Estudo De Caso – Comunidades Proximais Do Ribeirão Dos Padilhas, Regional Pinheirinho - Curitiba – Paraná – Brasil

Publicado em: 10/08/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 368

1.           Introdução

              A cidade de Curitiba, tem configurada duas realidades sociais. A que inclui mais e mais atores na dinâmica da vida social ainda bastante centrada em locais mais próximos ao centro da cidade, e aos locais mais longínquos quais sejam os bairros, como a Regional Pinheirinho e Bairro Novo que se coloca em tela. É na verdade uma região de transição, onde se aglomeram residências irregulares, constituindo-se numa das áreas mais críticas da cidade, em termos sociais. Pelo trabalho desenvolvido pelos governos, a problemática iniciada na década de 1970, tem hoje uma nova configuração. Houve a construção de condomínios pela COHAB, melhoria de infra-estrutura e equipamentos públicos. Resolveu-se em parte a problemática das ocupações irregulares, porém as portas foram deixadas abertas. É difícil conter o desenvolvimento não planejado com a porta dos fundos escancarada. Logo, sobrevive ainda o problema.  A região proximal do Ribeirão dos Padilhas, alcança considerável facha de população vivendo nas margens deste potencial hidrográfico, e para este estudo, concentram-se esforços no sentido de caracterizar o “modus vivendi” desta comunidade, por intermédio de investigação local e acesso à escola Etelvina Cordeiro Ribas, uma das muitas escolas nesta área, mas, a mais próxima do Ribeirão, onde o autor foi professor pertencente à Rede Estadual de Ensino de 1o e 2o Graus.  A Região mais crítica seria a do Xapinhal, por onde se procurou aproximação, investigação e informação no sentido de apresentar nestas breves linhas, a realidade social  que se configura nesta Regional, com problemas bastante urgentes, que já há mais de vinte anos urgem por soluções.  O que se pode ter como mais concreto, é que as condições de vida são ainda bastante precárias em muitos lares, e os perigos oriundos desta relação de irregularidade e precariedade é ainda um grande  problema para as cidades. Tanto  moradores da beira do rio, como  os que já se encontram em suas casas da COHAB, desafiam a irregularidade dos vazios urbanos, onde as relocações  de  territórios menos vulneráveis do que as margens do Ribeirão dos Padilhas se façam via intervenção urbana.

2. Metodologia

          Acredita-se que há aspectos intrínsecos e extrínsecos de uma cidade, em termos de sustentabilidade, nem sempre objetivamente definidos por vias doutrinárias, razão pela qual procurou-se ouvir estudantes de uma das escolas da rede estadual de ensino, Colégio Etelvina Cordeiro Ribas, para que prestassem seus depoimentos quanto aos itens observados (Vide Apêndice 1). Ou seja, comunicação aproximativa como método, sendo suficiente para a confirmação do enquadramento de fenômenos sociais subjetivos GIL, 2000).

          Estudos de caso são as estratégias preferidas quando as questões “como” ou “por que” estão presentes, quando o investigador tem um pequeno controle sobre os eventos, e quando o foco é no fenômeno contemporâneo entre alguns contextos da vida real. Em caso de se tratar de um estudo de caso “explicativo” também pode ser complementado por dois outros tipos quais sejam  o “exploratório” e “descritivo”. Sem se importar com os tipos de estudo de caso, os investigadores devem exercer um grande cuidado no planejamento e realização dos mesmos  para derrotar as tradicionais críticas à respeito do método. De qualquer forma, a determinação de elos causais podem refletir percepções dentro de um processo de política pública ou dentro de uma teoria de ciência social. As proposições políticas públicas, se correto, podem deixar recomendações para futuras ações políticas; as proposições da ciência social, se corretas, podem deixar maiores contribuições à teoria construtiva (YIN, 1994).

           Faz-se observações de caráter empírico por parte do pesquisador  que se acercou da realidade da Regional Pinheirinho, especificamente Vila Garças,  no sentido de ensaiar meios de determinação de variáveis dependentes e determinantes na investigação  de pistas para construção de indicadores.

