A Democracia Plebiscitária Em Max Weber

Publicado em: 04/01/2009 |Comentário: 1 | Acessos: 5,524 |

A DEMOCRACIA PLEBISCITÁRIA EM MAX WEBER


 


*Robson Stigar



Resumo: Este artigo apresenta as principais características do pensamento Weberiano sobre a questão da Sociologia compreensiva, da política, enfatizando a democracia. Apresenta ainda a sua relação e afinidade com a democracia plebiscitária, objetivando compreender esta através do realismo calculado. Apresenta como Weber visualizava a democracia face o sistema de escolhas de lideranças políticas pelas massas.


Palavras chave: Aristocracia - Democracia plebiscitária – Legitimação - Lideranças Políticas – Sociologia Compreensiva.


INTRODUÇÃO


 


Max Weber (1864-1920) era, estritamente um burguês, um homem das camadas superiores e mercantis da vida urbana. Filho de um deputado federal do então Partido Nacional-Liberal, Weber teve sua juventude influenciada pelas atividades políticas de seu pai; e muito provavelmente a sua idéia a respeito da classe política, como a aristocracia responsável pela condução do destino da nação, tenha sido forjada a partir de ideais defendidos por seu pai. A visão aristocrática de Weber sobre a política com as seguintes palavras: O apelo de Weber a tradição aristocrática política. Suas reservas com relação à ‘honra’, ‘nobreza’ e ‘dignidade’ indica sua afinidades com à democracia, deve-se notar, não revelam um elitismo arrogante, mas, ao contrário, um realismo calculado. Mas enfim, em que consistia a visão aristocrática de Weber a respeito da democracia? Weber visualizava a democracia em seu sentido procedimental, ou seja, como sistema de escolhas de lideranças políticas pelas massas, sem, entretanto, ultrapassar esse limite no que diz respeito à participação.



BIOGRAFIA



Max Weber nasceu em 1864 e teve sua formação intelectual no período em que as primeiras disputas sobre a metodologia das ciências sociais começavam a surgir na Europa, sobretudo em seu país, a Alemanha. Filho de uma família da alta classe média, Weber encontrou em sua casa uma atmosfera intelectualmente estimulante. Seu pai era um conhecido advogado e desde cedo orientou-o no sentido das humanidades. Weber recebeu excelente educação secundária em línguas, história e literatura clássica. Em 1882, começou os estudos superiores em Heidelberg; continuando-os em Göttingen e Berlim, em cujas universidades dedicou-se simultaneamente à economia, à história, à filosofia e ao direito. Concluído o curso, trabalhou na Universidade de Berlim, na qual idade de livre-docente, ao mesmo tempo em que servia como assessor do governo. Em 1893, casou-se e; no ano seguinte, tornou-se professor de economia na Universidade de Freiburg, da qual se transferiu para a de Heidelberg, em 1896. Dois anos depois, sofreu sérias perturbações nervosas que o levaram a deixar os trabalhos docentes, só voltando à atividade em 1903, na qualidade de co-editor do Arquivo de Ciências Sociais (Archiv tür Sozialwissenschatt), publicação extremamente importante no desenvolvimento dos estudos sociológicas na Alemanha. A partir dessa época, Weber somente deu aulas particulares, salvo em algumas ocasiões, em que proferiu conferências nas universidades de Viena e Munique, nos anos que precederam sua morte, em 1920.



COMPREENSÃO E EXPLICAÇÃO



O método compreensivo, defendido por Weber, consiste em entender o sentido que as ações de um indivíduo contêm e não apenas o aspecto exterior dessas mesmas ações. Se, por exemplo, uma pessoa dá a outra um pedaço de papel, esse fato, em si mesmo, é irrelevante para o cientista social. Somente quando se sabe que a primeira pessoa deu o papel para a outra como forma de saldar uma dívida (o pedaço de papel é um cheque) é que se está diante de um fato propriamente humano, ou seja, de uma ação carregada de sentido. O fato em questão não se esgota em si mesmo e aponta para todo um complexo de significações sociais, na medida em que as duas pessoas envolvidas atribuem ao pedaço de papel a função do servir como meio de troca ou pagamento; além disso, essa função é reconhecida por uma comunidade maior de pessoas.


