante de uma criança solitária, a fome que a consumia. Imantei o amor em prol de um pequeno ser. Vi no sol da primavera seus momentos bons e ruins, mas não almejamos sofrimentos, principalmente para os seres indefesos e inocentes. Como diria Cornélio Pires, sempre noto com reserva as dores que vêm do herdeiro; não sei se o choro é de mágoa ou de briga por dinheiro.

    Por: Antonio Paiva Rodriguesl Literatural 03/10/2014

    Lágrimas são emoções materializadas que romperam bandeiras do corpo físico. Em realidade, representam os excessos de energia que necessitamos extravasar. Nem sempre são as mesmas fontes que determinam as lágrimas, pois variadas são as nascentes geradoras que as expelem através dos olhos. Em épocas de política o Brasil se transforma, e denotamos como são grandes os aparatos, que os candidatos fazem para chamar a atenção do eleitor. Festival de publicidades, bandeirolas são tremuladas pelo vento d

    Por: Antonio Paiva Rodriguesl Literatural 24/09/2014

    Não temos como negar a influência da literatura da Idade Média, na literatura do cancioneiro popular da atualidade. Mesmo escritores eruditos, como Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e outros, buscam fontes para suas obras, na literatura antiga.O cancioneiro popular adapta suas canções, sem negar o conhecimentos adquirido, ainda nos tempos de Carlos Magno, que forneceu assunto vasto para a poesia popular.

    Por: lúcia nobrel Literatural 19/09/2014

    Através do ensino de literatura estaremos levando aos nossos alunos ao conhecimento do fenômeno literário em seus aspectos: histórico-estético-cultural, através do contato com os artistas da palavra. Sendo a obra literária reflexo de vida, exteriorização verbal de uma experiência humana, nós, professores, evidentemente faremos uso dela para orientar a educação integral dos nossos alunos.

    Por: Sandra da Silva Cavalaro Zagol Literatural 29/07/2014

    Na poesia, o elemento diferenciador – o verso e tudo que nele se implica -, não deve ser tomado como recurso exclusivo e caracterizado da poesia, pois ela exprime-se por metáforas, tomadas no sentido genérico de figuras de linguagem, isto é, significantes carregados de mais de um sentido, ou conotação. a prosa é genericamente entendida com aposta ao verso.

    Por: Sandra da Silva Cavalaro Zagol Literatural 29/07/2014

    A literatura é uma forma de conhecimento da realidade que se serve da ficção e tem como meio de expressão a linguagem artisticamente elaborada. Esta nossa definição apresenta, de uma forma sucinta, a natureza e a função da literatura, bem como sua diferenciação das ciências e das outras artes.

    Por: Sandra da Silva Cavalaro Zagol Literatural 29/07/2014
    Jeferson Lopes Ribeiro

    Uma introdução ao conto. Uma espécie de continuação de contos de filhos de deuses, como hércules filho de Zeus e Percy Jackson filho de Posseidon.

    Por: Jeferson Lopes Ribeirol Literatural 25/06/2014 lAcessos: 17

    Prólogo do livro de Pedro du Bois, revelando a excelência de um grande contista.

    Por: Carlos Higgiel Literatura> Ficçãol 05/05/2014 lAcessos: 29

    Considerações sobre a produção de literatura erótica

    Por: Carlos Higgiel Literatural 30/12/2010 lAcessos: 215

    Elfy Eggert, 36 anos, pessoa respeitada no meio cultural de Blumenau, foi encontrada morta na sua casa em julho de 2006. Um dos acusados pela sua morte foi o próprio marido.

    Por: Carlos Higgiel Literatural 13/02/2010 lAcessos: 346

    Mil olhos nos observam por todas partes, vasculham nossa vida e acabam com nossa privacidade. É a vida moderna.

    Por: Carlos Higgiel Tecnologia> Tecnologiasl 21/12/2009 lAcessos: 262

    Obra poética de Michel Croz, poeta uruguaio radicado na cidade de Rivera.

    Por: Carlos Higgiel Literatural 20/07/2009 lAcessos: 151

    Prefácio da obra "Os Sentidos Significantes" do poeta Pedro Du Bois (nascido em Passo Fundo, RS, em 1947).

    Por: Carlos Higgiel Literatura> Poesial 02/06/2009 lAcessos: 434 lComentário: 1

    Resenha da obra de Mary Shelley destacando o lado romântico de Frankestein.

    Por: Carlos Higgiel Literatural 24/10/2008 lAcessos: 835

    Resenha do livro de crônicas "A mulher necessária" de Maria Aparecida Torneros,jornalista, escritora, poetisa, blogueira de grande qualidade.

    Por: Carlos Higgiel Literatura> Crônicasl 04/10/2008 lAcessos: 384

    Comments on this article

    0
    Andressa 20/06/2011
    Muito bom e esclarecedor seu texto, contextualiza e justifica cada fato do livro Iracema. Parabéns!
    Perfil do Autor
    Categorias de Artigos
    Quantcast