          Para este trabalho, utilizou-se pesquisa aleatória com ausência de sujeitos significativos e especialmente observação participante. Portanto, ouvir os estudantes, como se procedeu, pareceu acima de tudo um procedimento ético,  optando pelo uso de questionário. Embora pouco significativa em termos quantitativos, a amostra  observada permite concluir sobre evidências constatadas pelas opiniões coletadas. Igualmente a pesquisa bibliográfica constitui-se instrumento para cristalizar opiniões e estabelecer consenso (GIL, 2002).

 

3. Comunidades locais, realidades configuradas, medidas requeridas

              A Curitiba do Terceiro Milênio como quer Samek (1996), não se diferencia tanto na pobreza da realidade social de muitas das capitais brasileiras. Há beleza e encantamento em Curitiba, mas lamentavelmente, muita miséria também. A Gestão Pública Municipal efetiva não pode priorizar o embelezamento das cidades, sem antes olhar para as questões de infra-estrutura, absolutamente primordiais na definição da qualidade de vida e do  meio ambiente urbano.

              Lugares são recriados e reconfigurados na leitura diária dos grandes arquitetos nesta cidade. Mas são aos administradores públicos a quem cabe a grande missão de observar a necessidade emergente de muitos dos habitantes desta cidade, sejam eles ricos ou não. O Ribeirão dos Padilhas é apenas um dos muitos desafios encontrados na gestão urbana de Curitiba. Há muitos outros, apontados diariamente pela imprensa.

              O autor quer entender que administrar significa igualmente dar ouvidos aos mais necessitados, visto que o Estado não deve ser soberbo em suas relações,  mas soberano, e a quem o dever de tutelar o bem estar público e social dos cidadãos é cabido. A missão de relevar e propor decisões acertadas na discussão da promoção de um desenvolvimento sustentável numa perspectiva viável de desenvolvimento, sob pena de arcar com as conseqüências advindas desta problemática, revertida em criminalidade, marginalidade, subversão e estratificação social lhe é própria. Quando os discursos polifônicos não se articulam via comunitária, via ouvidorias municipais, há sempre outros meios para que vozes ecoem nas tribunas dos parlamentos, com fins nem sempre justificáveis. Dar vazão à politicagem,  via  discursos políticos conscientes da vulnerabilidade e cumplicidade desta situação  é deixar que perdure mais do que as quase três décadas de evidências. Mas dizer que não houve mudanças positivas é também negar esforços comunitários e governamentais. 

     

              Na questão da gestão pública efetiva, admite-se que a política urbana age sobre um duplo processo de monopolização e de proletarização pelo qual caracterizamos a estrutura social do capitalismo monopolista do Estado (VERGARA, apud CORRÊA, 2004).

  1. Outra forma de segregação seria a  do nível de equipamentos coletivos (crescimento dos conjuntos operários opondo-se ao super-equipamento dos conjuntos burgueses. Uma terceira forma pode ser observada pelo nível do transporte  domicílio-trabalho qual seja a crise dos transportes coletivos para o operariado e os automóveis para os burgueses. Esta é uma evidência. O acesso a esta região é ainda difícil. Apenas um ônibus, Maria Angélica, nos leva ao estabelecimento de ensino, Etelvina Cordeiro Ribas”, portanto, a cidade fica quase que desconectada desta região, mas não muito distante, as perspectivas e opções se multiplicam. Nesta localidade, alguns discretos estabelecimentos comerciais se encontram e a impressão que se tem, é que as pessoas se obrigam a buscar trabalho fora dali. As que assim não procedem, transformam suas residências em pequenos domicílios irregulares igualmente, oferecendo com uma placa na frente da residência, seus préstimos de serviços ou bens.

              O conflito social não permitido, inexistente para a ideologia dominante, impedido de ser explicitamente formulado, negado na sua existência, atribuído ao “daltonismo lamentável como os ferrenhos destruidores da ordem social levam por diante a odiosa hostilidade e a dramática incompreensão entre as massas trabalhadoras e o elemento patronal (CERQUEIRA Fo. , p.200, 1982 ).