Segundo Weber, a captação desses sentidos contidos nas ações humanas não poderia ser realizada por meio, exclusivamente, dos procedimentos metodológicos das ciências naturais, embora a rigorosa observação dos fatos (como nas ciências naturais) seja essencial para o cientista social. Contudo, Weber não pretende cavar um abismo entre os dois grupos de ciências. Segundo ele, a consideração de que os fenômenos obedecem a uma regularidade causal envolve referência a um mesmo esquema lógico de prova, tanto nas ciências naturais quanto nas humanas. Entretanto, se a lógica da explicação causal é idêntica, o mesmo não se poderia dizer dos tipos de leis gerais a serem formulados para cada um dos dois grupos de disciplinas. As leis sociais, para Weber, estabelecem relações causais em termos de regras de probabilidades, segundo as quais a determinados processos devem seguir-se, ou ocorrer simultaneamente., outros. Essas leis referem-se a construções de “comportamento com sentido” e servem para explicar processos particulares. Para que isso seja possível; Weber defende a utilização dos chamados “tipos ideais”, que representam o primeiro nível de generalização de conceitos abstratos e, correspondendo às exigências lógicas da prova, estão intimamente ligados à realidade concreta particular.



A DEMOCRACIA



Na primeira parte de Economia e Sociedade, Max Weber expõe seu sistema de tipos ideais, entre os quais os de lei, democracia, capitalismo, feudalismo, sociedade, burocracia, patrimonialismo, sultanismo. Todos esses tipos ideais são apresentados pelo autor como conceitos definidos conforme critérios pessoais, isto é, trata-se de conceituações do que ele entende pelo termo empregado, de forma a que o leitor perceba claramente do que ele está falando. O importante nessa tipologia reside no meticuloso cuidado com que Weber articula suas definições e na maneira sistemática com que esses conceitos são relacionados uns aos outros. A partir dos conceitos mais gerais do comportamento social e das relações sociais, Weber formula novos conceitos mais específicos, pormenorizando cada vez mais as características concretas.


Uma vez exercido o direito de voto e sagrados os vencedores do pleito eleitoral, a vontade popular estaria atendida, cabendo aos seus representantes, de maneira autônoma, a direção governamental do país. Weber foi um nacional-liberal, mas não um liberal no sentido norte-americano. Ele não era propriamente um democrata no sentido francês, inglês ou norte-americano. Punha acima de tudo a grandeza da nação e o poder do Estado. Indubitavelmente, estimava as liberdades a que aspiram os liberais do velho continente. Sem um mínimo de direitos individuais, escreveu, não poderíamos mais viver. Não acreditava, porém, na vontade geral ou no direito dos povos de dispor de si mesmos, nem na ideologia democrática. Se desejava uma ‘parlamentarização’ do regime alemão, era para aprimorar a qualidade dos líderes, e não por princípio.


É interessante percebermos como Weber enxerga a democracia. Para ele, a participação popular se resume ao sufrágio universal. O processo é democrático somente na escolha e legitimação do governante. Não cabe ao governante atuar em função da vontade das massas que, segundo ele, são emocionais e irracionais.


A primeira idéia que ocorreu a Weber na elaboração dessa teoria foi a de que, para conhecer corretamente a causa ou causas do surgimento do capitalismo, era necessário fazer um estudo comparativo entre as várias sociedades do mundo ocidental (único lugar em que o capitalismo, como um tipo ideal, tinha surgido) e as outras civilizações, principalmente as do Oriente, onde nada de semelhante ao capitalismo ocidental tinha aparecido. Depois de exaustivas análises nesse sentido, Weber foi conduzido à tese de que a explicação para o fato deveria ser encontrada na íntima vinculação do capitalismo com o protestantismo: “Qualquer observação da estatística ocupacional de um país de composição religiosa mista traz à luz, com notável freqüência, um fenômeno que já tem provocado repetidas discussões na imprensa e literatura católicas e em congressos católicos na Alemanha: o fato de os líderes do mundo dos negócios e proprietários do capital, assim como os níveis mais altos de mão-de-obra qualificada, principalmente o pessoal técnica e comercialmente especializado das modernas empresas, serem preponderantemente protestantes”.


