Mestre em desenvolvimento sustentável pela Universidade de Brasília - DF. Bacharel em Ciências Econômica.
Impacto ambiental, lazer no Morro de São Paulo, bioética e ética do patrimônio genético
Carlos A. Cursino Roriz é mestre em Politica e Gestão de Desenvolvimento Sustentável pela UnB. Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:
O planeta Terra é um ser vivo, indiscutivelmente, e nele vivemos como vermes e parasitas nos movimentando como predadores racionais milenares.
Numa analogia de visão antropológica, o mar costeiro é a cabeleira do “Ser Terra” assim como o homem, e ambos promovem alterações constantes na estética e aparência física.
Daí a razão quando se afirma que a costa marítima está em constante alteração no espaço do planeta. A maré avança e recua em tempo milenar e em constante movimento.
Mas esta “feição dinâmica“ do mar não é apenas um processo natural. A dinâmica é alterada pela intervenção humana, como exemplo: obras desordenadas, dragagens, avanço e desrespeito da linha de recuo, uso inadequado das margens da praia, subsolo, poluição.
Portanto, a intervenção humana promove o recuo da linha de costa por conta da ausência de um manejo ordenado de faixas de recuo da praia, e por conta de ações predadoras.
O homem e a mulher passaram a viver de forma inteiramente antropológica sem se ater aos princípios éticos da bioética. Consome-se os recursos do planeta pelo prazer e lazer induzidos pela produção industrial e pelo modernismo na busca da felicidade efêmera.
Urge que o homem e a mulher vivam na linha da vida, em harmonia e equilíbrio na tríade da Bioética que abriga os interesses do Meio Ambiente, do Animal, e do próprio ser humano, em suma do viver o Antropoecozoocêntrismo - JC-Email,( Roriz, 2/6/2006).
A educação ambiental alimenta uma esperança da preservação da natureza, mas os esforços dos defensores do viver na “Onda da Bioética” ainda é uma abstração, um sufoco.
O avanço da Ciência e Tecnologia/MCT desatrelada à educação ambiental, à sustentabilidade social, e aos princípios da Bioética “brasileira”, assemelha-se à vegetação restinga do Morro de São Paulo – egoista, à deriva, sujeita a intervenção suprema.
Chega-se ao Morro de São Paulo (área de 400 km2) também por via aérea. Por via marítima há lanchas e barcos atracados no cais da cidade de Valença, Bahia. O cais do porto de Valença representa um dos maiores desleixo ambiental do Estado. Uma violência a bioética.
As águas valencianas que “margeam” o cais são sujas, podre, cobertas de óleo diesel, com odor insuportável, assemelha-se a uma sopa de lixo, cenário antigo e carente de interferência do Estado e de instituições fiscalizadoras.
Em Valença/Morro de SP, há embarcações sem sistema de comunicação a bordo, um afronto à obediência as normas do Ministério da Marinha. O transporte de turistas brasileiro e estrangeiro, em barcos pequenos, em 1 hs., nessas condições é feito até altas horas da noite.
Em Valença, “all-de-entrada” do Morro, a população de crianças, adolescentes e adultos vagueiam pela cidade, comercializando gaiolas com aves silvestres. Isto quando não as penduram no alto das paredes das casas comerciais ou nas varandas residenciais.
Ao se avaliar o uso do Morro de São Paulo as autoridades fiscalizadoras da preservação ambiental têm que enxergar o lazer e o lucro econômico intrinsecamente comprometido com o impacto degenerativo das espécies de vida animal, vegetal, e o meio ambiente rico em resíduos naturais (vivo e morto). Construções estão a 2 metros à beira da praia na maré alta.
No “Morro”, na Quarta praia, dia 07 de outubro de 2006, às 11:11 horas, tive o cuidado de levantar o lixo encontrado na beira do mar, semi enterrado na areia, puxado e empurrado pelas ondas, ou seja: baterias de portátil, sacos plásticos de “ships”, de doces, de biscoitos, e de outros, roupas, pedaços de PVC, sacos de farinha de trigo, camisinhas, fragmentos de petróleo, tolha de plástico, garrafas de refrigerantes e água mineral, garrafas de uisque e de cachaça, bagaços de côco, pedaços de fio, tomadas de luz, pedaços de corda, peixes mortos, peixe “boto”, urubus à carniça, sapatos, sandálias, bonés, pedaços de pau e madeiras diversas, componentes eletrônico, restos de comida, pedaços de carne assada, fezes de cavalo, latas de óleo de motor, papeis, guardanapos, e restos de vegetais, em fim, lixo.