              Os fluxos e refluxos migratórios são intensos no Estado do Paraná, especialmente os que convergem para a capital – Curitiba. Famílias sem emprego e sem reservas econômicas, numa aventura cidade adentro, despojadas de seus pertences anteriores, buscam a sorte nas cidades grandes.  Se o que se configura hoje é a cidade industrial muito próxima desta região, não se pode afirmar que é para ela que se volta a força de trabalho desta região, por razões já conhecidas, especialmente a necessidade de trabalho especializado para as questões da indústria. Ao contrário, observa-se o surgimento de inúmeros barracões onde novas indústrias iniciam suas atividades em meio residencial, minimizando as questões de transporte inclusive. Talvez, esta seja uma tentativa de inversão de tendências já conhecidas na rota para o trabalho, mas também as bicicletas são bastante presentes na região.

              O problema da falta  de um telhado não é exclusividade desta região. Em Curitiba, a falta de moradia já atinge mais de 40 mil famílias, inscritas nos últimos três anos, que esperam pelo atendimento na fila da Cohab. Uma pesquisa do IPPUC revela a existência de 137 áreas irregulares, onde moram 19.374 famílias, perfazendo um total de aproximadamente 100 mil pessoas. São áreas de ocupação, onde não foi procedida a regularização fundiária. Regularizar estas áreas e urbanizá-las é uma necessidade que se impõe imediatamente, sob o risco de aumentar o processo de favelização na periferia de Curitiba Ao todo, a cidade já soma 244 áreas de ocupações desordenadas, com cerca de 300 mil pessoas vivendo em condições consideradas pelos técnicos como subumanas (SAMEK, 1996, p. 101 ).

                        Recriar estes espaços, permitindo a acomodação de todas estas famílias, em respeito às condições de habitação tão carinhosamente escritas na Agenda 21 é ainda um grande desafio. Planejamento não é a única resposta. Uma cidade é como um rio, não como uma hidrelétrica. Muda seus contornos a cada segundo, salvo torná-la cinza, impermeável, de maneira a facilitar o controle, de tantas verdades que não são de todos, certamente. Na melhor lição (BOADA, 1991, p. 21):

:                                   O espaço, objeto do planejamento, é um intermediador das relações humanas. Os objetos do próprio espaço mediatizam e condicionam as relações entre as pessoas e das pessoas com elas mesmas. Para um ser humano, estar em um espaço ordenado, com arquitetura, urbanismo, paisagismo e desenho harmônicos não é a mesma coisa que pertencer a um espaço desordenado; também as relações sociais não serão as mesmas. O sentimento de pertencer a um espaço ordenado ou habitá-lo valoriza o homem; inversamente, o homem se sente desvalorizado quando o espaço ao qual pertence ou onde mora é desordenado.

 

              Vencer as desigualdades é de fato um grande desafio. Pensar  o desenvolvimento a partir do local tornou-se um novo desafio para os gestores públicos. Para estes atores,  desenha-se um cenário no qual o desafio é incorporar os atores locais à concepção e sustentação do processo de desenvolvimento, ou sentir-se parte do ambiente onde se vive, ou seja, pertencimento. Os gestores públicos devem ser obrigados a formular políticas capazes de articular os sujeitos locais – empreendedores públicos e privados, produtores de bens serviços e cultura – para que fortalecidos em sua autonomia, possam produzir um projeto estratégico de desenvolvimento regional e de inserção cooperativa e interdependente. Parece ser este um argumento bastante próprio para o desenvolvimento de civilidade e compromisso com o espaço urbano, pois é nele que se assentam também as nossas aspirações.

              O crescimento populacional de Curitiba comparado às outras regiões metropolitanas do país, ocorre sim,  com deslocamentos importantes das regiões agrárias tradicionais do Paraná, para a capital, pelo grande contingente de desempregados sem na verdade ter um endereço certo na cidade como se disse. Logo, a procura por lugares onde a competição e a resistência para estabelecer residência parece ser uma condição de favorecimento para que estes sujeitos diaspóricos se fixem na cidade é reafirmada por  Peyerl (1988). 

              O referido autor ainda explica que pode-se justificar o assentamento irregular de pessoas na periferia da cidade desprovida de infra-estrutura e serviços básicos onde a dificuldade destas famílias é dupla. O Estado passa a se responsabilizar pela dotação de infra-estrutura adequada a uma população que está a mercê do desemprego e da marginalidade, além das precárias condições de vida a que se expõem. A responsabilidade fica dividida entre os governos nas arenas municipal, estadual e federal.

