Aspéctos emocionais da equipe de enfermagem frente ao paciente terminal

15/04/2011 • Por • 3,262 Acessos

1. INTRODUÇÃO

 

Trabalhar em um Hospital é viver diariamente a dúvida de até onde ir, por que ir, quando parar, em que investir e, mais ou menos conscientemente, refletir-se.

O que se questiona, ou o que nos parece necessário refletir, é até que ponto o progresso técnico, como se realiza hoje, é "saudável" e promove o crescimento e a harmonização das pessoas.

Vivenciando o dia-a-dia da enfermagem, observa-se que inúmeros funcionários, atuando em Instituições Hospitalares, são portadores de estresses, havendo, portanto, necessidade de investigação das causas e fatores desencadeantes locais, assim como oferecer orientação sobre o modo de conviver da forma mais saudável com o mesmo, bem como sobre mecanismo de prevenção, incluindo ações que possam melhorar a organização do trabalho.

Experiências realizadas com a equipe de enfermagem, mostra o despreparo e a dificuldade que todos tem quando o paciente se encontra em fase terminal.

Referindo-se   ao  existir  , assim    se    expressa:

"o nosso existir é realmente muito incerto, pois se desenvolve num  processo cheio de ambigüidadese  de  riscos,  cuja  impossibilidade   nos   impede de  ter  segurança  ao  agir." (FORGHIERI, 1984.p.74-75)

Quando atendemos ao paciente terminal é de fundamental importância que toda a equipe esteja bastante familiarizada com os estágios pelos quais ele passa, lembrando que podem se intercalar e repetir durante todo o processo da doença, descritos por E. KUBLER-ROSS (1998),em seu livro Sobre a Morte e o Morrer e que permitem uma visão real da complexidade vivida pelo paciente diante da sua e do morrer. São eles: a negação e o isolamento, a raiva (revolta), a barganha, a depressão e a aceitação, complementando-se com a esperança que persiste em todos esses estágios e que é o que conduz o paciente a suportar sua dor. "Quando um paciente não dá mais sinal de esperança. Geralmente é prenúncio de morte iminente."

"É impressionante como, mesmo no ambiente onde a morte é algo que constantemente ocorre, ainda haja, entre os profissionais, aqueles que não querem falar a respeito." (KUBLER, 2004).

 

Afirma que: "ajudar uma pessoa a morrer bem, é apoiar o  sentido  de  amor  próprio,  dignidade  e escolha  dessa  pessoa  até ao último momento de vida.  Para conseguir, devemos  prestar  cuidados calmos, sensíveis, individualizados a cada pessoa de forma  a  que  a  sua  existência  humana  final, seja  tão  livre  de  dor,  sentindo-se  reconfortada, por  ser vista como uma pessoa digna de cuidados mais atentos." (RODEIA, 1998. p. 112)

Os trabalhadores de saúde estressados têm diminuído a capacidade de produção, executam atividades com menor precisão, faltam ao trabalho, adoecem freqüentemente, trabalham tensos e cansados, são ansiosos e depressivos, com atenção dispersa, desmotivado e se sentem com baixa realização pessoal.

Comenta que: "  cuidar da família do  doente em fase terminal, passa por saber ouvi-la, mostrando disponibilidade  e   compreensão.  É   importante reconhecer  que,  muitas  vezes,  a sua  revolta  e agressividade  não  é  dirigida  pessoalmente  aos enfermeiros;  mas é uma  demonstração de dor e desespero  perante  a  incapacidade  de  ajudar  a pessoa que amam."(LIMA, 2006.p.1)

Se a nossa qualidade de contato com as pessoas com quem vivemos está boa, talvez isso seja um indicador de que estejamos conseguindo fazer trocas saudáveis. Se nosso corpo se mantém saudável, talvez isso seja um sinal de que estejamos bem com a vida e no caminho certo. E se os nossos sonhos continuam envolvendo trabalhar com o que trabalhamos, talvez o nosso caminho seja o correto.

