Assédio moral interferindo na saúde mental dos profissionais de enfermagem: revisão integrativa

Publicado em: 17/10/2013 |Comentário: 0 | Acessos: 127 |

1 INTRODUÇÃO

O trabalho sempre teve papel essencial na vida dos seres humanos. Desde o período primitivo o homem já necessitava trabalhar para sobreviver. Com o decorrer do tempo os objetivos do trabalho e o seu processo foram sendo alterados (visou-se o lucro e a produtividade), no entanto sua finalidade de sobrevivência sempre foi mantida1.

A globalização mundial e as políticas neoliberais têm reestruturado a organização atual do trabalho, sendo responsáveis pelo desencadeamento de um processo de imposição constante aos trabalhadores de deficientes condições de trabalho, geradoras de doenças e danos à saúde física e, principalmente, mental dos mesmos. Neste contexto, o trabalhador, como sujeito de direito, está envolvido por duas realidades, ora possui plena capacidade laborativa, ora fica impossibilitado de trabalhar por motivo de doenças e acidentes relacionados às suas relações de trabalho2.

A palavra "assédio" remete-nos quase imediatamente a uma associação: a um conteúdo sexual. Atualmente existe uma discussão de caráter mais amplo e mais sutil, que revela nuances de um fenômeno que não tinha nome nem endereço certos: o assédio moral3. O assédio moral (AM) nas relações do trabalho é um fenômeno tão antigo quanto o próprio trabalho, onde ameaça infligir o indivíduo a graves prejuízos psíquicos e físicos, porém ainda é pouco discutido na enfermagem4. Esse problema está presente praticamente em todo o universo laboral, familiar, sócio-político, econômico e educacional podendo provocar doenças e até mesmo a morte5.

De acordo com algumas definições, o assédio moral ou violência psíquica é considerado "qualquer conduta abusiva, manifestando-se, sobretudo, por comportamento, palavra, atitude, gestos, escritos que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, ameaçando emprego ou degradando o ambiente de trabalho"6. A violência psíquica é composta de uma série de comportamentos hostis, cuja repetição constante e intensidade têm efeitos perniciosos onde transforma o autoconhecimento do corpo, como avalia seus comportamentos e como desenvolve os afetos que sente para consigo mesma7.

Sendo assim, o trabalho em saúde requer uma constante necessidade de se rever e reaprender o sentido da atuação. Ou seja, o desenvolvimento da consciência crítica e reflexiva sobre o modo como as pessoas se relacionam é um fator que está à disposição do profissional, podendo intervir e atenuar situações de confronto com pacientes, pares e o contexto de saúde.

A presença da violência no ambiente de trabalho implica em custos consideráveis para os indivíduos em termos de saúde e em relação a seu emprego e para a organização, dado o impacto causado pelo absenteísmo (ausência dos trabalhadores no processo de trabalho), baixa na produtividade e rotatividade de pessoal8.

A motivação da escolha dessa temática veio através de uma vivência pessoal no decorrer de um estágio curricular e por ser um assunto instigante, importante e pouco pesquisado na enfermagem, portanto, um desafio. Surge como uma forma de aprimorar o conhecimento em uma questão comprometedora para a saúde mental dos trabalhadores de enfermagem.

Portanto, o presente trabalho tem como objetivo demonstrar as mudanças da saúde mental dos profissionais de enfermagem quando assediados no ambiente de trabalho, descrever os métodos operantes utilizados pelos assediadores citados em artigos publicados, relatar o percentual de trabalhadores segundo o gênero e verificar a prevalência dos agressores de acordo com o nível hierárquico.

 

1.1 Tipos de assédio moral e seus métodos operantes

Há três tipos de assédio moral, entre eles: 1) AM vertical, pode acontecer entre chefes e subordinados;  2) AM ascendente, acontece por parte dos subordinados para com os chefes e 3) AM horizontal, que ocorre entre os colegas de trabalho. Também pode haver diversos motivos como: forçar ou apressar a aposentadoria do outro, estar de olho na promoção, querer forçar a demissão ou transferência do colega, racismo, inveja, entre outros4.