              As linhas de crédito como ressalta Peyerl (1988) são diversas e as prioridades nem sempre convergentes. Foca sua posição no sentido de que as forças devem convergir para seus objetivos e não perderem-se na diversidade das decisões para atender as demandas sociais. Este projeto iniciou-se em 1988, com apoio do BNDES e a Prefeitura Municipal de Curitiba no sentido de melhorar a curto prazo, com o uso dos equipamentos urbanos e sociais, no sentido de elevar a qualidade de vida da população residente nas imediações do Ribeirão dos Padilhas. Em mais de 20 anos de ação a partir deste artigo (PEYERL, 1988), observa-se que o problema ainda existe, e mais  interessante é que vem sendo cercado pelo desenvolvimento como se fosse uma ferida urbana. A área do projeto era de 950 ha, abrangendo a Bacia do Ribeirão dos Padilhas, afluente do Rio Iguaçu, situado na parte Sul de Curitiba. Os dados de Peyerl indicam uma densidade de cerca de 65 hab. por hectare, com projeção para 1986 de 80.87 hab / há. Porém  ao avaliar-se os dados atuais em termos de indicadores, constata-se  o contexto de inserção deste problema na área marginal do Pinheirinho, com uma demografia de 102.410, numa área de  1.112 há, com aproximadamente 68 indústrias, 133 serviços diversos, e aproximadamente 20 escolas públicas, conforme os dados apresentados pelo IPPUC que ainda dispõe comentários bastante interessantes sobre a questão da densidade (IPPUC, 2004)

                        Segundo dados obtidos do site do IPPUC (2004), o esgotamento das fronteiras do município e o aumento populacional estão provocando um fenômeno que é o crescimento na taxa de densidade (medida pela relação habitantes por hectare). Esta taxa era 14,09 em 1970. Segundo o censo 2000, a densidade média na cidade é 36,72 habitantes por hectare. Este índice pode variar de acordo com o bairro e é maior nas regiões onde há verticalização mais acentuada o que não é uma característica desta regional onde o desenvolvimento se dá de forma horizontal. Quanto a distribuição da densidade o centro era o bairro de maior densidade da cidade. Desde 1970, ele vinha ocupando a primeira posição em densidade, mas em 2000 houve uma mudança neste panorama. O Água Verde hoje ocupa a primeira posição entre os bairros de maior densidade. Já o centro da cidade assume o segundo lugar e curiosamente o terceiro colocado é o Sítio Cercado -
 um bairro ocupado principalmente por residências e construções baixas, onde praticamente não existe verticalização. Outra surpresa na lista é a inclusão do Cajuru (7º colocado), que tem um perfil de ocupação semelhante ao do Sítio Cercado. Em compensação, bairros tradicionais como o Rebouças, São Francisco, Alto da XV e Mercês que estavam entre os dez primeiros em adensamento na década de 70, foram gradativamente perdendo posições e, em 2000, simplesmente sumiram desta lista. A Cidade Industrial, que é o maior bairro em extensão da cidade é também o mais populoso. Esta posição foi conquistada em 1990 e mantida em 2000. O Centro, que era o bairro com maior população em 1970, nem aparece na lista dos dez bairros de maior população em 2000.
No mapa da cidade, os bairros mais populosos identificados no trabalho do Ippuc formam um anel que abrange as regiões sul e leste. A única exceção entre os dez primeiros em população é o Água Verde, que é o 8º colocado e fica mais próximo à área central Quanto aos domicílios,  a lista de bairros com maior número de domicílios coincide com a dos bairros mais populosos. Há uma pequena variação na relação de habitantes por domicílio. No entanto, o que pode ser observado é uma redução significativa do número de moradores por domicílio. Critica-se esta denominação de domicílio, porque na verdade se refere a residências, visto que domicílio é o lugar onde se exerce função de caráter comercial.  Na cidade, a média geral é de 2,93 habitantes por domicílio. Este número confirma uma tendência que começou na década de 90, quando o censo registrou a existência de 3,65 pessoas por moradia. Em 1996, a relação moradores por domicílio havia caído para 3,43 e, agora, a queda é ainda maior.

