Uma Abordagem Sobre As Obras E Os Poetas Da Escola Simbolista

22/05/2009 • Por • 4,456 Acessos

1.INTRODUÇÃO

     Os nomes de maior expressão no Simbolismo português são: Eugênio de Castro, Antônio Nobre e Camilo Pessanha. Esses poetas voltam-se à realidade subjetiva, às manifestações metafísicas e espirituais, abandonadas desde o Romantismo. Buscam a essência do ser humano, a alma; a oposição entre matéria e espírito, a purificação do espírito, a valorização do inconsciente e do subconsciente. Em suas obras encontram-se características e peculiaridades marcantes como: musicalidade, a mais importante de todas as artes. “A música antes de tudo”. Aliterações, assonâncias, onomatopéias, sinestesias. Linguagem vaga, imprecisa, sugestiva, não mostrava as coisas, apenas as sugeria. Negação do materialismo e do cientificismo realista. Retorno à mentalidade mística, comunhão com o cosmo, astros. Personificação, maiúsculas alegorizantes. Mergulho no Eu profundo, nefelibatismo – habitantes das nuvens. Todas essas particularidades e aspectos retratados nas poesias de Eugênio de Castro, Antônio Nobre e Camilo Pessanha consagram-lhes como os maiores poetas da geração simbolista.

2. AS PECULIARIDADES NAS OBRAS DOS POETAS SIMBOLISTAS

      As obras dos poetas simbolistas caracterizam-se por terem linguagem vaga, fluida, que prefere sugerir a nomear. Ornada, colorida, exótica, bem rebuscada e cheia de detalhes; as palavras são escolhidas pela sua sonoridade, num ritmo colorido, buscando a sugestão e não a narração. Utilização de substantivos abstratos, efêmeros, vagos e imprecisos; presença abundante de metáforas, comparações, aliterações, assonâncias, onomatopéias, sinestesias; subjetivismo e teorias que se voltam ao mundo interior. Antimaterialismo, anti-racionalismo em oposição ao positivismo; misticismo, religiosidade, valorização do espiritual para se chegar à paz interior.O pessimismo, dor de existir; desejo de transcendência, de integração cósmica, deixando a matéria e libertando o espírito. Interesse pelo noturno, pelo mistério e pela morte, assim como momentos de transição como o amanhecer e o crepúsculo; interesse pela exploração das zonas desconhecidas da mente humana (o inconsciente e o subconsciente) e pela loucura.

     Em Eugênio de Castro (1869-1944), a sua obra pode ser dividida em duas fases: simbolista e neoclássica. A simbolista corresponde aos poemas escritos já no século XX.

     Em suas produções literárias, o poeta ora segue as tendências do Barroco (pessimismo, culto à solidão, preocupação com a morte), ora segue as tendências do Parnasianismo (culto à frieza, descritividade), ora segue o neoclassicismo (temas da história greco-romana). Portanto, o poeta faz misturas de várias estéticas em suas produções. Entretanto, pode ser intitulado como poeta simbolista, pois, utiliza-se dos recursos formais, pertencentes a esta escola literária.

     As poesias de Eugênio de Castro são carregadas de novas rimas, novas métricas, aliterações, versos alexandrinos, vocabulário mais rico; ele expõe no prefácio – manifesto de Oaristos. Predominância do neoclassicismo, temas voltados à antiguidade clássica e ao passado português (profundamente saudosista). Poesia repleta de esteta voluptuosa de forma, cor, som e movimento. Também, a presença do vago, do onírico, da musicalidade; lirismo, pessimismo e espiritualismo sentimental. Figuras de linguagem como; aliterações, assonâncias, sinestesia e outras; linguagem dotada de recursos expressivos, que são características do poeta.

     Todas essas peculiaridades nas poesias de Eugênio de Castro tornaram-no um dos poetas mais expressivo da geração simbolista.

      Antônio Nobre (1867-1900). A poesia foi a sua grande paixão e nela se retratou e imprimiu sensações, cenas bucólicas, motivos de simplicidade popular, dores, martírios, idéias, novas rimas: um aglomerado de coisas novas que a sua sensibilidade soube burilar. À sua morte deixou-nos como legado, dois magníficos volumes em verso: "Só" e "Despedida".

     Os seus versos podem considerar-se do melhor que na nossa língua se escreveu e neles transluz o pressentimento melancólico e cruel da morte. Foi original em quase tudo o que produziu: nas imagens que empregou, na forma, nos pensamentos, nos ritmos novos, e incutiu nos seus versos uma sonoridade desconhecida, um vigor de expressão rara e imagens perfeitamente originais.

      O que escreveu é de uma singeleza adorável e é apontado como o poeta da saudade e da tristeza.

      Antônio nobre possuía um temperamento contemplativo e pessimista, e a sua obra integra-se na corrente decadentista-simbolista. Sua produção maior; “Só”, editada em 1892, mágoa, dor e saudade, esse sentimento tão português, está tudo nesses sonetos.