O principal tipo de assédio na enfermagem vem do líder da equipe para com os outros colegas: humilhando-os em público e/ou reser­vadamente, com ameaças; depreciando e denegrindo a sua imagem; distorcendo as informações dadas, criando boatos e rumores maldosos e falsos; procedendo a diversas formas de insultos, como gritos, críticas, depreciação dos métodos de trabalho, banalização; criando ritos de disciplinamento e de poder; cerceando os direitos; restringindo, limitando, censurando e/ou retirando a autonomia; realizando cobranças absurdas; delegando-lhes tarefas inalcançáveis; desrespeitando; fiscalizando e controlando o seu trabalho abusiva­mente; com ausência de transparência para o outro; atribuir-lhes tarefas não condizentes com o cargo/fun­ção/área profissional9.

Portanto, a violência no ambiente de trabalho engloba ameaças, insultos, agressão física e/ou psicológica originadas de pessoas exteriores ou não à instituição como, por exemplo, clientes, contra alguém que está trabalhando constituindo um risco para a saúde, segurança e bem-estar dos trabalhadores.

 

1.2. Consequências na saúde mental da equipe de enfermagem

O trabalho é mediador de integração social, tanto por seu valor econômico quanto cultural repercutindo, assim, no modo de vida das pessoas e, consequentemente, na sua saúde física e mental. As consequências sociais desse fenômeno são extensas e podem atingir a todos que estão em volta do assediado. Atingem a família, a empresa, a previdência e o governo, pois o adoecimento do trabalhador gera gastos para reabilitação da sua saúde, além de treinamento com novos funcionários, perda de renda, da produtividade, das amizades e até mesmo o divórcio10.

Nota-se que os trabalhadores de enfermagem já vivenciam uma variedade de problemas relacionados às condições de trabalho que potencializam os fatores que favorecem o estresse, como: a falta de materiais, grande demanda para atendimento, ritmo acelerado, sobrecarga de trabalho, entre outros, o que já exige capacidade de agir sob pressão, alta habilidade psicomotora e aptidão somada com a falta de valorização dos profissionais envolvidos, ainda tem que lidar com o assédio moral.

As ações perversas geram estresse e ansiedade já que as palavras estão escondidas, as vítimas vão responder com respostas inadaptadas que agravam a violência do assediador e começam a se comportar desgaste e disfunção autonômica. Quando essa pressão dura muito tempo, a resistência do corpo fica exausto a ponto do assediado apresentar um estado de ansiedade crônica de apreensão e expectativa permanentes, sentimentos de ansiedade, o que faz a pessoa ter uma vida ruim e difícil de suportar11.

Isso nos permite diferenciar a condição ligada ao assédio moral com o sentimento de humilhação e agressão à dignidade. As vítimas têm vergonha de ter sofrido, não sabendo o que fazer para parar as agressões. As vítimas têm vergonha de serem vítimas e se sentem culpados. A agressão faz perder os limites de seu espaço psíquico, eles não sabem distinguir a normalidade do anormal por canta da destruição do agressor. Os assediados vivem aterrorizados12.

Como principais consequências estão os distúrbios psicossomáticos, seguido de depressão causado pela baixa da auto-estima, podendo levar ao suicídio (mais comum em homens do que nas mulheres). O assediado como a acreditar que merece passar por esse sofrimento psicológico e a se culpar pelos eventos. As mulheres são mais receptivas a idéia de procurar aconselhamento do que os homens, muitos podem passar por tratamento o resto da vida. Se a agressão psicológica tiver uma duração prolongada pode levar o indivíduo a agir violentamente, com impulso, como também pode se anular de vez13.

O assédio moral, em longo prazo, apresenta riscos para o aparecimento da perturbação pós-traumática do estresse (PTSD). Em seguida, o evento traumático é revivido através de memórias, sonhos repetitivos e pesadelos, causando uma sensação de angústia e reatividade fisiológica. Sendo assim, o trauma pode se transformar em ergofobia (medo do trabalho) e/ou levar a Síndrome de Burnout. Em paralelo vem o enfraquecimento da reatividade geral (diminuição do interesse em atividades que tinha passado algum tempo, o sentimento de desconexão com e/ou outra restrição de afeto), que pode ter graves repercussões na vida familiar14.

A síndrome de burnout caracteriza-se como uma reação à tensão emocional crônica por lidar excessivamente com pessoas. É formada por três dimensões relacionados, porém independentes: 1) exaustão emocional: caracterizada por falta de energia e entusiasmo, por sensação de esgotamento de recursos ao qual pode somar-se o sentimento de frustração e tensão nos trabalhadores, por perceberem que já não têm condições de despender mais energia para o atendimento de seu cliente ou demais pessoas, como faziam antes; 2) despersonalização: caracterizada pelo desenvolvimento de uma insensibilidade emocional, que faz com que o profissional trate os clientes, colegas e a organização de maneira desumanizada e 3) diminuição da realização pessoal no trabalho: caracterizada por uma tendência do trabalhador a autoavaliar-se de forma negativa, tornando-se infeliz e insatisfeito com seu desenvolvimento profissional, com consequente declínio no seu sentimento de competência e êxito, bem como de sua capacidade de interagir com os demais15-16.

