Os Males Da Vida Moderna E A Dependência Química

Publicado em: 06/04/2009 |Comentário: 2 | Acessos: 4,816 |

Introdução

 

Com o surgimento de novas formas de sofrimento no mundo moderno, psiquiatras, psicanalistas e psicólogos se ocupam cada vez mais em tentar entender, em suas atividades clínicas, a origem desse sentimento. Hoje, busca-se soluções mágicas para a cura da dor, que causa incômodo e mal-estar na sociedade considerada normal.

Por outro lado, a sociedade do espetáculo, aquela que não suporta a tristeza ou a frustração, movida pelo imperativo da felicidade, provocou o incremento desenfreado da prescrição de antidepressivos, ansiolíticos,  antipsicóticos, estabilizadores de humor e tranquilizantes.

O homem tem cada vez mais conhecimento e controle sobre o mundo ao seu redor, mas se afasta cada vez mais de seu mundo interior. Ao mesmo tempo em que tem o desejo de ser o ápice e a finalidade da criação de todas as coisas, o que lhe daria o direito a ser o senhor de tudo, descobre que é mais infantil do que consegue suportar.

O homem, imagem e semelhança de seu criador, recebeu um primeiro golpe em seu inflamado ego, quando Copérnico diz que o planeta em que vivemos além de não ser o centro do universo, é apenas um minúsculo ponto desse universo, igual a milhões de tantos outros pontos.

Não bastando essa destituição de senhores do universo, Charles Darwin, destitui também o homem de seu reinado sobre os outros animais da terra, quando demonstra em sua teoria da evolução das espécies, que o nosso parentesco com os primatas é mais próximo do que o nosso ar de superioridade gostaria que fosse.

Restou ao homem, como último refúgio de seu ego ferido, voltar-se a si mesmo, como o único animal autoreconhecido como racional sobre a face da terra, o único que pauta sua vida sobre bases lógicas, e que implementa modificações em seu meio, buscando o aprimoramento de sua espécie. 

Para nossa angústia e destruição final da idéia de sermos a espécie escolhida para a perfeição, Sigmund Freud descobre em seus estudos, que não somos senhores nem de nós mesmos, que somos regidos pelos nossos sentimentos e pensamentos mais primitivos, e que não temos nenhum controle sobre esses sentimentos e pensamentos, restando-nos aprender a conviver com os mesmos.

Consideramo-nos seres evoluídos, capazes de vivermos em sociedade, construtores de civilizações, mas precisamos de normas externas a nós mesmos para que seja possível a convivência com nosso semelhante. Ensinamos nossos filhos a conhecer e a dominar as forças da natureza, mas não os ensinamos a conhecer e dominar a si mesmos.

O homem conhece cada vez mais o mundo em que vive, mas não o mundo que é. As crianças conhecem cada vez mais o imenso espaço e o pequeno átomo, mas não conhecem a construção da inteligência e o funcionamento da sua própria mente. Esta carência de interiorização educacional faz com que elas percam a melhor oportunidade de desenvolver as funções mais profundas da inteligência: a capacidade de pensar e refletir sobre si mesmas; a capacidade de analisar seus comportamentos;  a capacidade de perceber seus limites; a capacidade de autocrítica e de dar respostas mais maduras para as suas frustrações e sofrimentos; a capacidade de compreender a construção das relações humanas e aprender a se colocar no lugar do outro.

Somos os únicos seres no planeta que levam vidas interiores tão ricas, que não são os eventos exteriores que mais importam para nós. Em vez disso, é a maneira como interpretamos esses eventos que vai determinar como pensamos a respeito de nós mesmos, e como agiremos no futuro.

Capítulo 1. Uma visão antropológica

 

O homem é um ser natural que não tem consciência de si enquanto ser em si.

Kant, filósofo

 

Há 10 milhões de anos iniciou-se uma era de mudanças ambientais, associada a um processo de evolução por seleção natural, que culminou nas adaptações hominídeas conhecidas pelo termo hominização. Os fatores ambientais relacionadas ao surgimento do gênero Homo estão associados a essas modificações geológicas.

      O animal vive mediante leis biológicas naturais, é parte da natureza e jamais a transcende. A autoconsciência, a razão e a imaginação fizeram com que o homem rompesse a harmonia característica da existência animal. Ele é parte da natureza, sujeito as suas leis físicas e incapaz de modifica-las, mas transcende o resto da natureza. Tendo a consciência de si, percebe a sua impotência e as limitações de sua existência. Não podendo livrar-se de seu corpo animal, permanece assim num estado de desequilíbrio constante.        

A evolução do homem se baseia no fato de haver deixado a sua pátria original, a natureza, e jamais poder regressar a ela, jamais poder voltar a ser puramente animal.

Quando o homem se tornou um animal tribal, desde que começou a andar ereto, mais de 4 milhões de anos atrás, ele passou a ser um caçador e guerreiro tribal, onde a cooperação social era um fator importante de sobrevivência. Todos os instintos sociais humanos se desenvolveram bem antes da esfera intelectual: instinto maternal, cooperação, curiosidade, criatividade, compaixão, altruísmo, competitividade, etc., são muito antigos, e podem ser vistos já nos antropóides. Mas, o ser humano novamente se distingüe dos outros primatas através de uma característica mental muito forte. Gradativamente desenvolvemos o auto-controle, ou seja, a capacidade de modificarmos qualquer comportamento social, mesmo que instintivo, de maneira a torná-lo mais útil para nossa sobrevivência. Quanto mais disciplinados, e capazes de auto-controle e de planejamento, quanto mais nossa mente racional for capaz de dominar a emocional e instintiva, mais humanos seremos.

Nossa mente se desenvolveu para resolver problemas dos nossos antepassados caçadores e coletores do pleistoceno, há cerca de 2,5 milhões de anos atraz. Foi o modo de vida deles que forjou grande parte das estruturas mentais que dispomos hoje. As características funcionais complexas da mente humana se desenvolveram como respostas às demandas do estilo de vida de caçadores e coletores, mais do que nos dias de hoje. A curta existência do homem atual, cerca de apenas 10.000 anos, não é suficiente para gerar e consolidar as adaptações necessárias à vida social.

Todas as formas exteriores de mudança, produzidas pelas guerras, revoluções, reformas, pelas leis e ideologias, falharam completamente, pois não mudaram a natureza básica do homem e, portanto, da sociedade. Apesar de toda evolução tecnológica, científica, jurídica, etc. Nós, humanos, somos os mesmos que éramos há milhões de anos.  Psicologicamente, o indivíduo não mudou em nada, e a estrutura da sociedade, em todo o mundo, foi criada por indivíduos. A estrutura social é o resultado da estrutura psicológica, das relações humanas, pois o indivíduo é o resultado da experiência, dos conhecimentos e da conduta do homem.

            A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem. Apesar de todo avanço tecnológico e científico, a única razão pela qual o homem não deve matar o próprio homem é porque Deus proibiu; a única razão pela qual o homem deve olhar para o próprio homem como seu semelhante é para barganhar benécies com Deus, nessa vida ou na vida futura. Isso porque, apesar de todo avanço tecnológico e científico, o homem continua o mesmo de há milhares de anos, precisando de controle externo para poder conter os seus instintos primitivos, e para pautar as suas relações com o outro.

Ensinamos nossos jovens a dominar o universo exterior, mas não os ensinamos a dominar o seu mundo interior. O homem tornou-se um estranho para ele mesmo. Os jovens não conhecem seus limites; não aprenderam a pedir perdão; não aprenderam a se colocar no lugar do outro. Não os ensinamos a contemplar o belo, a pensar antes de agir, a perceber que o seu direito termina onde começa o direito do outro; não os ensinamos a lidar com os inevitáveis fracassos nem humildade para reconhecerem seus erros. Transmitimos conhecimento, mas não ensinamos sabedoria.

