Uma canção de saudade fala do futuro

Publicado em: 31/05/2012 |Comentário: 0 | Acessos: 142 |

Numa música pouco encontrada na mídia, Zé Ramalho expõe "pequenos" aspectos de sua cidade natal, como uma mini-biografia, mas incorpora detalhes que a aproximam de Nárnia ou Nirvana.

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Lançada no ano de 1983, no LP "Orquídea Negra", encontra-se uma canção belíssima, revestida de uma estranheza pra lá de fascinante, que transporta o ouvinte para aquele lugar de além-sonho onde todas as esperanças dependem do amanhecer numa realidade transcendental, a qual unirá a todos no "Seio de Abraão" (para usar a linguagem bíblica).

Ela foi batizada com o nome de um terrível artefato de guerra, uma bomba de gasolina gelatinosa chamada "Napalm", mas apenas como um pretexto caótico para tecer detalhes sobre lugares especiais, sobretudo a cidade natal do genial "Zé Ramalho da Paraíba", cuja pronúncia deve ser atenta para não confundir com outra localidade homônima. Assim, "Brejo DO Cruz" (e não "Brejo DA Cruz", citada por Chico Buarque), também foi feita canção, em gênero "classic rock", como que para explicar a qual lugar NAPALM se referia em sua instigante poesia. Certamente o grande Zé sentiu a necessidade de explicar melhor o lugar luminoso e numinoso citado em NAPALM, e por isso compôs "Brejo do Cruz" no ano seguinte, ou pelo menos a publicou um ano depois, para fechar com chave de ouro a sua primeira composição.

Em NAPALM, a localidade de Brejo do Cruz (situada no oeste paraibano, com todas as dificuldades do semi-árido nordestino, 382km de João Pessoa-PB), que é apresentada de modo singular ao lado de lugares místicos como Marte e Vênus, foi pintada com todas as cores divinas da espiritualidade mais consagrada, pelo menos para o ouvinte antenado nas coisas do espírito. Sua transcendência, pois, desponta hipertrofiada aos ouvidos de bom gosto e vai além de uma mera inserção no cancioneiro nacional, merecendo um lugar ao sol entre as mais belas músicas já compostas pela Humanidade.

Isto, com efeito, também deve ser dito da música em si, cuja melodia toca a sensibilidade mais profunda da alma humana, e ouso pensar que toque bem fundo, tanto para quem tem fé, quanto para descrentes. Por falar em toque, há acordes que lembram sons até de obras clássicas mais puristas, e o ouvinte não deverá se surpreender de escutá-los entre trechos instrumentais de compositores de todos os tempos (os quais poderão ir de um Mozart a um Corciolli, para ficar só nestes), embora seja uma melodia também cantada com extrema propriedade.

A propósito, o leitor deve ler a letra da canção desde já (leia e ouça AQUI), para poder acompanhar bem o raciocínio sobre a genialidade desta composição, "cuja estranheza também estranha" por ver o quanto ela foi pouco tocada nas rádios e na mídia em geral, quando merecia um monumento à composição em si, em todo o planeta (penso que sua beleza deveria ser contemplada em lugares "místicos", por assim dizer, ou servir de trilha sonora para filmes como "Comer, rezar e amar" e novelas do tipo "Mandala").

Eis a letra desta obra-prima e os comentários da poesia:

NAPALM

"Vou te passar um motivo/Que te faça como fez em mim/A nossa "alegria, ALEGRIA"." A alegria da terra "é quase uma dor só", como cantou Djavan falando do amor, e por isso a alegria Alegria (a "Joy" de CS Lewis) só pode ser vislumbrada, em miragem, por um corpo de matéria terrestre.

"O grande sopro que veio/Pelo mel de todos os segredos,/Pelo som de todos os brinquedos". O Grande Sopro sem dúvida é "Pneuma", ou "Elohin", Espírito que sopra aonde quer e como quer, sem qualquer ingerência da vontade humana, tornando-nos crianças para todos os brinquedos que o Céu há de entregar àqueles que em vida souberam voltar a ser crianças.

"Um canto leve que leve a gente/Para outro lugar, transparente/Que em tudo reluz.../A boa e forte imagem que chega..." – Chegam as inspirações divinas à mente do grande oráculo, e ele ouve o canto leve de uma Nárnia ainda embaçada pelos olhos mortais, mas que já se mostra mais reluzente e menos transparente nesta forte imagem que nos chega...

