Abandono Infantil e suas Implicações em Relação ao Transtorno de Conduta

04/08/2010 • Por • 3,159 Acessos

Para Freire (1994) é através do seio da família que o ser humano pode chegar a completar o complicado processo de socialização, o aprendizado que nela realiza permitira adquirir os valores de seu grupo e aprender as funções sociais, e é sabido que as funções que se realiza a família para que esse processo se cumpra de forma satisfatória, não as põem em prática nenhum outro sistema que o institucionalize, e tampouco outras alternativas que se convertam em soluções transitórias, já que não permitem o estabelecimento de laços familiares e afetivos que observem uma continuidade.

Não se pode construir uma sociedade mentalmente sã sobre as bases do abandono de crianças. A criança nasce com seu ego incompleto, que irá se desenvolver a medida que internalizar a outra parte do seu ego, que está contida em seus pais; a partir disso se criou um conceito que designa os pais como sendo "o ego auxiliar" da criança (FREIRE,1994). 

Nos primeiros meses de vida, a criança incorpora em seu processo evolutivo, o que a mãe vai dando em sua alimentação, isto se prolonga e assim vai incorporando hábitos, costumes, atitudes, e quando já os têm suficientemente internalizados, e dessa forma vai se produzindo uma ruptura, ou separação do "ego auxiliar".

Com o produto do abandono, é um ser inacabado, é um ser que não pode possuir um "ego auxiliar", é um ser que não buscou desesperadamente esse ego que lhe foi negado, esse ego representa a segurança, e que por isso ficou seu crescimento pessoal e social.

Existem dois tipos de abandono: o total e o parcial

O primeiro se refere ao abandono do pai e/ou mãe, que retiram da criança todo o apoio de que necessita, impedindo-lhe de contar com a possibilidade de ter o seu "ego auxiliar", totalmente necessário para o desenvolvimento.

O segundo, é o que se produz devido a uma estrutura parental deficitária dos pais – porque não dão a atenção necessária aos filhos, dando prioridade a outras ocupações, porque entregam a responsabilidade da educação dos filhos a outras pessoas ou instituições, ou apresentam outras dificuldades ambos citados por Freire(1994)

Do ponto de vista psicológico, a introdução do limite remete-nos à função paterna, que se realiza no contexto da elaboração da relação mãe-filho com a entrada de um terceiro, o pai. O modo de elaboração e passagem por essa relação triangular terá reflexo na constituição da personalidade, na organização da imagem corporal e no estabelecimento do modo relacional com o outro segundo  Melman (1995).

No caso de adolescentes com problemáticas relativas à delinqüência, encontramos na literatura referencias que apontam um superinvestimento na relação diática mãe-filho, na qual a mãe, por meio de um movimento inconsciente e até mesmo consciente, anula o lugar do pai. Tal desqualificação da figura paterna traz como conseqüência uma desqualificação da diferença, do limite e da lei(Soulbrack, 1992) 

A partir dessa citação Freire(1994) complementa que o individuo está  submetido a um controle social familiar que o leve a internalizar normas e valores. Este mecanismo contribui para a posterior adaptação e aceitação social de seus membros e opera do nascimento até a idade adulta.

Não possui formação para realizar a própria unidade familiar, já que só a vivencia familiar proporciona pautas ou modelos que se podem transferir para novas unidades familiares.

O sujeito oscila na apropriação da lei simbólica, só restando a ele a passagem como possibilidade de resolução dos conflitos inerentes a essas relações. A passagem ao ato projeta o jovem para fora de si e de sua família rumo a um terceiro. Todavia, essa projeção por falta de mediadores simbólicos ocorre na concretude do corpo, da violência e da sexualidade(Dupré, 1984)

