Degredo E Solidão

Publicado em: 03/02/2010 | Comentário: 0 | Acessos: 9

DEGREDO E SOLIDÃO   Rio 16 de novembro de 2009.

                                                            Autor, Renaldo Nicacio Junior.

 

 

 

Anunciaste uma ausência premeditada. Afastou o teu rosto, o teu corpo. Vives hoje o alheio... O desconforto. Quando olhas em torno de ti e não sentes menos que o outro, que não percebe que o resto da promissão se faz sentir em pedaços, em momentos, lento sofrimento. Tivestes que engolir a seco todo o mal que foi descoberto. Tivestes que mergulhar em um mar de lama. Apodrecestes com os dejetos. O resto a ti legado, transformado simplesmente em ti.  Só a ti, o teu, o sensato, o desumano, o trágico. Forte é sentir o sossego em ti, marcado pelas amarras que são retiradas para que, enfim, tenhas um pouco de ti. Sem falar ou transgredir uma ilusão... Perceber que uma dose do querer é o veneno nocivo que poderá trazer do sono a tua sombra despercebida e ignorante. Lembranças da figura amedrontada. Pérfida imagem que deslumbra por sobre os andrágios da morte a toda sorte. De ter que cumprir sempre o movimento dinâmico da solidão. Fizemos uma opção, uma escolha... Quando sentados ao trono do imoral... Sempre tivemos que apresentar o simples, o deplorável, o submisso compromisso de seguir, de cumprir ordens sem enfileirar o máximo de ti.

Dorme a fera banhada em sangue. Tua carne apodrece e ali... Sem um sinal nem gestos, nem pensamentos... Quase atônita de tanta ira, tanta morte... Tanta ma sorte. Degenera a fera. Dorme o homem pra sempre... Finjo não querer. Desnudo o teu olhar. Desfiguro o teu padecer. Sinto o cheiro morno sombrio onde tua sombra esforça-se para acompanhar o teu corpo que degenera e transfigura por sobre a mortalha fétida e emblemática.

Percebo que o vômito me embrulha o estômago. O fato teu fica exposto... Quase nu, diante do sagrado, da cantiga em pranto, do mar de lamúria. Busca sem querer juntar todo esse ódio angustiante. Sentes a perda do destino marcante. Buscas, se possível, o antes e depois.

Se questionado... Sem um pranto, sem um momento de acalanto... Solitário teu destino, solitária tua face. Teu choro já lava o sangue nocivo, o sangue morto, o coágulo que é o teu padecer o teu sofrer. Ah! Amarga previsão. O cenário é desolador. O marte em ti... O cheiro forte de veneno... A tua casa desabou. O teu alicerce percorreu apenas o que restou de ti: miséria, pranto, dor, gestação do aborto que em ti gerou o revés do teu caminho... Não são as doenças, não é a limitação do corpo, não é a mutilação do teu corpo... É a mutilação e a perseguição dos teus pensamentos por sobre a tua pobre alma. Pedaços que ferem ao transportar em ti a energia que se segue.

Queria eu poder materializar essa dor em forma de flor. Eu queria acreditar que no amor, dito por palavras e signos, se pudesse colher o alimento capaz de amenizar as feridas trazidas por todo esse tempo que não pude mais extrapolar em ti.

Não consigo me deixar do papel... Desse que descrevo, entre o mel e o fel da eternidade. Minhas culpas, minha materialidade, imoralidade de decrepitude... Sinto que sinto... Que vou seguindo sem rumo. Apenas apanhando e fazendo de conta que sou importante. Sei declamar, sei poetizar sei... Até guardar a dor que me consome e me humilha todos os dias.

Ao fazer desse relento o pranto do esquecimento... A maneira poética de me atingir e me punir pela culpa, pelo medo, pelo ódio que se instalou... Não é a loucura! É o somatório de tudo. É o caus que se instalou. É o demônio e sua sombra que instaurou em segmentos mortais o seu domínio. Ao frio de neve, ao cume das montanhas à solidão em mim... O fato marcante de tudo que faz em mal e bem. Quero também deixar marcado que só a mim não devo. Que pretendo em muitas coisas guardar esse degredo. Fico assim pensando: “que só eu poderei, em vista desse alejume, me fortalecer”. Tenho vontade de morrer, de gritar. Sinto a insegurança de ter que viver todo o dia sem vontade, nem querer. As vezes que sinto e vejo o quanto é legal a majestade da liberdade, o quanto eu sou e vou sentindo o caminho, as coisas banais.

È assim sempre. Quero pensamentos. Quero sentir e concluir que só as migalhas sem nada sentir é que foram reservadas... Fui expurgado... Temido, e o meu algoz sobrevive dentro de um calabouço, dentro da grande lua, do grande sol. Astros que despontam solitários, porém, implacavelmente, únicos e destemidos dentro do universo desconhecido. Sinto essa majestosa magnitude diante do meu fracasso, da minha solidão. Estou engrossando a leva dos medíocres e desolados dentro da canção em mim e do momento em todos os sentidos. Perco sim o tino, o querer em mim, o padecer a glória malfazeja e torpe. Não posso mais... Estou cansado... Exausto desse vai e não vai. Tudo por conta das perturbações do meu pensamento. Esqueço em ti... De ti mostrar o quanto tudo gira em torno dessa face negra, dessa lua cheia, desse sol morno e desértico das ilusões... Das canções que só ao meu domínio e à minha mente se calam.