 

Capítulo 2. Enfrentando as exigências da vida moderna

 

A evolução não nos preparou para viver na sociedade moderna que construímos.

Dan Ariely Teve, psicólogo israelense

 

Diz a filosofia que o homem é um eterno "vir-a-ser". Isto porque está sempre buscando progressos, desejando um algo mais e planejando para si grandes conquistas. E como não poderia ser diferente, está sempre aquém do que deseja.

A ciência ampliou-se muito nos dias de hoje, porém não elevou o padrão de vida humana, não produziu homens maduros e experientes. Uma pessoa pode deter muito conhecimento científico, ter títulos acadêmicos, mas, ainda assim, poderá ser infantil, imatura na sua experiência de vida, não sabendo suportar nem crescer diante de suas frustrações.

O ser humano é um tipo de ser no qual o simbólico define a condição orgânica de seu funcionamento, uma vez que o amadurecimento vem ocorrer após o nascimento, moldado em função da neuroplasticidade cerebral

. A tese de supor que às alterações psíquicas correspondem analogamente à alterações bioquímicas é  verificável em alguma medida. Porém, colocar a causalidade do lado da bioquímica é controverter o que a evolução da espécie humana veio demonstrar. O problema é que a medicação não muda a significação da vida e dos acontecimentos da vida de quem sofre. Nós somos, queiramos ou não, escravos da palavra.

Desde os seus primórdios o homem busca um significado para a existência e o universo, para o sentido de si mesmo e a compreensão de suas relações com o próximo.

Uma crença da modernidade é que é possível encontrar a razão de tudo, a causa de tudo. Se não encontramos é porque ainda não pesquisamos o suficiente. Quer dizer, a extensão dos conhecimentos é ilimitada. Não há nenhuma fronteira que se oponha a nosso conhecimento. Corresponde a uma crença de que os meus conhecimentos são suficientes para controlar o mundo em que eu vivo. Então, essa arrogância cientificista é contrária ao campo da verdade, e empurra o homem a produzir dispositivos que o iludem quanto ao controle absoluto desse mundo, inclusive de si mesmo.

O problema do sentido da vida, quer se apresente expressamente ou não, cumpre defini-lo como um problema caracteristicamente humano. Só ao homem, é dado  ter a vivência da sua existência como algo problemático; só ele é capaz de experimentar a problematicidade do seu ser. Este sentido é único e específico, nisto que deve e pode ser realizado por ele somente. Somente então encontrará ele um significado que irá satisfazer a sua própria vontade de sentido.

A TV equivale a uma vitrine, não só pela gama de produtos de consumo que oferece, mas em especial enquanto meio de controle ideológico por parte de grupos econômicos e do próprio governo representativo da elite dominante. Fazendo inadvertidamente o jogo dessa ideologia, os pais percebem-se como bons ou amorosos com seus filhos ao procurar dar-lhes tudo materialmente. As pessoas de poucos recursos financeiros, evidentemente, igualmente são solicitadas a consumir. E não podendo fazê-lo, embora estimuladas pelo jogo ideológico, sentem-se falidas ou desvalorizadas, tanto no que se refere à sua capacidade de consumo quanto ao desejo de possuir. Nesses casos, qualquer objeto que sugira ou dê um mínimo prazer é visto como indispensável.

As crianças e os jovens são os alvos preferidos na criação de novas necessidades pela mídia. Incapazes de entender o significado da TV e o propósito da propaganda, passam a desejar tudo o que lhes é apresentado, crescendo assim hipersensíveis ao prazer.

Vivemos na sociedade em que o valor prioritário é ter posse de coisas, objetos e pessoas. O indivíduo é classificado pela marca de sua roupa, pelo cargo que ocupa, o carro que possui, o tipo de trabalho que desempenha ou a quantidade de pessoas as quais dirige.

Dessa maneira, os objetos têm um "valor" maior do que o humano. O homem é valorizado pelo que possui e, por isso, corre o risco de, nessa sedução, transformar-se em um ser-coisificado. Para se identificar com o seu meio, ele precisa, cada vez mais, ter. Caso não se pos­sa ter, há o risco até de se querer tirar de quem tem. Isso acaba ocor­rendo com pessoas de todas as classes sociais: solitárias , desejosas ou apegadas a objetos, como forma de esconder seus verdadeiros desejos. Em seu mundo interno, estão distantes de si mesmas e, quanto ao mundo externo, ausentes de sua realidade social.

Nessa sociedade que privilegia o ter; transformando a pessoa em simples instrumento, que prega ideais de bem viver; e que controla, pela mídia, as maneiras de pensar, sentir e agir dos indivíduos, se vê frente a um vazio interior, sintoma de uma forma social de viver sem sentido.

Ao perceber esse vazio, tende a preenchê-lo com coisas materiais, com o que sempre foi condicionado a fazer: consumir. Incapaz de trabalhar seus problemas e crises íntimas, busca "soluções" apenas no mundo das exterioridades ou aparências. Nessa procura, pode ir ao encontro das drogas, legais e ilegais, que acenam como "solução mágica" para a vida continuar "sem problemas".

A imediatização da vida exige meios mais eficientes e rápidos para a aquisição do prazer, e a liberdade, destituída de sua contra-partida que é a responsabilidade, dá, para pessoas órfãs de princípios éticos, o aval de se poder fazer o que quiser. E essas pessoas estão órfãs de ética porque? Talvez porque interesse ao mercado de consumo que as pessoas não pensem tanto, apenas consumam...

A liberdade sexual é hoje um tabu onde ninguém ousa tocar, pois hoje confundiu-se o permitido com o permissivo, onde tudo pode. Daí, decorrem as doenças sexualmente transmissíveis, aumento de adolescentes que engravidam, abortos, medo dos relacionamentos duradouros e coisificação do amor.

A televisão mostra cada vez mais cenas de sexo explícito entre pessoas que mal se conhecem, tentando convencer que o facultativo é obrigatório, como um indispensável passaporte para a modernidade.

Sabemos que a exigência atual em nossa sociedade, da obtenção de um corpo perfeito, jovem e saudável, está relacionada a possuir um corpo admirado e invejado objetivando a busca de ser aceito e amado. Para tanto, a imagem humana tem sido submetida a todo tipo de manipulação, veiculada principalmente pela mídia,o que faz com que haja necessidade de que tudo pareça melhor,para que agrade e seduza melhor. 

A literatura nos aponta que o cotidiano atual da busca por um corpo ideal a qualquer preço seria um fator que predisporia os indivíduos às patologias alimentares, ao uso de anabolizantes e ao culto ao corpo.

O consumo de mercadorias da Cultura do Narcisismo se apresenta com a promessa de suplantar o tédio, o cansaço, a futilidade e o vazio experimentados diariamente pelas pessoas.

Outra marca dos tempos atuais é a dificuldade que as pessoas têm  de assumir compromissos. Poderíamos relacionar este dado com o fato de que os indivíduos da pós- modernidade almejam um desprendimento emocional, para não precisarem talvez, lidar com os riscos de instabilidade causadas pelas relações sociais. A idéia parece ser a de se conseguir um estado de indiferença, de desprendimento, como fator de proteção contra seus próprios impulsos em prol de um equilíbrio interior. O que se observa é a solidão, o vazio, a difi­culdade de sentir, de ser transportado para fora de si.

Apesar das transformações sociais, principalmente na esfera dos comportamentos sexuais e dos novos papéis assumidos pelas mulheres, chegamos à conclusão de que o mal-estar com o processo civilizatório persiste.

