Perfil Psicológico De Profissionais Que Assistem Os Portadores Do Hiv E Seus Familiares

Publicado em: 14/12/2009 |Comentário: 0 | Acessos: 1,956 |

PERFIL PSICOLÓGICO DE PROFISSIONAIS QUE ASSISTEM Os PORTADORES DO HIV E SEUS FAMILIARES

Autora: Gilcenira Ataliba Esteves Resumo

O presente estudo e pesquisa têm por objetivo investigar crenças relativas a uma real necessidade de um perfil psicológico para os profissionais de saúde que assistem ao portador do HIV e a seus familiares. A pesquisa foi realizada em uma amostra de 25 profissionais de saúde de diversas áreas. Os resultados obtidos foram analisados segundo a técnica de análise de conteúdo. Estes sugerem que além da aptidão que todo profissional da saúde precisa ter como característica pessoal para poder desenvolver bem as suas atividades, deve existir também alguns cuidados e atitudes que acoplados ao perfil podem vir a garantir a qualidade do atendimento, apontando como aspecto relevante a multiprofissionalidade para o combate à doença.

Abstract

This study aims to investigate beliefs concerning a need of a psychological profile exists for the professionals of health that attend HIV patients and their relatives. The research was conducted with a sample constituted by 25 health professionals of different backgrounds. The results were analized according to the content analysis technigue. The results pointed out that besides the aptitude that all the professionals of health need to have as personal characteristic to develop their activities in good condictions, it should exist also some cares and attitudes that together to the profile in order to guarantee the quality of the attendance, appointing also the multiprofessional team work as relesant in the attendance of the mentionad disease

Introdução

Serão apresentadas neste capitulo introdutório, as origens do interesse para o estudo do tema, sua relevância e a forma segundo o qual o trabalho foi elaborado. Passamos a seguir às fases propriamente ditas.

1.1 Origem do Trabalho

Com este estudo e pesquisa pretendo verificar se existe um perfil psicológico desejável para os profissionais que assistem ao portador do HIV e à sua família.

A singularidade dessa doença e desse doente, como também a forma de tratamento dispensado pelos profissionais de saúde a essas pessoas desde que se descobrem soropositivas até se tornarem aidéticas, me levou a considerar a possibilidade de se valorizar a importância de um perfil psicológico adequado de profissional da área da saúde que tenha condição de assistir com eficiência e eficácia ao portador do HIV e à sua família.

Ao iniciar este estudo me reporto ao ponto de partida de minhas reflexões sobre os doentes e suas doenças, a luta destes no sentido de preservar a identidade em circunstâncias adversas e a preocupação dos profissionais de saúde em atender de forma adequada ao doente para que ele tenha integridade no seu adoecer.

Naquela ocasião, a maior preocupação dos profissionais de saúde que integravam o Programa de Qualidade dos Profissionais de Saúde que Assistem ao Portador do HIV e seus Familiares, era contribuir profissionalmente para que fosse possível aos profissionais superar as dificuldades que, de um modo geral, atingia a todas às equipes no momento em que tinham que lidar com a gravidade dessa epidemia, que era caracterizada com a chegada desses pacientes relatando os sintomas, as mudanças no corpo, a evolução rápida das infecções e a morte.

A AIDS uma doença extremamente nova que atingia, naquela ocasião, basicamente os homossexuais (Levi, 1985 p. 38) apresentou, exatamente por isso, um sério agravante na abordagem do paciente dentro do hospital, porque foram acumuladas à falta de experiência dos profissionais de saúde, as deficiências na assistência social em relação ao doente em questão.

Esse Programa se transformou em atendimento assistencial com o principal objetivo de atender psicologicamente ao paciente com AIDS e seus familiares com o intuito de integrar profissionais de saúde – paciente – família – instituição, que se apresentavam resistentes em suas relações, para assim criar condições de atender às exigências que a doença estava impondo. Acreditávamos que se as relações fossem estabelecidas seria possível a troca de informações entre os mesmos, o que iria favorecer um maior esclarecimento dos aspectos biopsicossociais advindos com a doença.

Eram feitos atendimentos individuais com pacientes e eventualmente em grupos como também um atendimento permanente com o grupo familiar ou com um representante da família que era o porta-voz e fiel representante da relação paciente – família. Esses atendimentos aconteciam, desde o diagnóstico da AIDS até a fase avançada da doença (Macário Costa, 1987).

Devido aos avanços desse acompanhamento foi possível detectar a necessidade de se dar um suporte à equipe técnica que assistia aos pacientes com AIDS, por termos entendido que as internações destes pacientes exigiam mudanças significativas na rotina do trabalho hospitalar, já que percebíamos reações fortes de medo do contágio, acarretando conseqüências físicas e psicológicas de profissionais e funcionários do hospital, inclusive com manifestações somáticas, reativas ao pânico e medo, considerados na ocasião, desproporcionais à transmissibilidade atribuída pelas pesquisas.

Portanto, com este estudo, pretendo obter uma melhor compreensão dos aspectos que devem ser considerados importantes para que sirvam de suporte qualifique os profissionais de saúde que assistem ao portador do HIV e a seus familiares.

1.2 Relevância do Tema

Acredito que uma pesquisa que vise analisar em nível de maior abrangência o perfil psicológico desejável para os profissionais de saúde, de modo a favorecer um atendimento eficiente e eficaz dos portadores do HIV e de seus familiares, seja uma contribuição pertinente à Psicologia Médica e particularmente à Psicologia Social.

Com o desenvolvimento dessa Dissertação espero identificar as principais formas de atendimento do aidético para obtermos um maior entendimento da atuação destes profissionais no que diz respeito à AIDS.

Poderemos também conhecer melhor os efeitos psicológicos e sociais que a AIDS causa aos profissionais de saúde, e como eles enfrentam essas dificuldades. Considerando que a construção de um perfil psicológico para os profissionais de saúde atender aos portadores do HIV poderá contribuir para uma atuação mais incisiva, significando um alcance maior em termos de assimilação das informações livres de preconceitos e distorções, favorecendo a formação dos profissionais mais atentos e mais protegidos, contribuindo para um melhor atendimento dos pacientes.

1.3      Desenvolvimento da Pesquisa

Essa Dissertação está baseada em estudos práticos e teóricos. Inicialmente, houve a preocupação de estudo da literatura já existente sobre o assunto e a consulta a profissionais de saúde que já assistem a portadores do HIV.

Nesse momento, foi necessário considerar os interesses específicos deste trabalho, e detectarmos que não havia um instrumento apropriado para medir o que estávamos propondo. Dessa forma, passamos a elaborar um questionário que pudesse iniciar possíveis soluções ao nosso problema de pesquisa. A elaboração do questionário será analisada no capítulo 6.

1.4  Estrutura de Dissertação

A Dissertação está dividida em sete capítulos, articulados entre si de modo a favorecer um entendimento claro e objetivo do conteúdo deste trabalho.

Nesse primeiro capítulo, apresentamos as origens, a relevância, o desenvolvimento e a estrutura da Dissertação.

No segundo capitulo, procuramos apresentar a Psicologia médica, seu histórico, seus objetivos e seus fundamentos teóricos sugerindo assim, que o tema seja estruturado sob a ótica dessa ciência.

No terceiro capitulo, apresentamos a Síndrome da imunodeficiência Adquirida (SIDA / AIDS), o seu surgimento, a sua etiologia, seus fatores de risco, o tratamento e os aspectos comportamentais de seus portadores. Possibilitando um entendimento da dinâmica dessa doença.

No quarto capitulo, procuramos estudar a morte sob diferentes enfoques, não como especialistas segundo os aspectos abordados, mais buscando um entendimento abrangente, considerando as crenças e os aspectos sociais e culturais relevantes para o estudo em questão.

No quinto capitulo, apresentamos os profissionais de saúde, a constituição de equipes de saúde, a equipe frente à morte e o cuidado com o aidético e sua família.

No sexto capítulo será apresentada a metodologia da pesquisa nos seus passos determinados, tais como: a construção do instrumento, a descrição da amostra, o problema de pesquisa e os procedimentos da pesquisa empírica propriamente dita, tendo sido também indicado o tratamento técnico da análise dos resultados. Ainda dentro do mesmo capitulo, apresentaremos as análises dos dados e a discussão destes, questão por questão, sempre observando a análise qualitativa das respostas.

No sétimo capitulo finalizamos a dissertação com as conclusões indicações que foram detectadas com o estudo.

