Nascido em 1980. Filósofo e escritor.
Muitos anarquistas podem nunca ter se dado conta disso, mas existem linhas de pensamento supostamente anárquicas que se opõem ao Estado sem se opor ao capital. Eles acreditam que o liberalismo e sua filosofia individualista é perfeitamente condizente com o Anarquismo. Alguns chegam a dizer que um mundo realmente livre seria inevitavelmente liberal, uma vez que tendo a liberdade total do indivíduo por base, não se poderia proibir a propriedade privada, que é um direito individual. Não se poderia impedir a formação de corporações, uma vez que permitamos a livre associação de indivíduos, e não se poderia impedir esses indivíduos, empresas ou corporações de oferecer serviços de segurança, saúde, moradia, comunicação, entretenimento, educação ou qualquer outra coisa, uma vez que as pessoas aceitem a barganha. Não haveria qualquer regulação sobre o preço que esses grupos poderiam cobrar, ou como deveriam prestar os serviços, seria negociação direta entre indivíduos. Assim, o mundo livre do anarquismo liberal não é muito diferente do nosso mundo, a única diferença é que as empresas farão tudo que os governos fazem agora e tudo que elas faziam antes, sem regulação alguma. Isso é o que eles entendem por liberdade.
Mas se opor pura e simplesmente ao Estado e ao governo centralizado sem se opor às leis de mercado não nos parece uma coisa muito anárquica. Em primeiro lugar, poderíamos questionar a idéia de que a existência de um mercado é realmente inevitável em qualquer sociedade humana, como uma estrutura recorrente das sociedades chamadas de avançadas. Em segundo lugar, podemos questionar a possibilidade de um mercado livre, onde o interesse de cada um dos membros da sociedade pudesse, de alguma forma, ser igualmente respeitado, e onde a troca de produtos e serviços pudesse, sem regulação alguma, não gerar concentração de bens e desigualdade. Em terceiro lugar, podemos criticar a idéia de que, em qualquer cultura, indivíduos livres para agir segundo seu próprio interesse inevitavelmente necessitarão de propriedades, sejam privadas ou não. Obviamente, não estou defendendo a idéia de que um Estado e uma regulação por meio de leis ou de coerção sejam necessárias. Ao contrário do que os anarquistas liberais podem pensar, os defensores do Estado não são os únicos a discordar de suas idéias, e não estamos negando o liberalismo por ranço ao capitalismo, por princípio moral, por ideologia ou por dogmatismo, e sim por termos argumentos contra tal filosofia.
Muitos anarquistas liberais irão dizer que o capitalismo é realmente indesejável, porque depende do Estado, mas a livre concorrência e as leis de competição são leis inerentes à vida. A única coisa que torna nossa sociedade inviável é o Estado, porque ele dá vantagens a uns e não a outros, e o capitalismo se aproveita disso. Então a verdadeira livre concorrência, sem Estado, beneficiará a todos porque todos terão condições iguais de competição. Eles entendem a propriedade como uma extensão do indivíduo, sem ela perde-se o direito a manter o resultado do seu trabalho. Se a propriedade é natural, a proteção da propriedade também é natural, e o roubo se torna tão condenável quanto a escravidão. A existência de propriedade inevitavelmente cria as leis de mercado, tais seriam tão naturais quanto as leis da termodinâmica. O dinheiro deve ser inventado para facilitar a transição de propriedades e serviços. Assim, por exemplo, é natural que algumas pessoas com aptidão para a matemática se tornem reguladoras do sistema monetário, pessoas fortes se tornem seguranças, e assim por diante. Cada um cobrando aquilo que tanto ele quanto os outros entram em acordo quanto a ser um pagamento justo.