            O culto ao individualismo, a falta de compromisso e consciência social, o imperativo do ter sobre o ser levam a um sentimento crescente de isolamento, com o estabelecimento da impessoalidade e a percepção do outro como estranho.

As características de cada indivíduo vão sendo formadas a partir das inúmeras e constantes interações do indivíduo com o meio, compreendido como contexto físico e social, que inclui as dimensões interpessoal e cultural. Nesse processo dinâmico, ativo e singular, o indivíduo estabelece, desde o seu nascimento e durante toda a sua vida, trocas recíprocas com o meio, já que, ao mesmo tempo que internaliza as formas culturais, as transforma e intervém no universo que o cerca.

Assim, as características do funcionamento psicológico como o comportamento de cada ser humano são construídos ao longo da vida do indivíduo através de um processo de interação com o seu meio social, que possibilita a apropriação da cultura elaborada pelas gerações precedentes. Cada indivíduo aprende a ser um homem. O que a natureza lhe dá quando nasce não basta para viver em sociedade. É lhe preciso adquirir o que foi alcançado no decurso do desenvolvimento histórico da sociedade humana.

O ser humano vive num processo de desenvolvimento interminável, com transformações e mudanças que duram toda a existência; nunca se está pronto e acabado para as vicissitudes da vida. Neste processo de construção e desconstrução prevalecem, em condições normais, um senso de integração, que nos faz únicos, e um sentimento de continuidade em nossas experiências – o que configura nossa identidade. O homem, imerso nestas mudanças, não consegue acompanhá-las e, pressionado por resultados, eficácia e desempenho, regride ao uso dos recursos mais primitivos em seu desenvolvimento.

Abandonados pelos pais, e principalmente pelas mães, que precisam cada vez mais se entregar à difícil missão de sustento da família, ficam os filhos entregues a própria sorte. Com o não aprendizado do refletir, do pensar, do conviver, esses filhos precisam criar, como uma forma de defesa desse abandono, recursos psicopáticos. Como forma de não sentir a depressão gerada por esse abandono, criam-se realidades virtuais; a realidade do videogame, da horas na frente da TV, do uso inconseqüente da internet, da busca de solução no mundo das drogas.

Segundo o psicanalista francês, Charles Melman, em entrevista concedida a revista Veja, nossos jovens foram criados em condições que promovem a busca rápida do prazer máximo e sem obrigações. É o meio social que propõe a eles essa maneira de agir em sociedade. O problema é que o tratamento dispensado ao desejo produz situações de dificuldades para os jovens. Segundo ele, Muitos jovens encontram dificuldade para desenvolver plenamente uma vida sexual, porque hoje em dia o sexo é muito acessível. Mas na verdade essa facilidade leva à busca de uma vida sexual sem compromisso, que proporcione um prazer ocasional, talvez uma tentativa de se proteger em relação ao compromisso que uma vida sexual pode evocar. A idéia é aproveitar sem se engajar.

Ele diz que, a religião sempre foi bem-sucedida em dar soluções às angústias do homem, porque consegue explicar o que é esperado de cada um. Explica o lugar da pessoa no mundo e o papel que ela tem a desempenhar.

 

O psicanalista Jorge Forbes, no livro “você quer o que você deseja ?”, diz que,  a nova geração não responde a ética do dever, mas a ética do desejo. Que chamamos de adolescência a fase entre a infância e a idade adulta, época em que a pessoa teria que, progressivamente, adaptar sua forma de ser, em consonância com o mundo dito adulto. Mas que hoje essa divisão esta relativizada as particularidades de cada um, não existindo mais um padrão. E que essa é uma nova forma de ser, onde se deseja sem querer, onde se age apenas por desejo, de maneira inconseqüente.

            Jorge Forbes diz também que a geração anterior foi marcada pela regra de que os pais deveriam falar tudo aos filhos e que estes só deveriam cumprir obrigações se as entendessem. Mas que muita coisa que queremos de nossos filhos não será compreendida por eles, e que os pais precisam aprender a ser mais arbitrários.

            O psicanalista Charles Melman diz que hoje a saúde mental já não se origina mais da harmonia com o ideal de cada um, mas do objeto que possa trazer satisfação, que não há mais limites. Que cada um pode satisfazer publicamente suas paixões, contando com o reconhecimento social. Segundo ele, a imprensa e a mídia substituíram as fontes de sabedoria de outrora, daí resultando um indivíduo manipulável. Porque nessa sociedade permissiva todas as figuras de autoridade parecem abusivas, como se não ocupassem mais o seu lugar, até mesmo o lugar do pai na família.

            Hoje, o que vemos, são nossos jovens se vangloriando pela maior quantidade de pessoas com as quais “ficaram” durante uma noite, como se isso lhes tornassem pessoas mais completas e respeitadas. Jovens dizendo “eu sou de ninguém, sou de todo mundo, e todo mundo é meu também. Mas, passado o efeito da bebida ou da droga, os beijos descompromissados, ou as noitadas com parceiros e parceiras que nem serão capazes de reconhecer no dia seguinte, cobram o seu preço. Os consultórios terapêuticos estão cheios de jovens que reclamam da solidão, da ausência de interesse das pessoas e da rejeição. Eles não percebem que ser de todo mundo, não ser de ninguém, é o mesmo que não ter ninguém também... É estar fadado ao fracasso emocional e à solidão.

O ser ideal julga o ser real, e da severidade deste julgamento nasce um   sentimento de  culpa. Culpa por não sermos tão bons quanto gostaríamos, por não termos obtido o sucesso que queríamos, por não alcançarmos as expectativas, as nossas e as dos outros.  

E esta culpa  culmina num sentimento de profunda inadequação diante da vida, pois vem acompanhada da autopunição e autopiedade, gerando um estado depressivo na pessoa. A autopunição a leva a achar que não merece ser feliz, que tem que sofrer para pagar o delito cometido. Esse pensamento leva à depressão, que funciona como uma sentença, na qual a própria pessoa se impõe a pena. Com esta atitude ela se acha vítima das circunstâncias, como se o mundo conspirasse contra ela e se sente mais infeliz ainda, sentindo uma culpa ainda maior. Ela cai num círculo vicioso de culpa, autopunição e autopiedade.

Segundo o psicanalista Charles Melman,  hoje em dia, os jovens procuram o divâ não  pelo fato de reprimirem seus desejos, mas principalmente porque não sabem o que desejam. É uma situação totalmente original em relação a Freud. Antes, a pessoa recorria à psicanálise porque não ousava realizar seus desejos. Hoje, principalmente no caso dos jovens, é por não saber o que desejar.

Vivemos numa sociedade onde o normal virou patológico. Hoje, a palavra do momento é o estresse. Todo mundo vive estressado. É o trânsito, é o chefe que cobra muito, é a falta de dinheiro, é a falta de tempo, é a ameaça do desemprego, é a violência, e por aí vai. Um instrumento que foi desenvolvido ao longo da evolução para auxiliar o homem a agir em momentos de extrema ameaça, hoje transformou-se em um de seus maiores inimigos.

O estresse teve no homem primitivo a função de prepará-lo para enfrentar os perigos, desencadeando automaticamente mecanismos fisiológicos que preparavam o corpo para reagir; lutar ou fugir. Hoje, não temos mais as feras terríveis que nos ameaçavam, mas esses mecanismos continuam sendo disparados a cada vez que somos submetidos a um momento de tensão. O problema é que vivemos numa sociedade onde as tensões são constantes, não dando tempo para que o corpo absorva as toxinas produzidas por esses mecanismos.

