Ocorrência De Sífilis Em Mulheres Atendidas Em Um Centro De Testagem E Aconselhamento De São Luís

27/01/2010 • Por • 1,942 Acessos

INTRODUÇÃO

O impacto das doenças sexualmente transmissíveis (DST) na saúde incide de maneira desproporcional sobre as mulheres, que são mais facilmente infectadas do que os homens como destaca Andreoli (2002), sendo que o diagnóstico é mais difícil em mulheres porque a infecção aguda pode ser assintomática, e podem ocorrer seqüelas sérias, como morbidade e mortalidade perinatais e neonatais, como é o caso da sífilis, além de outras complicações como a doença inflamatória pélvica (DIP), infertilidade, e carcinoma de colo uterino.

Brasil (2007) destaca que a sífilis e outras doenças sexualmente transmissíveis, a partir da segunda metade do século passado emergiram como problema de saúde pública de grande magnitude na maioria dos países ocidentais, o aumento dos índices de sífilis na Europa coincidiu com o descobrimento da América, por isso muitos pensavam que essa doença era procedente do Novo Mundo sendo bem aceito, contudo, que não se tratava de uma doença nova, pois já existia a pelo menos quatro séculos.

O nome sífilis vem do grego (sys, sujo + philin, sujo). A sífilis é uma doença infecto-contagiosa causada pelo Teponema pallidum, de evolução sistêmica e crônica e com manifestações  cutâneas temporárias. Ficou conhecida como lues, mal napolitano, mal francês, morbus gallicus, peste sexual, lues venéreos, entre outras denominações (TONELLI e FREIRE, 2000; VERONESI e FOCACCIA, 2004).

Em seus estudos, Colombrini, Muck e Figueiredo (2004) detectaram que a bactéria causadora da sífilis penetra em mucosas íntegras e através de solução de continuidade da pele sendo a presença de umidade de fundamental importância para a ocorrência da infecção. Os autores relatam ainda que existam duas formas de contágio a congênita, que pode ser precoce, quando as manifestações se apresentam nos dois primeiros anos de vida, e tardia, quando se instala a partir desta idade e a adquirida que de acordo com história natural da infecção, há quatro fases sucessivas:

a) Fase primária: de 10 dias a três meses após a inoculação do T. palidum por via sexual, aparece o cancro duro, que normalmente se localiza nos órgãos genitais externos.

b) Fase secundária: entre duas e 12 semanas, surge a erupção cutânea que persistira por oito semanas em média. O exantema surge cerca de três semanas depois do T. pallidum ter-se instalado na derme.

c) Fase latente: quando a manifestação secundaria não é tratada, acaba ocorrendo a “cura” espontânea com desaparecimento dos sintomas, podendo persistir durante anos.

d) Fase terciária: não sendo tratada a doença evolui em 1 a 30 anos, com comprometimento dos sistemas cardiovascular e neurológico na grande maioria dos casos. A sífilis cardiovascular resulta no aparecimento de aortite e subseqüente instalação do aneurisma. A neurossífilis causa endarterite obliterante de pequenos vasos sanguíneos das meninges cérebro ou medula espinhal. Se ocorrer destruição do parênquima cerebral haverá alterações degenerativas dos neurônios.

A transmissão da forma adquirida, segundo Philippi e Arone (2001), ocorre por contato direto da mucosa ou pele do aparelho genitourinário de uma pessoa sã com um indivíduo doente. Os autores afirmam, que a sífilis nas formas pré e neonatal são transmitidas por via transplacentária. Aliado a essa idéia, Brasil (2007) estimou para 2003 um total de 930.000 brasileiros portadores de sífilis. Estudo realizado pelo Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, em 2004, em parturientes revelou uma estimativa de prevalência de infecção pelo T. pallidum de 1,6% para o Brasil, variando de 1,3% na região Centro-Oeste até 1,9% na região Nordeste.

Brasil (2006) ressalta que a utilização de testes sorológicos, de uma forma geral, permanece como sendo a principal forma de se estabelecer o diagnóstico da sífilis, divididos em testes não-treponêmicos (VDRL, RPR) e treponêmicos (TPHA, FTA-Abs, ELISA). Entretanto, Colombrini, Muck e Figueiredo (2004) relatam que, além dos testes sorológicos, a avaliação diagnóstica feita por meio da demonstração clínica (visualização direta) do T. pallidum nas lesões de forma primária ou secundária. Recomenda-se o tratamento para sífilis com penicilina G benzatina 2.400.000 UI/IM em dose única para sífilis primária, duas séries de penicilina G benzatina 2.400.000 UI/IM com intervalo de uma semana entre cada série para sífilis secundária ou latente recente e três séries de penicilina G benzatina 2.400.00 UI/IM para sífilis terciária ou sífilis latente tardia.

Smith (2004) recomenda que em gestantes a conduta terapêutica seja feita de acordo com a fase clínica em que ela se encontra, com penicilina Benzatina. Veronesi e Focaccia (2004) recomendam o Estearato de Eritromicina para gestantes alérgicas.