A utopia liberal é muito bem definida, e parece funcionar perfeitamente na teoria. Porém, quando examinamos mais profundamente, vemos que é um mundo muito frágil, uma construção que depende não apenas da abolição do Estado, mas da abolição das condições que criaram o Estado, sem que os resultados do Estado sejam sacrificados. É difícil imaginar como impedir que uma sociedade assim organizada elimine a desigualdade crescente e os problemas sociais resultantes disso se não há nada que impeça as pessoas de explorarem e enganarem umas às outras, ainda que sem o apoio de qualquer instituição governamental. E nada impede que tal instituição seja criada, ainda que disfarçada com outro nome e outra aparência. As pessoas provavelmente continuarão a coagir e a acumular poder pelo mesmo motivo que elas sempre o fizeram na civilização: porque isso continua sendo vantajoso.
Se fosse verdade que todos os seres humanos anseiam dependem do acúmulo de propriedade para serem felizes, seria difícil explicar porque nem todas as culturas tinham um mercado, e porque elas não descobriram as variadas formas possíveis de expropriar os outros sem que eles percebam ou possam impedir, fazendo-os crer que agem em benefício próprio. Aqueles que podem pagar por mais segurança também podem agir contra os interesses de outros que não tem tanto poder. Numa sociedade de massas a troca dificilmente beneficia a todos, e mais facilmente concentra poder nas mãos de poucos, com pequenas mas vantajosas interações com um grande número de membros cujo interesse pessoal não importa àquele que está negociando, mas sim o lucro. Além disso os interesses pessoais de um grupo de pessoas também pode ser manipulado por pessoas espertas o suficiente para isso.
Não se trata de restringir as pessoas com leis de qualquer tipo, mas sim de perceber que se a estrutura ideológica da civilização permanecer, será impossível que não se crie acúmulo e que não aja dominação. O único ponto em que uma sociedade liberal poderia ser igualitária seria o ponto inicial, mas a desigualdade continuaria sendo criada numa velocidade crescente, apenas os métodos para isso mudariam.
Se liberdade for apenas liberdade para reproduzir a cultura atual sem um Estado, não teríamos uma sociedade espontânea e voluntária, mas sim uma civilização mantida por pura falta de opção. Se os presos não sabem que estão numa prisão, podem achar que o único problema em suas vidas são os carcereiros, e ao se livrar deles eles eles continuariam na prisão, fazendo eles mesmos tudo aquilo que os carcereiros faziam. É o sistema perfeito de dominação.
Para o liberalismo, proteger sua propriedade equivale a proteger sua vida e seus interesses inalienáveis. Isso quer dizer que cada pessoa tem o direito de usar de quaisquer meios necessários para defender sua propriedade. A ingenuidade está em achar que as pessoas só usarão esse poder para se defender, e nunca para atacar ou prejudicar outros. Onde quer que acumular bens seja uma vantagem por si só, é impossível que as vantagens não se espalhem de forma cada vez mais desigual. O liberais parecem não se preocupar em explicar como a igualdade poderia ser mantida num sistema assim, nem em explicar porque as sociedades originais não apresentavam desigualdade crescente.
Numa sociedade onde a justiça seja feita com punição espontânea, por exemplo, as pessoas com mais propriedade terão sempre mais capacidade de saírem impunes, já que podem usar a proteção de seus bens para se proteger. Enquanto for vantajoso cometer crimes, a criminalidade será crescente. A idéia não é criar uma sociedade onde possamos reproduzir nosso estado atual por nós mesmos, mas sim uma cultura onde os fundamentos não sejam o acúmulo e a expansão, que inevitavelmente criarão todos os problemas que temos agora. Por sua vez, uma cultura sem esses fundamentos não é capaz de gerar desigualdade crescente, e portanto não é preciso impedir os indivíduos de fazer qualquer coisa, porque não é vantajoso acumular bens numa cultura onde a propriedade não tem valor abstrato. Isto elimina as condições de possibilidade da desigualdade crescente, ao invés de lutar apenas contra seus efeitos cumulativos.
É impossível conciliar a filosofia liberal com uma crítica profunda à cultura civilizatória. Compreendendo a crítica à civilização como uma parte indispensável da crítica ao nosso estado atual, os benefícios que uma anarquia liberal poderiam nos trazer se apresentam bastante limitados.


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