Segundo o psiquiatra Augusto Cury, no livro A pior prisão do mundo, não é possível produzir homens maduros que sabem se conduzir se eles não aprendem a autocrítica, a pensar antes de reagir, a estabelecer limites para seus comportamentos e, principalmente, se não aprendem a desenvolver a sabedoria.

Capítulo 3. A medicalização da existência

 

“A vontade de tomar remédios é uma das principais características que distingue o homem dos animais”

George Orson Welles, produtor, diretor e papel principal, em 1941, de Cidadão Kane

 

O adoecimento, orgânico ou psíquico, pode ser um dos recursos para a regulação da homeostase do individuo, de suas relações com o meio e com os outros humanos. Diante das deficiências e da indisponibilidade de recursos mais evoluídos, são mobilizados recursos mais primitivos como tentativas para equilibrar a economia psicossomática.

            É importante considerar que, apesar de seu caráter mais primitivo e desviante, toda doença, é ainda uma tentativa do humano de alcançar o equilíbrio. A manutenção do equilíbrio psicossomático em patamares mais primitivos dependera da tensão e da capacidade do organismo de reorganizar-se para responder de maneira mais elaborada a tais situações.

            Ao longo da vida, somos permanentemente confrontados com exigências, incitações e apelos que partem do interior de nosso organismo, da realidade em que vivemos, e das pessoas que nos cercam.. Diante das ameaças da natureza ou da civilização, desde sempre buscamos abrigo nas mais primitivas cavernas ou em modernos condomínios , protegidos por sofisticados sistemas de segurança. As necessidades de sobrevivência e de proteção incitam formas de organização coletiva que ao mesmo tempo que tentam criar formas mais eficientes de produção de recursos e de proteção, tiveram como contrapartida a criação de regras de convivência, de expectativas do grupo com relação a seus membros, e de leis que regulam e muitas vezes cerceiam comportamentos e iniciativas individuais.

            Para lidar com exigências e necessidades como essas, e com muitas outras, o ser humano busca em principio alcançar os melhores recursos possíveis. Seu grau de desenvolvimento, eficiência e qualidade dependem de sua história de vida: seu patrimônio genético, suas experiências infantis, suas condições materiais de vida, suas experiências afetivas, relacionais, socioculturais, etc. Nesse contexto, modulado pelas relações com seus semelhantes, gradualmente se desenvolvem diferentes recursos orgânicos, comportamentais e psíquicos de complexidade crescente.

Para o psiquiatra da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Joel Birman,  "As pessoas padecem de uma falta de identidade e, em função disso, surgem as novas patologias".

Assim como mudaram as formas de sofrimento no mundo moderno, também surgiram novos casos de depressão e melancolia. Os deprimidos e melancólicos dos estudos de Freud, deixavam-se morrer. Hoje, os deprimidos, tomados por uma sensação de vazio, buscam ativamente a destruição, analisa a psicóloga Elisa Maria Ulhôa Cintra, da PUC-SP.

A clínica contemporânea vem apresentando crescentemente uma demanda que se liga a angústias profundas, presentes em todos os seres humanos, e que se expressam como queixas relativas à falta de sentido da vida, aos sentimentos de futilidade da existência, às depressões, ao pânico, à violência e à drogadição. São sofrimentos que comprometem basicamente a qualidade do viver e do sentir.

            Inúmeras são as evidencias que revelam que no homem, as representações e as manifestações corporais, sejam elas anatômicas, fisiológicas ou citológicas, não se esgotam na dimensão biológica. A clínica paga um pesado tributo pelo não reconhecimento da transcendência dessa dimensão vivida pelo paciente, a impossibilidade freqüente de compreender o sofrimento do paciente, sempre referido a essa outra experiência de seu corpo.

            O desenvolvimento do ser humano aponta para a formação de estruturas e de funções cada vez mais complexas. O objetivo desse desenvolvimento é assegurar o equilíbrio de um organismo permanentemente solicitado por estímulos internos e externos. Durante a vida, o ser humano vaga em um oceano turbulento onde todo equilíbrio é instável e fugaz. Dentro desse movimento de vida, pode encontrar seu equilíbrio em movimentos regressivos de destruição e de desorganização.A doença, orgânica ou psíquica, é parte dos meios do individuo para regular sua homeostase, suas relações com o meio e com os outros humanos.

            O organismo confronta-se permanentemente com a emergência e o afluxo de excitações e a necessidade de descarregá-las. Para isso, ele conta essencialmente com três vias: a via orgânica, a ação e o pensamento, que, nessa ordem, representam o grau hierárquico progressivo da evolução dos recursos do indivíduo para responder aos estímulos, internos ou externos, aos quais é submetido.

            A saúde, o sintoma e a doença são manifestações que resultam de um jogo complexo de forças quase sempre desconhecidas do individuo. Diante do sofrimento, paciente e terapeuta devem não apenas eliminá-lo mas compreender a historia a partir da qual ele se constituiu.

A manifestação dos sintomas é um sinal de que algo não vem fluindo bem há algum tempo; esses sintomas representariam a quebra dos limites do sujeito. Assim, quando o nível de suportação de adversidades é extrapolado, as alterações emocionais tornam-se presentes, antes e durante o curso da patologia, podendo estas alterações emocionais ser dos mais diversos cunhos, seja um sentimento de insegurança, retraimento social, dificuldade para expressar seus sentimentos, sensibilidade afetiva muito aumentada, incapacidade de lidar com perdas e frustrações.

            É importante considerar que toda doença – mental, somática ou comportamental , apesar de seu caráter desviante e regressivo, é ainda uma tentativa de estabelecimento de um equilíbrio do organismo, que não consegue enfrentar as tensões internas ou externas ás quais está submetido por intermédio de recursos mais evoluídos.

            O desenvolvimento humano, tanto quanto a doença, obedecem a uma relação dialética contínua entre psique, soma e o meio no qual ele vive, que busca permanentemente alcançar um equilíbrio constantemente ameaçado.

            Assim, é impossível estabelecer uma causalidade única – emocional, orgânica ou exógena para a compreensão da dinâmica do adoecer.

            Uma pessoa bem estruturada no seu funcionamento psicossomático, que sem dúvida inclui também suas defesas imunológicas, com recursos suficientes para elaborar e escoar a excitação acumulada, pode suportar altos níveis de tensão e acontecimentos intensos reagindo com perturbações de menor intensidade e duração limitada, com um melhor prognóstico de reversão. Uma outra pessoa, de estrutura mais frágil, pode desorganizar-se e adoecer diante de acontecimentos ou vivencias aparentemente insignificantes, surpreendendo pela virulência e pela rapidez da evolução patológica.

            Qualquer sintoma, mental ou somático, é antes de tudo, uma manifestação do sofrimento do sujeito, uma demanda oriunda das marcas de seu desamparo mais fundamental e inevitavelmente dirigida para o outro, independentemente de sua etiologia ou de sua forma, o sintoma e a doença são por eles mesmos perturbadores do equilíbrio da economia psicossomática, pela ameaça que eles representam para a integridade do indivíduo.

As pessoas que hoje vão a um médico o fazem com a mesma expectativa de seus antepassados: encontrar alguém que as ouça. Muitas vezes basta isso. No entanto, o diálogo deu lugar a uma enxurrada de exames. O resultado é que o médico conversa cada vez menos com o paciente, toca menos na pessoa que o consulta. Houve ganho porque não há toque que substitua uma tomografia computadorizada no caso de um tumor no cérebro. Mas, ao deixar de ouvir e examinar com as próprias mãos o paciente, o profissional da saúde também perdeu sua humanidade.