O sufrágio universal é muito mais uma aclamação periódica que confirma o carisma do líder escolhido. Em momento algum, identifica a participação das massas com a participação no poder. A participação das massas é importante na escolha dos líderes enquanto mais um fator de seleção de homens hábeis para conduzir a nação. Dessa forma, Weber considerava as instituições e idéias democráticas pragmaticamente: não em termos de seu ‘valor intrínseco’, mas de suas conseqüências para a seleção de líderes políticos eficientes.


Além dessas características, a perspectiva weberiana de democracia contemplava a valorização do parlamento como o celeiro natural de lideranças políticas e a necessidade da existência de um líder governamental carismático que, contrapondo-se ao poder da burocracia estatal, controlando-a, seria o condutor das aspirações nacionais. Aqui surge outra questão intimamente ligada à concepção de democracia weberiana, qual seja como lidar com a expansão do domínio da burocracia estatal. Com efeito, para Weber a burocracia representava o aparato funcional indispensável para o Estado fazer funcionar a “máquina” administrativa.


Weber louvava a impessoalidade, o formalismo, a previsibilidade e a perícia técnica da burocracia ao mesmo tempo que expunha seus temores pelo receio da ampliação desmedida da influência burocrática sobre a vida cotidiana das pessoas, bem como sobre as liberdades públicas e sobre a atividade política, o que, em última instância, significaria o “estrangulamento” da democracia.


Weber distingue no conceito de política duas acepções, uma geral e outra restrita. No sentido mais amplo, política é entendida por ele como “qualquer tipo dê liderança independente em ação”. No sentido restrito, política seria liderança dê um tipo dê associação específica; em outras palavras, tratar-se-ia da liderança do Estado. Este, por sua vez, é defendido por Weber como “uma comunidade humana que pretende o monopólio do uso legítimo da força física dentro de determinado território". Definidos esses conceitos básicos, Weber é conduzido a desdobrar a natureza dos elementos essenciais quê constituem o Estado ê assim chega ao conceito dê autoridade ê dê legitimidade. Para quê um Estado exista, diz Weber, é necessário quê um conjunto dê pessoas (toda a sua população) obedeça à autoridade alegada pêlos detentores do poder no referido Estado. Por outro lado, para quê os dominados obedeçam é necessário quê os detentores do poder possuam uma autoridade reconhecida como legítima.


A autoridade pode ser distinguida segundo três tipos básicos: a racional-legal, a tradicional e a carismática. Esses três tipos dê autoridade correspondem a três tipos dê legitimidade: a racional, a puramente afetiva e a utilitarista. O tipo racional-legal tem como fundamento a dominação em virtude da crença na validade do estatuto legal e da competência funcional, baseada, por sua vez, em regras racionalmente criadas. A autoridade desse tipo mantém-se, assim, segundo uma ordem impessoal e universalista, e os limites de seus poderes são determinados pelas esferas de competência, defendidas pela própria ordem. Quando a autoridade racional-legal envolve um corpo administrativo organizado, toma a forma dê estrutura burocrática, amplamente analisada por Weber.


A respeito da visão weberiana sobre democracia e burocracia, pondera o seguinte: “O efetivo dilema a ser enfrentado pelas democracias seria: considerado o inexorável processo de complexificação e burocratização da sociedade moderna e dadas as características de cada um dos agentes do jogo político e os seus recursos de poder, como impedir que a burocracia venha a usurpar o poder e como assegurar que permaneça sendo apenas um elo de ligação entre dominadores e dominados?” Esse mesmo dilema é formulado pelo próprio Weber (1999, p. 542):  “Em face da indispensabilidade crescente e da conseqüente firmeza, cada vez maior, da posição de poder do funcionalismo estatal, que aqui nos interessa, como pode haver alguma garantia de que existam poderes capazes de manter dentro de seus limites a prepotência enorme desta camada cada vez mais importante, e que a controlem eficazmente? Como será possível uma democracia pelo menos neste sentido limitado?” Em termos sintéticos, pode-se dizer que a democracia weberiana equivalia a um mero procedimento de legitimação de lideranças pelo voto e por aí se limitava sua abrangência.


