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Problemas De Ç
Por: NERI DE PAULA CARNEIRO  | Publicado em: 30-04-2008 | Comentários: 0 | Acessos: 24 | Avaliação: (205) (?)
 PROBLEMAS DE Ç
Sabemos que a escolarização não é o forte da população brasileira.
Também é muito fácil encontrar alguém que nunca passou pelos bancos escolares. Claro, existem aqueles que passaram pela escola, não só pela sua frente ou pelo lado, mas aqueles que alguma vez na vida estiveram aquecendo os fundilhos nos bancos dalgum liceu.
Como num silogismo este raciocínio aplica-se aos políticos: alguns brasileiros não freqüentaram escolas; como os políticos são brasileiros, logo alguns políticos não freqüentaram a escola.
Entretanto o episódio que agora vou contar não se refere a políticos analfabetos....nem a analfabetos políticos como diria o Bertold Brech.
Quero contar o caso de um conhecido meu prefeito da cidade vizinha.
Meu amigo, prefeito em terceira gestão, levava a prefeitura e suas despesas na ponta da caneta. Com ele não tinha aquilo de secretário ou assessor desviar dinheiro. Ele mesmo controlava os gastos. Alguém precisava comprar alguma coisa? Passava, antes pela inspeção do meu amigo, o prefeito.
Diariamente ele entregava uma lista de compras para que a secretária pessoal providenciasse - Vocês não queriam que ele saísse por aí pelas ruas com uma lista na mão, fazendo as compras, não é mesmo? Apenas controlava os gastos... e fazia as listas de compras!
O fato é que naquela tarde meu amigo chamou a secretária.
- Providencie estas compras! Esses clipes tem que vir logo por que o pessoal da educação precisa disso ainda hoje! O grampeador, também, mas tem que ser daqueles grandes, de metal. Esses de plástico estragam logo. Não podemos gastar à toa o dinheiro dos contribuintes!
Sem dizer mais uma palavra, a moça saiu. Chamou o garoto da guarda-mirim, que dava plantão na prefeitura e que fazia o papel de contínuo ou sei lá o quê, mas ficava por lá.
Enquanto esperava o garoto, que estava no banheiro, passou os olhos pela lista: duas caixas de papel, cinco quilos de café, um fardo de açúcar, cinqüenta copos descartáveis, cinqüenta copos descartáveis....
- “Será que o prefeito errou alguma coisa aqui?”, interrogou-se a jovem.
Sem hesitar e por ser eficiente, bateu à porta e entrou na sala do prefeito.
- Prefeito, o senhor marcou duas vezes cinqüenta copos descartáveis...
- Ah!, isso minha filha! É por que não lembrava se 100 era escrito com S ou Ç...
- Ah!, Certo! Agora, aqui mais uma dúvida: o senhor marcou quatro pacotes de cal. É para pintura ou cal virgem?
- Como vou saber da vida sexual desse povo, minha filha... Mas espera aí, não marquei para comprar “cal”...deixa ver ...
- Olha aqui, quatro pacotes de cal...
- Não, minha filha! É que eu esqueci de colocar a cedilha... É quatro pacotes de tempero para a cozinha...
- Entendi! O senhor quer quatro pacotes de sal...
Conta-se
Conta-se que aqui perto, numa cidade vizinha, havia um prefeito. Não muito bom, mas era político!
Conta-se que ele tinha uma “rusga” antiga com o padre da cidade. Bom padre, por sinal. Aliás, os padres são figuras desse naipe.
Conta-se que ninguém mais lembrava a causa, o motivo, a origem do desentendimento dos dois. Mas tinha a ver com coisas mal feitas por um e criticadas pelo outro.
Conta-se, também que apesar de padre e prefeito serem inimigos, ambos desempenhavam muito bem suas funções específicas.
Conta-se, apenas que o representante dos eleitores e o representantes de Deus viviam às turras, cada um aprontando algo que causava mais irritação no outro que ficava esperando sua vez de dar o troco, criticando o que havia criticado. E as ferpas eram de lascar faísca.
Conta-se que foi então que o caso se deu:
Conta-se que na cidade sempre andavam, soltos, vários animais: cavalos, éguas, burros... potrinhos costumavam ser vistos passeando nas praças, ao lado de suas éguas mães. Burricos e jegues trocavam coices no meio da rua, sem que ninguém tomasse providências. Alguns até diziam que eram funcionários da prefeitura, pois pastava as gramas dos canteiros das ruas.