CAPITULO – 2

A PSICOLOGIA MÉDICA

Neste capitulo será apresentada à fundamentação teórica que servirá de aporte para a hipótese que foi levantada.

 

2.1      Histórico da Psicologia Médica

A partir de 1918, quando Heinroth criou a “psicossomática” e “somatopsíquica”(1928), foi possível distinguir os dois tipos de influencia e as duas diferentes direções da doença no ser humano.

A psicossomática evoluiu em três fases: inicial ou psicanalítica, com predomínio dos estudos sobre a gênese inconsciente das enfermidades, sobre as teorias da regressão e sobre os benefícios secundários do adoecer, a intermediária ou behaviorista, caracterizada pelo estimulo ä pesquisa em homens e animais, tentando enquadrar os achados à luz das ciências exatas dando um grande estímulo aos estudos sobre estresse. A cada momento vem emergindo a importância do social e da visão da psicossomática como uma atividade essencialmente de interação, de interconexão entre vários profissionais de saúde. Com a contribuição de Engel (1955), da teoria geral dos sistemas, os conceitos de Perestrello (1974) a Medicina da Pessoa e a própria concepção de saúde da Organização Mundial de Saúde como “equilíbrio biopsicossocial”, pôde a psicossomática assumir seu verdadeiro papel integrador e multidisciplinar, a sua terceira fase passando a funcionar, quando ao ensino, no mesmo patamar das cadeiras de Patologia Geral na possibilidade de poder ver o jogo complexo de causas e efeitos presentes  na evolução de uma enfermidade, de um modo muito mais rico e completo.

Podemos definir a Psicossomática como sendo uma visão teórica geral sobre a saúde, o adoecer e sobre as práticas de saúde, é um campo de pesquisa sobre esses fatos e, ao mesmo tempo, uma prática, a prática da Medicina integral.

O termo “psicossomática” ficou restrito à visão ideológica deste movimento às pesquisas que se fazem destas idéias, ou seja, sobre a relação mente-corpo, sobre os mecanismos de produção de enfermidades, notadamente sobre os fenômenos do estresse. Surge então em 1974 Schneider propondo a designação “Psicologia Médica” para o mesmo tipo de interface na medicina e de seu ensino. Dando a ela um sentido essencialmente prático, sugerindo que este seja o campo de estudo da relação médico-paciente, ou “a psicologia da prática Médica”, designação ainda mais abrangente proposta por Femandez (1974). Deste modo, a Psicologia Médica vem a ser “o todo que contém o particular”, a visão psicossomática da medicina.

No Brasil, o termo psicossomática é comumente utilizado quando se trata de um hospital público, municipal ou estadual. No caso das universidades, das Faculdades de medicina, funcionando geralmente em conjunto com a Psiquiatria, costuma chamar-se de setor ou Serviço de psicologia Médica. Atualmente, a quantidade de a atividades atribuídas à Psicologia Médica ou psicossomática abrange o ensino ou a prática de todo tipo de fenômeno de saúde e de interações entre pessoas, como as relações profissionais – pacientes, as relações humanas dentro de uma família ou de uma instituição de saúde, a questão das doenças agudas e crônicas, o papel das reações adaptativas ao adoecer, à morte e os recursos terapêuticos extraordinários. Os profissionais que atuam na psicologia médica e psicossomática não são apenas (psicanalistas em sua maioria). Houve uma evolução neste sentido, por várias razões, principalmente porque se verificou a necessidade de um campo de conhecimento que pudesse se voltar para qualquer profissional de saúde, não só porque estes estão incluídos nestas práticas, como também pelo fato de que estão se voltando para o universo dos fenômenos psicossomáticos e para uma prática de saúde que seja realmente integral.

Avançando no conceito de uma percepção abrangente da doença surgem Amkraut & Solomon (1975), os quais, sintetizando uma série de trabalhos, publicaram uma monografia que se tornou clássica, na qual, após estudar as três fases da resposta imune (alça aferente, central e eferente), relacionam as doenças bacterianas, o câncer, as doenças alérgicas, auto – imunes e disfunções do sistema imune induzidas pelo estresse e mediadas pelo sistema endócrino. “Esta foi a primeira revisão do assunto que possibilitou, inclusive, que se começasse a usar a expressão “psicoimunologia” Ou “psiconeuroimunologia” para designar este novo campo de conhecimento.

Distúrbio no funcionamento do sistema imune tem sido, classicamente, associados a dificuldades do organismo em lidar com infecções. O vírus da AIDS, segundo Moreira & Mello Filho (1992), ilustra com clareza o entendimento do sistema imune como um sistema de defesa do organismo contra agressões externas. Pode ser observado nesta síndrome, um número enorme de infecções por germes oportunistas, bem como graves complicações não usuais de infecções comuns, acompanhadas por grandes alterações explicáveis pela falência de um sistema de defesa.

Algumas questões sobre o papel do sistema imune, entendido como um sistema de defesa pôde ser levantado em função de uma pesquisa feita por Coutinho e col. Em 1977 (apud Glaser & Glaser,, 1988, p. 138).Esses autores criaram animais de laboratório em ambientes livres de contaminação. Após determinado tempo, as taxas de imunoglobulina no sangue (anticorpos) foram medidas e confrontadas com as de animais  geneticamente idênticas, que no entanto haviam se desenvolvido em ambientes sem restrições ao contato com germes. Portanto, esses animais de controle estariam teoricamente propensos a desenvolver taxas de anticorpos muito mais elevadas do que os pertencentes ao primeiro grupo, se é esses desenvolveriam qualquer resposta. Para surpresa dos pesquisadores, foi encontrado o mesmo número de anticorpos em ambos os grupos. Em função do resultado dessa pesquisa, os autores inferiram a existência de uma atividade constante do sistema imune, independente de estímulo antigênico externo, contradizendo assim a clássica visão de considerá-los apenas como voltado para a eliminação de vírus e bactérias.

A Psiconeuroimunologia tem fornecido subsídios para rastrearmos a participação de fatores psicológicos em doenças físicas, apontando para a interação entre processos mentais, endócrinos e imunológicos. No caso específico do HIV, sabe-se de casos muito excepcionais de negativação de testes, ou seja, indivíduos portadores do HIV que passam a apresentar resultados negativos para a presença do vírus. Também sabemos de pessoas que ficaram expostos ao contágio e que não adquiriram o vírus, e de que existem portadores do HIV que, em prazo bem maior, do que o esperado não desenvolveu AIDS nem tiveram suas defesas imunológicas fragilizadas. Gold (1997) afirma que não basta fazer a contagem dos leucócitos CD4 para avaliar o nível de proteção do sistema imunológico; segundo o pesquisador, a imunidade depende da capacidade destes leucócitos em cumprirem seu papel de defesa. Explica o autor que pode-se ter menos células CD4 com maior competência ou um número maior com menos capacidade de defesa do organismo. A Medicina ainda não consegue responder como isso acontece ou sobre que fatores interferem nessas condições, mas argumenta Gold (op.cit.), que pode ser que o HIV seja condição necessária mais não suficiente para o desenvolvimento da AIDS.

O curso de Psicologia Médica se desenvolveu na Faculdade de Ciências Médicas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCM – UERJ) sob a coordenação geral do professor Julio de Mello Filho. A Psicologia Médica passou a ser ensinada durante os três primeiros anos do curso de graduação da FCM – UERJ.

Nos dois primeiros anos, tem a duração de um semestre do ano letivo, cada um sendo ministrada em conjunto com o Instituto de Medicina Social da mesma Universidade (IMS – UERJ). Buscou-se uma integração com o objetivo de aprimorar a coerência do currículo médico, aproximando a versão macroscópica social à dimensão psicológica do ser humano. Com isso, foi estabelecido um relacionamento entre duas áreas de conhecimento que, acredita-se, se propõem a dar ao estudante uma visão holística do Homem.

Ao longo dos três anos, procura-se aplicar técnicas grupais aos estudantes. No primeiro ano, o curso se intitula Fundamentos de saúde da Comunidade (FUNSACO), se dividem em dois tempos: o primeiro, de aula expositiva e o segundo de reflexão. A programação desenvolve outros temas além dos específicos da Medicina Social, tais como: o Médico e o Curandeiro; o Estresse Social, a Identidade Médica e a do Estudante de Medicina; e Teoria da Comunicação.

