A Atuação do Enfermeiro na Oncopediatria

04/04/2011 • Por • 963 Acessos

INTRODUÇÃO

Diante dos novos avanços tecnológicos e farmacológicos da medicina moderna e aumento dos índices de sucesso da cura da Leucemia Linfoblástica Aguda tem-se aumentado muito nos últimos 10 anos, porém muitas crianças ainda sofrem com esta doença. LLA é uma neoplasia Maligna do Sistema Hematopoiético caracterizada pela alteração do crescimento e da proliferação das células linfóides, na medula Óssea, com conseqüente acumulo de células jovens indiferenciadas, denominadas blastos é a neoplasia maligna mais freqüente cerca de 70% entre as crianças menores de 15 anos de idade (1). Entre muitos sintomas podemos ressaltar a febre, equimose e a palidez como as mais comuns em crianças portadoras de L.L.A. Desta maneira estudos (2) nos mostram que alguns dos sinais principais são os infiltrados celulares como as hematomegalias, esplenomegalias e linfodenopatias, que ocorrem respectivamente de 50 a 68% dos casos. Dentre muitos fatores que possibilitam a cura desta grave doença, podemos citar um ponto contra a expressão dos genes de Resistência Múltipla a Drogas (MDR-1), genes que estão relacionados à Proteína de Resistência Múltipla a Drogas - MRP e genes de Proteína de Resistência Pulmonar – LRP, que podem conferir o fenótipo de resistência ao tratamento de neoplasias (3).

Dos três genes estudados somente a expressão aumentada de LRP é o risco aumentado de ocorrência de recaída ou óbito. O risco relativo de ocorrência de recaída ou óbito é seis vezes maior em crianças com alta expressão de LRP ao diagnóstico, o que é confirmado nas analises variadas dos três genes. Dentendo-nos agora um pouco mais sobre a influência dos serviços prestados pelos profissionais de enfermagem durante a luta destas crianças frente a esta grave doença. A enfermeira esta ativamente envolvida na situação e com freqüência age intuitivamente no cuidado da criança e no apoio aos seus familiares. É importante combinar a sensibilidade ao conhecimento teórico, com a finalidade de oferecer uma assistência de enfermagem planejada e estruturada, visando à orientação aos familiares a respeito do que ocorre e estimulando a expressão dos seus sentimentos (6). A morte da criança e do adolescente é interpretada como interrupção no seu ciclo biológico e isso provoca na equipe de enfermagem sentimentos de impotência, frustração, tristeza, dor, sofrimento e angústia (7). Quando cuidamos de pacientes nessa faixa etária, corremos o risco de nos envolvermos com eles e constituirmos o vínculo afetivo, que é concebido como sendo uma forma de comportamento em que uma pessoa mantém a proximidade com outra que é diferente e preferida. Ele é visto como uma base de segurança e, quando é interrompido, como na presença da morte, provoca sofrimento e sentimento de perda, ou seja, provoca o luto que é uma reposta esperada frente à separação(8) .

A finitude da vida possui sempre duas representativas: uma física e outra social, a morte de um corpo ( biológica ), e a morte de uma pessoa.(9) . A morte de uma pessoa significa, normalmente dor e solidão para os que ficam. Portanto, sob este prisma é apenas a destruição do estado físico e biológico que ela traz, mas é também o fim de um ser em correlação com o outro. Este vazio por ela deixado não atinge somente as pessoas que conviviam com quem morreu, mas também a toda rede social (10). As situações de terminalidade na área da saúde são freqüentes para os profissionais, e muitas vezes, inevitável, ficando o trabalhador exposto ás mais diversas sensações, porquanto os hospitais são caracterizados como instituições de cura e recuperação, e as UTIS locais reservados para a manutenção da vida a qualquer custo. Entretanto o que se observa nas unidades criticas, em geral é uma atenção ligada as técnicas, a tecnologia que da suporte para a manutenção da vida, em detrimento as condições humanas e as necessidades emocionais do paciente.Contudo não podemos esquecer que o ato de cuidar vai muito além do fazer técnico, implica no entrelaçamento das ações do cuidado, instrumentais e expressivas , isto é, ligada a subjetividade do corpo cuidador (11).Assim sendo, espera-se que a equipe de enfermagem, mediante ao cuidado profissional, desenvolva suas ações objetivando não somente assistir o ser humano no momento sublime que é seu nascimento, mas comprometer-se com este momento desconhecido em sua essência, ou seja o momento da morte(12).Boemer citado por Lunardi Filho et al., (2001), afirma que desde sua formação profissional o enfermeiro sente-se compromissado coma vida e é para preservação desta que dever[a sentir-se capacitado; sua formação acadêmica esta fundamentada na cura , e nela esta sua maior gratificação. Assim, quando em seu cotidiano de trabalho necessitam lidar com a morte, em geral, sentem-se despreparados e tende4m a se afastar dela(13).