Uma vez eleitos, os líderes políticos, como possuidores de cheques em branco, poderiam conduzir, livremente, suas ações, sem quaisquer vinculações com as aspirações dos seus eleitores. Esse modelo de democracia, considerado por estudioso da sociologia política (SANTOS, 2002, p. 42) como sendo de democracia de “baixa intensidade”, em muito se aproxima do paradigma democrático idealizado por Joseph Schumpeter (1961), para quem “a democracia é um método político, ou seja, um certo tipo de arranjo institucional para se alcançarem decisões políticas – legislativas e administrativas – e, portanto, não pode ser um fim em si mesma, não importando as decisões que produza sob condições históricas dadas”. Na visão de Schumpeter, não existe governo pelo povo, o que pode existir é governo para o povo, que é exercido por elites políticas que são as responsáveis pela proposição de alternativas para a nação.


A visão weberiana de democracia centrava o sucesso da condução política da nação no desempenho de seus líderes políticos, limitando a participação popular ao sufrágio em pleitos eleitorais, o que reflete a postura de Weber contrária à participação popular na condução do processo governamental da nação. Os políticos, para Weber, seriam a expressão da epresentatividade máxima da nação e, portanto, seus condutores utorizados. A burocracia estatal ao contrário, ameaçava, com sua expansão técnica, a “saúde” da democracia e deveria ser controlada, com vigor, por lideranças carismáticas.


Essa mescla de burocracia profissional, de um parlamento formado por elites e de lideranças carismáticas, formava o que o próprio Weber denominava como “democracia plebiscitária”, que constituiria o tipo mais importante de democracia de líderes – em seu sentido genuíno, é uma espécie de dominação carismática oculta sob a forma de uma legitimidade derivada da vontade dos dominados e que só persiste em virtude desta.


A dominação carismática é um tipo de apelo que se opõe às bases de legitimidade da ordem estabelecida e institucionalizada. O líder carismático, em certo sentido, é sempre revolucionário, na medida em que se coloca em oposição consciente a algum aspecto estabelecido da sociedade em que atua. Para que se estabeleça uma autoridade desse tipo, é necessário que o apelo do líder seja considerado como legítimo por seus seguidores, os quais estabelecem com ele uma lealdade de tipo pessoal. Fenômeno excepcional, a dominação carismática não pode estabilizar-se sem sofrer profundas mudanças estruturais, tornando-se, de acordo com os padrões de sucessão que adotar e com a evolução do corpo administrativo, ou racional-legal ou tradicional, em algumas de suas configurações básicas.


Nesse modelo, idealizado por Weber, a dominação carismática que, em sua conformação original, era legitimada pelo reconhecimento, puro e simples, das qualidades extracotidianas dos líderes carismáticos (profetas, sábios, curandeiros, heróis de guerra, etc.) pelos carismaticamente dominados passa a ser legitimada pela realização de pleitos eleitorais.


Dessa maneira, a dominação carismática, interpretada em seu sentido original como autoritária, pode ser reinterpretada como anti-autoritária, pois a potencialidade da autoridade carismática se reveste da legitimação eleitoral que ratifica o primitivo reconhecimento carismático. Nessa situação, o senhor legítimo, em virtude do próprio carisma, transforma-se em um líder livremente eleito (WEBER, 2000, v. 1, p. 175- 176).



A DEMOCRACIA PLEBISCITÁRIA



A democracia plebiscitária weberiana se inspira nessa concepção de denominação carismático-eleitoral. O plebiscito é o instrumento de legitimação periódica do líder carismático como homem de confiança das massas. O caráter elitista da visão política weberiana se revela nessa sua concepção de democracia plebiscitária. Com efeito, para Weber, as massas eram irracionais e despreparadas, sem condições de contribuir para a gestão governamental da nação, logo, “no Estado moderno, a liderança tinha que ser uma prerrogativa da minoria, característica inevitável dos tempos modernos” (GIDDENS, 1998, p. 33).