O profissional de saúde é um profissional da vida. E sendo um profissional da vida, deve ser capaz de transmitir vida, de mostrar vida nas suas ações, nas suas palavras, nas suas intenções, nos seus projetos.

 

Quando assumimos a responsabilidade pelo nosso próprio desenvolvimento nos relacionamentos, entendemos que todas as pessoas que chegam até nós, são verdadeiros testes para nosso aprendizado na vida - se considerarmos a vida um laboratório, onde muitas experiências são possíveis. Visto assim, temos uma gama muito grande de "espécies" e de possibilidades para contato e para aprendizado, passando a entender que a verdadeira mensagem das coisas esta nas pessoas – e não são palavras. Descobre-se, assim, que cada pessoa é uma história e qual a história que cada pessoa é. Descobre-se ouvindo, olhando, tocando,...

 

Sabemos que existem pessoas tão desfiguradas pelas experiências de vida que, encontrando bons ouvintes, tornam-se novamente humanos, dignos de terem atenção. Escutar e saber ouvir, é deixar a nossa memória reorganizar-se a partir da palavra do outro; é deixar que as nossas palavras despertem em nós sentimentos que nem sempre são claros. É preciso que identifiquemos esses nossos mecanismos de defesa diante do sofrimento, da doença, da morte e da revolta, porque nossos medos podem ser revelados ao toque da palavra.

 

Quando nos dispomos a cuidar de alguém, sabemos que tomos pelo menos três fases pela frente. A primeira delas, é quando percebemos que não sabemos as necessidades de alguém, se realmente não conhecemos este alguém. É quando a nossa capacidade de ouvir se faz extremamente necessária. Nesta fase cabe ao profissional levar em consideração – não só as limitações educacionais dos pacientes – mas também, o necessário respeito às possíveis diferenças culturais que, muitas vezes, são confundidas de forma preconceituosa com ignorância. A segunda fase do processo de cuidar é uma espécie de auto-aceitação. É quando o profissional percebe que pode e quer ser terapeuta e cuidar. "Se é curar, o profissional fica escravo da tecnologia; se é cuidar, ficará preocupado com o bem-estar, o conforto e a qualidade de vida da pessoa que tem diante de si. A terceira fase do processo de cuidar pode ser vista como uma fase de auto-expressão. É quando mostramos a nossa capacidade de ser terapeuta através das nossas palavras, dos nossos atos, comportamentos e emoções. É quando percebemos que, para nos expressar bem, foi necessário que tivessemos sido bons ouvintes. Nesse momento, já somos capazes de perceber que o que é bom para mim, não é necessariamente – ou sempre – bom para o outro.

Para KOVÁCS (1987,p.42) "a morte está presente na vida do ser humano em todas as idades, tendo características diferentes segundo o estágio de desenvolvimento em que se encontra o indivíduo."

O costumeiro é combater a morte além do racional e das forças e vontade do paciente. A morte perdeu o caráter sagrado e social a ser visto como uma derrota do ser médico, algo a ser experimentado de forma solitária.

Focalizando medo da morte, afirma que o homem, de forma geral, antes do advento da tecnologia, estava mais familiarizado com a morte, compartilhada, tanto no leito de morte como nas cerimônias que envolviam a comunidade, sendo permitida a expressão de tristeza e dor. (KOVÁCS, 1987)

Para quem vai morrer, é essencial não se sentir abandonado, tanto pelos médicos quanto pela família e amigos. "Morrer ao lado dos que nos reconhecem como semelhantes e nos admiram pelo que fomos durante a vida traz a dignidade da morte", sugere a psicóloga Clarice Pierre, autora do livro A Arte de Viver e Morrer, e especialista no comportamento a doentes terminais e crônicos. Aos médicos e instituições de saúde, cabe cuidar para que a morte seja vivida com o menor sofrimento possível. Aos poucos, a sociedade está chegando à conclusão de que prolongar a vida a qualquer custo nem sempre é compatível com a dignidade humana. (DORNELLAS, 2005)