 Transtorno de conduta

O transtorno de conduta é um dos transtornos psiquiátricos mais freqüentes na infância e um dos maiores motivos de encaminhamento ao psiquiatra infantil. Segundo DSM-IV a  característica essencial do Transtorno da Conduta é um padrão repetitivo e persistente de comportamento no qual são violados os direitos básicos dos outros ou normas ou regras sociais importantes apropriadas à idade. Esses comportamentos caem em quatro agrupamentos principais: conduta agressiva que causa ou ameaça danos físicos a outras pessoas ou a animais, conduta não-agressiva que causa perdas ou danos a propriedades ,defraudação ou furto e sérias violações de regras . Três (ou mais) comportamentos característicos devem ter estado presentes durante os últimos 12 meses, com presença de pelo menos um desses nos últimos 6 meses. A destruição deliberada da propriedade alheia é um aspecto característico desde transtorno, também a fraudação ou furto é comum. Ainda segundo DSM IV os indivíduos com esse transtorno também cometem serias violações de regras. Com base na idade de inicio do transtorno são oferecidos dois subtipos: com inicio na infância é definido pelo inicio de pelo menos um critério característico de transtorno de conduta antes dos 10 anos, sendo os indivíduos com maior incidência do sexo masculino. Onde esses indivíduos com inicio precoce na infância estão mais propensos a terem transtorno de conduta persistente e a desenvolverem transtorno da personalidade anti-social do que aqueles com inicio na adolescência. Com inicio na adolescência é definido pela ausência.

Níveis de gravidade

Leve: se existem excedendo aqueles necessários para fazer o diagnostico estão presentes, os problemas de conduta causam danos relativamente pequenos a outros.

Moderado: o número de problemas de conduta e o efeito sobre os outros são intermediários entre leves e severos.

Severo: além daqueles necessários para fazer o diagnostico estão presentes, e os problemas de conduta causam danos consideráveis a outros.

A literatura  psicológica refere-se a esse fenômeno com vários termos delinqüência juvenil, distúrbio de conduta, distúrbio de comportamento anti-social, criminalidade juvenil e problemas de comportamento.

Delinqüência Juvenil

Segundo Hellen Bee (1997) a delinqüência, classificada como uma doença externalizada pertence a categoria geral de problemas de conduta. As crianças rotuladas como delinqüentes evidenciam não apenas níveis elevados de provocação, propensão a discussões ou desobediência, elementos comuns a todos os problemas de conduta, mas trazem ainda uma deliberada violação da lei.

Alguns comportamentos anti-sociais ou delinqüentes, como brigas, ameaças aos outros, trapaças, mentiras ou roubo são tão comuns aos quatro e cinco anos como entre adolescentes (Achenbach; Edelbrock, 1981, apud BEE, 1997). Na adolescência, entretanto, tais comportamentos tornam-se mais graves, mais letais, mais coerentes como um padrão.

Assim como perturbações de conduta são muito mais comuns entre meninos em idade pré-escolar e idade escolar, atos e aprisionamentos por delinqüência são muito mais comuns entre meninos. Todos os delinqüentes parecem compartilhar certas características. Em especial, tal como crianças impopulares bem pequenas, adolescentes delinqüentes apresentam déficits de compreensão social. Eles são menos hábeis na leitura dos outros, no aprendizado de regras sócias(Schonfeldt et al ., 1988, apud BEE, 1997). Delinqüentes estão também mais propensos a ter pais (especialmente o pai) criminosos ou anti-sociais.  No entanto, nesse conjunto básico de semelhanças, os psicólogos identificam dois subgrupos distintos: (1) delinqüentes socializados – subculturais, que vagueiam com más companhias, ficam até tarde pelas ruas, apresentam uma forte fidelidade ao grupo de companheiros ou gangue e podem cometer vários crimes como parte das atividades do grupo; (2) delinqüentes não socializados – psicopatas, que são, mais comumente, elementos solitários e que parece carecer de consciência ou culpa. Trata-se de jovens que parecer gostar de conflitos e que evidenciam confiar pouco nas pessoas.

Hoje em dia para Achenbach (1982, apud BEE, 1997) os  delinqüentes socializados costumam ser provenientes de bairros pobres, crescendo em famílias com uma disciplina errônea e pouco afeto – estilo que seria classificado no sistema de indiferença ou rejeição. Famílias nos mesmos tipos de bairros cujos os filhos não se tornaram delinqüentes distinguem-se mais por um único ingrediente: elevados níveis de amor materno.

Jovens cujas mães mostram-se carinhosas e afetivas para com eles são, simplesmente, bastante menos propensas  a evidenciar delinqüência, independente das condições de pobreza(Glueck, 1972;  McCord,  Zola, 1959, apud BEE, 1997).

Para Achenbach (1982, apud BEE, 1997) a delinqüência psicopata, diferentemente, pode ser encontrado tanto entre adolescentes de qualquer nível social quanto em famílias completas ou que tenha sofrido alguma ruptura.

