Neurose e Psicose

07/09/2011 • Por • 166 Acessos

"A palavra Neurose foi criada pelo médico escocês Wilian Cullen no fim do século 18, para designar distúrbios das sensações e movimentação corporal, sem uma lesão anatômica correspondente na rede nervosa".


A palavra Psicose foi grafada pela primeira vez em 1845, por um psicólogo alemão, Feuchtersleben, e apareceu no ano seguinte, pela primeira vez, no Zeitschrifte fur Psychiatrie und Gerichtliche Medizin (Jornal de Psiquiatria e Medicina Forense).


A Palavra "neurótico", da maneira como costuma ser usada hoje, tem um sentido impróprio e pode ser ofensivo ou pejorativo. Pessoas que não entendem nada dessa parte da medicina podem usar a palavra "neurose" como sinônimo de "loucura".

Segundo o Petit Robert, a palavra "psicose" só foi usada na França em 1869, e, se acompanharmos toda a literatura do século XIX, veremos que o primeiro aparecimento da palavra psicose, com grande destaque, é no trabalho de Möbius, de 1892, quando ele divide as doenças mentais em psicoses exógenas e endógenas. Então, psicose é uma palavra de curso muito restrito, especialmente no século XIX. Quando Kraepelin faz a sua sistemática, a palavra psicose não aparece. Depois ela vai surgir freqüentemente em todos os tratadistas, como veremos.


O que é uma Psicose?
O que é uma psicose? É difícil dizer e fazer uma definição. Pensando para conversar com vocês esta noite, eu tive a idéia de que a psicose é um espectro que tem dois pólos: o pólo da despersonalização e o pólo da desrealização. Toda psicose é formada por um conjunto de alterações do conhecimento do indivíduo do próprio eu e do conhecimento do indivíduo do mundo em que ele se encontra. Psicose é a alteração entre o eu e o mundo exterior, e a neurose é a alteração da relação entre o ego, o id e o superego.


A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose (1924)

Recentemente indiquei como uma das características que diferenciam uma neurose de uma psicose o fato de em uma neurose o ego, em sua dependência da realidade, suprimir um fragmento do id (da vida instintual), ao passo que, em uma psicose esse mesmo ego, a serviço do id, se afasta de um fragmento da realidade. Assim, para uma neurose o fator decisivo seria a predominância da influência da realidade, enquanto para uma psicose esse fator seria a predominância do id. Na psicose a perda de realidade estaria necessariamente presente, ao passo que na neurose, segundo pareceria, essa perda seria evitada.


Existe, portanto, outra analogia entre uma neurose e uma psicose no fato de em ambas a tarefa empreendida na segunda etapa ser parcialmente mal-sucedida, de vez que o instinto reprimido é incapaz de conseguir um substituto completo (na neurose) e a representação da realidade não pode ser remodelada em formas satisfatórias (não, pelo menos, em todo tipo de doença mental). A ênfase, porém, é diferente nos dois casos. Na psicose, ela incide inteiramente sobre a primeira etapa, que é patológica em si própria e só pode conduzir à enfermidade. Na neurose, por outro lado, ela recai sobre a segunda etapa, sobre o fracasso da repressão, ao passo que a primeira etapa pode alcançar êxito, e realmente o alcança em inúmeros casos, sem transpor os limites da saúde — embora o faça a um certo preço e não sem deixar atrás de si traços do dispêndio psíquico que exigiu. Essas distinções, e talvez muitas outras também, são resultado da diferença topográfica na situação inicial do conflito patogênico — ou seja, se nele o ego rendeu-se à sua lealdade perante o mundo real ou à sua dependência do id.

Uma neurose geralmente se contenta em evitar o fragmento da realidade em apreço e proteger-se contra entrar em contato com ele. A distinção nítida entre neurose e psicose, contudo, é enfraquecida pela circunstância de que também na neurose não faltam tentativas de substituir uma realidade desagradável por outra que esteja mais de acordo com os desejos do indivíduo. Isso é possibilitado pela existência de um mundo de fantasia, de um domínio que ficou separado do mundo externo real na época da introdução do princípio de realidade. Esse domínio, desde então, foi mantido livre das pretensões das exigências da vida, como uma espécie de ‘reserva'; ele não é inacessível ao ego, mas só frouxamente ligado a ele. É deste mundo de fantasia que a neurose haure o material para suas novas construções de desejo e geralmente encontra esse material pelo caminho da regressão a um passado real satisfatório.

O trabalho com pacientes psicóticos evidencia de imediato a grande multiplicidade subjetiva que este diagnóstico tenta comportar. A experiência clínica revela que as tentativas de generalização ou de padronização sob um mesmo rótulo diagnóstico acabam sendo muito empobrecedoras. Pode-se dizer que algo similar ocorre também nas demais constituições de diagnósticos, onde as singularidades tendem a ser apagadas ou deixadas de lado para que algum enquadramento generalizador, que enfatiza certo traço comum, seja possível. Tal é, predominantemente, a lógica empregada pelas diversas elaborações científicas que visam construir seus entendimentos teóricos sobre os seres humanos. Importa destacar, no entanto, que se, por um lado, a constatação de quadros estruturais mais generalistas pode auxiliar de certa forma no trabalho clínico, por outro, ela não deveria ofuscar a riqueza das singularidades subjetivas.


Partindo da obra freudiana, as elaborações psicanalíticas lacanianas parecem caminhar no sentido de caracterizar montagens estruturais que fundamentam a constituição dos sujeitos, valorizando, ao mesmo tempo, a história singular que cada um deles elabora. No trabalho clínico com psicóticos, tais diferenças mostram-se com imensa riqueza. O modo como os psicóticos constituem seu corpo e se relacionam com ele pode ser um exemplo das grandes variações que se pode encontrar dentro de um mesmo quadro estrutural amplo. Percebem-se distinções entre o modo de constituição do corpo de um paranóico e o de um esquizofrênico, assim como também chama a atenção as alterações que ocorrem no corpo de um mesmo sujeito quando entra em uma crise aguda. Além disso, é preciso levar em conta todas as diferenças particulares de cada sujeito. Fica, assim, evidente que qualquer reflexão sobre o estatuto do corpo nas psicoses será sempre um recorte parcial, mas, ainda assim, acredita-se ser interessante constituir uma breve trajetória neste sentido.


Evidencia-se, a partir dessas observações, que, tanto na neurose como na psicose, o sujeito origina-se a partir de uma alienação no outro. A falta da entrada efetiva de um terceiro, que venha a constituir um corte, constituir o processo de simbolização, é que distingue fundamentalmente a psicose da neurose.

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Luiz Caetano

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