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Ditadura - Capítulo I


Concordo, o tema já está batido. Mesmo que recente, todo mundo já sabe, e todo mundo já opinou. Normal. Alguns assuntos vêm à tona e desgastam-se em velocidade impressionante. Uns ainda geram exaustivas suítes. Outros, por alguma misteriosa razão, simplesmente não. Este é um deles. E esta é só mais uma modesta – e repetitiva, e cheia de mesmices e conclusões correntes – articulação que compartilho com os amigos, humildem

Como sabemos, foi retirado do ar (do IG) o site Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim. Segundo o IG, a “reestruturação do portal, que incluía rescisão de contratos desvantajosos”, foi a causa. Até aí tudo bem. Quando um profissional de comunicação não se “adequa” aos parâmetros do veículo para o qual presta serviço, a empresa tem o direito de salvaguardar seus interesses. Isso sempre aconteceu, sem grande alarde. De acordo com a opinião de alguns jornalistas e de grande quantidade de internautas (eu me incluo no rol), no entanto, a atitude do portal foi um exercício premeditado de poder e arbitrariedade. Por que, se de um lado, rescisões de contrato e demissões são usuais, a forma como ocorreu, sem aviso prévio e com queima de conteúdo e bloqueio de senhas – como bem coloca Azenha no blog Vi o Mundo – é no mínimo senhorial. É voltar aos tempos da ditadura.

Voltar? E, acaso, será que em algum momento estivemos livres dela? Está aí uma questão interessante. Há alguns dias atrás, Venício A. de Lima publicava no Observatório da Imprensa artigo intitulado “O cidadão e a liberdade de imprensa”, no qual fazia algumas considerações a respeito de relatório entregue à OEA sobre a violação ao direito de livre expressão no país (foco no uso abusivo de recursos judiciais contra veículos de comunicação, jornalistas e defensores de direitos humanos). Me chamou a atenção este trecho:

“Com o tempo, a imprensa acabou por se transformar num grande negócio. Os principais jornais passaram a fazer parte de conglomerados empresariais com interesses econômicos e políticos e, eles próprios, se constituíram em atores importantes na disputa pelo poder nas sociedades de Estado democrático. A ameaça à liberdade de expressão passou a vir não somente do poder do Estado, mas também do poder desses grandes conglomerados. Essa nova realidade possibilitou, em alguns casos, o que se chamou de "privatização da censura", de "jornalismo sitiado", e levou, inclusive, à inclusão de critérios de concentração econômica nos índices de avaliação da liberdade de imprensa em países democráticos. ”

Mera coincidência. Na mesma data, Alberto Dines (objeto de meus amores e ódios) assinava o excelente artigo “Seqüestraram o Conselho de Comunicação Social”, repleto de comentários de aprovação – incluindo o meu – e outros, que reivindicavam posição do site sobre o ocorrido com Paulo Henrique Amorim. Dois dias depois, Dines responde com o ambíguo “O bonapartismo de araque e a lei da selva”, em que, sem citar nomes, condena o jornalismo engajado (dito mau jornalismo, numa alusão a linha de PHA), comenta que o observatório “não é um tribunal, mas um fórum”, ao mesmo tempo em que ressalta que “o aviso prévio não é apenas uma conquista trabalhista, é uma norma comercial capaz de impedir a universalização da lei da selva.” Os leitores, é óbvio, não ficaram satisfeitos. Ninguém esperava uma tomada de posição em favor de PHA (menos ainda um julgamento em oposição). No mínimo, entretanto, uma reflexão menos dúbia sobre a forma como o caso foi conduzido. Dines coloca:

“Quando o engajamento jornalístico manifesta-se em cruzadas contra ou a favor de interesses comerciais, corre o risco de ser avaliado como jogada comercial. Neste caso, a discussão deixa a esfera da qualidade profissional para ingressar inevitavelmente no campo moral.”

PHA condena a compra da Brasil Telecom pela OI (a BrOi, como diz – e eis aí a razão de quase todos os seus males). Dines não se harmoniza com essa espécie de sectarismo na profissão. Certo. Mas e a tal LIBERDADE DE EXPRESSÃO? Azenha – que colocou seu blog a disposição – nem sempre está de acordo com as opiniões de PHA. Mino Carta – que rompeu com o IG em solidariedade ao colega – também não. Nem eu. E daí? Simpatizantes ou não das idéias defendidas pelo jornalista, havemos de convir que a decisão do portal foi despótica. Lamentável o discurso de execração contra o partidarismo, quando se sabe que toda mídia é em verdade tendenciosa. E aqui não se trata de julgar opiniões consideradas aéticas, e sim procedimentos incompatíveis com o comportamento de instituições ditas democráticas.

O Conversa Afiada não calou-se para sempre. Ganhou novo endereço, e creio que mais força e visibilidade. O Observatório saiu arranhado, é verdade, mas por pouco tempo. Logo tudo será esquecido. De memoráveis, ficam alguns comentários, que vale a pena transcrever:




“A demissão de Paulo Henrique Amorim foi no estilo pula-catraca, tão ao gosto de chefes mafiosos. Por fax, com bloqueio de cartões de acesso de funcionários do Conversa Afiada e sumiço de conteúdo que o jornalista (...) Quando é que vamos acabar com as demissões pula-catraca, em que além de impor o poder de chefe um jornalista ou congênere, supostamente em nome do patrão, bota para fora instintos sádicos? Senhas bloqueadas, acompanhamento de seguranças, blecaute de conteúdo sem qualquer explicação, assassinatos de caráter - onde é que vamos parar? (...) Existem princípios dos quais eu jamais me afastarei. Não sou de ficar sobre o muro, em qualquer circunstância. (...) O que o IG fez com Paulo Henrique Amorim e com os milhares de internautas que freqüentavam diariamente o “Conversa Afiada” foi, para dizer o mínimo, um grosseiro desrespeito. Esse jeito, de sacar do ar repentinamente um site, sem comunicar aos leitores, eu não conheço. Nunca vi antes. Nem no Brasil, nem nos Estados Unidos. Celebrar que uma voz dissonante tenha sido calada, ainda que por algumas horas, é doentio.” Azenha



“Meu blog no iG acaba com este post. (...) O abrupto rompimento do contrato que ligava o jornalista ao portal ecoa situações inaceitáveis que tanto Paulo Henrique quanto eu conhecemos de sobejo, de sorte a lhes entender os motivos em um piscar de olhos. Não me permitirei conjecturas em relação ao poder mais alto que se alevanta e exige o afastamento. O leque das possibilidades não é, porém, muito amplo. Basta averiguar quais foram os alvos das críticas negativas de Paulo Henrique neste tempo de Conversa Afiada. ” Mino Carta



“Nassif, estou dando adeus a isso que se chama IG! Fala para o Mino, o Zé, o ET, e todos os outros! Vamos continuar elegendo e classificando os TARTUFOS! ” Lídio Pinho

Daniele Barizon

Estudante de Jornalismo; Diretora Teatral, autora das peças Esses e outros 500, Maratona do Caos, Biografia de um sonho vazado, Como enlouquecer um homem em 10 lições e Cinderela da Silva; Publicou, pela editora Degrau 2002, a 13ª edição do Manual Prático - tópico Liderança; Participa do livro Antologia Contos e Crônicas Volume I, do site artimanhas; Publicações nas páginas de Blocos on line, Texto Livre, Webartigos, Leialivro, Globoonliners e Shvoong. E-mails: danielebarizon@hotmail.com,danielebarizon@gawab.com

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