Observando o tipo de lixo ver-se que ele é gerado pelo turista, pelo pescador, e pela população. O mar avança na vegetação nativa da ilha e carrega em suas ondas o patrimônio genético, além do lixo gerado no “luar”, no “sarau”, nas noitadas da insólita Tinharé.
Na maré cheia a onda do mar ultrapassa o espaço das areias e se quebram nos barrancos, desgastando e arrastando o lixo, e com ele o patrimônio genético, erodino a cada avanço, na calada dos dias e das noites. No cenário ambiental costeiro o mar leva as espécies vegetais e animais em “ondas mix”, transformando em “múmias do sol” e em lixo salgado.
Observei que os gestores da ilha utilizam sacos de farinha de trigo cheios de areia, suportados por troncos de coqueiros fincados ou deitados uns sobre os outros, para conter o avanço da força das águas das marés altas. Solução paliativa e de emergência.
Esses sacos de farinhas de trigo depois de arrebentados pela força do mar, são carregados pela onda que transformados em lixo bóiam e retornando à areia, soterrando-se, criando o que, ora, denomino “efeito bumerangue poluidor”.
No passado ouvia-se dizer que o Morro de São Paulo tinha como único veículo motorizado dois (2) tratores da prefeitura, mas atualmente cheguei a ver muitos, e tão quanto o número de cavalos e similares ( égua. mula, jegue).
Mas ... a ilha é uma excelente opção de lazer, e se transformada em ponto turístico de primeiro mundo poderá sustentar o apelido de Caribe brasileiro. Oferece boa hospedagem, shows, comida e bebidas tropicais, passeios, e vista deslumbrante. É um lugar de gente bonita, hospitaleira, pacífica, aonde se ver variações de raças em convívio Zen.
Mas é necessário que se dê mais atenção a esta ilha, e aqui deixo sugestões:
- Institucionalizar o uso do solo, manejo ordenado de faixas de recuo da praia e com construções apenas ecológicas, estruturas não rígidas, leves e seguras;
- Preparar “Agente Multiplicador” entre os administradores de pousadas e hotéis, moradores, trabalhadores avulsos, através de aula sobre conservação, educação ambiental, bioética e ética do patrimônio genético;
- Instalar na ilha usina de reciclagem de lixo, produtora de “souvenir”, para servir de posto de troca de lixo por “vale brinde”, e promotora de cursos de reciclados.
- É urgente a fixação do Ibama, ONG ambiental, de instituições públicas de pesquisa e de ensino básico para a população crescente local de baixa renda;
- Melhorar a eficiência da limpeza pública que hoje parece acanhada e preguiçosa no recolhimento superficial do lixo, e fixação de coletor de lixo em toda a ilha;
- Ibama pode indicar a ilha como ponto de soltura de animais silvestres do Estado;
- Promover encontros nacional de ativistas, ecologistas, ambientalistas, pesquisadores e estudantes, com diárias estimuladoras, com o fim de estudar e apresentar soluções para a degradação sazonal do meio ambiente do local, Morro de São Paulo;
- Acompanhar, avaliar, estabelecer estratégia sobre: a densidade populacional que hoje é de 3.500, de animais domésticos e de novas construções residenciais e hoteleiras.
Na verdade, o Brasil carece de uma legislação especifica que dê mais atenção à costa marítima, ao espaço das praias, e com isto vir institucionalizar o manejo: do lixo, da ocupação desordenada, da construção rígida, da linha de recuo, das obras sanitárias, das invasões, da prática da bioética, da ética do patrimônio genético, da preservação da natureza iodada.
Artigo Publicado pelo Jornal Da Ciência, JC e-mail 3147, de 22/11/2006


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