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O Dia Em Que O Mundo Parou!



Um garoto de dez anos, livre como o tempo, com um sorriso de querubim estampado à face, brinca com um grupo de amigos da mesma idade numa dessas saudosas praças com playground. Acompanhando-os de longe, com a expressão carregada, está a professora, uma jovem com pouco mais de vinte anos. Seus olhos correm os arredores e encontram do outro lado da rua dois senhores, que sentados em caixotes de madeira, ouvem os noticiosos da BBC londrina enquanto degustam uma iguaria local. A calmaria é de causar arrepio!

Apesar disso, o coração da mulher está acelerado, as mãos trepidam, a face altissonante reflete os raios solares enquanto a saliva escasseia. Agarrada ao banco com uma força deveras impressionante, tenta manter-se lúcida diante das imagens algozes que lhe invadem a mente. Ouve-se um estouro, uma luzerna mil vezes mais incandescente que o sol consome o céu, atiçando a ira de Gaya - o espírito da Terra, que revida a agressão com um furacão de fogo, destruindo centenas de casas e levando ao martírio milhares de vidas humanas, cujo sangue derramado aparenta saciar sua sede. O desespero, assim como em “O Grito”, de Edvard Munch, ecoa além das fronteiras metafísicas! Pedidos de socorro sufocam-se diante de gemidos atemorizantes.

Corpos dilacerados por estilhaços de vidro, madeira e resquícios de fogo estão por toda parte! Naquele mar de desgraça apenas um sobrevivente: o mesmo garoto que agora corre feliz pela praça, uns cinco anos mais velho! Com a pele do corpo em carne viva, aos berros, caminhando como zumbi, suplica misericórdia a um Deus que lhe fecha os ouvidos, negando-lhe o direito à continuidade da vida. O sangue cai-lhe da boca fazendo rastro naquelas terras agora desertas. Procura ajuda, alguma alma que o acuda! Não há mais nada!


Aos poucos o clarão – metástase que engoliu o céu, conduzindo a Humanidade ao suplício - cede aos apelos nada ingênuos da escuridão. Não suportando o próprio peso, o rapaz cai sobre a carnificina de homens, mulheres, crianças e idosos. O cheiro emanado dos corpos é de ensandecer até mesmo figuras de coração petrificado como Hitler e Mussolini.

Mas ele não desiste, quer encontrar alguma forma de vida, ainda que não inteligente! Como um verme, rasteja à procura de algo que lhe traga alguma esperança naquele paraíso infernal. “Por que meu Deus? Por quê?” – sussurra, em pranto, ao perceber ser o único personagem vivo do holocausto; a testemunha ocular de que o Apocalipse, a temida escritura sagrada, saltara das páginas celestiais para as telas da realidade.

“Dê-me o direito a um último pedido, Senhor!” – implora, agarrando-se à terra como se fosse o colo materno. “Deixe-me ver a luz divina pela última vez antes de cair morto nesta terra que um dia beijei ao deixar o ventre de minha mãe!” - O silêncio é sepulcral!

Já desesperançado, o rapaz entrega-se ao senhor do tempo; o epílogo de uma tragédia que mudaria o mundo se aproxima... Novas explosões o impedem de fechar os olhos de vez! Ainda que exaurido, continua sua saga até que a última gota de vida lhe esvaia. Deseja encontrar algo vivo! Levantando a cabeça até onde o corpo agüenta encontra, a alguns palmos, clareada pelos finos e desorientados raios de luz, uma ROSA. A mais linda que já havia visto! Complemente intocada, viçosa! Um verdadeiro presente divino!

Um sorriso se abre diante do sangue que lhe escorre pelo peito antes que o destino o enclausure de vez na mansão dos mortos...

_NÃÃÃÃÃÃOO!!!!!!!! – grita a professora, resgatando-se da letargia, ao perceber que o garoto arrancaria uma das rosas do jardim da praça. NÃO FAÇA ISSO!!! POR FAVOR!!!

O garoto, assim como os demais, afasta-se da planta assustado, incompreendendo a atitude da mestra.

_Pequeno, não ouse retirar sequer uma pétala desta rosa. Ela poderá um dia lhe ser muito útil! – os olhos da mulher crescem à medida que o menino e seus amigos recuam. Vamos voltar para a sala de aula!

Todos atravessam a rua e entram na escola, menos a professora, que focando a rosa, aspira com dificuldades. Certamente aquelas imagens não foram reais, apenas produto de sua imaginação, mas de qualquer forma, manter viva aquela rosa era o mínimo que poderia fazer; se algum dia aquelas cenas virarem realidade, ela ainda daria alguma alegria ao pequeno que hoje a espera em sua sala.

Antes de entrar, olha o relógio. São 9h do dia 06 de agosto de 1940, cinco anos antes da explosão da bomba, cujo poder alterou as vidas de Hiroshima, o placar de uma guerra que aparentava não ter fim, e a História de um mundo em ruínas. 

CARLOS ROGÉRIO LIMA DA MOTA

Formado em Letras e em Educomunicação pela Universidade de São Paulo. Casado, 32 anos, 02 filhos. Coordenador Pedagógico do Ensino Fundamental – CICLO II da Rede Oficial de Ensino e Professor de Língua Portuguesa (Gramática, Redação e Literatura) da Rede Privada.

Colunista de diversos órgãos midiáticos, entre eles: “Yes Marília” - (www.yesmarilia.com.br), parceiro da Globo.Com no município de Marília/SP e Revista Eletrônica “Alô Ibiúna”, de Ibiúna/SP. Colabora também com o Jornal da Manhã, de Marília /SP, e Diário de Sorocaba, de Sorocaba /SP.

Pertence ao quadro de autores da Editora Virtual Usina de Letras - mantida pelo Sindicato de Escritores de Brasília, que conta, até o momento, com mais de 80 obras publicadas de sua autoria, em sua maioria, artigos políticos e contos de suspense.

Lançou, em 04 de julho de 2008, o site www.escritorcarlosmota.com, em que estão reunidas todas as suas obras e veículos para os quais escreve.

Seu sonho é ser apenas FELIZ em vida, afinal, que autor consegue ser feliz ao ser incomodado o tempo todo por sua visão perspicaz e sensível de um mundo já torpe feito o atual?

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