O Poema A Rosa de Hiroshima

Publicado em: 16/09/2010 |Comentário: 1 | Acessos: 6,257 |

Este poema, A Rosa de Hiroshima, de Vinícius de Moraes foi publicado no livro Antologia poética em 1954 (Rio de Janeiro: A Noite; a edição não traz registro de data) 271 p.

Há então a idéia entre a bomba atômica e a poesia: o que ainda podemos colher da sua absoluta disparidade? A primeira, projetada única e exclusivamente pela razão e o interesse, dissociada do "princípio responsabilidade" e concebida para destruir; a segunda, resultado da sensibilidade e emoção humanas coadjuvadas pela razão, fruto da necessidade de expressão e construção da cultura. Apesar dessa dessemelhança, a poesia não deixa de falar da bomba atômica, e o faz para perpetuar a lembrança daquilo que não deve esquecido, como se pode ler neste poema.

Este, o qual foi escrito sob o impacto dos horrores da guerra e, mais especificamente, das explosões atômicas no Japão em 1945, talvez possa ser considerado um dos poemas mais conhecidos do público brasileiro que viveu a década de 1970 – ocasião em que foi gravado e amplamente divulgado pelo grupo musical Secos & Molhados, com música de Gerson Conrad. Mas, com exceção do poema de Vinícius, o leitor brasileiro praticamente desconhece expressões artísticas geradas pelo embate da bomba atômica. A literatura do Holocausto, ou a literatura de Auschwitz, por sua vez, tem sido relativamente bem divulgada nos últimos anos aqui no Brasil. Mas o que dizer da literatura produzida no Japão após os horrores vividos em Hiroshima.

 

4.1 A Pontuação

 

Observando a pontuação, percebemos o seguinte:

 

1. A mesma é quase extinta do poema, por exceção de um único verso (9) onde aparecem apenas duas vírgulas entre a interjeição "oh".

 

Mas, oh, não se esqueçam

2. É uma pausa bem no meio do verso e do poema, ou seja, após este verso há mais nove versos seguidos; sendo todos sem pontuação também.

 

3. A impressão que nos dá é que refletissemos no que já foi dito e nos preparássemos para o desfecho do poema. Sendo não mais citado as pessoas que sofreram com o mal causado pela bomba (primeiros versos) mas sim, ergendo o olhar para Hiroshima – a cidade que foi totalmente devastada pelo mal – e a bomba que a destruiu.

 

4.2 A Métrica

 

Passando a outro elemento material, o rítmo, verifica-se inicialmente que o metro é de 5 sílabas (rendodilha menor: versos curtos – tom elegíaco), e que uma leitura meramente silábica não adianta de nada para a compreensão. Mas, o mesmo não é tolmente formado por todos os versos com o mesmo metro. Seja o estribilho:

               

                                                    1     2       3      4     5

Pen / sem /  nas / me / ni / nas

Ce / gas /  i / ne / xa / tas

 

Mas se lermos observando rigorosamente a entonação, isto é, dando força às sílabas tônicas nas últimas palavras notaremos algo interessante:

 

Pensem  nas meninas

Cegas  inexatas

 

Ou: _______________--____

_______________--____

 

Notamos que ambos os versos há o ápice, enqunto a entonação, no mesmo lugar e depois há, novamente, a queda. Isto acontece desde o primeiro verso até o verso 9, onde a a vírgula – já citada e explicada anteriormente. Após isso não se dá a mesma leitura.

É como se houvesse dois poemas em um só. Onde um é lento, primeiros vesros (até o 9), e o outro mais rápido e com mais ênfase.

Por conseguinte, podemos notar os efeitos da bomba nuclear nas pessoas, tornando-as lentas, doentes, enquanto outras já mortas. Já, no verso 10 em diante, quando se relata da bomba, propriamente dita, e da cidade Hiroshima, vê-se a rapidez com que esta atinge a cidade que é devastada imediatamente. Parece-nos que o poema começa pelo fim da tragédia, pois os 10 últimos versos deveriam ser os primeiros e os 9 primeiros versos os últimos. Há, assim, uma inversão dos acontecimentos. Com isso, parece-nos que Vinícius de Moraes quissesse fazer um resumo do que aconteceu nos primeiros versos até o 8 verso. Após, já no 9 verso desse uma pausa, como se quisesse fazer uma restrospectiva do acontecido:  Mas, oh, não se esqueçam.Só depois descreveria o acontecido, para que as pessoas se lembrassem da tragédia.

