A Contribuição da Igreja à Saúde Pública

20/06/2011 • Por • 4,603 Acessos

A Igreja e a saúde pública

Objetivo: Despertar a Igreja para promover a saúde pública entre seus membros e sua comunidade e ver nessa atitude uma oportunidade de pregar o evangelho.

"E o segundo é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que esses." (Marcos 12.31).

Introdução

      Na nossa comunidade encontramos pessoas com AIDS, DST`s, dengue, leptospirose, sem hábitos de higiene, sem condições de adquirir medicamentos necessários, com ferimentos, feridas na alma, traumas, com doenças psíquicas, vítimas da violência, etc. Diante desse quadro a Igreja de Jesus deve promover a saúde e ver nesta atitude o desenvolvimento estratégico na área da evangelização, utilizando como base as boas obras.       

    Praticamente toda Igreja tem como membro um profissional de saúde, se não tiver, é certo que algum membro conheça um. Este, junto com a Igreja, pode por meio da medicina gerenciar grandes projetos de saúde com intuito de ganhar almas para Cristo.

     Como pois, poderá a Igreja local desempenhar seu papel no alcance da população utilizando a medicina como estratégia? Despertando os profissionais existentes em sua comunidade.  A igreja pode reunir profissionais da saúde e montar nas suas dependências centros sociais que visem atender as necessidades da comunidade em que ela está inserida. Pode oferecer ao próximo, psicólogos, pediatras, clínicos, fonoaudiólogos, ginecologistas, nutricionistas, técnicos de enfermagem, cardiologistas, enfermeiros, entre outros.

1 Dr. Robert Reid Kalley: O consultório como campo missionário

     As boas obras abrangem vários setores e formas de como ajudar ao próximo. Podemos lançar mão de muitas especialidades profissionais para socorrer aos necessitados e com isto, levá-los a Cristo, porém, passamos agora a dar destaque à medicina como estratégia da Igreja. Grandes homens viram na medicina uma porta entreaberta para conduzir o indivíduo a Cristo. O escocês Dr. Kalley e fundador do congregacionalismo no Brasil soube muito bem administrar o seu chamado bivocacional -- médico e missionário.

     Kalley simultaneamente buscava abrir espaços afetivos no seu consultório, procurava atender gratuitamente a população pobre, alternando sua clientela entre a alta sociedade e os menos favorecidos. Ele ressaltava que cada cristão é chamado a entrar naquele campo de atividade em que melhor possa servir a Deus, então, sua clínica era além de fonte de renda, um campo missionário. Na Ilha da Madeira, além da estratégia da aula de inglês, dos cultos domésticos e da tradução ele subsidiava os medicamentos para a classe menos favorecida. Com isso, ele ganhava o respeito e o direito de ser ouvido pelos madeirenses. Além de conquistar a amizade e a profunda simpatia do povo levando muitos à fé, o que gerou mais tarde um ciúme nos religiosos e empresários. Nos atendimentos médicos no seu consultório ou na casa do cliente, antes da consulta orava e nas receitas continham versos bíblicos. Estas atitudes deixaram o povo impactado e chegou a ser apelidado de o santo inglês. O resultado foi um aumento de mais de 100% em sua classe bíblica passando de 52 para 130 pessoas. O incentivo à leitura fez que o consumo de Bíblias crescesse. Viu neste episódio uma oportunidade e logo criou núcleos de alfabetização, e passou a contratar professores que ele próprio sustentava com seus recursos, tendo sustentado também com seu dinheiro um hospital.

     No Brasil não foi diferente, aplicou seus serviços em favor da pobreza, continuava a usar o consultório como estratégia de evangelismo, além do culto doméstico e da escola dominical, o atendimento médico às pessoas carentes era parte integrante do seu ministério, principalmente às vítimas da cólera e da peste bubônica. Através de sua função médica ele se aproximava de todos os segmentos da sociedade. A Igreja necessita de homens com essa visão. As boas obras praticadas por Kalley têm o seu valor na história, deixando o exemplo para as gerações cristãs.     

2 Jean-Henry Dunant: O samaritano genebrino

     Contemporâneo de Kalley, a vida de Dunant é mais um exemplo de que a fé desloca montanhas. De origem Suíça e de família calvinista, seu nascimento foi comemorado com um sermão em seu lar. Seus pais sempre se voltaram para as boas obras e as ações humanitárias eram vistas na cidade de Calvino.

     Quando ainda jovem cristão, já se podia ver os reflexos do discipulado de seus pais. Pegava suas economias e transformava-as em esmolas, visitava os pobres e aliviava suas misérias, encorajava-os e subsidiava remédios, sempre ministrando a Palavra.

     Movido pela compaixão, a guerra em Solferino - norte da Itália - dá a luz no interior de Dunant, um desejo compulsivo de socorrer os necessitados, culminando na criação da maior instituição filantrópica de ação humanitária -- a Cruz Vermelha.