Afirma que: "toda doença é uma ameaça à vida e,com  isso, é  um  acesso para a morte, ou  até um primeiro  ou  último  passo  em  direção  à  morte. para   ele,  vida   e   morte  são  inseparavelmente unidas e permanecem uma à outra. Ou  morrer  é uma  possibilidade destacada do  existir  humano, por ser mais extensa e não ultrapassável." (BOSS, 1981. p. 423-43)

A morte espera por todos nós e certamente lidar com ela não é fácil. Deixar de pensar e falar na morte não ajuda a diminuir o problema nem o torna mais fácil de ser enfrentado. Pelo contrário, podemos aprender aceitá-la e a perceber que ela pode ser uma experiência tão importante e valiosa como qualquer outra de vida.

O profissional de enfermagem precisa cultivar a percepção da individualidade dos pacientes, respeitar sua dor, suas crenças, procurar entender a fase em que se encontra, e os sinais verbais e não-verbais para auxiliá-los e seus familiares.

 

Aponta as situações causadoras de estresses nas enfermeiras    que    acabam   com          tarefas desgastantes,    repulsivas      ou    aterrorizantes, suscitando  sentimentos  fortes  e  contraditórios,ora libidinosos, ora agressivos, ocasionando forte ansiedade. Aponta ainda que o impacto direto da doença física na  enfermeira é  intensificado pela sua  tarefa  de  captar  o  estresse  psicológico  de outras pessoas, e de lidar com eles inclusive os de seus próprios colegas. (MENZIES,1970. p.58-89)

Podemos dizer que é aconselhável que o profissional de saúde busque um bom conhecimento de si mesmo, a fim de facilitar a compreensão e o manejo adequado do doente. Ás vezes, o paciente necessita de uma atitude mais diretiva, funcionando como um auxílio moral, um apóio, ou de uma troca de idéias, levando um alívio imediato.

1.1  PROFISSIONAIS DE SAÚDE

A capacitação profissional para lidar com a pessoa doente e com seus familiares se impõe para um adequado controle e alívio dos sintomas que geram sofrimento. Muitas vezes a equipe de enfermagem sentem falta de treinamento nesta área e tem pouca instrução quanto a seu papel diante de tais situações.

O encontro com o paciente nunca é neutro. O enfermeiro deve reconhecer que sua presença é tão importante quanto o procedimento técnico.

Acreditamos que o perigo e o desafio de nos desenvolvermos como seres humanos envolve paixão. Talvez, uma tentativa de se manter a mente flexível, resoluta, clara, aceitando possibilidades e diferentes alternativas; o corpo elástico, sensível, cheio de energia; o coração aberto, para amar a si mesmo e aos outros.

Os profissionais de Enfermagem e de saúde, de uma maneira geral, não podem humanizar o atendimento do paciente crítico antes de aprender como ser mais "inteiro"/ íntegro consigo mesmo.

Humanizar o atendimento é socorrer as circunstâncias e necessidades do outro, assim como tornar mais humanas as condições de trabalho da equipe de enfermagem.

Quando nos sentimos respeitados, valorizados e motivados enquanto pessoas e profissionais, podemos mais facilmente estabelecer relações inter-pessoais saudáveis e respeitosas com os pacientes, familiares e equipe de multiprofissional.

Com algumas freqüências observamos a equipe de enfermagem sentarem ao lado do paciente, tirarem o estetoscópio , a caneta (por alguns segundos...), esperarem o paciente acabar de falar para começar a "tomar notas", tocando o paciente nos braços ou mãos para lhe transmitir segurança, empatia, conforto, encorajamento...

 

A frieza não livra ninguém do sofrimento, ela apenas enterra a dor num nível mais profundo. Depois de graduados, negamos a tristeza em face da desventura do paciente, a irritação diante de sua resistência e até a alegria com sua recuperação. Muitos enfermeiros pensam que é humano sentir raiva, medo, tristeza ou amor quando trabalha intimamente com outro ser humano. Reprime os sentimentos – só que eles não deixam de existir se não forem entendidos.