Portanto, quando o organismo é exposto a um esforço ou um estímulo percebido como ameaçador ao seu equilíbrio, seja ele um agente físico, químico, biológico ou psicossocial, de forma constante e de grande intensidade o corpo se organizará para responder sob a forma de adaptação.

 2. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa. Para estabelecer as amostras de estudo foram utilizados critérios de inclusão: artigos publicados no período de 2005 a 2012 disponíveis em português, inglês e espanhol que tenham relevância com a temática; e, como critério de exclusão: monografias, dissertações, teses, resenhas, textos não científicos, textos não disponíveis na íntegra.

            A questão norteadora para a elaboração desta revisão consistiu em "Qual a produção de evidências científicas disponíveis sobre o assédio moral e até onde isso interfere na saúde mental dos profissionais de enfermagem?".

            As bases de dados consultadas foram: Base de Dados de Enfermagem (BDENF)  Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) e o Scientific Electronic Library Online (SCIELO).

            Após exaustiva leitura entre o período de outubro a dezembro de 2012, no decorrer da busca na base de dados acabou resultando em oitenta e oito (88) resultados, onde sessenta e cinco (65) eram artigos e cinquenta (50) foram selecionados para leitura. Destes, vinte e seis (26) foram escolhidos como amostra por atenderem aos critérios de inclusão.

3. RESULTADOS

Na presente revisão integrativa, analisou-se um total de vinte e seis (26) artigos científicos que atenderam rigorosamente ao critério de inclusão. Em relação às bases de dados, dois (7,7%) foi na BDENF, quatro (15,38%) no LILACS, dez (38,46%) no MEDLINE e dez (38,46%) no SCIELO.

Quanto ao tipo de publicação, vinte e cinco (96,15%) foram em revistas e um (3,84%) em caderno de saúde pública. Frente à apresentação dos resultados dos 26 (vinte e seis) artigos científicos, quinze (57,7%) são da enfermagem, quatro (15,4%) de medicina, um (3,84%) da psiquiatria, três (11,53%) multiprofissionais e três (11,53%) indefinidos. Referente ao ano de publicação, dois (7,7%) foram publicados no ano de 2005, quatro (15,4%) em 2006, dois (7,7%) em 2008, um (3,84%) em 2009, dois (7,7%) em 2010, cinco (19,23%) em 2011 e dez (38,46%) em 2012.

Quanto ao país, dezoito (69,23%) foram desenvolvidos no Brasil, um (3,84%) no Chile, um (3,84%) no Canadá, um (3,84%) nos Estados Unidos, um (3,84%) na Jamaica, um (3,84%) na Austrália, um (3,84%) na Finlândia, e dois (7,7%) na Alemanha. Ou seja, dezenove (73,07%) publicados na América Latina, dois (7,7%) na América do Norte, um (3,84%) na América Central, um (3,84%) na Oceania e três (11,53%) na Europa.

Em relação ao tipo de delineamento da pesquisa, três (11,53%) se encontraram indefinidos; três (11,53%) eram revisões integrativas; dois (7,7%) foram revisões bibliográficas; um (3,84%) exploratório com abordagem qualitativa, um (3,84%) estudo exploratório e descritivo; três (11,53%) qualitativos, quatro (15,38%) descritivos, um (3,84%) de pesquisa multicêntrica internacional, um (3,84%) estudo longitudinal, um (3,84%) de transversal, um (3,84%) transversal e qualitativo, dois (7,7%) estudo exploratório, transversal com abordagem quantitativa dos dados; um (3,84%); natureza empírico-descritiva, com abordagem quantitativa, um (3,84%) estudo retrospectivo, analítico-relacional e qualitativo e um (3,84%) de caráter investigativo.

Os principais métodos operantes utilizados pelos agressores e citados em todos os artigos pesquisados foram às humilhações (50%) seguidas de comportamentos violentos (38,46%), agressão verbal (23,07%), discriminação (21,74%), ameaças (21,74%), constrangimentos, acossamento e exclusão com 11,53% cada (Quadro I).