Percebo a morte como um sopro de vida e de transporte... De meu famigerado ser... Volto ao amanhecer... Deixo livre em mim o meu querer tanto de vida quanto de morte. Tanto eu... Como eu... Como eu... Como eu...   

(Artigonal SC #1815522)

Avalie este artigo
  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 0 Voto(s)
    Feedback
    RSS
    Imprimir
    Email
    Re-Publicar

    Fonte do artigo: http://www.artigonal.com/poesia-artigos/degredo-e-solidao-1815522.html

    Palavras-chave do artigo:

    degredo e solidão

    Campos Escritor

    Olhares da consciência Ao enxergardes vossos olhares alheios, e não mais julgardes os vossos bens, e sem maio­res detalhes perdoardes a tudo e a todos, inclusive a vós mesmo, ou, se não o fizerdes por não mais haver necessidade... Parabéns, teríeis alcançado a felicidade sem causa, por­tanto, sem efeito. Venceríeis o maior de todos os inimigos: “Vosso Ego”. Chegaríeis à ilu­minação da bem-aventurança. jbcampos

    Por: Campos Escritor l Psicologia&Auto-Ajuda > Auto-Ajuda l 08/07/2009 l Acessos: 335
    Augusto de Sênior

    Pequenos estudos sobre os mais belos sonetos das Literaturas Portuguesa e Brasileira.

    Por: Augusto de Sênior l Literatura l 10/12/2009 l Acessos: 160
    HAMILTON  SERPA

    Uma poesia trazendo um pouco de utopia possivel para uma nova vida

    Por: HAMILTON SERPA l Literatura > Poesia l 14/03/2010 l Acessos: 5

    A partir da obra de Platão é estabelecida certa perspectiva no pensamento grego, a qual Nietzsche denomina "socratismo estético". Nietzsche também argumenta que mesmo Eurípides fora bastante influenciado por Sócrates, de maneira que o deus Dionino presente em As bacantes seria de fato uma caricatura socrática. A partir deste ponto, discutimos o papel do feminino em Platão e em Eurípides.

    Por: José Luiz Araujo Dorea Junior l Literatura > Poesia l 08/03/2010 l Acessos: 3
    Mirna Cavalcanti de Albuquerque

    Neste mundo há todo o tipo de criaturas. A diversidade é grande, tanto física, quanto espiritual, moral e intelectualmente . Daí, formarem-se grupos com interesses e qualidades semelhantes. Aglutinam-se conforme seus tipos específicos. Se no trabalho, todos, mesmo sem afinidades, toleram-se e respeitam-se dentro dos limites da civilidade. Referentemente à vida privada, escolhem-se os amigos, pois existe um tropismo. Escrevo aqui do que para mim é imprescindível para gostar de das pessoas.

    Por: Mirna Cavalcanti de Albuquerque l Literatura > Poesia l 07/03/2010 l Acessos: 4
    Bia Senday

    O poema "Canção do exílio" foi escrito pelo poeta brasileiro Gonçalves Dias em 1843, na cidade de Coimbra, sendo primeiros poemas do livro "Primeiros Cantos". Trata-se da obra prima desse poeta brasileiro, pertencente à primeira geração romântica, como um dos mais famosos poemas da língua portuguesa no Brasil.

    Por: Bia Senday l Literatura > Poesia l 05/03/2010 l Acessos: 56
    HAMILTON  SERPA

    UMA POESIA FALANDO DA NATUREZA E DA VIDA BOA QUE É VIVER NO CAMPO

    Por: HAMILTON SERPA l Literatura > Poesia l 05/03/2010 l Acessos: 11
    HAMILTON  SERPA

    Uma poesia de catarse. Uma purificação da alma através de palavras e inicio de um novo caminho

    Por: HAMILTON SERPA l Literatura > Poesia l 03/03/2010 l Acessos: 12

    Vérvico galopar Entre o poroso e o hermético: Sua mente flui, reflui Pelas alamedas, ribanceiras Cordilheiras do Clássico, Do Moderno e pare, assim, Um Autêntico Contemporâneo

    Por: JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA l Literatura > Poesia l 25/02/2010 l Acessos: 11

    No presente artigo quero discutir o assunto. O homem a modernidade e a melancolia através de alguns poemas de Drummond. A experiência da modernidade envolve a mobilidade social que oferece um crescimento de oportunidades. Em função disso, o homem torna-se cidadão do mundo, porém, o homem passa a viver na solidão e melancolia.

    Por: Sandra Paiano da Silva l Literatura > Poesia l 24/02/2010 l Acessos: 51

    DEGREDO E SOLIDÃO Rio 16 de novembro de 2009. Autor, Renaldo Nicacio Junior. Anunciaste uma ausência premeditada. Afastou o teu rosto, o teu corpo. Vives hoje o alheio... O desconforto. Quando olhas em torno de ti e não sentes menos que o outro, que não percebe que o resto da promissão se faz sentir em pedaços, em momentos, lento sofrimento. Tivestes que engolir a seco todo o mal que foi descoberto. Tivestes que mergulhar em um mar

    Por: Renaldo Junior l Literatura > Poesia l 03/02/2010 l Acessos: 9

    Adicionar novo comentário

     
    * Campos obrigatoriós
    Perfil do Autor
    Categorias de Artigos
    Todas as Categorias