1.2  DIREITO DE MORRER DIGNAMENTE E DIREITO À MORTE

O direito de morrer dignamente não deve ser confundido com direito à morte.

O direito de morrer dignamente é a reivindicação por vários direitos e situações jurídicas, como a dignidade da pessoa, a liberdade, autonomia, a consciência, os direitos de personalidade. Refere-se ao desejo de se ter uma morte natural, humanizada, sem o prolongamento da agonia por parte de um tratamento inútil.

Defender o direito de morrer dignamente não se trata de defender qualquer procedimento que cause a morte do paciente, mas de reconhecer sua liberdade e sua autodeterminação.

O artigo 5º da Constituição Federal de 1988 garante a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade e a segurança, entre outros. Ocorre que tais direitos não são absolutos. E principalmente, não são deveres. O artigo 5º não estabelece deveres de vida, liberdade e segurança.

Os incisos do artigo 5º estabelecem os termos nas quais estes direitos são garantidos:

II – Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de leis;

III – Ninguém será submetido a tortura nem a tratamento degradante;

IV – é livre a manifestação do pensamento...;

VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença...;

VIII – Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou convicção fisiológica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

X – são invioláveis à intimidação, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo material ou moral decorrente de sua violação;

XXXV – a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito.

Assim é assegurado o direito (não o dever) à vida, e não se admite que o paciente seja obrigado a se submeter ao tratamento. O direito do paciente de não se submeter ao tratamento ou de interrompê-lo é conseqüência da garantia constitucional de sua liberdade, de sua liberdade de consciência (como nos casos de Testemunha de Jeová) , de sua autonomia jurídica, da inviolabilidade de sua vida privada e intimidade e, além disso, da dignidade da pessoa, erigida a fundamentos da República Federativa do Brasil, no art. 1º da Constituição Federal.

1.3   ENFERMAGEM E A FAMÍLIA

Cuidar da família faz parte integrante dos cuidados a prestar à pessoa em fase terminal. Esta não pode ser vista isoladamente, mas como membro integrado numa família, daí que para haver cuidados de enfermagem de qualidade à pessoa em fase terminal é fundamental a inclusão da família em todo o processo de cuidar.

Cuidar da família do doente em fase terminal passa por saber ouvi-la, mostrando disponibilidade e compreensão. É importante reconhecer que, muitas vezes, a sua revolta e agressividade não é dirigida pessoalmente aos enfermeiros; mas é uma demonstração da dor e desespero perante a incapacidade de ajudar a pessoa que amam.

O enfermeiro deverá, sempre que possível, proporcionar privacidade para conversar e dar apoio aos familiares, compreender os seus sentimentos e reações, responder às suas dúvidas e, sempre que necessário, indicar outras entidades competentes, quando as situações o exigem.

Em suma, a atuação do enfermeiro perante a pessoa em fase terminal deverá ser orientada no sentido de promover a máxima qualidade de vida no tempo que ainda lhe resta, de garantir cuidados básicos e paliativos, sempre com respeito pelo sua dignidade, como ser bio-psico-social e cultural.

O enfoque da ação de enfermagem não deve estar voltado apenas para o doente, mas também para a sua família, pois esta não pode ser visto como ser único, mas como ser social, integrado numa família. Quanto mais clima for de conforto e confiança, mais a experiência pode ser positiva. Não nos esqueçamos: os gestos de atenção e cuidado ficarão para sempre na lembrança dos familiares.

Nossa vida reflete uma luta constante para vencer o abismo entre o que fazê-lo de fato.