 

4.3 A Rima

 

Quanto à rima notamos que a mesma ocorre, quase, sussecivamente nos primeiros 8 versos:

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

 

O interessante entre todas elas é que estão no mesmo gênero e número (feminino/plural). Isto nós dá a idéia de fragilidade ao qual se encontravam os moradores desta cidade (pelo fato das palavras estarem no feminino, dando-nos a idéia de sexo mais fraco). Já pelo fato das palavras estarem no plural significa a multidão de pessoas que se encontravam indefesas naquele dia do bombardeio.

Já nos últimos verso que vão do 10 ao 18 encontramos:

 

Da rosa da rosa

Da rosade Hiroshima

A rosa hereditária

A rosaradioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada

 

Todas palavras no mesmo gênero e grau (feminino/singular). O que difere dos versos anteriores é que aqui estão no singular, reforçando a idéia de uma bomba e uma cidade (Hiroshima), ambas palavras  femininas.

 

4.4 Aspectos Importantes: Adjetivos e Verbos

 

O poemas e formado morfologicamente por substantivos, adjetivos e verbos. Ao fazermos o levantamento dos adjetivos ultilizados no poema, notamos que os mesmo são usados para ilustrar as diversas consequências da ultilização da bomba (tirando, obviamente, a morte quase instantânea).

 

Pensem nas crianças

MUDAS TELEPÁTICAS (problemas de má-formaçao do feto)

Pensem nas meninas

CEGAS INEXATAS (uma variação de catarata e problemas motores)

Pensem nas mulheres

ROTAS ALTERADAS (comprometimento do sistema hormonal)

A rosa HEREDITÁRIA (problemas genéticos)

 

A rosa radioativa

ESTÚPIDA E INVÁLIDA (retardamento mental e invalidez)

 

O resto do poema fala da antítese da "rosa", ou seja, a imagem da bomba explodindo lembrava a de um rosa se abrindo. Mas, era ao mesmo tempo uma "anti-rosa", não tinha perfume, nem cor, nem nada (nessa parte ele se refere à cidade de Hiroshima que ficou – literalmente – sem nada, sem cor, sem perfume e sem vida).

Já, quanto ao verbos, notamos o tempo imerativo que é, por várias vezes, citado: Pensem. E, no meio do poema encontramos: Mas, oh, não se esqueçam; outro verbo no imperativo.

 São poucos verbos usados, mas com grande impacto de persuasão e reflexição. Strazendo, implicitamente, a idéia de uma exortação.

O que nos resta são os adjetivos, já citados acima, e os substantivos (sendo todos no feminino, alguns no plural e outros no singular, também já mencionados).

 

4.5 A rota e sua significação: questão material

 

A rosa está sendo manifestada pela rota das consoantes bilabias /p/ e /t/ liguodentais (oclusivas e sudas). Isto nos dá uma idéia de uma rachadura na terra, provocada pela explosão da bomba radioatíva.

Veja o exemple abaixo (1º versos):

 

 

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

 

Já, quanto a 2º parte, notamos o seginte:

 

 

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

 

Parece-nos até uma contagem refressiva, começando com as consoantes linguodentais explosivas /d/. E segida, logo após pelas já citadas vogais /t/ e terninando na explosão da bomba que se dá /v/ da palavra inválida (que é uma palavras proparoxítona), assim como estúpida. Tendo uma mesclagem de palavras paroxitonas e proparoxítonas nos versos do poema.

Os últimos versos restantes dá-nos a impresão de silêncio após a explosão. O silêncio do nada, como afirma o próprio poema:

 

 

A rosa com cirrose

A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada

 

Por fim, a cidade tornou-se em nada, envolto em morte e destruição por todos os lados. Cercada por dor, sem cor e sem perfume e sem vida. Esta ênfase é notada pelo som repetido da vogal /r/(sonora vibrante).

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/literatura-artigos/o-poema-a-rosa-de-hiroshima-3280366.html

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    a rosa de hiroshima

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    Amonita 27/10/2010
    Muito bom! Uma análise bem detalhada e interessante. Gostei muito. Obrigada.
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