Embora a prevalência da infecção pelo T. pallidum tenha diminuído sensivelmente com a descoberta da penicilina na década de 40, a partir da década de 60 e, de maneira mais acentuada, na década de 80, tem-se observado tendência mundial no recrudescimento da sífilis entre a população em geral e, de forma particular, dos casos de sífilis congênita, tornando-a um dos mais desafiadores problemas de saúde pública deste início de milênio (DE LORENZI e MADI, 2001).

De acordo com Brasil (2009), não há perspectiva de desenvolvimento de vacina, em curto prazo, a prevenção recai sobre a educação em saúde: uso regular de preservativos, diagnóstico precoce em mulheres em idade reprodutiva e parceiros, e realização do teste diagnóstico por mulheres com intenção de engravidar.

A sífilis, para Brasil (2007), ainda é um grande desafio para a saúde pública no país. Apesar de sua história natural ser conhecida, a avaliação complementar diagnóstica estar disponível, ter elevada sensibilidade e com custos baixos, que o tratamento é eficaz, tem custo reduzido e com grande experiência de uso: ainda há uma alta prevalência de sífilis na população. Além do que, no caso da sífilis congênita, a população alvo das intervenções freqüenta os serviços de saúde em diferentes momentos de sua vida. Portanto, o desenvolvimento de ações integrais e o acompanhamento pré-natal com qualidade, são reconhecidos como estratégias-chave para o controle da sífilis congênita. No caso da sífilis adquirida, as ações de abordagem sindrômica na rede de serviços representam uma estratégia importante para a cobertura da atenção às DST de uma forma em geral, incluindo a sífilis.

Sabemos que a sífilis ainda é um grande problema de saúde como foi demonstrado por estudos feitos por diversos autores, o que se torna evidente pelos altos índices da doença no país. Busca-se com este estudo, portanto, identificar ocorrência de sífilis em mulheres atendidas em um Centro de Testagem de São Luis, centro de referência no acompanhamento de doenças sexualmente transmissíveis.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo observacional descritivo de caráter retrospectivo, com análise quantitativa dos dados. O estudo foi realizado em um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) localizado no bairro do Lira, centro de referência no acompanhamento de doenças sexualmente transmissíveis, com atendimento exclusivo pelo SUS.

A população deste estudo é composta de 25 mulheres em que foi notificado sífilis no CTA, no período se janeiro a dezembro de 2008. Os dados foram coletados no mês de Abril de 2009 através das fichas de notificação do SINAN (Sistema de Informação sobre Agravos de Notificação) em arquivo da unidade. Os dados estudados foram analisados no programa Microsoft Excel 2007, para um melhor entendimento e visualização da situação estudada, sob forma de gráficos e tabelas.

A pesquisa obedeceu aos aspectos éticos e legais da pesquisa em seres humanos de acordo com as recomendações do Conselho Nacional de Saúde e a Resolução 196/96, que trata das diretrizes e normas de pesquisa envolvendo seres humanos.

CONCLUSÃO

A pesquisa realizada no CTA sobre a ocorrência de sífilis nos revelou  que entre as mulheres estudadas  tivemos uma maior prevalência entre as que estão na faixa etária de 21 a 30 anos, explicado por, nesta fase, a vida sexual ser mais intensa, já que com o aumento da idade há um declínio da doença.

Quanto às características socioeconômicas, os dados nos mostram que a maior parte das mulheres tem ensino médio completo ou incompleto, já que, com a mesma quantidade de casos representam juntos 56% da população atendida. Observou-se ainda que a maioria é da raça parda (76%) e provém da zona urbana (96%). Demonstramos que o rápido aumento da urbanização nos países em desenvolvimento é um dos fatores contribuintes para o crescimento da ocorrência  de DST.

Destaca-se também que a maior parte dos casos foi notificada em gestantes (84%). Talvez pelo fato de apenas a sífilis em gestante ser de notificação compulsória. Como em estudos de diversos autores, a pesquisa nos mostra o grande problema que é a subnotificação de doenças. 

Diante dos resultados obtidos podemos destacar o importante papel da educação em saúde na prevenção das doenças sexualmente transmissíveis. Os profissionais de saúde podem fornecer suporte e esclarecer as dúvidas quando uma DST é diagnosticada trazendo assim um melhor esclarecimento da população.

Torna-se, portanto, um grande desafio, introduzir práticas mais seguras em relação à prevenção de DST para os usuários do serviço de saúde, conforme as tendências já observadas para a evolução da doença, descrevendo características para as ações de ampliação do acesso ao diagnóstico, especialmente na atenção durante o período pré-natal.

REFERÊNCIAS

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Perfil do Autor

Patrícia Coelho

Trata-se de uma pesquisa de conclusão no curso de graduação de Bacharel em Enfermagem e Licenciado pelo Centro de Ensino Universitário do...