Nos grupos, busca-se promover a reflexão das experiências emocionais ligadas a entra do estudante na Faculdade de Medicina, o curso de Anatomia, o contato com o cadáver, a utilização deste etc. O acadêmico é também, incumbido de acompanhar um paciente que chega ao ambulatório geral do Hospital Universitário para sua primeira consulta, cabendo-lhe completamente acompanhar a trajetória do paciente sem interferir. É uma pesquisa participatória, na qual o estudante além de coletar os dados observados, também vivencia a experiência do ponto de vista pessoal. Com isso, é propiciado ao acadêmico perceber a ótica do paciente e introduzi-lo no processo de assistência.

No segundo ano, a turma é dividida em quatro grupos com cerca de quinze a vinte acadêmicos cada, reunindo-se uma vez por semana durante uma hora e meia. Cada grupo recebe com antecedência textos, que deverão ser lidos previamente. Cabe ressaltar que as aulas são organizadas de maneira a privilegiar a discussão nos grupos, diferente das aulas clássicas expositivas, o que é favorecido pelo pequeno grupo de estudantes. Os textos são elaborados pela equipe de professores que contempla os aspectos básicos de cada unidade estudada, complementado com capítulos de livros citados na bibliografia geral. As discussões sobre as entrevistas (parte prática) alternam-se com os temas teóricos (Psicologia Evolutiva).

O programa teórico durante o terceiro ano aborda conceitos de Psicologia Médica; Estudo de Medicina Psicossomática; Psiconeuroimunologia;  Estudo da Relação Médico – Paciente; Estudo de Grupos Humanos; O Normal e o Anormal; A Saúde e a Doença; O Adoecer Humano e os Processos Adaptativos; O médico e o Paciente diante da Morte; Relação entre Doenças e Família; Cultura e Sociedade etc. Outros temas são expostos sob forma de painéis e discussões em grupo. Acredita-se que é nesse ano que o estudante de Medicina estabelece contato e compromisso com os pacientes internados nas enfermarias de Clínica Médica e quando, efetivamente, procura um modelo para esta relação. Por este motivo, o terceiro ano constitui um grande desafio para o corpo docente, que procura estimular o estudante de medicina a desenvolver uma abordagem, uma escuta não usual de seu paciente, e a formar uma identidade profissional que possa se voltar ao atendimento das necessidades do paciente.

Segundo Mello Filho & Costa (1993),  a probabilidade de mudanças nas atitudes dos acadêmicos estarão diretamente ligadas à intensidade das  experiências emocionais que são vividas no percurso de sua formação. Acreditam esses pesquisadores que tais experiências desenvolvem no estudante uma capacidade de refletir sobre suas angústias e elaborar seus conflitos, dando condições a ele de ouvir e ter o entendimento das angústias do paciente.

2.2      Objetivos da Psicologia Médica

A Psicologia Médica pretende estudar psicologicamente o estudante, o médico, o paciente, a relação entre eles, a família e o próprio contexto institucional dessas relações. Perestrello (1974, p. 34) acredita que o ensino só produz resultado satisfatório, ou seja, “ uma verdadeira modificação da conduta” se puder diluir-se no “Self” do aluno, apresentando-lhe um saber que implica os limites de sua identidade. Segundo Allonso Fernandez (1974), se os cursos da área da saúde não promoverem alguma modificação na personalidade do acadêmico, estes cursos precisarão ser reavaliados, pois não estão cumprindo seus objetivos.

No decorrer da formação, o estudante se confronta com a doença, com o doente, com o seu médico, com a morte e outras tantas situações geradoras de ansiedade. Além disso, segundo Mello Filho e col. (1992, p. 37), “a pessoa que escolhe uma profissão dentro da área da saúde, já o faz freqüentemente motivada pelas expectativas de solucionar questões internas, nem sempre conscientes”. Todas essas questões vão se constituir na matéria do ensino de Psicologia Médica.

Outro aspecto a ser considerado é que o ensino de Psicologia Médica engloba o ensino do que se convencionou chamar de Medicina Psicossomática. Com esta perspectiva, a Psicologia Médica ganha um status que se estende a toda a Medicina, consoante com a atual dimensão de que “toda a doença é psicossomática”, considerando que, segundo Fernandez (1974 p. 134), a “Psicologia Médica é a psicologia da prática dos profissionais da área de saúde”. Assim sendo, a Psicologia Médica tem como objetivo, estudar as relações humanas no contexto da área da saúde. A compreensão do Homem em sua totalidade, na sua relação permanente entre mente e corpo, na sua condição biopsicossocial, sendo todos esses aspectos de fundamental importância para a Psicologia Médica.

Outro objetivo central do ensino de Psicologia Médica é de simples enunciado, mas de complexa execução: a prevenção da iatropatogenia (efeito colateral), ou seja, é o estudo, a detecção das situações iatrogênicas observadas e inerentes à prática médica que vão possibilitar medidas  preventivas, quer no nível individual quer num contexto mais amplo.

Como objetivo abrangente da Psicologia Médica, além da compreensão do Homem sempre como unidade biopsicossocial, podemos também destacar a importância concedida ao paciente em seu modo de adoecer e na forma de se relacionar com a equipe de saúde, a valorização do papel das ideologias e instituições médicas na prática da Medicina e no relacionamento com o paciente, a importância de ouvir e respeitar o paciente como ser humano e dentro do seu marco sociocultural; a possibilidade de entrevistar psicologicamente o paciente ou sua família quando necessário; a condição de perceber a atmosfera psicológica que acompanha o exame do paciente e saber como manejá-la em proveito do relacionamento; a condição de transmitir ao doente os achados obtidos, suposições e diagnósticos em função de sua personalidade e do momento vivido. Saber solicitar os exames complementares, avaliando as possíveis reações do paciente à sua execução e utilizar técnicas adequadas para lhe comunicar os resultados; pode planejar a terapêutica conforme as necessidades globais do paciente como ser humano; identificar a atuação de fatores psicossociais na gênese e evolução das enfermidades, atuando de forma a tentar neutralizar seus efeitos; pode admitir que a atitude do profissional de saúde seja de importância no relacionamento com o paciente e que esse profissional pode reagir emocional e inadequadamente; perceber as dificuldades emocionais que mais freqüentemente ocorrem em seu inicio da prática profissional; conhecer o funcionamento básico da personalidade humana, seus processos adaptativos e seus modos mais comuns de adoecer, distinguir os aspectos mais característicos da saúde e da doença mental no marco sócio-cultural do paciente; começar a distinguir os pacientes que podem receber ajuda psicológica do médico em geral, daqueles que necessitam ser encaminhados aos especialistas em doenças mentais; ter uma visão crítica da formação e prática médica e sua integração com o meio sócio – político e cultural.

Considerando que “aprendizagem é modificação da conduta”, é fácil, segundo Perestrello (1974, p. 37) verificar que pouco adiantamento os conhecimentos de ordem intelectual em Psicologia Médica e Medicina Psicossomática se eles não forem experimentados na prática clínica do acadêmico ou médico, podendo até representar obstáculos para a verdadeira mudança da conduta, afastando o estudante do objetivo visado.

2.3      Fundamentos Teóricos

A Psicanálise e a Medicina Psicossomática estão articuladas histórica e praticamente, segundo Eksterman (1980, p. 30), à Psicanálise, que é uma psicologia do inconsciente, um método de investigação da mente e uma atividade terapêutica; enquanto que a Medicina Psicossomática é um estudo das relações mente – corpo com ênfase na explicação psicológica, inclusive inconsciente, da patologia somática, uma proposta de assistência integral e uma transcrição para a linguagem psicológica dos sintomas corporais.

Eksterman (op. Cit, p. 43) ressalta a importância do psicanalista como o “grande arquiteto” do movimento psicossomático do século XX e, portanto, da Medicina integral e humanística, do discurso médico – assistencial. O autor define o psicanalista como o estudioso e o profissional dos atos intermediários da vida humana, enquanto coexistência, significado e recriação, afirmando ainda que a Psicanálise seja o lugar de criação permanente e o psicanalista é o espectador privilegiado desse movimento. Conforme Freud expôs em sua teoria estrutural: “é o momento em que a carne se faz verbo”, ou seja, em que id se transforma em ego, ou “o isso se transforma em mim”.