                        O Sítio Cercado é o bairro que apresenta a maior concentração de moradores por domicílio - 3,37. Depois, vem o Cajuru, 3,30 e, em terceiro lugar está a Cidade Industrial, com 3,29.Os três bairros mais populosos - Cidade Industrial, Sítio Cercado e Cajuru - são os mesmos que aparecem nesta posição na contagem populacional que o IBGE realizou em 1996. O crescimento dos três foi intensificado a partir da década de 90. Antes disso, o Sítio Cercado e o Cajuru não estavam entre os dez bairros mais populosos. Em compensação, bairros tradicionais como o Portão, Rebouças e Mercês, que estavam entre os dez primeiros em 1970, hoje já não fazem mais parte da lista. Quanto a possibilidade de conhecermos outros indicadores, há que se observar a qualidade de renda a Economia local. especialmente o comércio e geração de potencial humano para o trabalho. Difícil precisar faixa etária e renda per capita.

De acordo com as entrevistas que se realizaram, apenas alguns grupos religiosos são de maior potência. Não se conhecem Redes sociais presentes - ONGs, sabe-se que o tráfico de drogas é uma constante no local,  a presença dos grupos políticos já aparecem nos muros em épocas de campanha, e certamente o efetivo desempenho da patrulha escolar, no acompanhamento do deslocamento das muitas crianças que freqüentam a escola noturna, e mesmo durante o dia.

              Conveniente seria que se apresentassem algumas evidências históricas sobre esta região. Conforme o que se esclarece no artigo de Peyerl (1988) , até a década de 60, a ocupação predominante da bacia do Ribeirão dos Padilhas era por chácaras situadas ao longo da Rua Francisco Derosso, antiga estrada para o município de São José dos Pinhais. Com a abertura da BR 116, surgiram loteamentos urbanos ancorados na estrutura viária que foram acompanhando a estrada, como é o caso do Jardim Urano e da Vila São Pedro, intensificando-se a ocupação nos anos de 1970.

O  Plano Diretor (Lei 2828 / 1966) desmotivava a ocupação de toda a faixa leste da BR 116, incluindo quase a totalidade da Região dos Padilhas intensificado pelos projetos desenvolvidos pela COHAB-CT, como tipo dominante de habitação e ocupação. Assim a Rua Izaac Ferreira da Cruz, acabou se tornando um eixo principal para a estruturação da Região ( PEYERL, 1988, p. 24).

              Em 1988 contava-se em número de 15 favelas ali existentes. Daí a necessidade de iniciar programas de intervenções. As intervenções mais marcantes foram em saneamento e habitação, assim como a oferta dos equipamentos sociais e urbanos mais necessários. Logo, para resolver o problema de saneamento, incorre-se na questão da moradia e  da participação institucional dos órgãos do Estado, Sanepar e COHAB, na  propositura de ações efetivas e eficazes para solucionar problemas básicos e urgentes. O autor apresenta estas medidas em detalhes O impacto maior  é do investimento em face a dificuldade de caracterizar os índices de renda da população local. Modernamente, sabe-se que a qualidade de vida depende deste importante indicador para que as famílias possam dar provimento ao atendimento de suas necessidades mais prementes. No entanto, tornou-se muito particular a situação desta população bastante diversificada na sua essência, mas abriram-se oportunidades de reversão de quadros críticos habitacionais pelas propostas apresentadas pela COHAB na tentativa de reverter o quadro nas décadas que sucederam sua atuação. Mas, a situação ainda requer cautela e atenção das autoridades governamentais (Ibid. p. 25).

              A questão da moradia às margens do Ribeirão dos Padilhas, é defendida por um Decreto Municipal no. 400/80 ou aquelas definidas e aprovadas nas plantas de loteamento lindeiro aos córregos. Interessante notar que a gerência deste projeto está a cargo do IPPUC.

              Talvez um passo certo seria justificar o por que da inserção desta região no estudo em questão. Na verdade, ela contém o recorte do Ribeirão dos Padilhas próximo ao local de trabalho do pesquisador, sendo um segmento desta comunidade bastante significativo, por haver antecedentes históricos que justificam suas origens e são marcos nas lutas de classes para a ocupação dos espaços então discutidos. Uma luta pela conquista do pedaço de chão por assim dizer (SANTOS, 1990).

