UM GRANDE BATERISTA - MILTON BANANA

Publicado em: 26/07/2010 |Comentário: 0 | Acessos: 418 |

MiltonBananaORitmoSomdaBossaNova_thumb[1

Vou falar sobre um músico de primeira linha, baterista por vocação e um mestre das baquetas: Milton Banana, que tornou-se conhecido quando do surgimento da bossa nova, aquele gênero musical chamado de "intimista", ou, ironicamente, de "música de apartamento". Mas um gênero que deu certo, venceu e frutificou.

A bossa nova nos trouxe uma safra invejável de grandes bateristas – Edison Machado (cuja bateria era conhecida como metralhadora), Dom Um Romão (que tocou com Sérgio Mendes), Wilson das Neves (o preferido de Chico Buarque), Rubinho Barsotti (do paulistano Zimbo Trio), Toninho Pinheiro (do também paulistano Jongo Trio), Hélcio Milito (do carioca Tamba Trio), para citar somente alguns do primeiro time. E, claro, Milton Banana.

João Gilberto é considerado o "pai da bossa nova" por ter inventado uma batida de violão que passou a ser o símbolo do movimento, uma batida dificílima, pelo menos a princípio. E, com essa nova batida no violão, tornava-se necessária uma nova batida também na bateria. E o primeiro a bater bossa nova foi um sujeito chamado prosaicamente, Antonio de Souza, nascido em 23 de abril de 1935, no bairro de São Cristóvão, zona norte do Rio de Janeiro.

Antonio passou a ser Milton, pois sua mãe achava que tinha de ser assim e assim foi. De tanto chamar o Antonio de Milton, ele passou a ser Milton. E o Banana veio de sua mania pela fruta, da qual era um fiel consumidor. Daí surgiu Milton Banana, um dos maiores e mais aplicados bateristas que o Brasil já viu tocar.

Banana nunca estudou bateria formalmente, um instrumento que também exige estudo teórico e prático. Sua escola foram os inúmeros conjuntos de que participou no Rio, muitas vezes tocando bongô ou pandeiro, em gafieiras e clubes populares, principalmente nos bailes de Carnaval.

Voltando às "invenções musicais", descobriu-se que, para acompanhar a batida do violão do João, o baterista deveria exercer também uma "batida diferente", com uma baqueta privilegiando o aro e a vassourinha deslizando sobre o "couro" da caixa, complementando o ritmo. E é a Milton Banana que se deve, não apenas o típico teque-teque da bateria da bossa nova, mas todo o colorido rítmico e a intensa variedade de tempos que o ritmo exigia. E o mais interessante de tudo é que esse "teque-teque" não era padronizado, batia-se no aro da caixa sempre de uma forma diferenciada, o que era o "must" do ritmo. A vassourinha viria a ser substituída, em muitos casos, por outra baqueta passeando pelo chimbal (também conhecido como pratos de choque), que vem a ser aqueles dois pratos colocados sobre um pedestal, que fica à esquerda da bateria e que é acionado pelo baterista através de um pedal. Isso veio a facilitar o entendimento e o aprendizado da nova batida, pois é muito mais fácil passear com a baqueta pelos pratos do chimbal do que deslizar com a vassourinha pelo couro da caixa de forma ritmada.

Uma outra característica do ritmo da bossa nova foi o uso do bumbo, que fica no centro, ao chão, acionado também por um pedal e que fazia a marcação do ritmo com um constante "tum-tum". Tudo isso surgiu com Milton Banana.

O real começo de Banana foi em 1955 quando estava com 20 anos, no pequeno bar do hotel Plaza, na avenida Princesa Isabel, no Rio, que faz a divisa do Leme com Copacabana. Lá ele começou a tocar com o pianista Luiz Eça (futuro Tamba Trio), o contrabaixista Ed Lincoln (que depois viria a tocar piano e órgão e montaria um fantástico conjunto dançante) e o acordeonista e trombonista João Donato (que logo passaria ao piano, que toca até hoje). Esse bar era conhecido pelas muitas apresentações de Johnny Alf (considerado um dos precursores da bossa nova), até que o mesmo resolveu tentar a sorte na Baiúca, em São Paulo. E essa trinca, mais Milton Banana, tinha a difícil missão de substituí-lo à altura. E conseguiu, pois os quatro alcançaram o sucesso, uns mais, outros menos, é verdade.