Eksterman (1978, p. 38) comenta que não há nada tão absolutamente psicossomático quanto essa transformação e nada tão decididamente psicanalítica quanto o conhecimento dessa transformação. Segundo esse pesquisador, esse é o “ponto chave” da interseção da Psicanálise com a Medicina Psicossomática, ele acredita que se fosse possível dissecar todos os componentes comprometidos na transformação do id em ego, possivelmente poderiam ser esclarecidos os enigmas que subsistem entre a mente e o corpo.

Bion (1963), ao refletir sobre a intervenção mente – corpo, substancialmente diferente daquela que sublinha relações causais, adverte que a mente, na medida em que constrói suas concepções de mundo e, portanto, o próprio ambiente onde passa a viver, não só experimenta suas criações como reais como as empurram para fora, transformando-as em objetos da cultura, transfigurando a realidade externa. Segundo o pesquisador, o corpo terá assim de se adaptar aquele mundo particular, criado pela própria pessoa e pela sua cultura, que passa a ser sua realidade. Afirma Bion (op. cit. P. 79) que não existe ambiente natural para o homem, porque para ele, a Natureza foi convertida em “mundo humano” por seus próprios processos mentais.

No VIII Congresso de Psicanálise, realizado no Rio de Janeiro em 1980, Eksterman afirma em sua palestra O Psicanalista no Hospital Geral, que “o luto pode ser luto patológico nas identificações simbólicas com o morto; o corpo altera a imunidade para se adaptar a uma ecologia percebida como estéril, mas que pode estar repleta de microorganismos”, adverte ainda o pesquisador que as perdas emocionais empobrecem o ego, vulnerabilizando desta forma o corpo, na medida em que seu espaço simbólico carece de objetos amorosos e protetores; e segundo ele, o mundo pode ser vivido como sendo um lugar de estresse insuportável, ou ao contrário, um lugar idealizado, onde, igualmente, o organismo acaba lesado por não conseguir acionar defesas indispensáveis.

Eksterman (1980, p. 77) declara que não acredita que o modelo psicanalítico possa servir ao modelo médico dedicado à pesquisa etiológica. Segundo o autor, a Psicanálise não lhe parece ciência que explica causas, e sim expõem processos, estruturas, sistemas complexos em que o conceito de causa se dilui na infinita causalidade. Acredita ainda que a contribuição da Psicanálise à Patologia Geral é “acenar com uma holística”. Considera ainda Eksterman (op.cit. p. 98), que a contribuição do psicanalista que trabalha no Hospital está na medida em que pode apreender e trabalhar os aspectos irracionais das relações humanas na prática assistencial, tomando como base o modelo transferencial e contratransferencial da interação psicanalítica. Acrescenta ainda, que o médico é também estimulado a conviver com patologias mais sutis, de expressão mental e, acima de tudo, conviver com pacientes, compreendendo-os. Acredita finalmente, que muita iatropatogenia (efeito colateral) é assim poupada, respeitando-se o estado do paciente neurótico e de personalidade perturbada, além de comprometer o médico em sua relação com o seu doente, ampliando, segundo ele, a ação assistencial. Considerando todas essas circunstâncias, Perestello (1958) afirma que a relação médico – paciente se apresenta como fonte extraordinária de recursos terapêuticos, possibilitando a criação de uma nova disciplina: A Psicologia Médica.

CAPÍTULO – 3

A SÍNDROME DA IMUNODEFICIÊNCIA ADQUIRIDA (SIDA) ou “ACQUIRED IMMUNODEFICIENCY SYNDROME” (AIDS)

Neste capítulo focalizaremos o HIV, como ele se desenvolve, quais os efeitos que causa a quem se infecta e os tipos de tratamento existentes. Este esclarecimento é considerado importante, devido à especificidade da doença e aos efeitos psicológicos e sociais, experimentados pelos doentes e por quem cuida de portadores do vírus.

O Surgimento da AIDS como Nova Entidade Clinica

Conhecido como Human Immunodeficiency Vírus (HIV), o virus da AIDS foi identificado nos Estados Unidos em 1978, apesar de ser conhecido na África desde a década de 50. Penetra na corrente sanguínea e se instala em uma célula capturando um tipo de glóbulo branco, o linfócito T. helper (induto), responsável pelo aviso aos outros glóbulos brancos de que o organismo foi invadido por um ser estranho, que deve ser combatido. O linfócito T. helper, embora permaneça vivo, não cumpre suas funções e com isto camufla o inimigo que se torna irreconhecível. O vírus age desta forma porque não possui uma maquinaria genética que lhe assegure a reprodução, por isso, é obrigado a entrar em outras células e usar o código genético delas. O período de latência termina quando a célula hospedeira se transforma em uma fábrica de réplicas do vírus, em um período de seis horas podem ser produzidos seis milhões de cópias. Quando está pronto, o vírus destrói a célula hospedeira e os novos vírus passam a nadar livremente na  corrente sanguínea, procurando outros linfócitos T. helper para  os aprisionar, recomeçando sucessivamente um novo processo de multiplicação e destruição (Rachid & Schechter, 1997, PP. 124 – 129).

Após a infecção pelo HIV, ocorre uma diminuição progressiva do número e da atividade dos linfócitos CD4+, com comprometimento, principalmente, da imunidade celular, sendo a AIDS uma manifestação tardia e avançada deste processo. White (1997, p. 15) adverte que à medida que vai destruindo os linfócitos T. helper, o vírus limpa o terreno para que inúmeras infecções microbianas se instalem no organismo, apresentando o paciente um conjunto de sintomas tais como: casaco extremo e prolongado durante semanas ou meses sem razão aparente; emagrecimento progressivo inexplicável (cerca de três a quatro quilos por mês); febre, moderada ou alta por muitos dias seguidos; suor noturno intenso; tosse prolongada, por muitos dias ou semanas, sem relação com o fumo, associada ou não à falta de ar; dor de garganta persistente; dificuldade para engolir, aparecimento de aftas na boca; gânglios linfáticos inchados por varias semanas; diarréia persistente; manchas roxas ou rosas na pele. É importante lembrar que considerados isoladamente estes sintomas são comuns a várias doenças. No entanto, se aparecem em conjunto, seria recomendável que o doente faça o mais rapidamente um teste anti-AIDS.

Na AIDS, o diagnóstico é geralmente feito pelo método indireto, isto é, pesquisa-se no sangue dos pacientes a presença dos anticorpos contra o vírus. Os testes podem variar, mas os mais utilizados no mundo inteiro são o ELZA (enzime linked Immunsorbent Assay), ou ensaio de imunoabsorção ligado à enzima, utilizado em triagem de doadores de sangue e em pessoas suspeitas de estarem infectadas; e o Western-Blot considerado um teste confirmativo, a ser realizado posteriormente ao ELIZA, que apresenta uma margem de erro de 30%. No método ELIZA utiliza-se uma pequena esfera de plástico recoberta com proteínas do HIV. Se o paciente tiver entrado em contato com o vírus, serão produzidos, após algum tempo, anticorpos específicos em seu sangue, que se ligarão às proteínas do vírus. Este teste deve ser repetido duas vezes, devido à margem de erro. Cabe salientar que a presença de anticorpos no sangue deve ser interpretada de forma cautelosa, se não houver outros sinais clínicos, pois esta presença indica somente que o individuo entrou em contato com o vírus e não que tenha desenvolvido a doença (Ferreira, 1993, p. 123).

Os mecanismos testados contra o HIV são virustáticos (impedem sua multiplicação no organismo). Usados para deter ou retardar a evolução da doença, aumentam o tempo de sobrevivência e melhoram a qualidade de vida dos pacientes. Entre esses remédios, um se destaca pelos resultados obtidos e por ter sido o mais experimentado em todo o mundo: a zidovudina. Mais conhecido como AZT, esta droga dificulta o avanço do vírus sobre os linfócitos. Mas o AZT provoca vários efeitos colaterais, como náuseas, insônias, dores musculares e anemia (destruição dos glóbulos vermelhos do sangue), além disso, seu custo é alto. Sobretudo porque é preciso tomá-lo constantemente. Depois de algum tempo de uso, o AZT passa a ser administrado em doses menores e mais precocemente, mesmo na fase em que a pessoa infectada ainda não manifestou sintomas da doença. Do mesmo grupo da zidovudina e com ação semelhante, há também o DDC (Zalcitabina) e o DDI (Didanosina). Eles podem ser empregados em substituição ao AZT, ou ainda administrados de forma alternada ou associada ao AZT. O DDI apresenta efeitos colaterais diferentes, podendo inclusive prejudicar o pâncreas. De qualquer modo, esses efeitos podem ser considerados um mal menor, diante das ameaças da AIDS (Telzak & Edward, 1996, p. 328).

