Paráfrase: Passagem do Dois ao Três: Antônio Cândido em O Cortiço

Publicado em: 16/09/2010 |Comentário: 0 | Acessos: 988 |

Neste texto, Antônio Cândido relata a fixação pelo número 2 pelos estruturalistas. Ele declara que: "A busca de modelos genéricos se associa nele a uma espécie de postulado latente de simetria, que o faz balançar entre cru e cozido, alto e baixo, frio e quente, claro e escuro, como se a ruptura da dualidade rompesse a confiança nele mesmo".

Em sua visão, defende a idéia de que é através da análise interna, como ponto de partida para compreender melhor o externo. Opta, então, pelo 3. Afirma: "No entanto, há o pensamento do homem outros ritmos e outras implicações numéricas, como as que privilegiam o número 3. Não como expressão de um ponto neutro intercalado entre 1 e 1; mas como 1 mais 1 mais 1, em pé desigualdade, como elementos constitutivos da visão".

Ele afirma que as divagações que foram motivadas pela idéia nas análises estruturalistas (o 2) desliza, ou deveria deslizar, para o 3. Reafirma que não se trata do 3 falso, mas o verdadeiro, no qual as unidades (reais ou virtuais) se encontram em pé de igualdade.

Cândido faz um comentário crítico sobre o estudo de Affonso romano de Sant'Ana, em O Cortiço. Este afirma que: "embora a posição do autor é bastante compreensiva e aberta, pressupondo uma dúvida constante em relação aos métodos".

Affonso trabalha com uma visão que considera o texto como "opacidade", ou seja, como sistema suficiente em si, que não filtra a realidade do mundo como instância explicativa (embora, evidentemente, possa filtrá-la como referente). A esta se oporia uma visão "ideológica", que considera o texto como uma espécie de continuação do mundo e vai buscar elementos de análise.

Fechado estrategicamente no texto, Affonso romano de Sant'Ana procura examiná-lo nele mesmo, conforme os instrumentos de que dispõe.  Neste intuito, utiliza categorias que refluíram da Antropologia sobre a Lingüística, depois de terem feito o caminho oposto, como: dualidade, simetria, oposição, equilíbrio, e suas alterações por meio da troca. No fundo, o conceito de entropia e, como princípio de interpretação, a oposição Natureza x Cultura (baseada na oposição cortiço-conjunto simples (= Natureza) X sobrado-conjunto Complexo (= Cultura), dinamizada pelo estudo das trocas ocorridas entre ambos), refletindo em parte os famosos Cru e Cozido de Levi-Strauss.

Antônio Cândido afirma: "O que pretendo é apenas tomar um dos seus aspectos básicos para levantar uma questão de métodos. Com vistas a este, proporei uma leitura diferente, que não deseja superar, mas apenas se situar ao lado de Afonso Romano de Sant'Ana. Uma questão de passar do 2 ao 3".

Embora Cândido afirme achar útil a dicotomia Cortiço = Natureza X Sobrado = Cultura, declara ser incompleto. Ele trabalha mais a fundo nas descrições do ambiente físico, nas personagens e no significado de cada um deles, ligado à realidade em que se encontram no romance.

Ele focaliza certas relações concretas entre os personagens, a partir da sua ação, real ou potencial. Assim, quanto às relações humanas concretas, podemos ter, por exemplo: Adulto X Criança; Homem X Mulher; Brasileiro X Portugueses; Branco X "De cor" – todas baseadas em características "naturais", não devidas originalmente à cultura. No universo do livro, a primeira e a segunda são irrelevantes; as outras são relevantes e dão lugar à formação de sistemas definidos de significados, sob o aspecto conceitual e metafísico, no plano individual e no coletivo. Procura saber informações mais profundas sobre os personagens. No entanto, Cândido relata que estas divisões são atenuadas por um terceiro elemento qualificador: a animalidade. O próprio Cortiço é caracterizado como argumento de animais, o que dá caráter coletivo aos traços de cada um. Assim, menciona que aquelas oposições binárias ditas acima são insuficientes como instrumento heurístico, porque em verdade há nelas um terceiro termo que medeia. Conclui que, não há brasileiro x português, ou branco X "de cor"; mas BRASILEIRO X PORTUGUÊS (ANIMAL) E BRANCO X DE COR (ANIMAL).