João Gilberto gravou em 1958 um single que tinha "Chega de Saudade" no lado A e "Bim Bom" no lado B. O baterista, claro, foi Milton Banana, que ainda era o único a dominar a nova batida, inventada por ele próprio. Complementavam o acompanhamento, Guarany e Juca Stockler. Esse disco foi lançado ao mesmo tempo em 45 e 78 rpm, e é tido como a gravação inaugural da bossa nova.

Milton Banana gravaria com João Gilberto, ainda em 1958, o próximo single que teve "Desafinado" e "Hô-ba-la-lá" e também estaria presente nas oito faixas restantes que completariam o LP "Chega de Saudade", gravadas no começo de 1959. O básico da "nova bateria" estava começando exatamente ali.

Passou uma temporada no exterior e em Buenos Aires foi um tremendo sucesso na boate 686 onde fez apresentações junto a João Gilberto, Os Cariocas e Baden Powell. Astor Piazzola era seu maior fã, não perdendo uma noite de show. Voltou ao Rio, quando gravou dois LPs com João Donato, tendo Tião Neto no contrabaixo e Amaury Rodrigues na percussão. Quase ninguém se interessou por esses discos.

Foi um dos participantes do lendário show de bossa nova realizado em 1962 no Carnegie Hall, em Nova Iorque, juntamente com Tom Jobim, Roberto Menescal, Carlos Lyra, e João Gilberto, entre outros. Na platéia, feras da música popular americana como Peggy Lee, Tony Bennett, Dizzy Gillespie, Miles Davis e Gerry Mulligan. Nesse show os bateristas presentes não tiravam os olhos das mãos de Milton Banana, pois, em bateria, existem detalhes que só se aprendem olhando.

De novo no Brasil, Banana deu uma nova dinâmica ao seu estilo de tocar, passando ao som mais explosivo dos grupos de bossa-jazz que proliferavam no Rio. Foi a época onde ele efetivamente começou a ser mais conhecido no Brasil, fazendo da sua bateria algo parecido com a de Edison Machado, seu amigo, aquele que tinha uma "bateria metralhadora". Poucos se lembram dele tocando bateria suavemente como era uma exigência irrestrita de João Gilberto. E olha que para aturar e agradar a João (um perfeccionista) o sujeito tinha mesmo que ser muito bom. E Milton não era apenas muito bom, era ótimo.

Milton Banana namorou a cantora Elza Soares em 1962 e foi ele quem a ensinou pacientemente toda a divisão da bossa nova (musicalmente falando) e fizera com que ela se tornasse uma grande sambista. Por obra do destino, um concurso de popularidade promovido por um jornal carioca e uma fábrica de automóveis, aproximou Elza do supercraque Garrincha, do Botafogo e da seleção brasileira de futebol. E, com isso, Elza acabou trocando Milton por Garrincha, o que foi uma terrível prova para a sua auto-estima. Mas ele acabou por superar bem esse trauma, pois 1962 estava sendo o ano de sua vida. Não vou me alongar nesse episódio, mas tenho que dizer o que Banana disse a Ruy Castro a respeito disso: "E o pior é que eu era Botafogo!" (sic).

Veio então a sua "fase paulista" quando se radicou na cidade de São Paulo e formou o ótimo Milton Banana Trio, tendo Wanderley ao piano e Guará no baixo, ambos jovens paulistanos. Com essa formação foram lançados dois LPs espetaculares, onde explode definitivamente a bateria de Banana. O primeiro chama-se simplesmente "Milton Banana Trio" e o segundo "Vê". Particularmente gosto mais do primeiro que tem, entre outras preciosidades, Garota de Ipanema, Samba de verão, Primavera, Samba do avião, Ela é carioca... O solo que ele faz em "Garota de Ipanema" é um verdadeiro achado. No segundo LP destacam-se Estamos aí, Vê, Opinião, Você, Só tinha de ser com você e Preciso aprender a ser só. Em "Estamos aí" ouve-se toda a genialidade e improvisação de Milton.

Infelizmente a música popular brasileira acabou seguindo outros rumos, todos hostis à bossa nova. Foi quando voltou ao Rio e gravou alguns discos temáticos, dedicados a Tom Jobim, Chico Buarque e Vinícius de Moraes. Apesar de discos excepcionais, nenhum deles fez sucesso e Milton Banana acabou por se entregar, resignando-se a tocar em inferninhos de Copacabana, isso lá pelos anos 80, quando começaram seus problemas de saúde.