O efeito da prescrição de um medicamento vai além do que no orgânico ele, como elemento bioquímico, pode causar. O ato de prescrever é o fechamento de uma cena que envolve médico e paciente, onde o primeiro escuta, observa e ausculta aquilo do que o segundo se queixa, decodificando o mal estar manifesto na fala e no corpo em algo que, segundo o conhecimento médico, possa ser remediado, potenciando ou enfraquecendo os efeitos de um fármaco a ser tomado por um sujeito conforme as orientações do médico.

Os psicotrópicos tendem a diminuir ou amortizar o sofrimento psíquico do sujeito, que vive sua dura realidade sempre com muita angústia. O uso cotidiano de aspirinas, antidepressivos e calmantes, até os mais poderosos, aponta para uma cultura que tende a não tolerar nenhuma dor. Analgésicos, estimulantes, relaxantes musculares, etc. A responsabilidade pelo estado de espírito do sujeito parece ser dividida com o remédio que pode modificar a intensidade de suas sensações, a velocidade de seus pensamentos, e conter a potência e a destrutividade dos sintomas e da angústia.
A psicofarmacologia e as neurociências são, em primeiro lugar, um fato da mídia. Diariamente somos informados do lançamento de substâncias capazes de tratar os mais variados males e da descoberta de suas causas: impotência, depressão, euforia, bulimia, anorexia, delírio, alucinação, angústia, medo, obsessão, desamparo. A lista é extensa e continuamente renovada.

No processo de redução da enfermidade à doença, a atenção dos médicos desviou-se do paciente como pessoa total. Enquanto a enfermidade é uma condição do ser humano total, a doença é a condição de uma determinada parte do corpo; e em vez de tratarem pacientes que estão enfermos, os médicos concentraram-se no tratamento de suas doenças.

A descoberta de correlações entre a atividade mental e a estrutura do cérebro gerou grande entusiasmo entre os neuroanatomistas, levando alguns deles a postular que o comportamento humano podia ser reduzido a um conjunto de faculdades ou traços mentais independentes, localizados em regiões específicas do cérebro.

Os distúrbios psíquicos seriam provocados por alterações da neurotransmissão em determinadas regiões do cérebro: aumento ou diminuição dos neurotransmissores, maior ou menor disponibilidade dos receptores, interferências em suas relações recíprocas. Essas alterações,por sua vez, poderiam ser provocadas por causas adquiridas - infecções, tumores,deficiências nutricionais, fatores psicológicos ou por causas genéticas, as principais. Neste caso, os genes determinariam, por vias ainda desconhecidas, o funcionamento cerebral e seus distúrbios e poderiam ser entendidos como a causa primeira,a causa das causas,como aquilo que acionaria o conjunto de eventos cuja resultante final seria o fenômeno psíquico e psicopatológico
O fenômeno psicopatológico é concebido, portanto, como produto de um distúrbio neurofisiopatológico, tratável farmacologicamente. O sintoma expressaria no plano psíquico aquilo que é primariamente um transtorno da neurotransmissão cerebral, manifestaria em um registro aquilo que é alteração do outro.

A depressão é uma doença muito importante nesse momento da história do mundo. O depressivo não é uma pessoa triste, chorando, culpando-se, desligada ou com aquela famosa figura do bonequinho com os lábios para baixo, olhos tristes e lágrimas. há pessoas que estão rindo todo o tempo, há que rir para não chorar. e há depressões mascaradas, que aparecem de forma somática. Existem pessoas que estão muito bem aparentemente, mas tem um profundo processo depressivo, e esse estado pode expressar-se, por exemplo, em forma de gripes constantes ou trantornos gastrointestinais, ou as vezes complexos fenômenos psicossomáticos.

O sedentarismo e a obesidade já são reconhecidos como os males do século 21. A maioria das pessoas anda tão dependente das comodidades produzidas pelas novas tecnologias que as vezes se atrapalha em utilizar um aparelho sem o controle remoto. O problema é que esse estilo de vida é o principal responsável pelo sedentarismo e pela obesidade.

Entre o psíquico e o psicopatológico haveria uma diferença que é função de uma diferença puramente biológica. É a intervenção do biológico que pode transformar o psíquico em psicopatológico já que o psíquico,,ele mesmo, não pode produzir nada, por ser apenas um produto.A causalidade nunca poderia ser psíquica, apenas extra-psíquica e neurobiológica.

O fenômeno psicopatológico é tanto um ponto de ruptura na trama da existência de um sujeito, como também na própria sequência dos fenômenos biológicos que seriam sua causa. Há claramente um hiato entre aquilo que é a causa e aquilo que é o efeito.

Com o avanço da farmacologia e da tecnologia médica, cada vez mais difunde-se a ideologia de que há remédio para o mal-estar do sujeito. A promessa de um bem-estar pleno é o que a medicalização do sofrimento veicula, e nos dias atuais coloca em questão a subjetividade e a história de vida do sujeito.

O sujeito, como ser falante, está submetido à estrutura da linguagem que também ordena as relações sociais. O sujeito se faz representar no seu discurso e, ao mesmo tempo revela algo da sua cultura, algo das referências simbólicas do seu grupo social, do seu país, da sua raça, da sua religião.

O DSM, Manual de descrição de doenças mentais, resumiu a doença a seus sintomas manifestos, podendo ser classificados e analisados independentemente das particularidades dos sujeitos que os sofrem.

            O DSM produz, assim, uma transformação radical na clínica psiquiátrica, onde a ênfase se desloca da análise do sujeito para o tratamento de casos. Enquanto os sujeitos são definidos por sua singularidade, os casos são constituídos pela sua semelhança na apresentação de sintomas.

A difusão social do conceito da doença tem o objetivo de fazer com que o próprio paciente possa fazer seu diagnóstico e sugerir  até mesmo o tratamento farmacológico que achar conveniente.

O sintoma pode ser o resultado da incapacidade do psiquismo a se adaptar ao funcionamento neurofisiológico. Assim, o uso de medicação permanente para reequilibração deste funcionamento, pode ser necessária, acompanhada por um processo psicoterápico, que monitore os sintomas nas diversas estâncias da vida do paciente, inclusive naquelas que ele não considera como indicadoras de patologia.

Com a expansão da medicina, o antigo ideal cristão de salvação é substituído pelo ideal da preservação da saúde, associado ao mito de que ela pode ser obtida através da regulação cientificamente fundamentada de cada aspecto da vida individual.
No final do século XIX, Sigmund Freud, inicialmente um neuropatologista, desenvolveu um modelo de tratamento psicológico que revolucionou o entendimento da mente humana, ao qual deu o nome de psicanálise.

Durante anos, muitos dos psicanalistas entendiam as neuroses como exclusivamente "psicológicas", entendendo os tratamentos "biológicos" como inapropriados ou indesejados, uma vez que causariam apenas supressão dos sintomas, paliativamente, e, portanto, obstruiriam a exploração do problema "real". Desta forma, a medicação agiria não a serviço da cura, mas a favor da resistência. Especialistas em farmacoterapia, por sua vez, afirmaram que a psicoterapia era desnecessária ou até mesmo danosa, pois mantinha os pacientes preocupados com assuntos carregados de conflitos insalubres.

Revisando o uso adjuvante da medicação na psicoterapia, concluiu-se que as medicações eram mais úteis no alívio dos sintomas a curto prazo, permitindo que o paciente se tornasse mais acessível à exploração psicoterapêutica.

As drogas teriam seu maior efeito na formação dos sintomas e nas alterações afetivas, e fariam efeito mais precocemente, enquanto a psicoterapia influenciaria mais diretamente nas relações interpessoais e no ajustamento social, com efeito mais tardio e mais prolongado.