Dessa forma podemos afirmar que o enfermeiro que atua dentro de um setor de oncopediatria deve possuir amplo conhecimento cientifico e um olhar holístico para assim prestar uma assistência mais qualitativa ao paciente.

Ponderando-se a respeito do sofrimento pelo qual passa as crianças submetidas ao trauma da hospitalização e refletindo sobre o auxilio que o tratamento de enfermagem poderá produzir para o alivio da dor e prevenção de seqüelas não só para as crianças, mas para todas as pessoas envolvidas em seu tratamento, firmou-se o interesse por esta pesquisa, objetivando apresentar uma proposta, cuja á intenção é de compreender melhor a doença e como os profissionais de enfermagem prestam assistência às crianças portadoras da L.L.A. A atuação do enfermeiro durante a permanência da criança no hospital, é fundamental para que os familiares e as crianças sintam-se menos traumatizadas. A assistência do profissional ultrapassa a barreira dos procedimentos, de ser puramente tecnicista e mistura-se com a forma sensível e humanitária de lidar com este caso clinico.

Dessa forma passamos a buscar junto a estes profissionais as respostas para o seguinte questionamento: Qual cuidado é mais eficiente na assistência de enfermagem prestada durante o período de hospitalização do pré-escolar? No período da internação o enfermeiro presta cuidados técnicos práticos adquiridos na graduação e além desta assistência ele necessita prestar as crianças um cuidado emocional que adquire no decorrer da vida e das suas experiências profissionais.

OBJETIVO

- Conhecer a assistência de enfermagem em crianças no período pré-escolar durante a hospitalização.

- Descrever a assistência de enfermagem as crianças portadoras de Leucemia Linfóide Aguda, durante o seu período de hospitalização.

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa de campo, exploratória do tipo descritiva com abordagem quantitativa e qualitativa.

No conceito de Lakatos; Marconi (2006), a pesquisa de campo quantitativo-descritiva consiste em investigações de pesquisa empírica cuja principal finalidade é o delineamento ou a análise das características de fatos e fenômenos. Ainda Santos; Rossi; Jardilino (2000) define como pesquisa descritiva aquela que tem o objetivo principal o de estudar, levantar informações sobre o tema e desta forma auxiliar na formulação do problema da pesquisa.

Local da Coleta

A pesquisa foi realizada em um Hospital especializado em pacientes oncológicos da rede publica estadual localizado na cidade de São Paulo.

População e Amostra

Participaram da pesquisa os enfermeiros que atuam na unidade de internação em um hospital da cidade de São Paulo prestando cuidados na oncopediatria. Os critérios de exclusão serão compostos por profissionais que não atuam como enfermeiros e na área de oncopediatria, os enfermeiros que se encontram de férias ou de licença médica.

Instrumento de Coleta de Dados

O instrumento de coleta de dados foi um questionário composto por 10 (dez) sendo que setas serão 3 questões abertas e 7 questões fechadas para que possam responder ao objetivo. (Anexo 1).

Procedimentos para Coleta de Dados

O questionário foi aplicado aos enfermeiros, no período de 01/07/2009 à 20/07/2009, nos turnos da manhã, tarde, noite A e noite B, após a aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa.

Procedimentos Éticos

Após autorização do Comitê de Ética em Pesquisa (COEp) da Instituição Hospitalar, aplicaremos o questionário juntamente com o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE) em respeito à lei nº 196/6.(Anexo 2)

Este projeto encontra-se cadastrado no SISNEP (Sistema Nacional de Ética em Pesquisa) conforme sob nº 255929 (Anexo 3).