Quadro I: Comportamentos utilizados pelo assediadores citados em cada base de dados.

Bases de dados

Comportamentos utilizados pelos assediadores

BDENF: Humilhações (100%) e maus-tratos (50%).

LILACS: Constrangimento (25%), desmoralização (25%), atentados contra a vida (25%), ameaças telefônicas, discriminação de raça e gênero (75%), humilhações (50%) e comportamentos violentos (50%).

MEDLINE: Ataques verbais (40%), entregar novas tarefas o tempo todo (10%), ignora o trabalhador (20%), calúnias (10%), acossamento (30%), críticas do desempenho laboral (20%), ocultação de informações relevante para o trabalho (10%), ameaças (10%), comportamento violento (50%), humilhações (30%) e maus tratos (30%).

SCIELO: Humilhações (60%), desqualificação profissional (10%), agressão verbal e física (40%), ameaças (30%), discriminação (40%), repetidas perseguições (10%), imposição de sobrecarga física (10%), exclusão social do trabalhador (30%), roubo (10%), falta de respeito (10%), a pressão do tempo (10%), críticas cegas (10%), constrangimento (20%), comportamento violento (10%), competição (10%), sonegação de informações (10%) e maus-tratos (10%).

 Dos 26 artigos, quatro (15,38%) citaram manifestações fisiológicas onde incluem: dores de cabeça, queixas gastrintestinais, distúrbios do padrão de sono, estresse, palpitações, aumento ou falta de apetite; três (11,53%) relataram distúrbios psicossomáticos (é quando o adoecimento mental acaba interferindo no funcionamento normal do organismo. Ex: dispneia, enxaquecas) (Quadro II).

As manifestações psicopatológicas (é quando o adoecimento mental acaba interferindo no convívio social. Ex: depressão, esquecimento, pesadelos) foram citados por sete (26,92%) artigos. Um (3,84%) relatou a Síndrome de Burnout; seis (23,07%) do total de artigos citaram outros tipos de consequências, incluindo: incapacidade permanente, baixa auto-estima, sentimento de raiva, vingança, revolta, estresse, vergonha, decepção, tristeza, irritação, solidão, crises de choro, sentimento de abandono, mudança do setor de trabalho ou abandono do mesmo e redução da produtividade, desestimulação para trabalhar e desgaste emocional e cinco (19,23%) não abordaram mudanças na saúde mental  dos profissionais de enfermagem quando assediados no ambiente de trabalho (Quadro II).

Consequência do Assédio moral (AM)  Amostras (23)   Percentual (%)

Manifestações fisiológicas                                  4                    15,38

Distúrbios psicossomáticos                                3                     11,53

Manifestações psicopatológicas                        7                      26,92 

Síndrome de Burnout                                        1                      3,84

Outros                                                               6                     23,07

Não abordaram                                                 5                     19,23

A grande maioria do assédio é por parte dos próprios colegas de trabalho (AM horizontal) com 26,92% e seus chefes (23,07%), enquanto que a minoria vem dos pacientes e/ou familiares (19,23%), enquanto 30,77% não abordaram o assunto. Enquanto isso, 50% citaram ambos os gêneros como assediados, 30,77% relataram somente mulheres, 3,84% abordaram sobre os homens, e 15,38% não abordaram o assunto (Quadro III).

 Quadro III: Prevalência dos assediadores de acordo com o nível hierárquico e gênero que mais sofrem de assédio moral citados em cada artigo.

Assediador - Amostras (23) - Percentual (%)-Assediados  Amostras- (23) Percentual (%)

Chefes                 6                     23,07                Mulheres            8               30,77

Colegas               7                     26,92                Homens              1               3,84

Pacient/Familia    5                     19,23                  Misto               13               50 

                                                                              

Não abordaram    8                     30,77               Não abordaram        4        15,38  

4. DISCUSSÃO

Após leitura dos 26 artigos, permitiram agrupar os resultados por similaridade, tendo permitido a constituição de três principais categorias de análises referentes aos tipos de assédio moral de maior prevalência relatado nos estudos, a prevalência do gênero que mais sofrem desta violência e, principalmente, as consequências que ficam na saúde mental dos profissionais.

