Literatura E Cinema: As Possibilidades Educativas Na Relação Intersemiótica Da Obra Vidas Secas

Publicado em: 30/11/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 103

EDNEIDE FERREIRA DA COSTA & MATEUS BATISTA DE SOUSA

Neste trabalho, temos como objetivo enfocar as possibilidades educativas que podem ser criadas pelo profissional de Letras a partir da relação intersemiótica existente entre a literatura e o cinema através da adaptação feita por Nelson Pereira dos Santos para a obra

O tema justifica-se pela necessidade que temos, enquanto profissionais da área de letras, de repensar as nossas práticas pedagógicas, vendo na filmografia de obras literárias, um novo método de leitura, uma vez que, as tecnologias educacionais, e neste caso em particular, o cinema, que faz com que a leitura do filme complemente a leitura do livro, contribui para que novas formas de ler e interpretar sejam adquiridas pelos educandos.

Porém, antes de falarmos sobre a adaptação para o cinema da obra

A relação que ocorre entre a Literatura e as outras artes, de acordo com Sylvia Cyntrão (2003) se deu pela reaproximação feita pelos vanguardistas no século XX, que valorizaram a ambivalência presente na palavra literária, da qual, a arte literária se utiliza para comungar com outras artes. Dessa forma, analisar a obra

Vidas Secas da autoria de Graciliano Ramos. Vidas Secas, convêm explanarmos um pouco sobre a relação entre literatura e outras artes para que fique bem entendido o sentido deste trabalho. Vidas Secas, do autor Graciliano Ramos é um legado bastante audacioso e cauteloso. Transpô-la ao campo da cinematografia é fazer uma reflexão sobre o modo como a literatura vem rompendo com paradigmas antes renegados. Ao lê-la hoje, no aspecto artístico, percebemos a desconstrução da forma como o cânone convencionou caracterizá-la somente no cunho escrito com a objetividade de buscar 2

uma expressão formal no que concerne ao ritmo, ao estilo e à forma.

A roupagem na qual a obra

Essa característica dos artistas modernos é notória na adaptação da obra

Vidas Secas vem delineada no atual construto é insofismável na trajetória que ocorre entre o final do século XIX e o início do século XX, períodos nos quais, a ciência, a filosofia e a arte denominaram um pensamento que se configurou como moderno para nós. Atrelado a este pensamento estão os fatos históricos como a Revolução Industrial e as duas grandes guerras que conduziram o artista do século XX a abolir o antigo e criar o novo no presente momento. Cada nova repressão vinha imbuída de tamanha significação que, o artista moderno se propôs a romper com os mitos sacralizados pela tradição e assumir as mudanças ocorridas nos critérios dantes estabelecidos. Vidas Secas na esfera do cinema, trazendo para nós, um novo repensar da literatura, concernente ao papel do profissional de Letras, no que diz respeito aos conceitos ou a teorização da literatura. Nesse bojo, é importante frisar também o desenvolvimento no âmbito educativo, pois o filme do cinema nacional produzido a partir da literatura brasileira pode ser utilizado com ferramenta didática, tecnológica e áudio visual, aguçando e desenvolvendo a criticidade dos alunos em seu entorno, uma vez que,

[...] O cinema favoreceu uma mudança no comportamento do espectador, recuperando o prazer da arte: ao ver um filme, o espectador se diverte sem deixar de ser crítico. [...]. (JUSTINO, 1994. p. 275)

Antes de adentrarmos na adaptação da obra literária para o cinema, é de grande relevância deslancharmos um pouco sobre o papel da linguagem cinematográfica na esfera do seu desenvolvimento.

Justino (1994) afirma que "Cada arte tem sua linguagem." E o cinema como arte que é também tem a sua. Para Justino o cinema fala através da "imagem-pensamento" presente no tempo. Essa linguagem é material e o artista ao usá-la, concede-lhe uma superioridade através do uso de metáforas, paródias e alegorias que dão à obra o caráter artístico. Por isso, a linguagem cinematográfica, pode ser considerada como uma preciosidade do século XX, já que eclode no final do século XIX. Então, não é possível falar em literatura e em cinema sem falar em linguagem, pois tanto a literatura quanto o cinema são linguagens que com suas

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formas de expressão promovem leituras sócio-histórico-culturais e a adaptação da literatura cuja temática aborda a realidade brasileira foi para Glauber Rocha, cineasta brasileiro citado por Raquel Gerber (apud Sirino), fundamental, pois para ele,

As origens desses discursos estavam na literatura de 30 e na literatura social do Brasil de Gregório de Mattos, o inconfidente mineiro, Euclides da Cunha, castro Alves, Jorge Amado, Graciliano Ramos e Oswald de Andrade [{...}

serviram de inspiração aos adaptadores do Cinema Novo.