Nos anos 90, a bossa nova teve uma espécie de redescoberta e as coisas começaram a melhorar para quem ainda era engajado no movimento. Mas, para Milton Banana, já era um pouco tarde. Desde 1992 sofria de graves problemas circulatórios causados por diabetes, o que era uma constante ameaça a ter uma perna amputada. Houve um show em seu benefício organizado por Mario Telles (irmão de Sylvinha) no Rio. Com o dinheiro arrecadado fez um tratamento e conseguiu adiar a cirurgia, chegando até a fazer um show de final de semana numa tentativa de reabilitação do Beco das Garrafas, que vem a ser uma travessa da rua Duvivier, em Copacabana. Mas, em certo momento, a cirurgia ficou inevitável e, em abril de 1999, Banana perdeu uma perna. Um mês depois, morreu de enfarte em 15 de maio, aos 64 anos, no seu Rio de Janeiro.

Milton Banana foi velado e enterrado no Cemitério São João Batista, em Botafogo.  Durante o velório, chamou a atenção de todos uma coroa de flores com os seguintes dizeres: "A Milton, a quem o Brasil não homenageou, nem reconheceu nunca. Ass.: Todos os músicos do Brasil". Soube-se depois que a coroa teria sido enviada por João Gilberto. Uma singela e justa homenagem a um grande músico e um homem de imenso caráter.

******        

Perguntas e Respostas

Pergunte
200 Letras sobrando
Avaliar artigo
5
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 5 Voto(s)
    Feedback
    Imprimir
    Re-Publicar
    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/musica-artigos/um-grande-baterista-milton-banana-2905421.html

    Palavras-chave do artigo:

    milton banana

    ,

    baterista

    ,

    bateria

    ,

    chega de saudade

    ,

    elza soares

    ,

    garrincha

    ,

    carnegie hall

    ,

    bossa nova

    ,

    hotel plaza

    ,

    copacabana

    Edson Duarte

    Um grande problema de alguns artistas é a falta de identidade própria. Isso acontece muito com vários gêneros musicais. Quase todos em geral se espelham em alguém da moda e acaba vindo na crista da onda. Isto acaba gerando desconforto, tanto na Crítica, como principalmente ao público. Neste artigo abordarei os principais motivos de tal comportamento no cenário da música atual

    Por: Edson Duartel Arte& Entretenimento> Músical 25/04/2012 lAcessos: 12
    Prof. JV de Miranda Leão Neto

    Contando a história comum dos mortais que ainda sobrevivem à miséria humana, Chico Buarque deu à História da MPB uma das músicas mais belas e completas de toda a História da Humanidade.

    Por: Prof. JV de Miranda Leão Netol Arte& Entretenimento> Músical 18/04/2012 lAcessos: 12
    Prof. JV de Miranda Leão Neto

    Um momento mágico na antologia de composições de Renato Barros foi alcançado em 1971, com um disco genial que não obteve tanto sucesso quanto outros do Renato e seus Blue Caps.

    Por: Prof. JV de Miranda Leão Netol Arte& Entretenimento> Músical 12/04/2012 lAcessos: 60
    ren002

    A Revista Forbes divulgou nesta quinta-feira, 16, a lista dos músicos mais bem pagos do mundo. Quais estrelas da música mais ganharam dinheiro no ano? A lista completa com os 25 nomes, destacados pela Forbes, você confere abaixo, com valores em dólares.

    Por: ren002l Arte& Entretenimento> Músical 23/03/2012 lAcessos: 50

    Dia 14 de abril, em Itaipava, um grande evento da música, com Alexandre Pires, DJs e muito mais.

    Por: Marcos Bassinil Arte& Entretenimento> Músical 22/03/2012 lAcessos: 54

    No dia 31 de março (sábado) a partir das 21 horas, no Teatro da Maçonaria (Av. Brasil, 478 – Santa Efigênia), a banda mineira ALTERNATIVA Z faz show de lançamento do seu terceiro CD "Tô Vivo na Parada".

    Por: Heberton Lopesl Arte& Entretenimento> Músical 22/03/2012

    Resenha da canção 'Escrita pelo dedo de Deus', que dá o titulo ao novo DVD do Thalles Roberto.