Percebe-se que a prática de assédio moral no ambiente de trabalho dos enfermeiros é bastante frequente e o assediador, muitas vezes, não pratica abertamente o abuso cometido contra seu subordinado, superior, ou colega de trabalho. Um dos fatores que caracterizam o AM encontra-se no incentivo descontrolado à competitividade pelo emprego podendo resultar em condutas inadequadas advindas de superiores hierárquicos ou colegas. Com a alta taxa de desemprego, muitos trabalhadores omitem o AM, devido à existência de outros potenciais empregados dispostos a suportar esse tipo de comportamento, o que determina o privilégio do direito do mais forte e o prejuízo às funções psíquicas de todas as pessoas envolvidas4.

Ao trabalhador, são impostas responsabilidades ilimitadas sem a devida recompensa, exige-se que seja polivalente, que incorpore as forças do coletivo e se transforme em censor dos colegas e de si mesmo, além de total envolvimento e dedicação para com a empresa. Os não considerados aptos são demitidos (idosos, portadores de deficiência, jovens inexperientes, vacilantes) e os aptos para o sistema são solicitados a desempenhos sempre maiores de "produtividade, disponibilidade, disciplina e abnegação"17.

O termo assédio moral ou violência moral é a exposição de indivíduos a situações de constrangimento e de humilhação, o que caracteriza uma atitude desumana, violenta e antiética nas relações sociais, sejam elas vinculadas ao trabalho ou à educação. Essas atitudes objetivam humilhar e desestabilizar emocionalmente a vítima e sua relação com o ambiente de trabalho, o que põe em risco sua saúde18.

O estresse pode surgir nas fases iniciais do assédio moral, quando a pessoa, vítima da agressão, ainda não se deu conta da má intencionalidade na conduta do agressor. Porém, à medida que o assédio vai se agravando, as consequências sobre a saúde se tornam mais destrutivas. É preciso ter cautela ao identificar uma situação de assédio, pois nem todas as pessoas que se dizem assediadas o são de fato. Saber reconhecer o assédio é imprescindível para a adoção de estratégias eficazes de prevenção nas organizações19.

Os "novos métodos" gerenciais utilizam ameaças de demissão e precarização para espalhar o medo no local de trabalho, gerando condutas de obediência e submissão. É a submissão rotineira que leva a uma crescente aceitação e ocultação do próprio sofrimento e também à indiferença diante do sofrimento do outro. É visível a falta de confiança e cooperação entre os empregados, a comunicação é limitada nos postos de trabalho, e a linguagem objetiva predomina sobre a conversa e o diálogo. Os efeitos da precarização intensificam o sofrimento psíquico originado pelo trabalho, implicando no surgimento de novas formas de adoecimento e morte dos trabalhadores17.

Para o enfermeiro, como gerente de sua equipe, fica a tarefa de promover relações solidárias com a equipe de trabalho, procurando legitimar e ressaltar as atitudes como ser humanizado, sabendo reconhecer as fragilidades humanas e os limites de tolerância para uma boa relação e convivência em grupo. Os gerentes necessitam cultivar a serenidade, como sa­bedoria do viver com o outro, procurando promover um ambiente mais saudável.

 

5. CONCLUSÃO

Através deste estudo verificou-se a prática do assédio moral tendo os profissionais de saúde, mas especificamente, de enfermagem como vítimas desta agressão. Apesar de ser um tipo de trabalho onde os profissionais de enfermagem tem que interagir diretamente um com o outro, e por não trabalhar próximo a um superior hierárquico, que não está presente no momento do assédio moral, por necessitar do emprego e até mesmo o medo do desemprego tornam estes profissionais mais suscetíveis a sofrerem esta conduta.

O fato desses empregados (profissionais de enfermagem) serem escolhidos como alvo do assédio moral pode ser atribuído à circunstância de sua maioria ser do sexo feminino, onde são vistas como covardes e/ou fracas e por sua natureza passiva e até mesmo submissa como empregado que executa suas atividades, o qual muitas vezes passa despercebido pela maioria das vezes, mas é um "prato cheio" para o assediador.

Tal assédio, além de causar danos (principalmente psicológicos) aos próprios empregados, também traz consequências negativas a empresa contratante, pois o funcionário pode acabar se afastando para se tratar, pode haver redução da produtividade o que gera diminuição dos lucros além dos gastos com a saúde do funcionário afastado.

Pelas evidências apresentadas nesta pesquisa, nota-se a importância da empresa contratante realizarem um trabalho de conscientização dos profissionais, de todos os níveis hierárquicos e setores, para que estes tenham a capacidade de identificar o que significa assédio moral, e possam agir de forma preventiva para minimização ou anulação dos riscos de sofrerem este tipo de violência psíquica. Esse conhecimento contribui para a formação do indivíduo, sua valorização como ser humano, não só no campo profissional, mas em todos os setores da vida. Atualmente, muito se fala sobre bem-estar, qualidade de vida, processo saúde-doença e direitos humanos, tornando fundamental que o tema seja explicitado e debatido nas organizações, sem omissões.