A decisão do uso de uma medicação psicotrópica requer uma consideração cuidadosa. O psiquiatra deve estar atento a que a decisão de prescrever um medicamento pode ser influenciada pelos seus próprios conflitos e desejos inconscientes. Tal decisão pode indicar uma incapacidade do terapeuta em suportar a necessária lentidão do processo psicoterápico. O psiquiatra pode, também, não estar conseguindo tolerar, conter, os afetos dolorosos, como a raiva e a tristeza, e medicar para aliviar a sua ansiedade.

O paciente que inicia um tratamento deseja uma solução para seu sofrimento. Ele tem a ambição de encontrar um remédio para sua dor. No entanto, o que a análise revela é que os seus sintomas não são meros sinais de uma doença qualquer vinda de fora; eles não indicam uma simples disfunção suscetível de ser reparada por um especialista. Pois o sintoma, no sentido psicanalítico, é um fato de estrutura, sendo a expressão da relação do sujeito com o desejo e, por isso, diz respeito a uma questão ética, isto é, das escolhas que o sujeito faz na vida. Por conseguinte, o que uma psicanálise oferece é a possibilidade de o sujeito, a partir de sua própria fala, atravessar a sua fantasia inconsciente, que concerne exatamente ao seu modo singular de agenciar sua relação com o desejo.

 Decorre do que foi dito, que o sintoma analítico não possui remédio, pois não é possível o sujeito se curar de si mesmo, do modo como ele responde a questão do desejo. No entanto, com o avanço da farmacologia e da tecnologia médica, cada vez mais difunde-se a ideologia de que há remédio para o mal-estar do sujeito. A promessa de um bem-estar pleno é o que a medicalização do sofrimento veicula e nos dias atuais coloca em questão a possibilidade da psicanálise.

A própria mente só pode ser entendida como  resultante da interação de milhares pe processos cerebrais, orquestrados por interligações neuronais, algumas delas, filogeneticamente herdadas, permitindo que o estudo da neuroanatomia e neurofisiologia cerebral defina ligações entre determinadas regiões e determinados processos mentais.

Entretanto, a maior parte das ligações não está geneticamente determinada, mas vão se formando no decorrer de nossa vida, orientadas pelos estímulos externos que recebemos e pela própria vivência subjetiva que produzimos, ou seja, são ontogeneticamente determinadas. Características próprias e individuais que fazem aquele indivíduo se reconhecer e ser reconhecido.

Aquilo que percebemos como um psiquismo normal é o resultado de um processo ininterrupto e cumulativo, de assimilação de novas percepções e acomodação do sistema nervoso a essas novas experiências desde a formação da placa neural no ectoderma do embrião até o momento presente do indivíduo. Pensado desta forma o funcionamento psíquico se torna a emergência funcional de comportamentos capazes de equilibrar o funcionamento das estruturas neurofisiológicas com as experiências vividas no presente pelo indivíduo.

Também temos de considerar que o funcionamento do cérebro não é uniforme, nem os neurotransmissores possuem atuação específica em um determinado sintoma. Essa a diversidade e especialização do cerebro fazem com que a alteração sistêmica global produzida pela medicação, apesar de produzir os benefícios pela alteração do equilíbrio neuroquímico em uma determinada área cerebral, irá ao mesmo tempo desequilibrar outras áreas do cérebro ou mesmo alterar interações do sistema nervoso com músculos ou vísceras, produzindo, em maior ou menor intensidade efeitos colaterais, que freqüentemente são tão ou mais incômodos para o paciente que a própria doença.

De forma oposta, várias das "doenças mentais" não possuem base orgânica, pelo menos até o momento determinada. São causadas por produções subjetivas do próprio paciente. Fobias, neuroses, estresses pós-traumáticos e outras podem se dar em pessoas neurofisiologicamente sãs, mas que desenvolvem suas patologias após a vivência de determinadas situações.

 Além disso, é necessário pensar que a ontogênese de um determinado indivíduo se dá através da utilização de um determinado conjunto de mecanismos neurofisiológico. Ele descobre como aprender, se relacionar, amar e ser ele mesmo através desse mecanismo. Qualquer mau funcionamento dessas estruturas foi compensado e utilizado durante a formação da personalidade. Pode inclusive integrar as capacidades mais preciosas para aquele indivíduo. Aí nos deparamos com um problema: a "cura" pode resultar em prejuízos maiores que a "doença".

Ansiolíticos, antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores de humor, hipnóticos e tranqüilizantes devem ser adequadamente ministrados a pacientes que não apresentem melhora dos sintomas quando em processos psicoterápicos. Da mesma forma, pacientes que procuram uma abordagem medicamentosa devem ser encaminhados a processos terapêuticos concomitantes. Sob um outro enfoque, pode-se pensar na produção do sintoma por duas vias: A primeira é o sintoma como uma emersão psicológica produzida pelo psiquismo para prover sua equilibração. Nesse caso a medicação, e a supressão inicial do sintoma, resultará em um desequilíbrio ainda maior e a intensificação daquele sintoma, ou ainda o surgimento de nova sintomatologia equilibradora. Esse é o caso observado nas conversões somáticas e também a razão pela resistência de certos pacientes à medicação.

Por outro lado, o sintoma pode ser o resultado da incapacidade do psiquismo a se adaptar ao funcionamento neurofisiológico. Assim o uso de medicação permanente para reequilibração deste funcionamento pode ser necessária, acompanhada por um processo psicoterápico que monitore os sintomas nas diversas estâncias da vida do paciente, inclusive naquelas que ele não considera como indicadoras de patologia.
A medicação é usada como sistema de controle, não como resolução de um sofrimento; como controle das circunstâncias que, se controladas, supostamente vão parar o sofrimento. Ou seja, controla-se o sintoma, mas o sofrimento não pára. Quando alguém doente psiquicamente tem seus sintomas controlados, mas seu sofrimento não, ele não tem como responder a esse sofrimento. Por que, justamente, os sintomas são fabricados para responder ao sofrimento, para poder suportá-lo. Quando ele se vê privado desses elementos sintomáticos que têm a finalidade de permitir suportar, se defender contra o sofrimento que seu fantasma lhe causa, ele não sabe o que fazer com seu fantasma. Por isso, há tanta gente desorientada, apesar da medicação.

As pesquisas mais recentes mostram que depressões, surtos psicóticos e ataques de pânico alteram a estrutura cerebral em termos químicos (neurotransmissão), microscópicos (neurônios, dendritos e axônios) e finalmente estruturais (volume de certas estruturas cerebrais). O tratamento precoce e o bloqueio de recaídas restaura as funções e estruturas ao estado normal.

É comum que pacientes demandem ou recusem determinada medicação pelo significado imaginário colado ao objeto real, produto de metáforas que o discurso social produz. Pacientes psicóticos podem recusar o consumo de medicamentos antipsicóticos, porque o diagnóstico de que Está louco vem junto com a prescrição do remédio.

Assim, o uso de um medicamento anti-psicótico acarretaria numa desvalorização do sujeito, e não em um tratamento.

A ciência tem permitido introduzir o sofrimento e a doença mental no terreno da racionalidade. No último século, a superação da separação entre o psiquismo e o organismo levou a inclinação de centrar cada vez mais no organismo a determinação desse sofrimento. Porém, o conjunto das pesquisas da última década indica que o organismo humano é especial e particularmente sensível às condições que a cultura, a simbolização e o conjunto das significações sustentadas no campo da linguagem provocam.