A democracia plebiscitária de Weber, com a figura do líder carismático legitimado elas urnas, foi idealizada como uma contraposição ao paradigma tradicional da democracia representativa, que ele entendia como “acéfala”, sem liderança (BOBBIO, 987, p. 170).


A maior parte das idéias que justificam a concepção weberiana de democracia plebiscitária resulta da visão crítica que Weber possuía a respeito da política alemã e que consolidara entre 1890 e 1920. Não por acaso, mas como resultantes do seu olhar atento sobre o cenário político da época de Bismarck (1815-1898), Weber produziu escritos que refletem os motivos orientadores da sua opção pela democracia plebiscitária: “Parlamento e Governo na Alemanha Reordenada” (1918) e “Política como Vocação” (1919) são trabalhos que documentam esse contexto.


Weber era um descontente com o legado político da era Bismarck. Com efeito, na sua visão, o “Chanceler de Ferro”, condutor do processo de unificação da Alemanha, ultimado em 1871, com seu autoritarismo, foi responsável pelo enfraquecimento do parlamento alemão, em contraste com o fortalecimento do executivo. Essa ação de Bismarck sufocara “a emergência de novos talentos com vocação de liderança independente, legando a condução dos negócios públicos a burocratas, em grande medida eficientes e honestos, mas politicamente míopes” (KRAMER, 2000, p. 181).


As palavras do próprio Weber (1993, p. 38-39), contidas no primeiro capítulo de “Parlamento e Governo na Alemanha Reordenada”, cujo título é “A Herança de Bismarck”, tornam claras algumas das razões que o levaram ao paradigma da “democracia plebiscitária”: “Diante desses pressupostos e pelo ângulo da questão que nos interessa, qual foi a herança política de Bismarck.


 Ele nos legou uma nação sem qualquer formação política e muito abaixo do nível que já alcançara vinte anos antes. E, principalmente, uma nação sem qualquer vontade política, acostumada a ver o grande estadista, lá no alto, a cuidar da política em seu lugar. E mais, como conseqüência do mau uso do sentimento monárquico usado como biombo a serviço de seus próprios interesses no embate partidário, nos deixou uma nação habituada a deixar as coisas acontecerem de forma fatalista sob a égide do ‘regime monárquico’, sem senso crítico em relação aos que se instalaram no lugar deixado vago por Bismarck e que tomaram nas mãos as rédeas do poder com surpreendente atrevimento.


Nesse ponto, consumou-se, de longe, o maior dano. Em contraposição, o grande estadista não nos deixou nenhuma tradição política. Ele não atraiu, sequer tolerou, cabeças pensantes e íntegras. E, para maior desgraça da nação, além de nutrir a mais completa desconfiança por qualquer pessoa que, a seu ver, pudesse vir a ser seu sucessor, ele ainda tinha um filho cujas qualidades realmente modestas de estadista ele surpreendentemente superestimava. Em contrapartida a essa desconfiança doentia, podemos citar uma conseqüência totalmente negativa de seu tremendo prestígio: um parlamento completamente impotente.


Ele mesmo reconheceu esse erro, quando não ocupava mais o cargo e sofreu na própria pele as conseqüências dessa realidade. Essa impotência também trazia consigo um parlamento com um nível intelectual grandemente reduzido. É fato que a lenda moralizante de nossos literatos apolíticos dá uma explicação exatamente oposta para suas origens: por ter, e continuar tendo, um baixo nível intelectual é que o parlamento, merecidamente, permaneceu sem poderes. Contudo, fatos e ponderações simples mostram a verdadeira correlação dos acontecimentos, cristalina para todo pensador consciente.


Decisivo para o alto ou baixo nível de um parlamento é se, em suas instâncias, os problemas são meramente debatidos ou se elas têm poder e decisão. Isto é, se o que acontece entre suas paredes é decisivo ou se ele é simplesmente um órgão decorativo tolerado a contragosto pela burocracia reinante.” Em razão desse contexto, como forma de revitalizar o cenário político alemão, Weber formula sua concepção de “democracia plebiscitária”, um regime híbrido, em que o parlamento, como celeiro de líderes e como instituição que controlaria os excessos da burocracia e do próprio líder carismático do Executivo, dividiria com o presidente do Reich a condução política do país.