"Nesses dias que temos pela frente/A qualquer hora um napalm pode lhe acertar". A palavra profética tinha que transparecer no canto místico mais profundo, dando o alerta claro da proximidade do fim, com o napalm representando certamente a chuva de estrelas da predição de Mt 24,29.

"E você pode esbarrar numa esquina com a sorte/Que lhe procura desde que você aqui nasceu". Sorte certamente é o codinome do espírito-guia que lhe procura a falar aos ouvidos, cumprindo a profecia que diz "eis que estou à porta e bato".

"E você pode procurar no planeta inteiro por ela, a sorte, e não encontrá-la:/Ela pode estar lhe procurando em Marte, ou em Saturno,/E não sabe que você está aqui na Terra!". A busca humana pelo sentido da vida, que pode terminar nos braços de uma meretriz ou no seio da terra, a sete palmos do chão. Pior, ela também pode estar lhe procurando lá longe, lá onde seus sonhos se perderam, sem ter sido advertida de que você parou aqui na Terra, preso pela finitude de sua própria visão egoísta.

"Portanto quero ir para Vênus". Vênus desponta aqui, à semelhança das descrições do Apocalipse e de CS Lewis, como a Pátria Perdida do Éden, que só o Juízo Final restaurará. Ir para Vênus, ou "quero ir para Vênus", traduz o sentimento de enfado de um mundo moribundo ante a violência, a injustiça e a fome, cuja dor despertou o poeta para o lugar-teológico onde tais males não mais lhe oprimem e a paz reina soberana. Por isso complementa dizendo "Ir para Vênus, ou mesmo, quem sabe, me plantar...", como sinal da morada definitiva do Pai celestial.

"Enraizar meus pés no BREJO-DO-CRUZ/Lugar cercado de luz".

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Por assim se expressar acerca de sua terra natal, a mensagem subliminar transporta o ouvinte para o futuro, lá aonde reinam a paz e a espiritualidade mais cintilante da convivência com Deus e com seus anjos do Bem, todos cercados da luz mais pura da Criação. Neste espírito, poucas canções no mundo foram tão longe em sua jornada de evocação da Transcendência, e poucas vezes a alma humana foi mais agraciada em termos de audição de uma melodia cósmica, para não dizer celeste. Com efeito, alguém poderia pensar que a inspiração chegou a Zé Ramalho num momento em que ele não estava lá tão sóbrio quanto está ultimamente; o que para mim em nada diminui o brilho da mensagem de tal composição. Afinal, todos nós vamos ficando mais lúcidos com o varrer dos anos, e são os cabelos brancos que colorem melhor a espiritualidade encoberta pela folhagem dos hormônios e das demandas da juventude. Porém, quando a maturidade vem, traz consigo os ventos benfazejos que assopram pra longe a cegueira da meninice e da adolescência, que muitas vezes e pra muita gente, infelizmente, pode perdurar a vida toda. Outrossim, não é necessariamente verdade que composições feitas na maturidade ou velhice sejam "piores" do que as da juventude, como provaram Mário Lago, Cora Coralina e Patativa do Assaré.

Enfim, não é esta a primeira vez que vimos a público comentar sobre obras de Zé Ramalho, para mim o mais genial compositor brasileiro de temas místico-esotéricos e paracientíficos. Recentemente, tivemos a grata surpresa de assistir, via TV comum, ao seu vídeo "Zé Ramalho – Herdeiro de Avohai", e ali apenas confirmamos tudo o que já tínhamos convicção para admirar cada vez mais o nosso conterrâneo nordestino, provando que no Nordeste também se fazem coisas sublimes e dignas de inclusão nos anais das melhores produções deste asteróide que todos chamam de Terra.

Diante de tantas ausências recentes no meio artístico (Robin Gibb, Donna Summer, Michael Jackson, Amy Winehouse e outros), só nos resta pedir a Deus que não dê ouvidos ao boato ignorante que diz: "gente boa morre cedo", ou "somente homens maus duram muito"; ou então entoar, como fazem os povos da Bretanha para seus reis e rainhas ("Long live the King" ou "Long live the Queen"), o velho grito de guerra: "vida longa ao Zé"...

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