              As razões apresentadas  evidenciam como a autonomia de um grupo popular pode representar a voz motora de toda uma ideologia na direção de discursos condutores de forças populares,. A questão da dificuldade de moradia na região do Xapinhal, com um dia decisivo que foi na noite do dia oito para o dia nove de outubro de mil novecentos e oitenta e oito, por cerca de quatrocentas famílias é revivida por Santos (1990). Porém,  muito antes dessa data, essas famílias já se reuniam. Eram, participantes de associações de moradores da Região Sul de Curitiba; dos Bairros do Xaxim, Pinheirinho e Alto Boqueirão, de onde advém o nome “Xapinhal” (SANTOS, p. 05, 1990).

              A noite da ocupação é relatada em detalhes.

Fora a noite, quando as barracas se instalaram, da mesma forma que nos dias seguintes vieram as pressões. Em pouco tempo já havia mais de 2500 famílias. E pela ordem de chegada, foram escolhendo  o lugar de construção de suas casas. Este processo durou quase um ano. Desta forma, as divergências de liderança começaram a surgir, e os grupos de oposição vão fazendo novas frentes a situações novas, de forma que líderes iniciais até se excluem do local ( Ibid. p. 10).

 

              Mas o abandono da grande causa se deu por motivos políticos. Muitos deles se acercaram tentando abraçar a causa dos acampados e deles foram retirando o ideal de permanência, iludindo-os com condições melhores num outro lugar, que poderiam a partir de suas candidaturas oferecer. Alguns no entanto, acreditaram e afastaram-se do grupo, alegando falta de emprego, traço este remanescente até os dias de hoje. Somente que não se afastam da região porque há maior resistência em outros lugares da cidade. Logo, um mundo a parte. De dificuldades diárias para uma população relocada em habitações da COHAB e as que ainda resistem a mudanças, e assumem hoje o papel daqueles primeiros acampados por uma porta aberta deixada pelos mesmos, cujas chaves parecem perdidas e irresgatáveis. 

              Um outro olhar para a área em questão, seria destinado a observar objetivamente os aspectos toponímicos e os pressupostos que relacionem aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais com mais foco, visto que em linhas gerais, já se configura a posição do autor diante da realidade  social observada. 

  1. A situação dos postos de saúde é precária especialmente nos bairros periféricos ( Ibid. p. 138)  

              Observa-se também, a quantidade de acidentes de automóvel.  A Avenida Izaac Ferreira da Cruz, construída no Sítio Cercado na década de 1970, serviria apenas para ligar os Bairros Pinheirinho e Boqueirão. Hoje é um centro de comércio e igualou-se ao centro da cidade numa estatística negativa. É a campeã em atropelamentos, com cinco casos registrados no mês de janeiro deste ano e 27 no ano passado (Gazeta do Povo, 2004).

              Observa-se  alto índice de mortalidade infantil  embora melhor do que na periferia da cidade ( 22.65% As principais causas são a falta de saneamento básico e a desnutrição. NA continuidade de suas fontes, apresenta a precariedade do sistema de  esgotos. Apenas 59, 45 % dos domicílios urbanos são ligados a rede de esgoto e deste 26% recebem, tratamento. O perigo maior é o surto de leptospirose. Há construções clandestinas em cima da áreas de mananciais.  (SAMEK, 1996,  p. 145-154).

               Há alto índice de violência nesta região haja visto o número de assaltos em ônibus (Tribuna do Paraná 2004).  A evasão escolar nesta região é altíssima, especialmente com olhar para a unidade de observação do autor (Escola Etelvina Cordeiro Ribas). A clientela declara haver tráfego de drogas, atuação de grupos de drogadição centrando-se como de costume, perto dos portões escolares. Há apoio da patrulha escolar, nesta causa. As escolas oferecem a merenda escolar, que é uma forma de combater a fome. As escolas promovem já há alguns anos, o Desfile Cívico que ocorre na Av. Winston Churchil anualmente, na época dos festejos alusivos à Semana da Pátria. Já se mencionou a dificuldade de transporte coletivo. Há grupos armados em esquinas algumas vezes, aguardando a possibilidade de assalto e também estupro. Observa-se que as escolas não são providas de conservação. A precariedade das instalações foi sendo aos poucos suprida por esforço comunitário.

              Um trabalho em que a governança local fora  motivada  durante a permanência do autor no estabelecimento de ensino (2004), unidade observacional em questão, possibilitou visualizar a receptividade dos mesmos nos eventos festivos e na forma de ampliação da participação social pela comunidade local na tentativa de captar recursos financeiros e viabilizar melhorias locais no próprio estabelecimento de ensino por exemplo.