É a partir destas considerações que os efeitos de um fármaco, e mais ainda os de um psicofármaco, em que o humano falante, atravessado pelo significante, nunca vão serem os mesmos que nos animais de laboratório da ciência experimental. É neste sentido que se parece possível situar na clínica psicanalítica os efeitos dos psicofármacos e sua eficácia, em termos do simbólico, do imaginário e do real. Ou seja, que a psicanálise pode conter a idéia dos psicofármacos. No entanto para isso terá que ser situado o possível lugar e função dos psicofármacos na estrutura, em cada caso particular. Os psicotrópicos tendem a diminuir ou amortizar o sofrimento psíquico do sujeito, que vive sua dura realidade sempre com muita angústia. O uso cotidiano de aspirinas, antidepressivos e calmantes, até os mais poderosos, aponta para uma cultura que tende a não tolerar nenhuma dor. Não há necessidade de resistir ao sofrimento, ele tende a ser banido do horizonte da boa saúde. A responsabilidade pelo estado de espírito do sujeito parece ser dividida com o remédio que pode modificar a intensidade de suas sensações, a velocidade de seus pensamentos, e conter a potência e a destrutividade dos sintomas e da angústia. A medicação interfere na intensidade pulsional do sujeito podendo criar condições de elaboração dos conflitos, porém, quando super-utilizadas, a longo e médio prazo, as drogas restringem e perturbam a sensibilidade dos pacientes.

Seja como for, os psicofármacos, melhor do que qualquer outra química, podem tornar melhor a vida de alguns pacientes. O uso que se faz das medicações tem um vetor muito claro na busca do alívio ou da atenuação do sofrimento, e, por esse motivo, resulta na diminuição da tolerância do sujeito à dor, de sua capacidade de elaboração masoquista.

Sem dúvida, os critérios de melhora dos métodos farmacológicos são definidos no interior de uma concepção psicopatológica e ética que considera a eliminação pura e simples dos sintomas como uma vantagem autoevidente, que justifica todos seus esforços e procedimentos. Contudo, o efeito da medicação não tem o poder de alterar qualitativamente os sentimentos e as representações presentes nos conflitos dos pacientes. Não há remédio para ciúmes, para inveja, para ambição, cobiça, fúria, raiva, e assim por diante. Neste ponto, a psicanálise tem muito a oferecer. O que permite a continuidade de um tratamento é a análise dos conteúdos psíquicos e do discurso do paciente, pois é aí que os conflitos podem ganhar elaboração. Os psicofármacos de um modo geral não promovem, por si sós, formas para o trabalho de resignificação e transformação dos motivos subjetivos da angústia. A psiquiatria biológica reconhece o fato de que os remédios não curam, apenas suprimem os sintomas em quase 70% dos casos.
No que diz respeito ao uso de psicofármacos, é a implicação do sujeito em seus desejos de alívio e prazer ligados ao objeto-droga, e ao poder médico, que o psicanalista busca durante o tratamento. Quando o paciente não consegue suportar as angústias de viver, ele deseja uma receita que o desobrigue do enfrentamento e da dificuldade dessa conquista, como se sua condição não guardasse qualquer relação com seus desejos.

É parte do senso comum contemporâneo a idéia de que várias formas de sofrimento, de mal estar, de distúrbios psíquicos, são causados, tratados e curados biologicamente,que já conhecemos o modo de funcionamento de nossos cérebros e mentes e que a ciência já teria descoberto ou estaria prestes a descobrir as razões últimas da normalidade e anormalidade do homem.

Os distúrbios psíquicos seriam provocados por alterações da neurotransmissão em determinadas regiões do cérebro: aumento ou diminuição dos neurotransmissores, maior ou menor disponibilidade dos receptores, interferências em suas relações recíprocas.

Estas alterações, por sua vez, poderiam ser provocadas por causas adquiridas - infecções, tumores,deficiências nutricionais, fatores psicológicos... ou por causas genéticas, as principais.

As neurociências são apresentadas como se pudessem oferecer,ao mesmo tempo,as provas afirmativas da veracidade das posições da psiquiatria biológica e as provas negativas para a refutação de todas as outras disciplinas.

 A psicanálise acumulou conhecimentos sobre as emoções humanas, as relações afetivas, o desejo, a ambição e sobre os aspectos patológicos de todas essas motivações que orientam os impulsos, o pensamento e as ações do ser humano. É essa experiência acumulada que a psicanálise procura compartilhar com a sociedade para ajudar o homem na busca de um maior conhecimento sobre si mesmo, a descobrir suas capacidades, aceitar suas limitações, lidar com elas e poder desenvolver ações conseqüentes que revertam na melhoria de sua qualidade de vida.

A Psicanálise nos fornece instrumentos para compreender e interferir sobre o mal-estar da civilização e ultrapassa uma prática terapêutica individual. Esta interferência alicerça-se no diálogo com outros campos do conhecimento para refinarmos nossa apreensão da complexidade da realidade que nos cerca.

A euforia associada às neurociências e à biologia é correlativa de uma marcante biologização do homem. Para os defensores mais radicais do biologicismo, que se instalou no pensamento moderno, a natureza humana se reduz à sua estrutura biológica, o mal estar que a afeta é explicável biologicamente, seu tratamento é biológico  e tudo isto já estaria definitivamente comprovado pela ciência.

Os fármacos são apresentados como eliminadores de mal-estar, atualizando a memória das funções do corpo, sem convocar o sujeito à construção da sua verdade.

 

Capítulo 4.  Psicotrópico - o último recurso

 

“Os psicotrópicos substituem o compromisso do sujeito de enfrentar a realidade”

 

O uso de substâncias psicoativas, seja com finalidades curativas ou com outros fins, acompanha o homem de formas diversas ao longo da história da civilização, adquirindo significados muito distintos.

Desde tempos imemoriais, sabe-se que substâncias químicas introduzidas no corpo podem modificar estados psíquicos. Alcool, ópio, haxixe, cocaina, alucinógenos... foram usados largamente na história, pelas mais diversas civilizações, associados `as práticas de cura, de união com os deuses e com o sagrado, de revelação e aquelas puramente festivas.

A liberdade dos usos e costumes levou ao abuso das drogas. Nesse caso a instituição social oferece gratuitamente seringas descartáveis, gasta milhões nas internações hospitalares, etc, mas não se diz uma palavra que sugira responsabilidade no exercício da liberdade de comportamento.

O jovem de hoje bebe para esquecer suas frustrações pois não sabe como lidar com elas. Muitas vezes os pais não tiveram tempo ou paciência para lhes ensinar que, problema, se resolve aos poucos, através de várias tentativas, e não magicamente através do falso e traiçoeiro prazer que o álcool proporciona.

A sedução exercida pelo uso de certas drogas, atualmente, pode ser entendida como uma tentativa de encontrar um objeto externo capaz de apaziguar nossas inquietações, ou dotar-nos do poder necessário para o exercício de uma vida social satisfatória.

O problema é que quem pensa poder tratar a dor de existir recorrendo ao uso de drogas não sabe que corre o risco de trocar uma economia psíquica regida pela linguagem por outra, regida pelos instintos mais primitivos.

A busca constante por estímulos prazerosos, como alimentos saborosos, uma cerveja geladinha e a relação sexual excitante, está associada a um "sistema cerebral de recompensa", assim denominado pelo neurobiólogo americano James Olds nos anos 60. Trata-se de uma complexa rede de neurônios que é ativada quando fazemos atividades que causam prazer. Este sistema nos fornece uma recompensa sempre que fazemos determinadas atividades, levando-nos, portanto, a repetir aqueles atos. Biologicamente, ele tem uma função específica e essencial: garantir a sobrevivência do indivíduo e da espécie, ao dar motivação para comportamentos como comer, beber e reproduzir-se.

Infelizmente, não somente as funções fisiológicas normais estimulam este sistema, mas também o fazem o álcool e outras drogas de abuso, e às vezes gerando um prazer muito mais intenso do que as funções naturais.