Nesse modelo, Weber abandona sua antiga tendência pelo parlamentarismo puro, “tendo em conta que no parlamentarismo clássico o líder se tornava prisioneiro de compromissos partidários e interesses corporativos”, passando a defender a eleição direta do presidente do Reich, que, fortalecido pelo amplo apoio “plebiscitário” dos seus eleitores, poderia, com o vigor do seu carisma, “romper o imobilismo burocrático e as resistências parlamentares às suas medidas de direção nacional...” (COHN, 1993, p. 18). Assim, no modelo weberiano, o líder político carismático deveria ser eleito pelo povo inteiro e não pelo Parlamento.


Segundo Weber, citado por Mayer (1985, p. 76): “Somente a eleição por maioria popular do Presidente do Reich daria a oportunidade de seleção da liderança política e poderia conduzir à revitalização de partidos políticos que superassem o antiquado sistema dirigido pelas notabilidades, até aqui praticado. Se esse sistema continuasse, uma democracia político progressista não teria vez.”


A visão política de Weber, afora a sua percepção do avanço da racionalização e da conseqüente burocratização, tem seu foco assentado no contexto político concreto da Alemanha, durante as eras bismarckiana e pós-Bismarck. Assim, Weber não tinha a pretensão acadêmica de empreender um estudo sistemático da democracia; suas incursões nesse campo eram motivadas por preocupações com relação ao futuro político da Alemanha, que enfrentava uma guerra externa e profundas reformas internas.


A concepção democrática de Weber, tributária da sua visão contextual e histórica da Alemanha do seu tempo, apresentava as seguintes características: A liderança política era uma prerrogativa da minoria [a “classe dirigente” de Mosca], a massa da população apenas escolheria os integrantes do parlamento e o líder carismático pelo voto.


A burocracia, indispensável ao funcionamento da democracia, deveria ser controlada pelos líderes políticos, como forma de se evitar uma dominação burocrática incontrolada. O líder carismático e plebiscitário, que se contrapõe a uma democracia sem liderança, seria o condutor político da nação. O parlamento, além de funcionar como uma escola de líderes, agiria “como salvaguarda contra a aquisição excessiva de poder pessoal por um líder plebiscitário”. “Conceitos como a ‘vontade do povo’, a verdadeira vontade do povo. O representante parlamentar é o senhor de seus eleitores e não o servidor deles.



CONCLUSÃO


 


A concepção de democracia plebiscitária de Max Weber refletia, sem dúvida, o seu perfil político liberal, mas, também, elitista. Se, por um lado, procurava contrapor-se aos avanços da burocratização, com a conseqüente perda da liberdade humana, por outro, não reconhecia capacidade política às massas para se auto-dirigirem, tendo em conta a sua suposta irracionalidade.


A política, para ele, deveria ser conduzida por uma camada dirigente recrutada segundo critério plutocrático (WEBER, 1998, p. 66), fato que compromete, na essência, o outro pilar da democracia, além da liberdade: a igualdade. Em Weber, a democracia é um procedimento, um meio na luta pelo poder. Valor seria a liberdade mais do que a igualdade, e nisso se revela o liberal mais do que o democrata.


Contudo, o diagnóstico e o modelo weberianos se demonstraram insatisfatórios à luz da realidade política contemporânea. Com efeito, a debilidade dos regimes representativos, no que diz respeito à credibilidade pública, decorre, em grande parte, do desempenho insatisfatório das delegações conferidas pelos cidadãos aos ocupantes de mandatos eletivos, descumprimentos de programas eleitorais, corrupção, inobservância de fidelidade partidária, etc.


Na verdade, o “perigo burocrático” visualizado por Weber não atingiu proporções reais que viesse a comprometer a governabilidade estatal, sendo, ao contrário, uma garantia mínima de que o aparato estatal poderia atuar de maneira impessoal, técnica e previsível, afastando-se de posturas cartoriais, favorecedoras de interesses de determinados grupos.