Pela historicidade do cinema brasileiro, percebe-se a batalha por uma estética e temática que reconheça e valorize o nacional através da concretização de diversos filmes que focalizam a história do povo brasileiro com suas diversidades regionais e culturais. E mais ainda, percebe-se a influência das adaptações literárias no cinema que, para Marilena Chauí (1995) é, "uma reprodução técnica" que de acordo com Benjamim (apud Chauí), nos concede a base mais útil para examinar a questão da refuncionalidade da arte que no cinema passa a ter uma importância histórica especialmente visível devido ao poder que o filme tem de fazer com que o homem exercite novas percepções e reações que são exigidas pela tecnologia que só aumenta a cada dia na vida cotidiana.

Inovar as práticas pedagógicas em um trabalho com o cinema em sala de aula é muito importante se levarmos em conta o que nos diz Benjamim sobre o cinema: "Fazer do gigantesco aparelho técnico de nosso tempo o objeto das inovações humanas – é essa tarefa histórica cuja realização dá ao cinema o seu verdadeiro sentido" (BENJAMIM apud CHAUÍ, 1995, p. 329).

Podemos perceber que, a produção de filmes baseados em obras literárias como os norte-americanos

O cinema, para Chauí (1995), é a arte em forma contemporânea,

Hary Poter e O Senhor dos Anéis; os europeus, dentre eles Um long dimanche de françailes, de Jean-Pierre Jeunet e os nacionais Inocência, A Carne, Vidas Secas, Dona Flor e seus dois maridos, Memórias do cárcere e A terceira margem do rio, dentre outros que estão presentes na cinematografia brasileira desde o período da vanguarda até os dias atuais, é uma tendência mundial recorrente. 4

pois, cria a sonorização imagética articulada. Chauí nos diz que no cinema,

a câmera capta uma sociedade complexa, múltipla e diferenciada, combinando de maneira totalmente nova, música, dança, literatura, escultura, pintura, arquitetura e história pelos efeitos especiais, criando realidades novas, insólitas, numa imaginação plástica infinita que só tem correspondente nos sonhos. (p. 333)

O cinema, assim como o livro, torna o que está ausente, presente, aproxima o que está distante e distancia o que está próximo num trabalho artístico que entrecruza o real e o irreal, o verdadeiro e o fantasioso, o ato reflexivo e ato ilusório.

Em

Vidas Secas, o diretor Nelson pereira dos Santos consegue trazer a paisagem árida, seca e miserável do sertão nordestino diferente do escritor Graciliano Ramos, porque enquanto este traz a imagem do sertão retratada numa linguagem escrita de forma seca e enxuta, aquele a traz através de uma fotografia em preto e branco que cria de acordo com Gian Luigi de Rosa (internet) "uma atmosfera de homogêneo assolamento, os rostos e a paisagem sofrem a mesma deterioração." Enquanto na obra escrita, Graciliano Ramos traz uma narrativa onisciente que consegue traduzir as emoções vividas pelas personagens, Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e o soldado amarelo através do discurso direto, no filme, Nelson pereira dos Santos dá preferência ao diálogo e a ação com os quais consegue omitir o caráter introspectivo/psicológico das personagens, o qual é realizado no livro pelo narrador.