Assim, resume que o enfoque formal das oposições é importante, mas precisa ser aprofundado pelo enfoque das mediações como terceiro termo. N'O Cortiço, há duas categorias opostas de caráter topológico: Sobrado e Cortiço. Há três categorias relacionais que as medeiam e permitem ver qual é o significado real da sua oposição: duas reais, Portugueses e Brasileiros, uma virtual, animal (nos sentidos  2 e 3), que por sua vez as medeia. Há uma categoria informadora, real e simbólica ao mesmo tempo, a Natureza específica do Brasil, que é a mediadora suprema entre as outras categorias. Por motivo de espaço e oportunidade, ela não é tratada aqui.

De tal forma, para Antônio Cândido, a presença do português é, portanto, decisiva, enquanto alternativa ou antagonismo do brasileiro; de tal modo que um dos fatores determinantes da narrativa é o comportamento de um ou outro em face do Brasil, tomado essencialmente como Natureza, como disponibilidade que condiciona a ação e, portanto, o destino de cada um. Concluindo o seguinte:

 

– Português que chega e vence o meio;

– Português que chega e é vencido pelo meio;

– Brasileiro explorado e adaptado ao meio.

 

Por conseguinte, Antônio Cândido conclui a análise interna, como ponto de partida para compreender melhor o externo, agora, não como genérico, mas enquanto mundo, vida que nutre a obra. Assim, pode refazer o caminho em sentido inverso, como procurou sugerir pela análise do dito sentencioso. O dito pode também ser considerado, ao seu modo, um paradigma externo, pois representa a visão de um grupo, uma coletividade de pensamento. E a partir dele procurou construir um modelo de que desvende a estrutura interna, singular da obra. Há, portanto a possibilidade de um método reversível, que se move nos dois sentidos, e que supere o formal e o não-formal na medida em que chega a este partindo daquele e àquele partindo deste.

 

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/literatura-artigos/parafrase-passagem-do-dois-ao-tres-antonio-candido-em-o-cortico-3280364.html

    Palavras-chave do artigo:

    o cortico

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    Profª Bia Senday

    "Desistindo de montar um enredo em função de pessoas, Aluísio atinou com a fórmula que se ajustava ao seu talento: ateve-se à seqüência de descrições muito precisas, onde cenas coletivas e tipos psicologicamente primários fazem, no conjunto, do cortiço a personagem mais convincente do nosso romance naturalista." (Cf. Prof. Alfredo Bosi).

    Por: Profª Bia Sendayl Literatural 10/02/2012 lAcessos: 198

    Análise de duas personagens femininas de O cortiço de Aluísio Azevedo, a saber, Bertoleza e Rita Baiana, visando identificar nelas a representação da mulher e suas condições de submissão e rebeldia na obra supracitada.

    Por: MARILIA DO AMPARO ALVESl Literatura> Ficçãol 14/08/2008 lAcessos: 58,824 lComentário: 2
    Juliane Goiabeira dos Santos

    Este presente artigo tem por objetivo estudar o romance naturalista O CORTIÇO de Aluísio Azevedo, buscando compreender como se projeta na obra supracitada o "teor panfletário". Para isso, observaremos a caracterização dos personagens João Romão e Bertoleza que vem comprovar, o inconformismo do autor ante os problemas sociais.

    Por: Juliane Goiabeira dos Santosl Literatura> Ficçãol 07/11/2012 lAcessos: 101
    marcia jovelina de jesus

    Este artigo versa sobre o homoerotismo feminino retratado no universo naturalista em O Cortiço de Aluísio de Azevedo, a saber: Pombinha e Léonie, visando identificar acerca das condições da mulher lésbica no naturalismo da obra supracitada.

    Por: marcia jovelina de jesusl Literatura> Ficçãol 05/10/2009 lAcessos: 772

    Estudo e análise do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo, sob o prisma crítico de encontrar as razões pelas quais o autor compara tanto as atitudes humanas às dos animais não-humanos, na tentativa de comprovar a hipótese de que essa ênfase no corpus supracitado acontece para destacar que em cada ser humano há sempre seu lado animalesco, com instintos animais .