No aspecto físico, White (1997, p. 23) declara que a alimentação saudável e o sono, ambos com horários regulares, tem efeitos positivos na prevenção das doenças oportunistas, e que exercícios e atividades esportivas também são recomendáveis desde que não exista especialmente uma contra-indicação.

O pesquisador francês LaPerrierre (1988) foi o primeiro a demonstrar que o exercício físico pode aumentar o número de linfócitos  CD4+ na população soropositiva. Ele realizou um estudo controlado, que envolveu homossexuais masculinos, que realizavam exercícios com bicicletas ergométricas durante 45 minutos por sessão, 3 vezes por semana, durante 5 semanas. LaPerrierre observou que nos indivíduos com infecções pelo HIV houve melhora psicológica e diminuição da incidência. Salienta que quanto ao aspecto emocional, ele não pode ser desprezado e indica uma assistência psicológica profissional. Lembra ainda LaPerrierre que um melhor esclarecimento sobre a doença e suas fases evolutivas ajuda a reduzir ansiedade e a tranqüilizar o paciente. Além disso, admite que o auxílio de psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais, a depressão e a dependência geradas pela marginalização (provocada pelo procedimento de uma sociedade que desconhece e mistifica a AIDS), pelos custos elevados do tratamento e pela diminuição da capacidade produtiva do doente podem ser aliviadas.

Segundo Gold (1997, p. 326), a infecção pelo HIV e AIDS passou a ser uma pandemia mundial. Explica que as complicações infecciosas e neoplásicas têm sido modificadas em resposta aos progressos médicos e ao aparecimento da infecção pelo HIV nas diferentes populações. Já que os pacientes com AIDS vivem mais com imunossupressão grave e que os tratamentos novos têm controlado as infecções oportunistas, segundo ele, o espectro das complicações da AIDS tem sido modificado. Lembra que medicamentos anti-retrovirais novos e mais eficazes estão sendo desenvolvidos e os médicos estão aprendendo a utilizá-los com mais eficácia. Ressalta esse pesquisador, que em nossos dias o tratamento clínico dos pacientes HIV positivos enfatiza o uso correto dos medicamentos anti-retrovirais e a profilaxia, diagnóstico precoce e tratamento das complicações da doença. Acredita ele que a assistência coordenada e ininterrupta, assim como a orientação e a participação dos pacientes, também sejam elementos fundamentais para o controle eficaz da infecção pelo HIV.

Etiologia da AIDS

O vírus causador da AIDS é conhecido como HIV e já teve como denominações anteriores HTLV III (Human T Cell Lymphotropic Vírus III), ARV (AIDS Related Vírus), além de outras.

O HIV, na verdade, é um termo genérico que representa dois vírus semelhantes: o HIV – 1 e o HIV – 2. Ambos são causadores da AIDS, sendo que o HIV-1 foi encontrado no mundo inteiro e o HIV-2 é mais comum na África Ocidental, no Brasil podemos encontrar os dois tipos. O HIV é transmitido através do plasma sanguíneo e dos líquidos vaginal e seminal, o que levou Moreira (1994) Afirma que:

Embora a ciência moderna possua, hoje, o controle sobre a maioria das epidemias, a AIDS surge, carregando o paradoxo entre a vida e a morte, pois tem como responsáveis pela sua transmissão o sangue e o esperma, veículos de manutenção da vida. (p. 12)

Todas as doenças que incidem no soropositivo, terminologia empregada para o sujeito que apresenta no sangue antígenos anti-HIV, aproveitando-se da falha imunológica de seu organismo, são chamados doenças oportunistas. Estas doenças acometem, com maior freqüência, os sistemas respiratório, digestivo e neurológico.

O Teste anti-HIV e Sua resposta Humoral

O organismo humano, uma vez exposto ao vírus da imunodeficiência começa a produzir anticorpos anti-HIV. Estes aparecem no sangue de cinco a doze semanas após o contágio. Por este motivo, uma pessoa que acredite ter se exposto a uma situação de risco só pode sentir-se segura, em relação ao resultado de um teste sanguíneo, três meses após o contato de  risco.

Sabe-se que nem toda pessoa infectada pelo HIV desenvolve a AIDS, mas permanece infectada para o resto da vida.

Segundo definição formulada em 1987, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e Centros Norte-Americanos de Controle de Doença (CDC), as pessoas infectadas podem levar até 10 (dez) anos para desenvolverem AIDS, apesar de atipicamente já se ter notícias de pessoas que levaram até 15 (quinze) anos para tanto. Este período, que vai da aquisição do HIV à doença, é chamado período de incubação. Tal espaço de tempo pode variar de uma pessoa infectada para outra, considerando as suas condições de saúde. O indivíduo que já possua um organismo enfraquecido por outras patologias, por exemplo, pode adquirir a doença mais rapidamente.

Durante esse período assintomático, o HIV pode ser detectado através do teste sanguíneo. O teste revela a presença, ou não, de antígenos anti-HIV. Quando estes são encontrados, na amostra de sangue coletado, a pessoa é soropositiva (HIV +) e quando não são a pessoa é soronegativa (HIV -).

Embora o organismo humano realize uma verdadeira batalha imunológica contra o HIV, o fato de este atacar diretamente o sistema imune parece ser o suficiente para o enfraquecimento e perda das defesas do corpo contra as doenças.

Fatores de Risco da Infecção Pelo HIV

Em 1984, Goedert & Blattner (apud De Vitta Jr. E col. 1991) citaram o estudo da incidência de HIV em 2.507 homossexuais masculinos, que não praticavam sexo seguro, realizado pelo Multicenter AIDS Cohort, de Manhattam. Constatou-se que o número de parceiros homossexuais e a freqüência do coito anal eram fatores de risco na soroconversão para o HIV. Esta pesquisa demonstrou, também, que o risco de aquisição do HIV não é o mesmo para o parceiro ativo do coito anal que, mantendo-se neste papel terá mais dificuldade de contrair a AIDS.

Os usuários de drogas injetáveis que compartilharem agulhas apresentam um número crescente de contaminação devido à troca de sangue contaminado.

No toxicômano, o risco de contágio do vírus da imunodeficiência está ligado à freqüência de injeções da droga e ao compartilharem de agulhas. Esses fatores são análogos à freqüência de exposição retal ao esperma e ao número de parceiros sexuais, na atividade homossexual masculina.

Em algumas comunidades americanas, e também no Brasil, a aquisição do HIV por via heterossexual vem crescendo assustadoramente. Este é o único grupo em que o número de mulheres infectadas é maior do que o número de homens, o que se deve apenas a fatores exclusivamente anatômicos, segundo os infectologistas. Ao analisarmos os fatores de risco de contágio neste tipo de relação, encontramos soroprevalência em pessoas que mantinham vários parceiros sexuais, mulheres portadoras de úlceras genitais e/ou alguma outra doença sexualmente transmissível (DST). Homens portadores de DST (já imunossuprimidos), pessoas que realizem contatos sexuais anais e/ou oral, são também, vulneráveis à infecção pelo HIV (AIDS). É preciso ressaltar, que as mulheres soropositivas podem contaminar homens soronegativos, ao contrário do que se tem afirmado (Ramos e col. 1997, p. 55).

A transmissão do HIV de uma gestante soropositiva para o bebê pode ocorrer por via transplacentária, durante o parto ou através da lactação.

A orientação médica a uma mulher soropositiva é para que ela evite a concepção. Porém, se ela ocorre, já pode ser ministrado à gestante, a partir do 4º mês de gravidez, o AZT e, durante o parto, o AZT injetável, o que reduz a probabilidade do bebê tornar-se soropositivo. Contudo, o status sorológico ( se o indivíduo é soropositivo ou não) de uma criança nascida nessas condições só é conhecido a partir de dois anos e meio, uma vez que, antes disso, ela possuirá os anticorpos da mãe.

A primeira prova de que o sangue seria uma das vias de contágio do HIV foi o número de hemofílicos soroconvertidos identificados na década de 70, nos Estados Unidos (na segunda metade da década de 80, constatou-se a mesma prova no Brasil). Com esta prova, os bancos de sangue foram reorganizados de maneira a controlar as doações recebidas. Atualmente, além da triagem dos doadores, já existe a eliminação do plasma positivo para o HIV do conjunto doado, o que reduziu a quase zero a transmissão do vírus através destes produtos.