Sugere-se, portanto, que as empresas contratantes possibilitem um canal de comunicação entre a alta administração (o superior) e os funcionários-base, no intuito de ouvi-lo, passar segurança, entender suas necessidades, e discutir a relação entre o assediador e a vítima para, posteriormente, diminuir o impacto que o assédio moral em longa duração pode causar na saúde mental desses trabalhadores.

Acredita-se que a valorização propõe ações de cuidado e de conforto, balizadas nos princípios de humanização, de respeito, de solidariedade, de ética e de reconhecimento humano para com os profissionais de enfermagem e dirigentes das instituições de saúde. Assim, poderá haver redução das situações de violência na saúde, como a falta de amor próprio e para com o semelhante, mal-estar e insatisfação profissional, desgaste dos trabalhadores e o estresse provocado pelas condições inadequadas de trabalho, perpetuadas no atual modelo organizacional em saúde.

 

7. REFERÊNCIA

  1. SILVA NEM, FIGUEIRÊDO DS, FREITAS CES, ARAÚJO TM, PARANHOS IS. Trabalho docente e saúde em uma instituição de ensino superior da Bahia. VI Seminário da redestrado – Regulação educacional e trabalho docente. 6 e 7 nov, 2006 – UERJ – Rio de Janeiro, RJ.
  2. COSTA E. A globalização e o capitalismo contemporâneo. – 1ª ed. - São Paulo: Expressão popular, 2008.
  3. FREITAS ME. Assédio moral e assédio sexual: faces do poder perverso nas organizações. RAE - Revista de Administração de Empresas, São Paulo, 2001 Abr./Jun: v. 41, n. 2: p. 8-19.
  4. THOFEHRN MB, AMESTOY SC, CARVALHO KK, ANDRADE FP, MILBRATH VM. Assédio moral no trabalho da enfermagem. Cogitare Enferm, 2008 Out/Dez; 13(4): 597-601.
  5. FERREIRA JB, MENDES AM, CALGARO JCC, BLANCH JM. Situações de assédio moral a trabalhadores anistiados políticos de uma empresa pública. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 12, n. 20, p. 215-233, dez. 2006.
  6. HIRIGOYEN MF. Assédio moral: A violência perversa do cotidiano. Tradução de Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brail, 2008.
  7. MOURA APM, SARAIVA LM. O mobbing nas organizações de trabalho. Revista electrónica de investigación y docencia (reid), 2, junio 2009, pp. 45-58
  8. HHZR D. O "des"cuidado em saúde: a violência visível e invisível no trabalho da enfermagem [dis­sertação]. Florianópolis (SC): Universidade Federal de Santa Catarina; 2002.
  9. PRESTES FC, BECK CLC, SILVA RM, TAVARES JP, CAMPONOGARA S, BURG G. Prazer-sofrimento dos trabalhadores de enfermagem de um serviço de hemodiálise. Rev Gaúcha Enferm. Porto Alegre (RS) 2010 dez; 31(4):738-45.
  10. HIRIGOYEN MF. Acoso moral en el trabajo. Jornada sobre acoso moral en el trabajo - Barcelona, 9 de mayo de 2003.
  11. PEDROSO VG, LIMONGI AC, MARTINS FAZ, HRDLICKA H, JORGE SM, CORNETTA VK. Aspectos conceituais de assédio moral: Um estudo exploratório. RAS _ Vol. 8, N.33 – Out-Dez, 2006.
  12. MAIA, AC. Fatores preditores de PTSD e critétios de seleção em profissionais de atuação na crise. In: L. Sales (coord). Psiquiatria da catástrofe. – Coimbra: Almedina, 2007.
  13. MASLACH C, JACKSON SE. The measurement of experienced burnout. Journal of Occupational Behavior 1981; 2:99-113.
  14. GONÇALVES RC. O assédio moral no Ceará: Naturalização dos atos injustos no trabalho. Dissertação. Psicologia. Universidade de Fortaleza, CE, 2006.
  15. VASCONCELLOS IRR, ABREU AMM, MAIA EL. Violência ocupacional sofrida pelos profissionais de enfermagem do serviço de pronto atendimento hospitalar. Rev Gaúcha Enferm. Porto Alegre (RS) 2012 jun;33(2):167-175.
  16. HIRIGOYEN MF. Mal-estar no Trabalho: redefinindo o assédio moral. Rio de Janeiro: Bertrand, Brasil, 2002.
  17.  
  1. CAMPOS R. Assédio moral e constante. Psique: Ciência e vida, v.1, n.4. São Paulo: Escala, p.40-47, 2006.
  1. BANDEIRA CM, HUTZ CS. As implicâncias do bullying na auto-estima de adolescentes. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, SP. Volume 14, Número 1, Janeiro/Junho de 2010: 131-138.
  1. CARLOTTO MS, PALAZZO LS. Síndrome de burnout e fatores associados: um estudo epidemiológico com professores. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 22(5):1017-1026, mai, 2006.
Avaliar artigo
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 1 Voto(s)
    Feedback
    Imprimir
    Re-Publicar
    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/medicina-artigos/assedio-moral-interferindo-na-saude-mental-dos-profissionais-de-enfermagem-revisao-integrativa-6799210.html