    Por: Suzane Reis Bonfiml Literatural 03/07/2009 lAcessos: 3,122 lComentário: 3
    MARCIANO VASQUES

    Num Brasil republicano que vive intensamente as grandes transformações do mundo, porém, gerador de contrastes, pois em seu ideal conta com o branqueamento como traço de modernidade, e as relações feudais na família, dividindo com a unidade nacional o mando patriarcal, além da política do "café com leite", surgem os autores classificados de Pré-modernistas, que expõem em suas páginas o trabalhador, as mulheres urbanas, o proletariado, os funcionários públicos, a vida no interior, com suas mazelas, seu atraso e seu sofrimento.

    Por: MARCIANO VASQUESl Literatural 31/07/2009 lAcessos: 687

    O deputado federal Ricardo Berzoini (PT-SP), em artigo "Os avanços do governo Lula e 2010", publicado no jornal Campograndenews, em 04/01/2010, como não poderia deixar de ser, vem tecer rasgados elogios à atuação do governo federal, retratando de forma de campanha política um País que não é o verdadeiro Brasil, com os seus graves problemas sociais ainda não resolvidos, que a comunidade internacional não conhece.

    Por: Julio César Cardosol Notícias & Sociedade> Polítical 11/01/2010 lAcessos: 83
    marco mammoli

    Para Seyle,o estresse é uma resposta inespecífica que o organismo "desenvolve ao ser submetido a uma situação que exige esforço para a adaptação".O bullying se encaixa com perfeição a essa forma de estresse altamente nocivo.É um comportamento complexo, composto de ações agressivas intencionais,repetitivas,adotadas de maneira individual ou grupal contra um ou mais indivíduos,sem motivação justificável. Levam a lesões físicas,sociais e emocionais causando dor,medo, depressão, entre outras.

    Por: marco mammolil Saúde e Bem Estar> Medicinal 09/02/2011 lAcessos: 1,436

    O trabalho social na área de habitação é um constituinte indispensável da política urbana e habitacional, norteado por um ponto de vista político e socioeducativo, embasado em valores democráticos e justiça social. Visa à promoção da inclusão social, o acesso à cidade, o acesso aos serviços públicos e estimula a participação cidadã. O presente artigo se insere na temática "práxis do trabalho social como instrumento de acesso das pessoas a um direito social, ou seja, moradia digna".

    Por: Thayse Fernandal Direito> Doutrinal 31/05/2013 lAcessos: 91

    Através do ensino de literatura estaremos levando aos nossos alunos ao conhecimento do fenômeno literário em seus aspectos: histórico-estético-cultural, através do contato com os artistas da palavra. Sendo a obra literária reflexo de vida, exteriorização verbal de uma experiência humana, nós, professores, evidentemente faremos uso dela para orientar a educação integral dos nossos alunos.

    Por: Sandra da Silva Cavalaro Zagol Literatural 29/07/2014

    Na poesia, o elemento diferenciador – o verso e tudo que nele se implica -, não deve ser tomado como recurso exclusivo e caracterizado da poesia, pois ela exprime-se por metáforas, tomadas no sentido genérico de figuras de linguagem, isto é, significantes carregados de mais de um sentido, ou conotação. a prosa é genericamente entendida com aposta ao verso.

    Por: Sandra da Silva Cavalaro Zagol Literatural 29/07/2014

    A literatura é uma forma de conhecimento da realidade que se serve da ficção e tem como meio de expressão a linguagem artisticamente elaborada. Esta nossa definição apresenta, de uma forma sucinta, a natureza e a função da literatura, bem como sua diferenciação das ciências e das outras artes.

    Por: Sandra da Silva Cavalaro Zagol Literatural 29/07/2014
    Jeferson Lopes Ribeiro

    Uma introdução ao conto. Uma espécie de continuação de contos de filhos de deuses, como hércules filho de Zeus e Percy Jackson filho de Posseidon.