Pacientes que recebem órgãos, tecidos ou sêmen (no caso de inseminação artificial) de doadores soropositivos são facilmente contaminados pelo HIV.

Logo após esta descoberta, a sorologia para a AIDS se fez obrigatória, nos doadores, antes de qualquer doação.

Pacientes com AIDS e com infecções correlatas muitas vezes precisam de diálise, o que pode trazer certo risco para usuários soronegativos do aparelho e para o pessoal da saúde. Contudo, já se tem diretrizes do Centro americano de Controle de Doenças, que garantem serem as normas padronizadas de uso e a desinfecção da máquina de diálise suficiente para anular as possibilidades de contágio do HIV.

Os profissionais de saúde que lidam com portadores de HIV (AIDS) não podem ser contaminados pelo vírus pela exposição a líquidos orgânicos. A única possibilidade de contaminação para estes é o seu contato com sangue, se possuem uma “porta de entrada” para o vírus, como um corte, uma fissura na pele ou, ainda, se acontecer de se espetarem com agulhas contaminadas.

A utilização de luvas e as preocupações com seringas têm sido suficientes para manter a segurança de médicos e enfermeiros.

O Tratamento da AIDS

As novas combinações medicamentosas anunciadas em julho de 1996, na 11ª Conferência Internacional sobre AIDS, em Vancouver, trouxeram a primeira grande esperança de controle da progressão do HIV para os infectados.

A terapia tríplice (combinação de três drogas), proposta pelo Dr. David Ho (Revista Veja, 1996, vol. 28) substituiu a monoterapia (utilização única do AZT) para alguns portadores e viabilizou, para os mesmos, uma estabilização no tocante à multiplicação do HIV no seu organismo.

A partir da contenção do HIV e de um teste sanguíneo que avalia a quantidade de HIV circulante no sangue do soropositivo (exame de carga viral), tornou-se possível prevenir a progressão rápida da AIDS, através da previsão e do tratamento das infecções oportunistas. Estes avanços permitem que uma pessoa soropositiva, que recebe tratamento ambulatorial adequado, mantenha uma aparência saudável em virtude da estabilização de seu estado clínico. Com isso, não se fala mais hoje em pessoas aidéticas (terminologia anteriormente empregada para designar o portador de HIV em fase terminal da infecção) e sim em pessoas vivendo com AIDS. O surgimento de uma patologia no soropositivo não significa mais o presságio de um breve tempo de vida.

Lent & Valle (1997), analisando os progressos no tratamento médico da AIDS, que têm possibilitado a estabilização da carga viral no soropositivo, afirmam que “a equação – incurável = mortal da AIDS está sendo desfeita” (p.3). Desta maneira, a AIDS pode tornar-se, num futuro próximo, uma doença crônica como tantas outras assim designadas pelos médicos.

Na publicação Weekly Epidemiological Record, (1998), 73: 313 – 20), a Organização Mundial da Saúde (OMS) oferece recomendações para o uso seguro e efetivo de esquema curto de tratamento anti – retroviral para a prevenção da transmissão mãe – filho do HIV.

A OMS apresentou o esquema do ACTG 076 que foi desenvolvido de forma a intervir em todos os estágios positivos de transmissão, antes, durante e após o parto, e é, portanto, trabalhoso e caro, com aplicabilidade limitada para os países em desenvolvimento. Por este motivo, regimes mais simples e mais práticos foram avaliados em diversos estudos, e os resultados do primeiro desses estudos na Tailândia demonstram que um esquema curto de zidovudina (AZT) oral, administrada duas vezes ao dia, a partir de 36 semanas de gestação até o parto, foi bem tolerada, segura e reduziu o risco de transmissão do HIV da mãe para o filho em aproximadamente 50% (Weekly Epidemiological Record, 1998, 47: 15 – 23). Cinqüenta e duas de 391 crianças foram infectadas: 17 no grupo AZT e 35 no grupo placebo (as estimativas para o risco de transmissão nos grupos AZT e placebo eram, respectivamente, de 9,2% (intervalo de confiança 95% , 13,0 % - 24,0%), representando uma redução de 51 % no risco de transmissão ( intervalo de confiança 95%, 15% - 71%).

Embora os resultados dessa pesquisa bem conduzida sejam significantes do ponto de vista estatístico, deve-se ter preocupação na extrapolação desses resultados para outras situações. É importante salientar que todas as mulheres na pesquisa da Tailândia foram aconselhadas a não amamentar seus filhos, e todas os alimentaram exclusivamente com mamadeiras de leite infantil, oferecido de graça para a população participante durante 18 meses. A eficácia do AZT para reduzir a transmissão da doença na relação mãe – filho, não foi, ainda, demonstrada quando as mulheres amamentam.

Porém, apesar de toda a esperança trazida para os portadores de HIV, os novos tratamentos não significam ainda a sua cura e não devem, por isso, contribuir para a falta de prevenção. A AIDS é uma síndrome que não perdeu a sua gravidade, razão pela qual devemos continuar lutando para preveni-la.

-Tratamento Psicológico

A AIDS inicialmente vinculada à população de homossexuais (Parker, Bastos & Pedrosa, 1994, p. 38) vai aos poucos atingindo outras camadas da população, principalmente os menos favorecidos do ponto de vista social e econômico e, ainda as mulheres, as crianças e os adolescentes, grupos não considerados, inicialmente, caracterizado assim que não se tratava apenas de uma doença orgânica, mais também de aspectos sociais, psicológicos, culturais e econômicos. Ao atingir não apenas o corpo, mas o indivíduo em todos os aspectos acabou por refletir em variados sentimentos e emoções.

No que diz respeito aos aspectos clínico e psicológico, quando a doença se manifesta no indivíduo, ele pode apresentar psicopatologias que estão associadas, em um dado momento, é conseqüência de implicações psicológicas e sociais do diagnóstico. Por esse motivo, segundo Gold (1997 p. 43), podemos considerar vários fatores ao se destacar a resposta psicológica do paciente à sua doença tais como: aspectos individuais que estão ligados à estrutura de personalidade; relato de uso de drogas ou presença de uma patologia psiquiátrica vinculados ao diagnóstico de AIDS.

Gold (1997) esclarece ainda que, o paciente com AIDS, normalmente vivencia situações muito particulares, na maioria das vezes precisando de uma atenção especial no percurso do seu tratamento. Durante minha prática no atendimento psicológico dos pacientes, foi possível distinguir períodos em que as reações e tentativas de adaptação psicológica do paciente a partir do diagnóstico lembravam trabalhos existentes com pacientes com câncer.  Essas fases vivenciadas pelos pacientes produzem reações psicológicas singulares e conseqüentes acompanhamentos específicos.

Na fase que ocorre logo após o diagnóstico, em que o paciente tem uma tendência a negar a sua realidade, é importante que o paciente se sinta apoiado e compreendido em sua angústia diante dessa nova realidade. Por esse motivo, é justificável um acompanhamento psicológico que vise, principalmente, uma ajuda emocional para poder viver esse momento e colher as dúvidas e angústias do individuo. Uma conduta de orientação é fundamental, fornecendo informações sobre a doença para que o indivíduo tenha um melhor entendimento de sua realidade. Contudo, não devemos deixar de considerar a importância de uma avaliação clínica psiquiátrica do quadro de ansiedade e tristeza com vista a formulação de um diagnóstico e ajuda medicamentosa adequada. Neste caso, segundo Laperrierre (1998 p. 123), o uso de medicação visando o quadro de ansiedade, por exemplo, pode significar para o paciente ter uma melhor condição para conciliar o sono, se alimentar e suportar as atividades diárias. A estratégia de clínico está voltada, basicamente, para o encorajamento do indivíduo para se manter integrado socialmente, no trabalho, no grupo familiar e de amigos e em suas atividades de lazer.

Na fase assintomática, onde alguns passam um período sem qualquer sintoma, o indivíduo não se sente doente e por estar fazendo apenas um seguimento clínico, muitos se sentem à vontade para abandonar o acompanhamento clínico. Preferem tentar “esquecer” o diagnóstico sorológico positivo para o HIV.