A confiança de Weber na força de uma liderança carismática, sua percepção de que o agir político seria sempre orientado pela devoção aos supremos interesses da nação e sua incredibilidade quanto ao potencial de participação política racional dos cidadãos, bem como a sua aversão à burocracia estatal profissional, que, em essência, representa uma garantia para a própria sociedade, são fatores que comprometem a pretendida eficácia política do seu modelo de democracia representativo plebiscitária.



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* Licenciado em Ciências Religiosas – PUCPR; Licenciado em Filosofia – PUCPR; Bacharel em Teologia – PUCPR; Especialista em História do Brasil – FIE; Especialista em Psicopedagogia – FACINTER; Especialista em Ensino Religioso – PUCPR; Especialista em Educação, Tecnologia e Sociedade – UTFPR; Especialista em Catequética – PUCPR; MBA em Gestão Educacional – OPET; Mestrando em Ciências da Religião – PUCSP; Professor de filosofia e sociologia.



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    aristocracia democracia plebiscitaria legitimacao liderancas politicas sociologia compreensiva

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    Por: Robson Stigarl Educação> Ensino Superiorl 23/03/2010 lAcessos: 6,772

    Principal religião da Índia, o Hinduísmo é um tipo de união de crenças com estilos de vida. Sua cultura religiosa é a união de tradições étnicas

    Por: Robson Stigarl Religião & Esoterismo> Religiãol 22/03/2010 lAcessos: 1,335

    O presente texto não tem a pretensão de esgotar os conhecimentos sobre a relação Estado-Sociedade, bem pelo contrario, tal tema é bastante amplo e complexo, sendo impossível conceituar o mesmo em poucas palavras, ate mesmo por que se trata de pontos de vistas distintos sobre o mesmo assunto

    Por: Robson Stigarl Educação> Ensino Superiorl 22/03/2010 lAcessos: 3,795

    Não é novidade que a presença dos jovens nas igrejas têm crescido surpreendentemente no mundo atual. Uma pesquisa inédita do instituto Bertelsmann Stifung revela que 95% dos jovens brasileiros se dizem religiosos e buscam novas formas de expressar sua fé.

    Por: Robson Stigarl Religião & Esoterismo> Religiãol 22/03/2010 lAcessos: 819

    A palavra Filosofia remete o imaginário popular a pensar em diferentes sentidos e significados. Para entendermos seu real significado é precisar buscar a origem etnológica da palavra a cerca de 2400 a.C. na Grécia clássica.

    Por: Robson Stigarl Educação> Ensino Superiorl 22/03/2010 lAcessos: 6,105 lComentário: 1

    O presente texto tem por objetivo refletir sobre a Educação Brasileira do período Colonial a Primeira Republica. Vamos procurar analisar os seus fundamentos históricos e filosóficos contribuindo assim para o entendimento da história da Educação do nosso Pais, permitindo com isso que entendamos parte da conjuntura atual, uma vez que somos frutos de uma determinada construção histórica de exploração e desigualdade que infelizmente ainda não conseguimos romper.

    Por: Robson Stigarl Educação> Ensino Superiorl 22/03/2010 lAcessos: 12,517 lComentário: 7

    O presente artigo se propõe a abordar o que são Direitos Humanos, fazendo uma breve retrospectiva histórica. Comentando que é possível constatar que ainda é tímida a introdução da temática da educação em Direitos Humanos na formação de professores e educadores em geral, na formação inicial e continuada.

    Por: Robson Stigarl Educaçãol 28/01/2010 lAcessos: 560

    Comments on this article

    1
    Sergio Paes da Motta e Albuquerque 12/01/2010
    Excelente ensaio. Sempre tive dificuldade em aceitar Weber como um "liberal". Ele só o foi no sentido da sua análise aqui exposta:liberdade antes da igualdade. No mais, ele sempre pareceu-me compatível com outros autores alemães, críticos das irracionalidades do capitalismo e tendendo a um nacional-desenvolvimentismo conduzido por um parlamentarismo mediado por um presidente eleito em sufrágio universal. A crença no poder de um lider carismático seria um triste presságio do futuro alemão.
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