Uma primeira experiência significativa é o fracasso da disciplina inicial parental e/ou o reforço direto de comportamento agressivo no âmbito familiar (Patterson, Capaldi,  Bank, 1991)

Popularidade e rejeição,

Segundo Asher (1990, apud BEE, 1997) o grau de rejeição por parte dos companheiros tende a ser consistente ao longo dos anos da meninice intermediária chegando a adolescência. Crianças rejeitadas, tende a permanecer assim no caso delas mudarem de categoria é raro e se desloquem para um nível elevado de aceitação.

Crianças rejeitadas, diferentemente, são muito mais propensas a evidenciar transtorno de conduta, seja na escola elementar, seja mais tarde, na vida adulta.

Segundo Winnicott (1994), quando crianças sofrem privação afetiva, manifestam-se os comportamentos anti-sociais no lar ou numa esfera mais ampla. Do ponto de vista psicodinâmico, estes comportamentos demonstram esperança em obter algo bom que foi perdido, sendo a ausência de esperança a característica básica da criança que sofreu privação. O jovem experimenta um impulso de busca do objeto, de alguém que possa encarregar-se de cuidar dele, esperando poder confiar num ambiente estável, capaz de suportar a tensão resultante do comportamento impulsivo. O ambiente é repetidamente testado em sua capacidade para suportar a agressão, tolerar o incômodo, impedir a destruição, preservando o objeto que é procurado e encontrado.

De acordo com Cunninghan (1983, apud GOMIDE, 1998) os adolescentes que sofreram maus tratos ou foram negligenciados quando crianças, têm maior probabilidade de se envolver com comportamentos delinqüentes e cometer crimes violentos do que os que não sofreram maus tratos quando crianças.

Neste pré-projeto temos como objetivo investigar, o índice de crianças de adolescentes do sexo masculino abandonadas, que estejam  em instituições, e estabelecer relação com o  transtorno de conduta, para verificar se o abandono seria uma das causas para o transtorno de conduta. Pois quando uma criança em seus primeiros anos de vida não tem uma proteção de autoridade isso pode acarretar ela ter comportamentos delinqüentes.Pois não adquiriu os valores necessários para a socialização

OBJETIVO DE ESTUDO

Verificar se há correlação entre o abandono infantil e o transtorno de conduta em crianças e adolescentes do sexo masculino que foram abandonadas que estejam nas instituições pesquisadas.

MÉTODO

 Os participantes serão 50 crianças institucionalizadas do sexo masculino, da região metropolitana de Curitiba.

Locais

 Instituições da  região metropolitana de Curitiba.

Conselhos tutelares da região metropolitana de Curitiba.

Materiais

Questionario para os cuidadores dessas crianças institucionalizadas. Questionarios abertos e fechados.

Anexo 1

Anexo 2

Procedimento

1. Aplicação de questionários para cuidadores – levando em conta o abandono e comportamentos de transtorno de conduta.

Bibliográfica

BEE, Hellen. O Ciclo Vital. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

DUPRÉ, F. La "Solution" du passage à l'Acte. Paris: Editions Erès, 1984.

DIAGNOSTIC And STATISTICAL  MANUAL Of  MENTAL DISORDERS - Fourth Edition (DSM-IV), published by the American Psychiatric Association, Washington D.C., 1994, the main diagnostic reference of Mental Health professionals in the United States of America.

FREIRE, Fernando Abandono e adoção: Contribuições para uma cultura de Adoção II. Curitiba: Gráfica Vicentina Ltda, 1994.

GOMIDE, Paula. Menor infrator: o caminho de um novo tempo. 2ª ed. Curitiba: Juruá, 1998.

MELMAN, C. Haveria uma Questão Particular do Pai na Adolescência? Adolescência. Porto Alegre: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 5, n° 11, 1995, pp.07-24.

SUDBRACK, M.F.O. Da falta do Pai à Busca da Lei: O Significado da Passagem ao Alto Delinqüente no Contexto Familiar e Institucional. Psicologia Teoria e Pesquisa, Brasília, vol 8, 1992, pp. 447-457.

Winnicott, DW. Privação e delinqüência. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

Perfil do Autor

Keila de Oliveira Paulin

Trabalho realizado com a participação de Isabella Bettes. www.psicologakeila.com.br