Procedimentos para Apresentação dos Dados

Após análise estatística os dados foram apresentados de maneira descritiva com análise bibliografica, a instituição pesquisada com cópia para a instituição de ensino. Resultados e Discussões

Das 5 enfermeiras entrevistas 100% tinham contato  constante com crianças oncológicas, e quando questionamos a respeito do melhor tratamento á criança com leucemia, 80% das enfermeiras informaram ser a quimioterapia o tratamento mais eficaz enquanto que 20%  relatam que a radioterapia torna-se mais eficiente para o tratamento de leucemia.

Segundo Melo e Valle 16 em seus estudos afirma que o câncer infantil até duas décadas era considerado como uma doença aguda e de evolução invariavelmente fatal, porém a perspectiva de cura devido ao avanço tecnológico relacionado ao tratamento de quimioterapia e  radioterapia tem sido muito eficaz, ainda mais quando se trata da humanização durante o processo da internação hospitalar que permite a criança a ter contato com seus familiares.16

Foi questionado as enfermeiras como mantém a mente em equilíbrio durante o trabalho com crianças oncológicas.

E2 ...procuro brincar, ser sorridente, agradável, deixá-las descontraídas, as crianças e seus familiares e me descontraio também.

 

Ao cuidar do outro, em vez de simplesmente olhar para ele de fora, devemos ser capazes de estar com ele em seu mundo, entrar em seu mundo. 17

E4 ...não trago meus problema para o hospital, me coloco no lugar delas.

Há necessidades, do resgate da vida, por meio da percepção do sentido da assistência, e pode ser percebido com uma filosofia de trabalho baseada na postura de constante abertura e consideração da realidade em sua multiplicidade. 18

Todas as entrevistadas informaram que a importância, o carinho e a atenção do profissional ajudam a amenizar a dor durante o tratamento destas crianças, conforme relatado abaixo.

E2... É de suma importância o bom relacionamento, o bom humor do profissional com a criança e familiar.

E4...completamente importante o carinho e atenção do profissional.

E5...sim, porque a criança e a família se sentem mais seguras e confiantes.

E1...é importante que a criança sinta nosso apoio através de nossas ações, nosso carinho e atenção.

E3...sim é importante.

 

Estudos de Paim 19 demonstram que ao ouvir o paciente nada é mais necessário do que uma atenção silenciosa para assegurar-lhe que tomamos conhecimento de suas preocupações e que as mesma serão levadas em conta, no devido tempo, á medida que caracterizamos, em termos de relacionamento com a nossa própria conduta profissional.19

Quando questionamos se a presença dos pais interfere na atuação do enfermeiro, 100% das entrevistadas informaram que não, que a presença dos pais auxiliam o trabalho do profissional, por terem um conhecimento amplo do tratamento que os filhos terão que receber, e cerca de 20% das enfermeiras sentem-se deprimidas por trabalhar com crianças frágeis e  debilitadas por conta dos tratamentos quimioterápicos que recebem.Conforme estudos citado por Françoso 18 , na área do câncer infantil, a morte eclode no cotidiano da assistência, e não há como ocultá-la. Ocorre então, um afastamento da vida: a morte invade todos os espaços, explode angustias difusas, afasta-se da vida mantendo a distância necessária á perpetuação da dissociação. 18

Mesmo com altas porcentagens de cura e sobrevidas mais longas, observa-se que os enfermeiros que atuam em Oncopediatria possuem insegurança ao assistir a criança, devido à desinformação sobre a doença e das formas de tratamento. As fantasias formadas para atender a necessidade física e emocional, sem apresentar seus conhecimentos de psicologia e psiquiatria ao cuidado físico dispensado aos pacientes. É importante considerar que a enfermagem não é apenas um apêndice na estrutura hospitalar do qual faz parte. Os profissionais de enfermagem representam mais da metade do contingente de pessoal da instituição e é por meio destes que se torna possível o tratamento e o cuidado da criança doente. 20

5. CONCLUSÃO

Concluímos através deste trabalho que a atuação do profissional de enfermagem ultrapassa a assistência meramente tecnicista, mas visa identificar e auxiliar o paciente em todo o seu contexto, atendendo suas expectativas, medos e ansiedades, muitas vezes silenciosamente, mas fornecendo amparo em todos os momentos durante o tratamento, mesmo que estes profissionais sintam-se inseguros, possuindo táticas para preservar seu equilíbrio emocional mantendo desta forma um suporte de qualidade.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.    Pedrosa, F; Lins, M. Leucemia linfóide aguda uma doença curável. Revista Brasileira de Saúde Materna Infantil. Vol.2, n° 1, Recife, 2002.