Conta-se que mais de uma vez algum motorista tivera que frear, bruscamente, para não atropelar um potro desatento. Sem contar outros tanto que eram atropelados.
Conta-se que não foram poucas brigas entre motorista mais apressado e algum dono dalgum potrilho andarilho, atropelado e morto em meio à rua.
Conta-se que foi por causa dum desses episódios de morte, dum burrico, que o episódio em questão ocorreu.
Conta-se que apareceu morto, no meio da praça, em frente à Igreja, ali perto daquele monte de ciprestes de várias procedências, deste lado da rua, um burrico. Nova ainda, cerca de ano e meio, como se podia ver pelos dentes do animal.
Conta-se que apareceu morto numa Segunda-feira. Na terça, à tarde, ainda estava lá. Na quarta, de manhã, já era insuportável o cheiro do burro morto. Burro não, um burrico qualquer, daqueles tantos que haviam e trafegavam, soltos pelas ruas da cidade.
Conta-se que à hora do desjejum o padre, sem poder se refastelar e reabastecer da noite mal dormida devido ao mal cheiro, já irritado pelo descaso com o falecido burrico, ligou para a prefeitura.
Conta-se que quem atendeu foi a secretária. Mas ela, carola antiga, reconheceu a voz, irada, do padre que não pedia, mas irritadamente exigia falar com o prefeito.
Conta-se que ela, nem engatou assunto de igreja. Passou a ligação para o patrão, o prefeito.
Conta-se que o diálogo foi acalorado. Saia fumaça do fio do telefone. Naquele dia, não estivessem separados teriam se atracado: padre e prefeito, numa briga entre o poder temporal e espiritual.
- Já é Quarta-feira....
- Não acredito que você ligou pra cá só prá me informar que dia é hoje, como se eu não soubesse ...
- Não me daria ao trabalho. Muito embora a tua ignorância me permitisse te ensinar até os dias da semana...
- Você me ensinar? Você não ensina nem teus paroquianos, com teus sermões...
Conta-se que o clima entre ambos estava nesse pé. Mas ninguém sabe contar como eles se deram conta de que estavam discutindo, sem resolver o problema da ligação.
- Então fala: o que te moveu a me dar o desprazer de ter que ouvir tua voz...
- Tem um burro morto, na praça da igreja. Está lá desde segunda feira e o pessoal da prefeitura ainda não veio retirar a carniça de lá. Você poderia ter a fineza de mandar que os lixeiros façam o que precisa ser feito, limpando a praça...
- Ora, padre. Não é função da prefeitura dar assistência a moribundos ou defuntos. Quem entende de extrema-unção e deve confortar os parentes dos falecidos é a Igreja, não a prefeitura...
- Certo, prefeito. A Igreja deve confortar os parentes dos falecidos. Mas para isso deve, primeiro, avisar os parentes. E é para isso que estou ligando...
Conta-se que falando isso o padre desligou o telefone e o prefeito continuou, xingando o padre, pelos furinhos do aparelho de telefone!
Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação
Filósofo, Teólogo, Historiador
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Perfil o autor:Concluí mestrado em Educação (UFMS), especialização em Educação (UNESC-Cacoal-RO), especialização em Metodologia do Ensino Superior (UNIR-RO), especialização em Metodologia de Leitura Popular da Bíblia (CEBI-RS). Concluí os cursos de graduação em Filosofia, Teologia, História. Sou Professor de História e Filosofia pela rede pública estadual (R. Moura-RO); professor de Filosofia na Faculdade de Pimenta Bueno - FAP (Pimenta Bueno-RO), na Faculdade de Rolim de Moura - FAROL (R.Moura-RO), na UNESC (Cacoal-RO). Radialista e colaborador em jornais da região de Rolim de Moura – RO.
Publiquei alguns livros de circulação regional além de artigos em revistas científicas de Rondônia.
Meus textos são publicados regularmente no jornal Folha da Mata (Rolim de Moura-RO) nos blogs: http://falaescrita.blogspot.com e http://ideiasefatos.spaces.live.com e no site www.webartigos.com
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