      A princípio, sua poesia mostra uma certa influência de Almeida Garret e de Júlio Dinis, porém, em uma segunda fase fica clara a influência do Simbolismo Francês.

      Antônio Nobre é um lírico cuja obra, por seus temas e por seus valores estéticos, harmoniosamente se entrosa no lirismo tradicional da literatura portuguesa. Dentro da mais recuada tendência estética da língua portuguesa situa-se essa preferência prosódica a que o poeta, como genuíno escritor, dos mais profundos sentimentos de sua raça, não se poderia esquivar.

      O regresso a um passado feliz, que transfigura a realidade, poetizando-a e aproximando-a da intimidade do poeta, foi acompanhado de alguma ironia amarga perante o que achava ser a agonia de Portugal e a sua própria, num sentimentalismo aparentemente simples que reflete uma dimensão mítica, por vezes um certo visionarismo, da sua vivência da saudade, do exílio, da pátria e da poesia, temas recorrentes da sua obra.

      O alternatismo do ‘A” e do “I’ das velhas cantigas paralelísticas estende-se por toda a sua produção literária, no ‘só” e ao longo da “Despedida”. Marcantes, ainda, na sua obra são o seu pessimismo e a obsessão da morte (como em Balada do Caixão, Ca(ro) Da(ta) Ver(mibus), Males de Anto ou Meses depois, num cemitério), o fatalismo com a sua predestinação para a infelicidade (como em Memória, Lusitânia No Bairro Latino ou D. Enguiço) e o apreço pela paisagem e pelos tipos pitorescos portugueses (como na segunda e terceira partes de António, Viagens na Minha Terra ou no soneto Poveirinhos! Meus velhos pescadores).

      António Nobre, recusando a elaboração convencional, oratória e elevada da linguagem, libertou-a, procurando um tom de coloquialidade, sensível mais que reflexivo, cheio de ritmos livres e musicais, afetivo, oral, precursor de muitos aspectos da modernidade e acompanhado de uma imagística rica e original. O seu único livro publicado em vida, “Só” (1892), que é o livro mais triste que há em Portugal, segundo palavras do próprio autor, foi um dos grandes marcos da poesia do século XIX. Na reedição de 1898, Nobre dividiu o livro em secções, construindo o percurso de vida de uma personagem. “Memória” abre a obra, marcando, desde o início, a ascendência mítica dessa personagem que, fadada para ser um “Príncipe” e um poeta, simbolicamente fica órfão e erra em busca da sua identidade – individual, de “Anto”, e coletiva, já que o eu simboliza Portugal e os portugueses na crise do fim do século.

      Os fatos marcantes e as peculiaridades encontradas na obra de Antônio Nobre conceberam-lhe o título de grande poeta da escola simbolista.

      Já, Camilo Pessanha (1867-1926) é considerado o mais simbolista dos poetas da época. Autor considerado de difícil leitura, pois trabalha bem a linguagem. No seu livro predomina o estranhamento entre o eu e o corpo; o eu e a existência e o mundo. Os seus poemas são repletos de musicalidade, sugestivos, simbólicos; o culto da dor, sentido abstrato, vago e difuso. Carregados de sentimentos, que constitui o pilar de sua poesia. Em sua obra, Clepsidra, por exemplo, o poeta distancia-se de uma situação concreta e pessoal, sua poesia é pura abstração.

      O desacordo, a ambigüidade, a oposição são constantes ao longo da Clepsydra, que tem quatro grandes temas: a Dor, a Solidão, a Morte, a Transitoriedade e a Fuga para o Nada. A par destes temas, característicos do Simbolismo, encontram-se inúmeras imagens, das quais salientam-se: a) imagens visuais que sugerem cor (vejam-se, por exemplo, os poemas: Branco e Vermelho; Final; Tatuagens complicadas do meu peito; À flor da vaga, o seu cabelo verde); b) imagens auditivas, a lembrar sons, melodias (poemas: Viola Chinesa; Ao longe os Barcos de Flores; Chorai, arcadas). A estas últimas correspondem algumas das linhas de força da poética de Pessanha:

- “a identificação (já verlainiana) entre poesia e música”;

- “a eurritmia e a valorização fono-simbólica do texto poético (em que o som alude, com o seu poder evocativo, a uma realidade externa não conhecida racionalmente)” (7).

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sem dúvida que, todas as obras aqui citadas e referenciadas são de grande importância e relevância para o período simbolista. Mas, a Clepsydra é, pois, um marco do Simbolismo português. Reúne poemas compostos por Pessanha ao longo de vários anos, que o consagrou como o poeta mais autêntico da escola simbolista em Portugal.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. 31. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. GOLDSTEIN, Norma. Versos, Sons, Ritmos. 13. ed. São Paulo: Ática, 2004. MOISES, Massaud. Dicionário de termos literários. 4. ed. São Paulo: Cultrix, 1985.

Perfil do Autor

Ademar dos Santos Lima

Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa e Pós-Graduação em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal do Amazonas...