     Tinha uma fé viva, acompanhada de obras, era a fé na praticidade, era a exposição da fé transformada em boas obras. Lutou com todas as suas forças e dinheiro em prol do próximo, seu biógrafo o chama de o samaritano genebrino. Socorria os feridos de guerra não importando suas nacionalidades, pois no campo de batalha não havia inimigos, todos estavam no mesmo patamar -- precisando de cuidados -- onde colocava italianos e franceses feridos, um ao lado do outro, suprindo suas necessidades. Na luta pela solidariedade promovia reuniões para alcançar adeptos, e em todas as reuniões havia além da palestra, orações e ministração da Palavra uma tomada de decisão para a realização das boas obras. Seu grande estímulo era ser um discípulo de Cristo, não só no âmbito espiritual, mas também na prática sentindo grande compaixão pela humanidade.

     Já quase sem dinheiro utilizava a medicina e seus contatos para cuidar dos enfermos, sarar as feridas do corpo e da alma, causados pela depressão, angústia e miséria a cada um que cruzava o seu caminho; tudo isto com o objetivo estratégico de levar Cristo ao coração do ser humano.

     As atitudes de Dunant tiveram repercussão em toda Europa chegando à Ásia. Reis, Rainhas, Imperatrizes, Príncipes, Duques e Lordes foram confrontados e tocados pelo seu cristianismo estratégico. O resultado que ele colheu não poderia ser outro, foi o primeiro ganhador do Premio Nobel da Paz, porém, sua maior recompensa foi a de ter plantado a paz de Cristo que excede todo entendimento (Fp 4.7) no coração de muitos. A Igreja não deve se distanciar de homens do quilate de Kalley e Dunant.

3 Ação humanitária -- uma expressão de amor

     A ação humanitária nada mais é do que ajudar ao nosso próximo, e os exemplos dados por Jesus do bom samaritano, nos informam que a parábola não produz resposta pronta e sim a produção de pensamentos para uma tomada de decisão. A Igreja tem o seu papel na sociedade, é preciso gerenciar os pensamentos em amor ao próximo. O desenvolvimento das boas obras tem que superar a ditadura do preconceito, é olhar para o próximo e ter compaixão. Porém, alguns pensam que ajudar ao próximo, principalmente os da fé é muito difícil, sendo melhor ficar ligado na TV, plugado no computador e navegando na internet. Precisamos ser apaixonados pela humanidade, desculpar homens indesculpáveis, considerar dignas pessoas tão indignas, exaltar pessoas tão desprezadas e incluir pessoas tão excluídas. Quando praticamos a ação humanitária estamos considerando a Escritura em 1ª Jo 3.16-18, que nos alerta dizendo que "aquele que possui recursos deste mundo e vir a seu irmão padecer necessidades" e não reagir a isso, o amor de Deus não habita nele. Quando demonstramos amor com certeza teremos o retorno, quando plantamos o amor colhemos os corações dos beneficiados. Quando realizamos as ações humanitárias, as boas obras estamos expressando o nosso amor para com o nosso próximo. A igreja não pode se identificar como os amigos de Jó, que ao invés de aliviar sua dor, cuidar de suas feridas, ficaram criticando e acusando-o.          

     A Igreja pode subsidiar medicamentos acompanhados de receitas, oferecerem palestras sobre higiene, sobre prevenção de doenças, controle de diabetes, hipertensão, criar uma micro farmácia, desde que um profissional da área supervisione. Realizar programa para gestantes e criar projetos que dêem oportunidades para atuação destes profissionais na comunidade. Precisamos de verdadeiros engenheiros de idéias para que isto não fique só na escola dominical, a fim de que a Igreja cumpra seu propósito social, tendo sido criada para boas obras.  

Conclusão

     O evangelho deve ser introduzido o mais depressa possível no meio da humanidade. Este é o único meio pelo qual eles terão esperança, pois as feridas, o câncer, as doenças poderão matar seus corpos, contudo, eles terão a certeza de que não matarão seu espírito que estará com Cristo na vida eterna. Nós temos as ferramentas nas mãos. Portas abertas não nos faltam, resta-nos tão somente penetrá-las e erguermos a bandeira do Evangelho.

     Vivemos numa sociedade capitalista e é penoso ver que algumas Igrejas têm absorvido tal visão, passando para seus membros que os valores materiais são prioridades, deixando de lado os valores eternos. A medicina com os seus ramos de especialidades pode ser uma grande aliada na bandeira do Evangelho, pois, muitos virão procurando saúde para o corpo, e também encontrarão saúde para a alma.

          A Igreja com essa estratégia abrirá a porta do evangelho para muitos, cumprindo com uma única atitude duas ordens de Cristo – pregar o evangelho e amar ao próximo com execução das boas obras; mostrando que a Igreja deve amar não só de palavras, mas de obra e de verdade (1ª Jô 3.18). Logo entendemos que quem quiser ajudar procurará um meio, quem não quiser procurará uma desculpa e se procurarmos um meio estaremos sendo Igreja fora da igreja. 

Perfil do Autor

CHARLES ANDERSON RAMOS LORETI

Pastor Charles é casado com Ligia Loreti (psicopedagoga), pai do jovem Mateus da Silva C. L. É Ministro da UIECB -- União das Igrejas...