Resenha De "o Homem Duplicado"

Publicado em: 18/09/2009 |Comentário: 1 | Acessos: 3,774 |

O Homem duplicado é um romance moderno escrito em 2002 pelo ganhador do prêmio nobel, José Saramago, que substitui a temática dos problemas sociais contemporâneos como em Ensaio sobre a cegueira, A caverna e Ensaio sobre a lucidez pela análise do homem contemporâneo, com todas suas mazelas psíquicas, seu caráter multifacetado, sua perda de identidade. E para essa vertente temática escreve O homem duplicado, em 2000, romance que analisarei adiante. Mas antes de analisar o romance sob a ótica que pretendo (a da perda do eu) e discutir sobre a temática abordada, as recorrências intertextuais e o breve resumo da história, gostaria de começar pelo que viria a ser identidade. Segundo o dicionário Aurélio, as definições de identidade são “Identidade pessoal, consciência que alguém tem de si mesmo”¹. Não seria prudente falar sobre identidade em o homem duplicado sem sabermos exatamente do que a palavra se trata, visto que o romance dialoga com a perda da identidade e tem nela seu ápice temático.

  Começaremos vendo um pouco da história de O homem duplicado e como Saramago põe em cena as ponderações que devem ser feitas à medida que o leitor mergulha em sua leitura. Tudo começa com a apresentação do personagem central, Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, um retrato vivo do homem metropolitano, com todas as conturbações e problemas em diversas áreas, sobretudo as pessoal e profissional. Na profissional, excesso, desgaste e estresse. Na pessoal, depressão, divórcio, solidão e um relacionamento amoroso oscilante, despido do mútuo, onde prevalece mais o que um sente do que o que os dois sentem. É claro que esse é um firme retrato pintado por Saramago do que a modernidade trouxe aos relacionamentos amorosos: o descaso com o diálogo e com os sentimentos, a busca do corriqueiro, do aqui e agora, do não eterno.  Vendo que sofre de problemas com depressão, um colega de  trabalho indica a Tertuliano Máximo Afonso um filme de comédia, a fim de amenizar-lhe o tédio e proporcionar-lhe um pouco de distração. O filme chamado Quem Porfia Mata Caça é uma obsoleta produção de uma produtora secundária, aparentemente apenas uma simples comédia que é nada mais que um número para a vastíssima categoria. O que o professor não imaginava era que naquele simples filme estaria a coisa mais surpreendente que já presenciara em toda sua vida. Tertuliano Máximo Afonso vê num recepcionista de hotel o seu sósia, um homem completamente idêntico a ele mesmo. Atordoado e confuso, procura desesperadamente por informações sobre o simples ator daquele filme. Procurou numa locadora todos os filmes da mesma produtora e, ao assisti-los, percebeu que o ator passara a ter papéis mais significativos e notáveis a cada filme. Foi então que pôde descobrir o seu nome. Usando a assinatura de Maria da Paz (com quem tem um caso), Tertuliano Máximo Afonso envia uma carta a Daniel Santa-Clara, pseudônimo de António Claro, seu sósia. Ao descobrir o telefone do ator, revela-se como seu duplicado e então os dois marcam um encontro. Talvez para Tertuliano Máximo Afonso aquele acontecimento viria pôr um fim ao tédio e ao não-sentido de sua vida como um simples professor de História. O que ele não imaginava é que ele ali teria derrubado a peça de dominó propulsora que iniciaria a derrubada de todas as outras num contínuo jogo catastrófico e sem precedentes.

  A partir do encontro entre os dois, o livro começa a tecer a teia da estonteante história dos homens idênticos. Talvez essa seja a grande surpresa para o leitor que, possivelmente, imaginaria, ao ler principalmente a parte em que Tertuliano Máximo Afonso identifica seu vivo retrato no ator Daniel Santa-Clara, que nesse encontro estaria a revelação de que o caso dos homens iguais se tratava de um simples caso de irmãos siameses que não se conheceram, o que, para surpresa de muitos, não ocorre. Na verdade, para uma possível explicação científica Saramago apenas nos deixa uma interrogação muda. Embora a explicação científica nos falte, o romance traz-nos reflexões filosóficas sobre os homens duplicados, como o alerta de que nem tudo é o que parece e que o exterior, o visível, o palpável nem sempre reflete o interior. O grande exemplo disto está na dicotomização dos personagens centrais. Embora idênticos fisicamente, são opostos em caráter na mesma intensidade que iguais em aparência. De um lado Tertuliano Máximo Afonso, um típico homem moderno, com todos seus traumas e problemas psicossociais, porém alguém que não se nota desvio de caráter algum, ao contrário de Daniel Santa-Clara que, por outro lado, é um homem egoísta, manipulador e cínico, capaz de tudo para concretizar seus desejos mais doentios.  

