Antologia Poética

Publicado em: 06/17/2009 | Comentário: 0 | Acessos: 469

 

Dentro do Medo

 

Agarro as palavras, arrasto-lhes o sentido,

 

pronuncio-as prudentemente,

 

silencio-lhes a aspereza e o mêdo,

 

pego-lhes de rompante,

 

como quem apanha uma serpente...

 

Viscosas, enrolam-se, estrangulam-me,

 

numa roda que gira entrecurtada

 

por silêncios que ruminam

 

sem propósito ou destino...

 

Rumo em direcção aos lugares

 

famintos de dôr e amor,

 

carentes de vida e de sonho...

 

Debruço-me donde vislumbrava

 

horizontes e marés...

 

Estemeço na vertigem,

 

irmã do abandono...

 

Olho-te no caminho da memória,

 

revejo a tua expressão,

 

sem vida...

 

Assusto-me nas palavras que não digo,

 

como quem ama em segredo...

 

Adormeço na tarde ainda quente

 

da tua presença colorida...

 

Adivinho a manhã que se recusa a nascer,

 

olhando a madrugada morta...

 

Abraço o vazio, num gesto sem nexo,

 

amarro memórias,

 

imagens, lugares, paisagens...

 

Recolho o último vestígio,

 

como quem emoldura

 

a sua própria imagem...

 

Ondulo o espanto no desencanto

 

do canto...

 

Navego na espuma dos dias

 

em busca de um navio fantasma...

 

 

Dançando na Noite

 

 

Dançavas na noite uma dança sem movimento,

 

corrias na direcção da madrugada,

 

em busca de um lugar teu...

 

palavra após palavra, descobrias um sentido

 

para manteres os olhos abertos...

 

O rubor do teu rosto, transparecia surpresa,

 

como se todas as manhãs

 

fossem reconhecidamente virgens e virginais...

 

Melancólica, a palavra suspensa

 

caminhava para o seu destino último...

 

O fogo flutuava em formas múltiplas,

 

indiferente à paisagem do teu verdadeiro ser...

 

Noite dentro da noite,

 

a madrugada rompia o seu derradeiro véu,

 

pausavas a vida, como quem suspende a respiração...

 

Absurda, a manhã orvalhava,

 

enquanto as lágrimas espreitavam,

 

cintilantes na boca do teu olhar...

 

 

A Armadilha do Tempo

 

 

Hoje, acordei fora de tempo,

 

olhei-te olhos nos olhos e senti algo estranho,

 

a tua tonalidade rosada havia desaparecido,

 

o brilho verde dos teus olhos,

 

já não continha a promessa de eternidade...

 

Assustado, ergui-me num golpe de desespero,

 

olhei-me no espelho e não me reconheci...

 

Vi a tonalidade grisalha, quase branco absoluto,

 

chorei em soluço mascarado,

 

procurei mil razões para sentir esperança,

 

procurei no calor dos teus lábios

 

as respostas que não queria ter...

 

Entardeci, sem que a materialidade dos objectos,

 

fosse capaz de distrair-me deste sentir lúcido

 

e absolutamente real...

 

Senti a consciência afiada,

 

um sentir profundamente triste...

 

Apoderou-se de mim a certeza,

 

abrupta e cruel da morte...

 

Inexplicável

 

 

 

Os mesmos lugares, a coincidência da sobreposição

 

dos nossos rastos...

 

Talvez as mesmas palavras,

 

os mesmos gestos...

 

Como se fosse possível duplicar factos,

 

gestos, palavras, lágrimas ou passos...

 

 

Estranhamente, alguém como nós,

 

ou a sombra dos nossos pensamentos,

 

continua a divagar pelos mesmos lugares,

 

como se tivessemos continuado

 

depois de ter partido...

 

 

Vozes, sons inominados, paisagens,

 

lugares, espaços e tempos,

 

movimentos e luminosidade,

 

abraços e beijos...

 

 

Algures, há um espaço tempo continuado,

 

onde o inexplicável habita,

 

ressuscitando vidas paralelas...

 

 

Algures, algo aconteceu na memória

 

do tempo, na fúria do mar,

 

confundiu mar e amar,

 

vento e lamento,

 

fim e princípio...

 

 

Algures, estamos vivos...

 



 

 

 

Barão de Campos http://sombrasdamemoria.blogspot.com

 

(Artigonal SC #976057)

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    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/poesia-artigos/antologia-poetica-976057.html

    Palavras-chave do artigo:

    tempo

    ,

    medo

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    Morte

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    partida

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