Nessa fase, podem surgir algumas angústias relacionadas ao tempo que ainda resta como apenas soropositivo assintomático. Algumas vezes aparece no indivíduo um grande desânimo que o impede de fazer planos ou ter uma vida ativa, tendo em vista o dia em que irá adoecer. Alguns objetivos direcionam um suporte psicológico nesta fase como: o estímulo e auxilio do paciente para planejar e executar projetos de vida e a manter uma vida ativa; o acompanhamento das angústias do indivíduo através da escuta e a forma de conduzir e a conscientização da necessidade de um acompanhamento médico.

É importante salientar que outros fatores transformam de certa forma, o processo evolutivo das fases anteriores, tais como: A evolução tecnológica da investigação diagnóstica caracterizado pelos novos exames (contagem do CD4 e carga viral), e o surgimento das medicações anti- retrovirais. Por esse motivo o seguimento clínico do paciente foi modificado, com esquema de remédio, mesmo na ausência de sintomas clínicos ou da necessidade de integração. Com isso, se faz necessário levar em conta essas questões quando se faz necessário levar em conta essas questões quando se faz o planejamento de uma abordagem psicológica dessas pessoas, diferentes do que se fazia na época do surgimento da doença.

Quando surgem as primeiras doenças decorrentes do HIV, o paciente tende a reagir com medo e insegurança, principalmente quando passou por uma fase assintomática anterior. Nesse momento, é possível que ocorram ainda as primeiras internações. Dessa forma, o contato com uma realidade desconhecida, a convivência com o cotidiano de uma enfermeira hospitalar, transforma de maneira significativa a sua vida. São uns aspectos relevantes porque, na maioria das vezes, é nesse momento que ele inicia o tratamento com medicação anti-retroviral (AZT, DDI ou DDC). Isso pode ser vivido pelo paciente como inevitável constatação de sua doença, ou seja, usar essa medicação é assumir sua condição de soropositivo. O esclarecimento e orientação são fundamentais como forma de ajuda à pessoa para que ela possa prosseguir no tratamento prescrito e buscar soluções adaptativas em sua vida.

No momento da primeira internação se instala uma sensação de perda de controle da situação, que é, geralmente, vivida pelo paciente com grande angústia e depressão. A necessidade de estar bem é cobrada por todos, e até por si próprio. Se sente incapaz de continuar mantendo o seu corpo e a doença sob controle. Mais do que qualquer outra fase, o paciente se percebe doente e as questões relativas à morte surgem com grande intensidade.

Paiva (1992) saliente que o acompanhamento psicológico do paciente durante a primeira intenção tem por objetivo escutar o mesmo em suas queixas e dramas, estar preparado para abordar aspectos da doença do tratamento, da relação estar preparado para abordar aspectos da doença, do tratamento, da relação com diversos profissionais de saúde; ajudá-lo no entendimento de seus sentimentos de modo a que se reorganize nesta nova vivência.

Quando a doença começa a se manifestar mais intensamente e as internações se fazem mais freqüentes, o paciente é, em geral, tomado de grande tristeza e desânimo, deixando de acreditar na eficácia do tratamento, demonstrando cansaço por tantas medicações e internações. Segundo Costa (1998, p. 18), o paciente costuma manifestar o desejo de parar com o tratamento e questiona-se sobre a validade de seu sacrifício.

O acompanhamento psicológico do paciente nesta fase é importante devido á grande angústia e depressão manifestadas. O paciente é favorecido por atitudes de estímulo e apoio para poder prosseguir não apenas no tratamento no hospital, mas em todas as suas atividades em casa e no trabalho. É fundamental que o paciente se sinta compreendido em sua irritação, que não está só, que pode externar seus sentimentos, falar sobre seus medos, seus desejos.

Assim sendo, Costa (1992, p. 22) considera que a assistência psicológica no agravamento da doença objetiva minimizar a angústia e sofrimentos; possibilitando que o paciente sinta-se acolhido, diminuindo a sensação de abandono, bastante freqüente. Assinala a pesquisadora, que mesmo quando a comunicação verbal é impossível, deve-se buscar algum contato com o paciente para que se sinta confortável nesta difícil fase.

Paiva (1992) adverte que a situação do paciente com AIDS também repercute no grupo familiar, desde o diagnóstico sorológico positivo do HIV. E, à semelhança da dimensão conflitiva vivenciada pelo paciente, a família expressa os seus conflitos emocionais na trajetória de vida de adoecimento do mesmo, sobretudo no que diz respeito ao seu tratamento. Por este motivo, o paciente ao procurar o hospital, traz consigo sua história d vida, os seus relacionamentos, seus vínculos familiares. A autora sinaliza que para fins de entendimento, deve-se pensar que no grupo familiar devem estar compreendidos não só às pessoas que possuem um elo consangüíneo com o paciente, mas também, pessoas admitidas pelo grupo afetivamente, de sua confiança e amizade, como esposa, marido e companheira(o).

Assim, é exigida dos profissionais de saúde maior atenção, observação e compreensão da família na configuração do atendimento do paciente. Na minha vida profissional, atendo a esse tipo de doente, tenho percebido que essa prática tem se mostrado indispensável à obtenção de uma resposta satisfatória no tratamento de pessoas convivendo com HIV – AIDS.

Aspectos Comportamentais de Portadores de HIV (AIDS)

A apresentação inicial da AIDS enquanto uma doença facilmente contagiosa, incurável e mortal, “fez associar à doença vários estigmas e preconceitos advindos das nossas posições perante a morte, a contaminação e a sexualidade” (Parker, Bastos, Galvão & Pedrosa, 1994, p. 31). O impacto social gerado pela AIDS de que se teve notícia da década de 80 fez com que ela obtivesse maior destaque na mídia do que na comunidade médica. Sabendo-se que sua incidência inaugural recaía sobre artistas de hábitos homossexuais, o doente padrão, parecia controlável porque bastava não possuir esse tipo definido para estar imune a ela. Uma vez que a síndrome passou a ocupar destaque nos estudos médicos, pela constatação da não existência de um padrão único para a sua aquisição, a AIDS perdeu os seus chamados grupos de risco, mas a sua carga de estigmatização não diminuiu. Com a possibilidade de contrair o HIV, como qualquer pessoa pode contraí-lo, o soropositivo é confrontado com a idéia da morte anunciada, isso faz com que os seus portadores sejam rejeitados como se essa fosse uma forma de se defender da doença.

As representações sociais da AIDS afetam os sujeitos soropositivos não só pela via da discriminação como pela introjeção dessas representações, via de regra muito negativas. Ter que conviver possuindo o chamado “mal do século” não parece muito fácil. Essas representações, somadas às dificuldades reais do resultado positivo para a sorologia do HIV, tornam muito difícil a vida de seus portadores. Com tantas dificuldades vividas, há aspectos no comportamento dos portadores que merecem ser analisados, constituindo um material de apoio para os profissionais e pessoas que vivem com eles.

Em 1985, Christ & Wiener (apud Flaskerud, 1992) observaram que a AIDS gera uma espécie exclusiva de estresse para os seus portadores, além dos seus companheiros, da sua família e dos profissionais de saúde envolvidos em seu tratamento. Esta doença cria grave problemas para as pessoas com as quais o indivíduo soroconvertido se relaciona, incluindo  amigos e empregados. O medo de contração do HIV pode levar pessoas sadias a rejeitarem sujeitos soropositivos, o que provoca grave tensão nos infectados. Estes, temendo a rejeição, mantêm, em sua maioria, a infecção em segredo ou quando a revelam. Buscam ou sofrem um isolamento posterior (Lent & Valle, 1996, p. 143).

Muitas vezes a AIDS denuncia o envolvimento de seu portador com grupos socialmente estigmatizados, como o dos homossexuais e o dos usuários de drogas. Os que não possuem estas condições socialmente assumidas vêem-se flagrados por um meio que discrimina todos os que não atendem às expectativas normativas, aos padrões impostos pelas leis sociais. Goffman (1988) afirma que o confronto entre as identidades pessoal e social é maior e mais sentido nas categorias estigmatizadas, devido ao distanciamento imposto pela própria sociedade às pessoas que possuem atributos que as diferenciam das demais. Além disso, o portador do HIV pode vivenciar conflitos de ordem pessoal. Como afirma Weiss (1997), os homossexuais masculinos soropositivos, por exemplo, que não têm a sua condição sexual integrada à sua identidade pessoal, possui uma dificuldade maior de se adaptar às condições impostas pelo HIV.