Vidas Secas

Analisar o filme

, enquanto clássico da literatura e clássico do cinema nacional pode ser utilizado em sala de aula tanto como recurso paradidático (o livro) como também como recurso tecnológico (o filme), pois, através dessas duas formas de arte podemos traçar enquanto professores de literatura, um diálogo entre a literatura e o cinema, o que pode levar os educandos a ter o seu interesse despertado a respeito dos diálogos que podem acontecer entre a literatura e as demais artes como o teatro, a dança e a música por exemplo. Vidas Secas, proporciona tanto ao profissional da área de literatura, neste caso específico, o docente, quanto aos educandos, diversificadas leituras como a leitura de ponto de vista, a leitura sobre o narrador, a 5

análise da simiótica do literário para o cinematográfico, a leitura dos temas relativos à seca, à fome, a alteração sofrida pelo homem, o abatimento, a humilhação, a mudez familiar, e através desta leitura que o cinema nos proporciona, traçar um paralelo entre a leitura da imagem cinematográfica e a leitura da escritura.

Outro elemento que o filme pode nos proporcionar como trabalho é a construção da imagem que fazemos das personagens e do cenário ao ler a obra escrita pelo autor que tanto pode coincidir com a imagem transposta no cinema como pode vir a ser diferente desta, pois de acordo com Rosa (internet) o cinema pode através da transformação do texto inicial, no caso, a escritura de

O trabalho pedagógico com a obra cinematográfica de Nelson pereira dos Santos, permite-nos um trabalho interdisciplinar entre literatura, história e geografia, visto que, ao utilizarmos a

Outro aspecto que podemos perceber é que o trabalho com a tradução intersemiótica (literatura/cinema) através da obra

Destarte, percebemos que o cinema ao transpor para a tela a obra literária em forma de imagem sonora, dá ao aluno à capacidade de resignificar as imagens por ele construídas através da leitura de um texto cujo código é baseado na escritura.

Vidas Secas, que não mostra a imagem, pois esta fica a cargo da imaginação do leitor, criar, através do audiovisual, uma imagem sonora e essa imagem como já foi dito anteriormente, pode ou não coincidir com a imagem criada no imaginário do leitor. obra Vidas Secas como adaptação cinematográfica, podemos levar os alunos a estudar a literatura, pois, o mesmo, deve fazer a leitura da obra escrita por Graciliano Ramos para comparar os dois tipos de diálogos produzidos pelas duas versões; a história, pois através do retrato feito pelo filme, da realidade histórica do Nordeste brasileiro, este pode fazer a correlação entre o Nordeste em 1963 e o Nordeste atualmente e a geografia estudando o espaço onde as personagens se situam o tipo de vegetação presente neste espaço, etc. Vidas Secas serve para nortear a prática de ensino dos educadores e ajudar estes, a repensar as práticas pedagógicas pautados em uma educação que leve o educando a ter autonomia enquanto formador de imagens e conceitos. 6

Com isso, compreendemos que, a adaptação da obra literária para o cinema é uma das tecnologias educacionais que possibilita ao educando durante o processo de aprendizagem, e a nós educadores, no processo de ensino, apreender a história da humanidade. O que nos proporciona conhecer a forma como nós, seres humanos, expressamos nossos anseios, vivemos em sociedade e demonstramos nossos interesses e emoções.

Referências

CHAUÍ, Marilena. O universo das Artes. In: Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1995.

CYNTRÂO, Sylvia. O contágio social da literatura. In: Água Viva – Revista de Estudos Literários. ISSN 1678 – 7471. Brasília – jan/Jun – 2003. Pag. 11 – 17.

ROSA, Gian Luiggi de. Entre o cinema e a literatura – Do texto literário ao conto cinematográfico: breve excurso da transposição cinematográfica no Brasil. Disponível em: http://publique.rdc.puc-rio.br/revistaalceu/media/Alceu_n15_De Rosa2.pdf. Acesso: 28. Out. 2009.

SIRINO, Salete Paulina Machado. VIDAS SECAS: DA LITERATURA AO CINEMA UMA REFLEXÃO SOBRE SUAS POSSIBILIDADES EDUCATIVAS. Disponível em: http://www.fap.pr.gov.br/arquivos/File/RevistaCientifica2/saletesirino.pdf. acesso: 27. Out. 2009.

JUSTINO, Maria José. A admirável complexidade da arte. In: Para filosofar. São Paulo: Scipione, 1994.

(Artigonal SC #1523646)

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    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/literatura-artigos/literatura-e-cinema-as-possibilidades-educativas-na-relacao-intersemiotica-da-obra-vidas-secas-1523646.html

    Palavras-chave do artigo:

    cinema; linguagem; literatura

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