  Depois de se analisarem-se fisicamente e terem uma conversa não muito longa no local onde marcaram o encontro, Tertuliano Máximo Afonso e Daniel Santa-Clara decidem não se encontrarem mais e então concordam em cada um seguir o seu rumo e esquecerem-se. Mas, como podemos imaginar, José Saramago e o destino não permitiriam que essa história ficasse por isso mesmo. Um tempo depois, Daniel Santa-Clara liga para Tertuliano Máximo Afonso dizendo que quer encontrar-se com ele. O encontro se dá na casa do professor de história, onde o impasse entre os dois começa a tomar direções perigosas. Daniel Santa-Clara, que havia sondado a vida da futura esposa de Tertuliano, revelou que queria se passar por ele e dormir com Maria da Paz. Obviamente Tertuliano Máximo Afonso discordaria daquela proposta absurda. No entanto, as armas do inimigo, como força física, acabaram intimidando Tertuliano Máximo Afonso e revelando sua vulnerabilidade para com seu duplicado, sua fraqueza apesar do forte nome, e isso acabou deixando que Daniel Santa-Clara desse o passo para aquela maldita noite de amor que planejara passar com a noiva do outro.

  É então que Tertuliano Máximo Afonso percebe o quão errado esteve em não dar ouvidos à sua mãe e às sensatas intervenções do senso comum. É aí que percebemos no romance os jogos intertextuais e as claras recorrências à mitologia, que aparecem no desenrolar da trama. Tertuliano Máximo Afonso seria Epimeteu que, por sua curiosidade, abre a apocalíptica Caixa de Pandora ao ir em frente com a pretensão de conhecer seu duplicado. Já a mãe de Tertuliano Máximo Afonso se converte em Cassandra, fazendo um pedido vindo de uma sensação profética e desconfortável de que algo catastrófico aconteceria ao seu filho se procurasse de novo Daniel Santa-Clara. Tudo havia sido em vão porque o presente de grego já havia passado pelos portões de Tróia.

  A passividade de Tertuliano Máximo Afonso frente à insana proposta de Daniel Santa-Clara em se deitar com Maria da Paz – ela, coitada, totalmente alheia àquela louca história – é o que desencadeia a derrubada do último dominó da história. Embora tenha deixado seu megalomaníaco sósia e inimigo executar seu inescrupuloso plano, Tertuliano Máximo Afonso decide se vingar e fazer jus à lei de talião, tão recorrente em suas leituras históricas.  A idéia era que se vingasse deitando-se com a mulher do seu inimigo, Helena, outra inocente vítima nesse jogo. Toda essa loucura encabeçada pelos dois homens idênticos culmina na morte da inocente Maria da Paz num acidente que também acaba tirando de cena o ator Daniel Santa-Clara.

 Os noticiários avisam que um casal de noivos havia morrido numa grave batida em plena estrada. Para o mundo, Tertuliano Máximo Afonso havia morrido e não tinha escolha a não ser deixar de ser ele mesmo. Aí está a ironia na história. Não se pode haver duas pessoas idênticas no mundo. Se quem morreu foi Tertuliano Máximo Afonso, ele não poderia ainda estar vivo, logo teria que ser outro.

  Ao assumir a identidade do outro, ao mudar completamente, ao banha-se naquele rio heraclitano, no qual ele não seria mais o mesmo, Tertuliano Máximo Afonso perde completamente sua antiga identidade. Embora sobrevivente, saiu perdendo, sobretudo seu eu. E todo embate entre os dois para saber quem era o original e quem era a cópia havia sido inútil, já que, sendo ou não sendo cópia do outro, Tertuliano Máximo Afonso havia se tornado a efetiva cópia de Daniel Santa-Clara, o que talvez tenha vencido em toda história por ressuscitar em Tertuliano Máximo Afonso. Eis aí a fina ironia de Saramago sobre a identidade do homem nesse conturbado mundo moderno corporificada na história do homem duplicado.

  O mais impressionante da história ainda teria um porvir. Conformado em deixar que o mundo pensasse que havia morrido e de ter que assumir a identidade do seu rival, Tertuliano Máximo Afonso não só incorpora em si a imagem do outro na vida social, mas também em caráter. Esse novo caráter é mostrado no impressionante desfecho, que se dá quando um misterioso de voz idêntica liga para sua nova casa e diz que quer marcar um encontro. Ao ver a história se repetir, o novo Antonio Claro se troca, põe a arma no bolso e sai para se encontrar com o homem misterioso de voz idêntica a sua. Esse acontecimento marca a transformação por completo de Tertuliano Máximo Afonso em Antonio Claro.

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    Obrigada, Bruno, pela resenha. Eu li o livro, mas eu precisava ler algumas interpretações para eu poder entedê-lo melhor.
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