Os conflitos vividos pelas pessoas estigmatizadas as levam, freqüentemente, à adoção de “capas defensivas”, muitas se tornam bastante agressivas, o que dificulta ainda mais o seu convívio social, ou o uso do próprio estigma para ganhos secundários, como desculpa pelos fracassos pessoais (Goffman, op. cit.).

A maioria das pessoas infectadas pelo HIV (AIDS) encontra-se na faixa etária dos 15 aos 49 anos. As mais velhas dispõem, na maioria das vezes, de maior estabilidade financeira e emocional do que as pessoas mais jovens. Tal fato lhes proporciona melhores condições no tratamento da doença e, às vezes, maior apoio social. Os infectados pelo HIV, mais jovens, dificilmente têm a autonomia que a estabilidade financeira e emocional viabiliza. Muitos ainda não têm família constituída e necessitam, por isso, buscar apoio de amigos e da equipe de saúde.

O comportamento dos doentes infectados pelo HIV pode variar muito de acordo com a fase da infecção em desenvolvimento. Um sujeito soropositivo assintomático (pessoa HIV+ que não apresenta sintomas de imunossupressão), por exemplo, tende a apresentar forte ansied

Avaliar artigo
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 0 Voto(s)
    Feedback
    Imprimir
    Re-Publicar
    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/medicina-artigos/perfil-psicologico-de-profissionais-que-assistem-os-portadores-do-hiv-e-seus-familiares-1580512.html

    Palavras-chave do artigo:

    profissional de saude hiv positivo perfil do profissional de saude

    Comentar sobre o artigo

    Ivan da Cruz

    Algumas dificuldades presentes nesse setor vão desde a insuficiência de investimentos em equipamentos até a escassez de recursos para custeio, passando pela falta de recursos humanos capacitados adequadamente. Essas questões têm-se constituído em entraves a um avanço maior na política de promoção à saúde e de descentralização das ações em DST/aids. O próprio conceito de promoção à saúde e prevenção é um desafio dentro do SUS, quando ainda coexistem visões e práticas que reforçam uma idéia.

    Por: Ivan da Cruzl Saúde e Bem Estar> Medicinal 21/07/2014 lAcessos: 51

    Os trabalhadores dos estabelecimentos de assistência à saúde muitas vezes estão expostos, a riscos em seu ambiente de trabalho, sem a utilização de equipamentos de proteção individual (EPI), apesar das evidências científicas mostrarem a presença de vários agentes de riscos ocupacionais nos ambientes de trabalho. O objetivo deste artigo é apresentar a norma regulamentadora (NR) 32, de segurança e saúde no trabalho em estabelecimentos de assistência à saúde.

    Por: Gilmara Fagundesl Saúde e Bem Estarl 14/04/2009 lAcessos: 35,478 lComentário: 14
    Marcelo Gomes González

    Como está expresso na fala de muitos autores, o Ensino Fundamental II é uma fase de transição, onde muitas culturas devem ser maturadas, e outras apresentadas. Nesse período o educando se encontra no momento da criação da sua identidade. Os PCNs defendem que a Educação Física deve utilizar, principalmente, da cultura corporal - a trazida pela criança e a apresentada para ela dentro do ambiente escolar - e da instigação à busca do conhecimento para que ela seja autônomo.

    Por: Marcelo Gomes Gonzálezl Educaçãol 17/10/2012 lAcessos: 391

    O teste Elisa é usado por laboratórios de exames para diagnosticar a presença de alguns anticorpos no sangue. Os testes desse tipo são muito utilizados usados para determinar algumas enfermidadesque levam a produzir imunoglobinas. São ditos testes imunoenzimáticos e bastante específicos...

    Por: Octavio27l Saúde e Bem Estarl 08/11/2012 lAcessos: 67

    Uma epidemia global de Diabetes está em curso. Seus números vêm aumentando até mesmo entre as crianças. A campanha do Dia Mundial do Diabetes tem o objetivo de fazer as pessoas pensarem nessa doença, que pode não apresentar sintomas por anos após a sua instalação

    Por: Central Pressl Saúde e Bem Estar> Medicinal 14/11/2014
    Isabela Martini

    Já está comprovada a relação direta entre uma noite bem dormida e o equilíbrio hormonal. O famoso preparador físico Nuno Cobra, em sua obra "A Semente da Vitória", discorre sobre essa relação

    Por: Isabela Martinil Saúde e Bem Estar> Medicinal 01/11/2014 lAcessos: 15

    O documento, fruto da parceria com a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), pretende auxiliar os médicos a reduzir o risco de os pacientes contraírem infecções.

    Por: Ricardo Machado Comunicaçãol Saúde e Bem Estar> Medicinal 30/10/2014 lAcessos: 17

    Estudo publicado no Breast Cancer Research demonstrou a importância de não incluir apenas as mulheres com histórico de câncer de mama na família, mas também aquelas que têm mamas densas no grupo de risco. Afinal, esse é considerado um fator de risco significativo que deveria ser acompanhado de perto como forma de prevenção da doença.

    Por: Vítor Margatol Saúde e Bem Estar> Medicinal 28/10/2014

    O câncer tem sido causa de morte em todo o mundo e motivo de preocupação para muitos. Contudo, um estudo publicado no jornal científico Células-tronco, apresentado como mais uma forma bem sucedida de combate ao câncer e esperança de cura para aqueles que convivem com a doença.

    Por: josi feitosal Saúde e Bem Estar> Medicinal 28/10/2014 lAcessos: 11

    Muitas pessoas podem acabar por reclamar, ou até mesmo proclamar elogios com relação a saúde publica de sua região, no entanto também podemos verificar que acaba por ser considerado como comum o fato do que seria a saúde pública. Sendo assim, iremos falar agora mesmo o que seria, e até mesmo como funciona a saúde pública.

    Por: anamarial Saúde e Bem Estar> Medicinal 28/10/2014

    Muitas pessoas podem acabar por ter a necessidade de realizar um exame que seja considerado como complexo, no entanto podemos verificar que alguns destes exames acabem por causar uma determinada dúvida.

    Por: anamarial Saúde e Bem Estar> Medicinal 24/10/2014 lAcessos: 12

    O Alzheimer modifica consideravelmente a vida das pessoas afetadas e dos seus familiares. As pessoas com Alzheimer estão, sobretudo em fases mais avançadas, física e cognitivamente muito comprometidas. Por isso, é particularmente importante para os doentes viverem num ambiente em que se possam movimentar com facilidade e segurança.

    Por: tkencasal Saúde e Bem Estar> Medicinal 24/10/2014
    Gilcenira Ataliba Esteves

    O sucesso da evolução da medicina está contribuindo, diretamente, com a diminuição da mortalidade no mundo e, como conseqüência, surge uma nova população que, até algumas décadas atrás, não era significativa, o Idoso, e com ele algumas doenças características da idade. Este artigo tem como objetivo chamar atenção das pessoas para a doença de Alzheimer suas características, evolução e tratamento para que possam lidar, com o portador da doença, com segurança, afeto tratando-o com dignidade e respe

    Por: Gilcenira Ataliba Estevesl Saúde e Bem Estar> Medicinal 09/11/2009 lAcessos: 2,383
    Gilcenira Ataliba Esteves

    Este artigo tem como objetivo chamar atenção para as doenças que a ansiedade e o estresse causam ao ser humano em nossos dias. Apresentar mecanismos para que, mesmo vivendo em meio à instabilidade, cada pessoa possa num processo de conhecimento de si mesmo encontrar os recursos necessários para enfrentar as dificuldades diárias.

    Por: Gilcenira Ataliba Estevesl Saúde e Bem Estar> Medicinal 29/08/2009 lAcessos: 4,424
    Gilcenira Ataliba Esteves

    Este artigo tem o objetivo de discutir sobre os aspectos psicológicos presentes na pessoa com excesso de peso, mostrando a relação entre o excesso de peso e os distúrbios emocionais, apresentando alguns estudos sobre a influência dos mecanismos para regular a ingestão do alimento: fome e apetite, da ansiedade, dos distúrbios, da imagem corporal e da sexualidade na dinâmica do excesso de peso, propondo a abordagem psicodinâmica para o atendimento psicológico do excesso e peso.

    Por: Gilcenira Ataliba Estevesl Saúde e Bem Estar> Nutriçãol 09/08/2009 lAcessos: 2,542
    Perfil do Autor
    Categorias de Artigos
    Quantcast