    Por: icuritibal Arte& Entretenimento> Músical 22/03/2012 lAcessos: 28

    A MPB ganhou um novo Rei. Ao menos em Petrópolis. O nome? Alexandre Pires. Tudo porque Alexandre consegiu uma façanha, há 13 anos, quando ainda era do SPC: reunir 125.000 pagantes num espetráculo. Isso mesmo: 125 mil.

    Por: Marcos Bassinil Arte& Entretenimento> Músical 13/03/2012 lAcessos: 20
    Arnaldo Agria Huss

    Dirigir um ônibus ou um caminhão; esse vem a ser o sonho de muitos. E também foi o meu, na época de criança. O prazer da liberdade, o conhecer esse mundão afora, as amizades conquistadas, tudo isso faz dessa profissão algo encantador, mesmo sabendo-se de todas as dificuldades. Este texto é uma singela homenagem a esses incansáveis profissionais que transportam o futuro do país, bem como a esperança de muitos.

    Por: Arnaldo Agria Hussl Notícias & Sociedade> Cotidianol 24/04/2012
    Arnaldo Agria Huss

    Nosso país não valoriza seu próprio idioma oficial. Tudo é feito para que a língua inglesa se apodere de várias expressões. O texto trata de uma forma bem humorada sobre este assunto.

    Por: Arnaldo Agria Hussl Notícias & Sociedade> Cotidianol 20/04/2012 lAcessos: 37
    Arnaldo Agria Huss

    Nunca o Brasil tinha passado por situação tão truculenta, como após a publicação do Ato Institucional No. 5, ocorrida numa sexta-feira treze, mais precisamente em 13 de dezembro de 1968. Juntos, seus 12 artigos constituíam a mais draconiana das leis de exceção de todo o período republicano. O texto recorda alguns momentos da época, quando os órgãos de imprensa tinham que fazer malabarismos para continuar circulando, uma vez que a censura implantada pelos militares foi a pior de todos os tempos.

    Por: Arnaldo Agria Hussl Notícias & Sociedade> Polítical 09/04/2012 lAcessos: 13
    Arnaldo Agria Huss

    O texto trata de cinco assuntos que sofreram radicais mudanças nos últimos anos, todas elas para pior, pelo menos na visão do autor. Desde o transporte público até o "politicamente correto".

    Por: Arnaldo Agria Hussl Literatura> Crônicasl 28/03/2012 lAcessos: 27
    Arnaldo Agria Huss

    O artigo trata sobre a situação atual do Brasil, cuja população vê-se cercada por todo o tipo de falcatruas praticadas por aqueles que deveriam protegê-la, os políticos. Faz um breve apanhado do dia 31 de março de 1964 até os nossos dias. Até quando iremos aguentar esse estado de coisas?

    Por: Arnaldo Agria Hussl Notícias & Sociedade> Polítical 26/03/2012 lAcessos: 36
    Arnaldo Agria Huss

    Em poucos anos os cruzeiros marítimos consolidaram-se como um dos mais importantes nichos do turismo nacional, tendo no Porto de Santos sua principal base no país. Seria de se esperar, portanto, que a atividade fosse conduzida com o máximo de profissionalismo e cuidados, de modo a se evitar ocorrências que venham a afastar os passageiros. Parece, porém, que não é bem assim que está acontecendo.

    Por: Arnaldo Agria Hussl Notícias & Sociedade> Cotidianol 21/02/2012 lAcessos: 44
    Arnaldo Agria Huss

    A TV paga no Brasil chegou há mais de vinte anos. Nesse período, a descaracterização foi quase que total daquilo que se propôs no início. O grande idealizador desse segmento aqui no país foi José Bonifácio de Oliveira Sobrinho - Boni -, o mesmo que praticamente criou a Rede Globo. Acompanhe neste artigo algumas das transformações (para pior) que aconteceram com a TV por assinatura no Brasil.

    Por: Arnaldo Agria Hussl Arte& Entretenimento> Cinema e TVl 12/02/2012 lAcessos: 28
    Arnaldo Agria Huss

    O texto abrange a criação de Rede Globo que teve Boni como seu principal mentor. Além de certas passagens, são citadas também algumas frases e ideias desse profissional que veio ao mundo para ser um líder nato.

    Por: Arnaldo Agria Hussl Arte& Entretenimento> Cinema e TVl 06/02/2012 lAcessos: 27

    Comentar sobre o artigo

    Perfil do Autor
    Categorias de Artigos
    Todas as Categorias
    Quantcast