1.5  PROFISSIONAIS DE SAÚDE E A ESPIRITUALIDADE NA ÚLTIMA ETAPA DA VIDA

Todo profissional que atende a enfermos em situação terminal deve estar aberto a acompanhar e dar suporte às suas necessidades espirituais. As vezes o doente escolhe partilhar suas preocupações espirituais com o religioso ou sacerdote disponível, mas também é certo que, à miúdo, o faz com as enfermeiras, psicólogos, fisioterapeutas, assistentes sociais, médicos ou os auxiliares..

O que está claro é que a responsabilidade da atenção espiritual deve ser compartilhada entre todos os membros da equipe. A necessidade básica do ser humano é de amar e ser amado, e sentir esta conexão até o final da vida.

Muitas vezes necessita completar as relações do passado, resolver os assuntos pendentes e viver o que lhe sobra de tempo com relações mais significativas. O trabalho de resolução de pendentes inclui o trabalho do perdão, a expressão da gratidão e do afeto.

KLUBER-ROSS (1998), afirma que nos momentos de crise é imprescindível para o paciente que se preserve sua liberdade de expressão psicoespiritual por meio da religião que se torna, assim, o referencial do homem em meio aos fenômenos que o envolvem. O vínculo religioso transmite valores básicos que amenizam as reações psicológicas em situações de crise.

2.  OBJETIVO DA PESQUISA

*Avaliar as condições emocionais da equipe de enfermagem frente ao paciente terminal.

* Analisar os resultados obtidos com essas pesquisas e identificar dificuldades que a equipe de enfermagem apresenta aos cuidados à pacientes terminais.

* Apontar perspectivas de tratamento e cuidados de enfermagem junto a família de pacientes terminais, para melhorar a qualidade de vida na fase terminal.

3.  MÉTODOLOGIA

A nossa pesquisa é de campo, ou seja, é aquela utilizada  com o objetivo de conseguir informações e/ou conhecimentos acerca de um problema, para o qual se procura uma resposta, o de uma hipótese que se queira comprovar, ou, ainda, descobrir novos fenômenos ou as relações entre eles.

 

Para TRUJILLO 1982:229, a pesquisa de campo propriamente dita "não deve ser confundida com a simples coleta de dados (este último corresponde à segunda fase de qualquer pesquisa): é algo mais que isso, pois exige contar com controles adequados e com objetivo preestabelecidos que descriminam suficientemente o que deve ser coletado".

Houve complementação do referencial bibliográfico já tornados públicos em relação ao tema de estudo, desde artigos, revistas, livros, pesquisas já realizadas, jornais, Internet.

A bibliografia pertinente "oferece meios para definir, resolver, não somente problemas já conhecidos, como também explorar novas áreas onde os problemas não se cristalizaram suficientemente, e tem por objetivo permitir ao cientista o reforço paralelo na análise de suas pesquisas ou manipulação de suas informações.(MANZO 1971. p.32)

3.1.  CAMPO DE ESTUDO

Para alcançar o objetivo proposto, optou-se por uma abordagem quantitativa, empregando a pesquisa de campo exploratória realizada em um Hospital Público de São Paulo (Hospital Geral de Vila Penteado "Dr. José Pagella"), em setembro/ outubro de 2007. Assim, foi realizado um estudo qualitativo para compreender como determinados atores, no caso a equipe de enfermagem, interpretam o momento da terminalidade da vida. Nesse sentido, não foram buscadas as regularidades, mas os significados que os participantes dão a esse momento da existência.

3.2.  POPULAÇÃO E AMOSTRA

Participaram desse estudo, aleatoriamente, 20 profissionais, todos da equipe de enfermagem, sendo que destes 16 do sexo feminino e 4 do sexo masculino, dentre eles, 5 enfermeiros, 1 técnicos de enfermagem e 14 auxiliares de enfermagem, que compunham a equipe de saúde dos setores de UTI, PS, e enfermarias, no período matutino, identificados pelo hospital como sendo setores com maior incidência de pacientes terminais. Foram entrevistados os membros da equipe de saúde que demonstraram interesse pela temática proposta.