              Embora a diversidade sócio-econômica seja um imperativo das regiões com assentamentos irregulares parece haver uma discreta tradição nas raízes ocupacionais do território advindo de um movimento social constituído de luta pela ocupação do mesmo, logo, um reconhecido pertencimento que em nada se configura com padrões étnicos preestabelecidos de dominação característica de modo geral, como se observa em Curitiba, salvo no período em que os ricos fazendeiros se desfizeram de suas propriedades, por serem regiões de encharcado, negociando com o Estado a devida desapropriação. A retomada do espaço público  caracteriza um marco de conquista nas questões de justiça social, ampliação territorial do município de Curitiba e aumento da população. 

             

5. Conclusão

            A ocupação  dos espaços públicos de uma cidade parece ser indisciplinada a princípio. Observa-se no entanto, que da contradição dos movimentos sociais e de suas dificuldades na questão da tomada do domínio do território e da marcada trajetória de dificuldades enfrentadas para vencer o cotidiano de realidades emergentes, soluções parecem apontar de forma repentina, ou ainda, tornar objetiva a compreensão de certos fatos que limitam o desenvolvimento local num clima sustentável, na contenção da violência, da pobreza e da marginalidade.

Quanto à Região escolhida, qual seja, o Xapinhal, buscou-se na pesquisa de campo, elencar  pontos favoráveis  e desfavoráveis observados no desenvolvimento desta regional.  A população entrevistada confirma a presença de conjuntos habitacionais, onde se percebe animosidade para permanecer na região, mesmo reconhecendo a precariedade das condições de vida locais. A população é consciente da existência de entidades locais  que auxiliam na averiguação e propostas de solução para problemas como a drogadição, criminalidade e os próprios problemas locais examinados por uma comissão de moradores. Como desfavorável, a região carece de ação social efetiva, pelo próprio serviço social municipal, das questões sanitárias, tais como a presença de ratos, aranha marrom, o próprio ribeirão bastante poluído, o cheiro provocado pelo lixo e a violência no bairro. Parece que sobrevivem ao conhecimento local de criminalidade, resistindo de alguma forma a estas adversidades.

Observa-se como fator limitante do presente trabalho de pesquisa, a necessidade de reforçar literatura sobre o desenvolvimento dos bairros de Curitiba, assim como estudos de investigação social que s projetem para a perspectiva de expandir o conhecimento da dinâmica social a partir de seus atores e não somente pelo espaço que ocupam. Os dados coletados reforçam o pressuposto de que o desenvolvimento urbano de Curitiba, exemplo de planejamento mundial, trouxe para suas regiões periféricas, grande número de assentamentos irregulares, porém há que se admitir que é na diversidade sócio-cultural e étnica que a sociedade como um todo supera suas expectativas de sustentabilidade e qualidade de vida, na medida em que as riquezas sociais se distribuem por bens ou serviços. Pesquisas futuras podem reforçar a idéia de formação técnica específica para o incremento do comércio local, serviços burocráticos e agenciamento de oportunidades de pleno emprego, pela dinamização do papel das instituições de ensino na tentativa de profissionalizar jovens e adultos numa perspectiva emancipatória.

 

Referências:

BOADA, Luis. O espaço recriado. Editora Nobel, São Paulo-SP, 1991.

CORRÊA, Almeida, Propostas para uma gestão Pública Municipal Efetiva, Editora FGV, Rio de Janeiro-RJ, 2004.

PEYERL, Lourival, Ribeirão dos Padilhas. Um projeto integrado de intervenção urbana localizada. Revista Espaço Urbano (Pesquisa e Planejamento), IPPUC-CTBA-PR, 1988.

SAMEK, Jorge. A Curitiba do terceiro milênio. Editora Palavra  Curitiba-Paraná, 1996.

SANTOS, Alzenir de Fátima B.S. Santos. Fatores que influenciaram na organização do acampamento do Xapinhal. PUCPR, Curitiba-PR, 1990.

YIN, Robert. K. Case Study Research. Sage Pub., London, 1994.