Segundo Silvia Helena Cardoso, psicobióloga, mestre e doutora em ciências, "quando uma pessoa usa uma droga psicoativa e o efeito por ela produzido é de alguma forma agradável, este efeito adquire o caráter de uma recompensa". Estudos experimentais comprovam que todos os comportamentos que são reforçados por uma recompensa tendem a ser repetidos e aprendidos. Estudos mais recentes demonstraram que o sistema de recompensa é subjacente a drogas como morfina, heroína, cocaína, álcool e até mesmo a nicotina do cigarro.

Mas isso não é tudo. Precisamos também entender melhor os mecanismos psicológicos individuais e sociais que estão por trás do fenômeno da drogadição. Afinal, todos nós temos esses sistemas cerebrais, neurotransmissores e receptores, mas apenas alguns de nós sucumbimos ao abuso de drogas.

Existe uma  diferenciação entre o usuário recreativo e o dependente de drogas. Embora a fronteira entre estas duas categorias não seja nítida, alguns elementos podem nos guiar nesta discriminação: a grande maioria dos usuários de droga não é e nunca vai ser dependente do produto; na grande maioria das vezes a droga é procurada como fonte de prazer tanto pelo usuário como pelo dependente; o dependente de drogas é um indivíduo para quem a droga passou a desempenhar um papel central na sua organização psíquica, na medida em que, através do prazer, ocupa lacunas importantes, tornando-se assim indispensável ao funcionamento psíquico daquele indivíduo.

Outro ponto fundamental a ser destacado é a especificidade da dependência humana: o ser humano busca ativamente a droga, enquanto que um animal só se torna farmacodependente através das mãos do homem. Esta constatação é importante para que o fenômeno dependência não seja, de forma extremamente simplista, reduzido a seus aspectos biológicos.

O que distingue então o usuário do dependente de drogas? O dependente é um indivíduo que se encontra diante de uma realidade objetiva ou subjetiva insuportável, realidade esta que não consegue modificar e da qual não consegue se esquivar, restando-lhe como única alternativa a alteração da percepção desta realidade. Esta alteração da percepção da realidade pode ser por ele obtida através do uso da droga. Se tivermos em mente que a relação de dependência com a droga é a única alternativa que restou para este indivíduo, torna-se compreensível que o comportamento de drogar-se se efetive através de um ato impulsivo. Não se trata do desejo de consumir drogas, mas da impossibilidade de não consumí-las. Para o dependente, a droga é uma questão de sobrevivência.

Do sujeito toxicômano muito se fala, mas pouco se escuta. Muito freqüentemente não se escuta o toxicômano, porque há consensos em nossa sociedade e, em geral, as diferentes instâncias que abordam a questão (escola, serviços de saúde e a justiça) não se dispõem a questionar esses consensos, resultando no ensurdecimento e no engessamento das possibilidades de escuta e de acolhimento digno. Não há muita disponibilidade para ouvir sobre suas histórias, pois os toxicômanos estão investidos de um imaginário que remete suas práticas ao gozo, à irresponsabilidade, à delinqüência

e à afronta aos hábitos e costumes. O sofrimento e o mal-estar que vivem, muitas vezes, ficam invisíveis.

Quanto à abordagem da abstinência, há uma aproximação entre a redução de danos e a clínica psicanalítica, na reafirmação da importância da abstinência do lado do analista, dos nossos ideais, permitindo a escuta do sujeito toxicômano, auxiliando-o, na direção do tratamento, a posicionar-se em relação ao cuidado de si, ao cuidado dos outros, de seus atos e ao mundo em que vive.

A escuta analítica tem uma importante função na clínica das toxicomanias. Esta escuta pode abrir vias, escavar algo entre a necessidade e a demanda que vislumbre um lugar para o sujeito.

O uso e a dependência de álcool e drogas é um fenômeno complexo determinado por fatores genéticos, psicológicos e sociais.

Usa-se então as drogas para anestesiar o sofrimento e bloquear a possibilidade de sentir dor emocional. O dependente torna-se emocionalmente insensível com a drogadição, arruinando-se e a seus projetos.

O dependente não adoece por ter começado a tomar drogas; mas, por já estar adoecido existencialmente, faz das drogas uma ten­tativa de "solução" ou "cura" de suas feridas mais íntimas.

Conhecer intelectualmente os efeitos nocivos das drogas e somente parar de tomá-las não modifica a pessoa dependente. Tratamentos destinados a apenas a desintoxicação não têm um resultado duradouro. É preciso que o dependente pare de tomar drogas para poder pensar, refletir, ou melhor, trabalhar-se, para mudar sua visão de mundo e valores, a fim de descortinar novas possibilidades de escolha, transformando seu plano suicida em projeto de vida. Sem esse trabalho interior, é muito difícil, para quem quer superar sua dependência, encontrar ou buscar respostas novas e construtivas aos proble­mas e crises da existência.

Para transformar o projeto suicida em projeto de vida, é condição funda­mental a pessoa dependente de droga estar sinceramente disposta a trabalhar-se. Essa disponibilidade é o "fermento na massa" para o cres­cimento pessoal e social. Sem estar autenticamente disponível ao trabalhar-se, as mudanças serão somente aparentes e temporárias.

Conforme constrói seu projeto de vida, a pessoa vai exercendo sua intersubjetividade de forma mais genuína e em direção ao semelhante, agregando-se ao tecido social saudável e forte.

O uso de droga é uma tentativa de "solução" ou "cura" para os problemas de uma existência já adoecida por um viver sem sentido na sociedade consumista. Uma droga consumida tem para o usuário, sem ele saber exatamente, o significado de um "remédio", ou melhor de um "mau remédio".

Na via do tóxico o sujeito desaparece, deixando um corpo-organismo em funcionamento. No lugar das palavras que fariam do organismo um corpo, a carne apresenta-se nua, sem a roupa da linguagem.

Para a Antropologia, a felicidade sempre esteve relacionada e imaginada como algo coletivo, fruto de uma ampla mobilização social. Hoje, com a droga, ela pode ser obtida como a singular construção de uma individualidade.

A felicidade não é produto da sorte, do destino, da herança genética ou social, nem de qualquer outra forma de determinação. A felicidade tem que ser conquistada. O homem conquista a felicidade aprendendo a aceitar e a expressar os seus desejos e sentimentos, transformando-os em vontade própria, com ela construindo seus próprios projetos de vida e empenhando-se para realizá-los. 

Aceitar que tudo na vida é relativo e passageiro, que está só no mundo e que só conta consigo mesmo para realizar seus desejos, vontades e projetos.  

Buscar se auto-conhecer e se auto-determinar, tra

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    Fonte do Artigo no Artigonal.com: http://www.artigonal.com/psicologiaauto-ajuda-artigos/os-males-da-vida-moderna-e-a-dependencia-quimica-853324.html

    Palavras-chave do artigo:

    medicalizacao

    ,

    mal estar na civilizacao

    ,

    existir humano

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    Por: Gilson Tavaresl Psicologia&Auto-Ajudal 06/04/2009 lAcessos: 2,138

    Comments on this article

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    Gilson Tavares 27/07/2009
    Obrigado por acessar esse artigo e obrigado pelo comentário.
    Não sei o que acontece com os artigos publicados nesse site, talvez haja algum limite para tamanho do arquivo. Mandei novamente o arquivo completo mas continua publicado truncado.
    No site webartigos.com você encontra o artigo completo.

    O autor
    0
    Juliana Araújo 17/07/2009
    Cadê o final do texto "Os Males Da Vida Moderna E A Dependência Química"?
    É um execelente trabalho,gostaria que vcs acrescentassem o texto que tá faltando.

    Juliana
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