    Palavras-chave do artigo:

    comportamento social

    ,

    enfermeiros

    ,

    ambiente de trabalho

    Comentar sobre o artigo

    Esta pesquisa objetiva analisar como os enfermeiros de uma Instituição Hospitalar localizada na região do Vale do Itajaí avaliam sua QVT, sendo de cunho qualitativo, do tipo exploratório, com a utilização de uma entrevista semi-estruturada com quatro enfermeiros que atuam numa Instituição Hospitalar localizada na região do Vale do Itajaí.

    Por: Kathllen Daniele Garbaril Psicologia&Auto-Ajudal 22/08/2011 lAcessos: 856

    O presente artigo identificou as características de liderança, do enfermeiro à prestação da assistência de enfermagem humanizada, trazendo um resgate sobre o contexto da liderança na enfermagem e o relacionamento interpessoal com a equipe, Tratou-se de uma pesquisa de campo exploratória, descritiva, quantitativa com amostra composta por 12 enfermeiras.O perfil das profissionais, no linear da dimensão organizacional, apresentou como fator influenciador as características pessoais do enfermeiro, a

    Por: Darlene Berettal Saúde e Bem Estar> Medicinal 08/07/2010 lAcessos: 3,819

    A Lei Federal n° 8080/90, em seu artigo 6º, § 3º, regulamenta os dispositivos constitucionais sobre Saúde do Trabalhador, da seguinte forma: que a saúde do trabalhador deve ser entendida como um conjunto de atividades que se destina, através das ações de vigilância epidemiológica e sanitária, à promoção e proteção da saúde dos trabalhadores, visa à recuperação e reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos provenientes das condições de trabalho.

    Por: tamires almeidal Saúde e Bem Estarl 17/08/2014 lAcessos: 19

    Esta pesquisa apresenta uma análise sobre atuação do assistente social na Base Aérea de Boa Vista-BABV , tem como objetivo geral compreender a prática, as perspectiva e desafios do profissional Assistente Social na BABV, por meio deste foi definido três objetivos específicos, sendo desvelar os aspectos da história do Serviço Social no Brasil; Relatar a respeito da Força Aérea Brasileira: Espaço Sócio Ocupacional de atuação do assistente social e conhecer sua prática do profissional na BABV.

    Por: tamires almeidal Educação> Ensino Superiorl 21/08/2014 lAcessos: 264

    O combate ao trabalho infantil tem sido alvo de muitas discussões, tendo em vista a relação que é estabelecida, pelo senso comum, entre o mesmo e a marginalidade no âmbito brasileiro. Alguns acreditam que o trabalho seja uma forma de ocupação que desvia interesse por atividades ilícitas, no entanto, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho - OIT, Unicef e outros organismos internacionais, as crianças de até 14 anos de idade devem dedicar-se, exclusivamente, à escola.

    Por: Marisa Pigattol Educaçãol 14/05/2008 lAcessos: 8,010 lComentário: 2

    Trata-se de um estudo de caráter descritivo com abordagem quantitativa, cujo objetivo geral foi investigar a Atenção Medicamentosa aos Idosos pelos profissionais Odontólogos (as), Médicos (as) e Enfermeiros (as) das Equipes Saúde da Família da Área Urbana do Município de Porto Velho-RO. A coleta de dados se deu através de questionários com perguntas fechadas e abertas a uma população de 48 profissionais das Equipe de Saúde da Família.