    Por: Jeferson Lopes Ribeirol Literatural 25/06/2014 lAcessos: 14

    O lançamento da M.books deste mês examina as táticas de combate preferidas pelos alemães e pelos Aliados, em um trabalho conjunto de comando e controle da artilharia, dos tanques, da infantaria e da aviação, que atingiu um nível de sofisticação jamais visto naquela época.

    Por: Patricia Rosa da Silval Literatural 07/05/2014 lAcessos: 21
    Edjar Dias de Vasconcelos

    Ficção, ficção. Pura ficção. Sem sedição. Como sinérese. Exatamente literária. Diria até delírio. Não existe sujeito. Na concordância nominal. Ausência de ótica.

    Por: Edjar Dias de Vasconcelosl Literatural 01/03/2014 lAcessos: 19

    Depoimento autobiográfico inspirado por uma das mais influentes figuras políticas de nosso país: Juscelino Kubitschek.

    Por: lachatrel Literatural 25/02/2014 lAcessos: 21
    Miriam de Sales

    Uma visita a velhos sebos é muito importante para o leitor;lá podemos descobrir até edições raras e livros perfeitos a custo baixo.Uma ideia jocosa sobre como livros vão parar nos sebos vvai diverti-lo,amigo leitor.

    Por: Miriam de Salesl Literatural 26/01/2014 lAcessos: 16
    Profª Bia Senday

    Os períodos da educação brasileira, desde o jesuítico até a atualidade., de forma resumida e direta.

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 25/08/2014
    Profª Bia Senday

    Também chamada de Fonoestilística, trata dos valores expressivos de natureza sonora observáveis nas palavras e nos enunciados. Fonemas e prosodemas (acento, entoação, altura e ritmo) constituem um complexo sonoro de extraordinária importância na função emotiva e poética, segundo Martins (2000).

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 25/08/2014
    Profª Bia Senday

    FRASE: veicula os valores expressivos em potencial nas palavras, as quais, somente nela, têm o seu sentido explicitado e adquirem seu tom particular – neutro ou afetivo.

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 25/08/2014
    Profª Bia Senday

    Na sintaxe, quem fala ou escreve escolhe entre os tipos de frase, de acordo com as regras gramaticais, mas esse processo é, sobretudo, uma atividade criadora e, portanto, pertence tanto ao domínio gramatical quanto ao domínio estilístico. A frase veicula valores expressivos em potencial nas palavras, que adquirem seu sentido explicitado e o seu tom particular – neutro ou afetivo.

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 25/08/2014
    Profª Bia Senday

    A língua portuguesa origina-se do latim, língua falada pelos romanos – povo ao qual invadiu a península ibérica no Século III a.C. Nesta época, povos como os fenícios e gregos ali habitavam. No século V d.C., povos germânicos (suevos, vândalos, alanos e visigodos) invadiram a Península Ibérica. Os visigodos passaram a dominar a região. Por fim, eles abandonaram sua língua e a adotaram o latim. No século VIII, a Península Ibérica sofreu a invasão dos árabes, ao qual dominaram-na por 700 anos.

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 25/08/2014
    Profª Bia Senday

    Fonologia, palavra que reúne dois radicais gregos significando "som" e "estudo", significa, portanto, "estudo do som". É a parte da gramática que se ocupa não de qualquer tipo de som, mas do som como elemento distintivo na língua, do som como fonema.

    Por: Profª Bia Sendayl Educaçãol 10/02/2012 lAcessos: 555
    Profª Bia Senday

    Antes de falarmos da língua portuguesa propriamente dita, falaremos um pouco do indo-europeu. O indo-europeu não é uma língua, como podemos dizer, atestada, pois não existe nenhum documento escrito que prove que ele tenha existido.

    Por: Profª Bia Sendayl Literatural 10/02/2012 lAcessos: 100
    Profª Bia Senday

    Polêmicas divulgadas na imprensa no decorrer do ano de 1922, quando um pequeno grupo de artistas e escritores, liderados por Oswald de Andrade e Mário de Andrade, difamava as nossas glórias artísticas ditas de "praça pública", em razão da imitação servil, ou, como era alardeado, da "cópia sem coragem e sem talento".

    Por: Profª Bia Sendayl Literatural 10/02/2012 lAcessos: 404
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