3.3. INSTRUMENTO DE PESQUISA

Foram distribuídos vinte questionários estruturados e com termo de consentimento para os profissionais da equipe de saúde dos três setores do hospital em questão. O questionário  foi formulado com nove perguntas fechadas e uma pergunta aberta, totalizando dez perguntas.

3.4.  ANÁLISE DE DADOS

Foi realizada uma análise quantitativas, onde agrupamos de forma descritiva as idéias da pesquisa de campo com o  questionário e do material bibliográfico selecionado.

O  questionário individual foi entregue a equipe de enfermagem (enfermeiros, técnicos de enfermagem e auxiliares de enfermagem) do Hospital Geral de Vila Penteado "Dr. José Pangella", no período matutino, em UTI, PS e enfermarias..

Foi solicitado a anuência para a realização do estudo. A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética do Hospital Geral de Vila Penteado " Dr. José Pagella". Os 20 questionários (anexo o termo de consentimento), foram distribuídos aleatoriamente nas áreas apontadas como de maior incidência de pacientes terminais. A pesquisa foi realizada no período de setembro/ outubro de 2007, com os funcionários que trabalham no período matutino.

MINAYO (1998) afirma que o processo de análise de dados relaciona as estruturas significantes com as variáveis psicossociais, contexto natural e processo de produção da mensagem. Uma boa análise interpreta o discurso dentro de um quadro de referências onde a ação abjetivada permite ultrapassar a mensagem manifesta e atinge os significados latentes

 

4.RESULTADOS/ DISCUSSÃO

Os resultados foram obtidos através do questionário, distribuídos nas áreas mais críticas (PS, UTI, enfermarias). Dos 20 profissionais entrevistados 4 são homens e 16 mulheres, sendo que 60% estão na faixa etária até 40 anos. Destes 25% são enfermeiros, 5% técnicos e 70% auxiliares. A pesquisa nos dá um resultado de 55% dos profissionais como não preparados emocionalmente para encarar a morte da mesma forma que ajudam a salvá-la.Vale ressaltar que dos profissionais 85%, tem mais de 5 anos trabalhados e que isso pode ser fator que os levem a imparcialidade perante os pacientes e que a profissionalização,e até mesmo a instituição não os dão suporte para tal atendimento.

6.CONCLUSÃO

Nunca se ouviu falar tanto em qualidade de vida, solidariedade, na emergência de novos paradigmas. Entretanto, o homem em toda a sua evolução histórica, jamais esteve tão necessitado de significados para o seu existir.

Fazem-se as leis e políticas de saúde para tudo que surge, num afã de se poder, com isto, controlar o existir, e o que se nota são as diferenças cada vez mais acentuadas entre os povos, as pessoas, não se percebendo que talvez a solução não esteja aí, nos fatos externos, mas dentro de cada indivíduo, com o seu viver/ morrer .

Com isso, percebemos que enquanto não houver uma política de saúde voltada para a morte, não a morte como objeto de estudo científico, como conseqüência de uma patologia ou fatalidade qualquer, mas como um processo que participa da vida, o homem dificilmente será capaz de qualificar a sua existência, ficando cada vez mais aos poderes instituídos por aqueles que detêm o poder da ciência.

Na formação do trabalhador de enfermagem aprende-se várias técnicas executadas para prevenção, promoção, cura ou reabilitação do paciente, com protocolos específicos, sinalizando passo a passo os procedimentos. Mas, em relação ao paciente no processo de morrer, não destituindo as técnicas que propiciarão o seu bem-estar, como analgesia e higiene, não há uma discussão sobre como o profissional deve agir diante dos questionamentos feitos por pacientes terminais e seus familiares.

Depositário da confiança social na eficiência dos profissionais, o hospital esconde por detrás de sua fachada, as mesmas inseguranças, precariedades e medos encontrados na sociedade.

7.REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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Perfil do Autor

Claudia Forlin

Enfermeira, Docente no Ensino Superior.Especialista na área da Saúde.Mestranda em Educação