Marketing: Necessidade Se Cria?
O ser humano possui necessidades básicas que são essenciais a sua sobrevivência como segurança, transporte, moradia, água e alimento. Todas ligadas a condições psicobiológicas conectadas à (digna) sobrevivência. Se ele não as tiver, sofre. Mas o surpreendente é que também existem pessoas que sofrem porque não conseguem saciar desejos: pelo último modelo de bolsa, de sapato, de carro, o restaurante do momento, entre outros.
Estes consumidores são motivados por produtos e serviços supérfluos. Entretanto, esta palavra não significa um bem ou serviço negativo; inferior. Significa, simplesmente, estar em um rol secundário das prioridades. Pode-se chegar a afirmar que o “supérfluo é necessário”. Explicando melhor: quem atende às necessidades básicas sobrevive; quem atende aos desejos, vive.
Kotler, um dos teóricos da área, explica que o marketing teria poderes mágicos de criar demanda para produtos ou serviços de baixo interesse social. Além disso, teria a condição de gerar necessidades nas pessoas por algo que elas efetivamente não necessitariam. Este é um enfoque místico que atribui ao marketing poderes que ele efetivamente não tem: criar demanda ou gerar necessidades.
Mas afinal, necessidade se cria?
Podemos usar como exemplo, o celular. Este aparelho foi criado para atender uma necessidade que das pessoas se comunicarem com maior velocidade em qualquer lugar, facilitando a vida de todos. Esta necessidade, não foi criada pelo marketing. Se não fosse o celular a executar esta funcionalidade, poderia ser qualquer outro aparelho.
A propaganda não pode mudar os gostos, criar necessidade e vontades ou até criar demanda. A propaganda pode tornar os consumidores cientes de suas necessidades, pode estimular suas vontades, pode estimular a demanda e pode tornar possível para os consumidores aproveitar um número maior e uma extensão mais ampla de gostos. Mas gostos, necessidades, vontades e demanda se originam todos dentro do consumidor.
Todavia, ao gerar uma infinidade de opções aos consumidores, a sociedade de consumo contribui para demarcar as fronteiras entre necessidade e desejos. Por exemplo: habitação é necessidade. Mas quantos metros quadrados configuram uma residência digna por habitante? A partir de que tamanho uma casa ou apartamento vira objeto de desejo? Uma habitação de 6,5 metros quadrados seria habitável?
Alimento obviamente é necessidade: proteínas, vitaminas e carboidratos. Na forma de arroz, feijão, pão macarrão. Temperados por desejo ou necessidade? E de quantas calças e pares de sapato podemos falar para se viver dignamente? Provavelmente dependerá da classe social e da profissão da pessoa.
E quando um objeto deixa de ser necessidade e vira desejo?
O celular – vamos utilizá-lo de novamente - atende a alguma outra necessidade além de se comunicar? A resposta é sim. Se não fosse por isso, talvez ainda estaríamos utilizando o velho “tijolão”. Este comportamento é identificado como uma vontade de saciar o desejo de ter um status, de se autoafirmar, ou realização pessoal.
Retirar um celular da última moda da bolsa é símbolo de sucesso, logicamente que alguns preferem deixá-lo preso ao cinto para que os outros possam ver que possui um aparelho com tecnologia avançada. E o papel do marketing é justamente atender a essas necessidades secundárias que estão presentes nos consumidores.
Não é o marketing que cria a necessidade do consumidor, o marketing atende a necessidade de ter um status, realização pessoal ou autoafirmação através dos produtos que cria.
“Oh, não discutam a “necessidade”! O mais pobre dos mendigos possui ainda algo de supérfluo na mais miserável coisa. Reduzam a natureza às necessidades da natureza e o homem ficará reduzido ao animal: a sua vida deixará de ter valor. Compreendes por acaso que necessitamos de um pequeno excesso para existir?” (Shakespeare, Rei Lear)
(Artigonal SC #1181921)
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