    Por: Josué da Silva Sicsúl Saúde e Bem Estarl 10/12/2008 lAcessos: 899 lComentário: 1
    Joselene Beatriz soares Silva

    O estresse emocional é um dos fatores propiciadores de doenças psicossomáticas em indivíduos de diferentes classes profissionais, em especial os da área da saúde. Por vezes as práticas educativas fazem parte da educação dos enfermeiros e devem ser realizadas em serviço concomitante as ações de enfermagem realizadas rotineiramente porque elas contribuem com o desenvolvimento de novas habilidades de enfrentamento do estresse.

    Por: Joselene Beatriz soares Silval Saúde e Bem Estar> Medicinal 22/03/2013 lAcessos: 136

    Esta é uma reflexão sobre cuidado materno no alojamento conjunto, baseada nos conceitos de Preocupação Materna Primária, Cuidado Materno e Ambiente. O alojamento conjunto é idealizado como um local propício ao estabelecimento, entre a mãe e a criança, de uma aproximação que favoreça o cuidado materno.

    Por: Valeria Infantini dos Santosl Saúde e Bem Estarl 11/10/2010 lAcessos: 4,316
    CARLEIAL. Bernardino Mendonça

    Trabalho de psicobiologia sobre os mecanismos internos da Mente, considerando a Origens e funcionamento do Inconsciente e do Consciente cerebral e mental.

    Por: CARLEIAL. Bernardino Mendonçal Ciências> Biologial 06/01/2012 lAcessos: 122

    Segundo a Organização Mundial de Saúde, aproximadamente 1.4 milhões de crianças perderam a visão

    Por: Ricardo Machado Comunicaçãol Saúde e Bem Estar> Medicinal 15/12/2014

    Plano de saúde é coisa séria pois lida com a saúde, por isso é importante você conversar com um corretor de planos para ele tirar todas as suas dúvidas e ajudar na escolha do plano ideal.

    Por: caetano caldasl Saúde e Bem Estar> Medicinal 13/12/2014

    O Acidente Vascular Encefálico AVE pode ser isquêmico (quando se falta sangue no local afetado) ou Hemorrágico (quando há um extravasamento de sangue no local afetado). O AVE é uma das principais causas de morte no Brasil tanto em homens quanto mulheres, segundo o Ministério da Saúde. Seus sintomas variam desde a dificuldade de falar até mesmo a perda da consciência. Os fatores de riscos estão relacionados a diabetes, hipertensão e etc.

    Por: ANDRÉ LUIS DE CAMPOSl Saúde e Bem Estar> Medicinal 12/12/2014

    Estima-se que aproximadamente 7 milhões de mulheres sofram com o problema no Brasil

    Por: Ricardo Machado Comunicaçãol Saúde e Bem Estar> Medicinal 11/12/2014

    O Hospital Regional Público do Sudeste do Pará (HRSP), administrado pela Pró-Saúde, e o Hemocentro Regional de Marabá (Hemopa) promoveram a 23ª edição da tradicional campanha voluntária para doação de sangue na região.

    Por: Aline Limal Saúde e Bem Estar> Medicinal 10/12/2014

    Com o acúmulo de atividades e responsabilidades, a boa memória se torna, cada vez mais, um artigo de luxo! De fato, a memória é uma das nossas funções cognitivas mais importantes e serve para arquivar experiências e informações adquiridas ao longo da vida

    Por: Flávia Ghiurghil Saúde e Bem Estar> Medicinal 09/12/2014

    As chances de um homem apresentar câncer de próstata aumentam na medida em que o nível do PSA (antígeno prostático específico) aumenta também – sendo considerados normais níveis inferiores a 2,5ng/ml. Por isso, é consenso na medicina alertar para a realização anual do exame em pacientes com idade entre 50 e 75 anos e até mesmo fora dessa faixa quando há risco aumentado para a doença.

    Por: Vítor Margatol Saúde e Bem Estar> Medicinal 08/12/2014

    Um dos grandes desafios das operadoras de planos de assistência à saúde é o efetivo gerenciamento dos riscos a que estão expostas estas organizações em um mercado cada vez mais competitivo, com investimentos internacionais se consolidando no país e o amadurecimento da regulamentação do setor através da Agência Nacional de Saúde Suplementar, a ANS.

    Por: douglas trindadel Saúde e Bem Estar> Medicinal 04/12/2014 lAcessos: 12
    Perfil do Autor
    Categorias de Artigos
    Quantcast