 

 

 

 

APÊNDICE 01

 

 

 

INSTRUMENTO DE PESQUISA – PPGTU – PUC/2004

    PERGUNTAS E RESPOSTAS ANALISADAS

 

1. Alguém já lhe procurou para lhe oferecer uma relocação?

Não – Moro em conj. Habitacional – Não – Não – Não – Não – Não – Moro em Com. Hab. – Não – Não – Não – Não – Não – Não

 

2. Existe perspectiva de mudanças para um lugar melhor?

Sim – Não – Não – Sim – Não – Sim – Não – Sim – Sim – Não – Não – Não – Não respondeu

3. Quais as principais dificuldades encontradas para habitar neste lugar?

  1. Doenças, mal cheiro e má aparência do bairro 2. Sujeira – 3. Não respondeu 4. O mal cheiro e o lixo 5. Ratos e mal cheiro – 6. O próprio Ribeirão – 7. Mal cheiro e violência do lugar 8. Mau cheiro, viroses, ratazanas e enchentes. 9. Nenhuma 10 – Mau cheiro, ratos, viroses e enchentes 11. Violência 12. Mal cheiro 13. Mal cheiro

 

4.      Há entidades locais de apoio?

1. Sim 2. Sim 3. S/R 4. Sim 5. Sim 6. Não 7. Não 8. Sim 9. Não sei 10 Sim 11. Não 12. Não sei 13. Não

 

5.      Há tráfego de drogas?

  1. 1. Sim  2. Sim  3. Não sei  4. Sim  5. Sim  6. Sim  7. Sim  8. Sim  9. Sim  10. Sim  11. Não   12. Sim  13. Sim

 

6.      Há crimes locais ?

1. Não  2. Sim  3. Não  4. Sim 5. Sim 6. Sim 7. Sim 8. Sim 9. Sim 10. Sim 11. Não 12. Sim 13. Sim.

 

7.      Há organização de moradores?

1. 1. Sim 2. Relativa 3. Sim 5. Não 6. Não 7. Sim 8. Sim 9. Não 10. Ajudam a limpar 11. Variado 12. Sim 13. Sim

 

8.      Qual a escola de sua referência?

Etelvina Cordeiro Ribas – Escolaridade: Escola de 1o Grau.

 

9.      Sexo:

1. Masc. 2. Fm  3. Fm 4. Fm 5. Fm 6. Fm 7. Masc. 8. Fm 9. Masc. 10. Masc. 11. Fm 12. Fm  13. Masc

 

10.  Idade

  1. 1. 14    2. 13    3. 14    4. 14    5. 14    6. 14    7. 17    8.13     9. 18    10. 17  11. 12  12.19   13.15

 

Observação: Entrou-se em salas de aula com cerca de 40 crianças por  turma. Dos quarenta alunos, embora muitos ausentes, apenas estes se manifestaram.  Havia uma excursão para a Perturbas naquele dia ( 10/09/2004). 

 

 

   Pontos Favoráveis – majoritários

Pontos desfavoráveis 

01. Alguns confirmam a presença de conjuntos habitacionais

01. Falta de interesse do Serviço Social em caracterizar situação

02. A maioria tem ânimo de permanência no local

02. Minoria pensando em mudar

03. Não há comentários positivos quanto a qualidade d e vida no local

03. Doenças, ratos, enchentes, o Ribeirão em si, lixo, cheiro,

      violência

04. A maioria declara haver entidades locais

04. Alguns não as conhecem e negam existirem

05. O tráfego de drogas é uma verdade para  os entrevistados

05. A minoria não conhece o problema de drogas

06. A maioria reconhece o alto índice de criminalidade

06. A minoria desconhece a presença de crimes

07. A maioria reconhece a presença de organização de moradores

07. A minoria desconhece este fato

09. As opiniões vieram  casualmente de pessoas de sexos diferentes

09. -x-

10. -x-

10. Observa-se pessoas com muita idade para as séries em questão

 

08. Todos os entrevistados são do Colégio Estadual  Etelvina Cordeiro Ribas – Escola Fundamental.

 

 

 

 

 

 

(Artigonal SC #1115020)

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    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/meio-ambiente-artigos/estudo-de-caso-comunidades-proximais-do-ribeirao-dos-padilhas-regional-pinheirinho-curitiba-parana-brasil-1115020.html

    Palavras-chave do artigo:

    realidade social; política; segregação; moradores

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