2.    Ikeuti, PSI; Borin, LNB; Leuporini, RL. Dor óssea e sua relação na apresentação inicial da leucemia linfóide aguda. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia Vol.28 n° 1 São José do Rio Preto, 2006.

3.    Valera, ET; Scrideli, CA; Queiroz, RGP, et al. São Paulo: Expressão dos genes de resistência múltipla a drogas (MDR-1), genes relacionados à proteína de resistência múltipla a drogas (MRP) e genes da proteína de resistência pulmonar (LRP) na leucemia linfoblástica aguda da criança. Méd Journal Vol 122 n°4,2004

4.    Groot-Bollujt, W.; Mourik, M. Bereavement: role of the nurse in the care of terminally ill and dying children in the pediatric intensive are unit. Rev. Crit. Care Med., v. 21, n. 9, p.391- 392, 1993.

5.    Sundeen, SJ. et al. Nursing - client interaction: implementing the nursing process. Saint Louis: C.V. Mosby, 1985.

6.    Spindola, T, Macedo MCS. A morte no hospital e seu significado para os profissionais. Rev Bras Enfermagem 1994; 47(2):108-17

7.    Bromberg, MHPF. A psicoterapia em situação de perdas e luto. Campinas (SP): Livro Pleno; 2000.

8.    Martins, JS. (Org). A morte e os mortos na Sociedade Brasileira. São Paulo: Hucitec, 1983.

9.    Rodrigues, JC. Tabu da Morte. Rio de Janeiro: Achimé, 1983.

10. Lunardi, WD. et al. Percepção e condutas dos profissionais de enfermagem ao processo de morrer e morte, Texto e contexto Enfermagem, Florianópolis, v.10,n, 3,p.60-81, 2001

11. Palu, LA. et al. A morte no cotidiano dos profissionais e enfermagem em uma Unidade de Terapia Intensiva, 2004.

12. Bromer, MR. et al. A idéia de morte em unidade de terapia intensiva – análise de depoimentos. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v.10, n.2 p.8-14, jul. 1989.

13. Labronici, LM. Eros proporcionando a compreensão da sexualidade das enfermeiras, Florianópolis, 2002. Tese (Doutorado em Enfermagem) - Setor de Ciências da Saúde , Universidade Federal de Santa Catarina.

14. Marconi, MA; Lakatos, EM. Técnicas de Pesquisa: Planejamento e execução de pesquisas - Amostragem e técnicas de Pesquisa, elaboração, análise e interpretação de dados. 6 ed. – São Paulo, Atlas,2006.

15. ___________ Metodologia Cientifica. 3 ed. – São Paulo: Atlas, 2000.

16. Melo, LL;Valle,ERM. Equipe de enfermagem: experiência do cuidar com câncer nos plantões noturnos. Rev. Esc.Enf.USP,v.32,n.4,p.325-34,dez.1998.

17. Souza, AIJ. No cuidado com os cuidadores: em busca de um referencial para ação de enfermagem ontológica pediátrica fundamentada em Paulo Freire [dissertação]. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina; 1995.

18. Françoso, LPC. Reflexões sobre o preparo do enfermeiro na área de oncologia pediátrica. Ver. Latino-Am Enfermagem, 1996 dez; 4(3):41-8.

19.  Paim, L. Algumas considerações de enfermagem sobre as necessidades psicológicas e psicoespirituais dos pacientes. Rev.Bras.Enf.,v.32,n.2,p.160-6,1979.

20. Paro,D; Paro,J;Ferreira,DLM. O Enfermeiro e o cuidar em oncologia pediátrica. Rev.Arq.Ciênc.Saúde.jul-set;12(3):151-57,2005.

Perfil do Autor

Claudia Forlin

Enfermeira, Docente no Ensino Superior.Especialista na área da Saúde.Mestranda em Educação