A mulher e o feminino em conflito

16/07/2010 • Por • 4,603 Acessos

A mulher e o feminino em conflito

 

Ele abrir a porta do carro;

Ele pagar a conta do restaurante;

O homem se levantar para que a mulher se sente;

O homem permitir que a mulher saia na frente em casos de perigo ou salvamento ;

O homem andar pelo lado de fora da calçada (p/ proteger a mulher);

Ter um dia especial para comemorar nada e ganhar presente;

Ser cuidada e protegida;

Poder cuidar de si (massagem, manicure, cabeleireiro);

Ganhar um mimo (flores, bombons, mensagens) só por agrado;

Ver o primeiro dente de seu filho despontando;

Educar, participando integralmente, dos momentos de crescimento dos filhos;

Constituir família e não só juntar pessoas numa mesma casa;

Ser mãe e não só ter filhos;

Poder cuidar de sua própria casa;

Ter tempo para si, para sua casa, para seus filhos, para o marido;

Não precisar se preocupar com as contas;

Não precisar se preocupar com quem vai ficar com os filhos ou em qual escola poderão ficar;

Poder fazer o desmame tranquilamente;

Qual mulher não gostaria que lhe acontecesse pelo menos cinco das situações acima? Mas será que estamos caminhando para o que realmente desejamos? Qual será nossa relação com o feminino?

Presas, e de certa forma cegas, aos nossos próprios conflitos, aos nossos devaneios, às nossas indefinições, nos dirigimos a uma pseudo-liberdade, que nos constitui somente quando exteriorizamos nossas conquistas, mas, ao mesmo tempo, denota um vazio, onde a busca por objetos e emoções não preenchem de dinheiro nossos bolsos, nem de amor nossos corações.

Se antes, as mulheres se sentiam oprimidas porque cuidavam da casa e dos filhos, não tinham uma carreira, não ganhavam seu próprio dinheiro, não tinham voz ativa na sociedade e acreditavam que nesta posição eram vítimas dos desmandos dos homens, hoje, têm o direito de se sentirem mais mulher, mais valorizadas socialmente, pois podem sair pela manhã e trabalhar o dia inteiro (como os homens) e ainda lutar por reconhecimento profissional, mesmo porque não se sentem iguais aos homens, mas podem se dedicar ao trabalho, tanto quanto eles.

Hoje, podemos chegar em casa, depois de trânsito e/ou condução lotada, depois de exigências e preocupações no trabalho, e ainda sermos dona de casa, verificando as roupas, os alimentos, os filhos – que estavam sob cuidados de outra pessoa, que nós pagamos; hoje, podemos nos preocupar com as contas da casa, com a falta de dinheiro, com ter que acordar cedo no dia seguinte; mais ainda, podemos assumir o antigo papel materno de rever as lições, levar filhos ao médico, ir a reuniões escolares. Ah! dar um beijo de boa noite.

Somos fortes, muito mais fortes que os homens. Temos cólicas menstruais, temos filhos por parto normal ou cesariana, passamos todo anos por exames ginecológicos – coisas que nenhum homem agüentaria, pois não suportam nem um resfriado.

Somos livres para nos protegermos, pois estamos tão expostas quantos os homens; livres para sermos violadas e massacradas, tão agressivamente quanto os homens numa guerra; livres para sofrermos de patologias, antes consideradas masculinas; livres para não constituirmos famílias, pois nenhum homem está a nossa altura; livres para deixarmos que outros cuidem e eduquem nossos filhos, pois não temos tempo pra fazê-lo; livres para não sermos cuidadas, pois isto demonstraria nossa inferioridade; livres para nos sentirmos mais importantes, pois trabalhamos 10, 12 horas por dia, nos sustentamos e temos um dia só nosso (dia internacional da mulher) - e ainda queremos presente, esquecendo que é uma data de luta e não de comemoração; livres para não sermos bajuladas, mimadas, protegidas, porque isto é coisa de mulher submissa;

Homens? Para quê? Eles não ajudam mesmo! E, como .emos, as mulheres se consideram autosuficientes. Os homens ficam confusos, pois esta escolha de mudança de atitudes e comportamentos foi da mulher. Será que podemos exigir que eles abram a porta do carro ou que paguem a conta do restaurante, quando durante tanto tempo lutamos para ter o direito de ter nosso próprio dinheiro e sermos ‘independente'? Reivindicamos que o homem se transforme de acordo com nossa conveniência, pois na igualdade das relações sociais, queremos que o homem divida conosco as tarefas domésticas. Para algumas mulheres é ofensa um homem não querer dividir a conta. Pois a igualdade deve estar em todos os âmbitos, mas estas são raríssimas. 

Por outro lado, há mulheres que consideram total falta de cavalheirismo quando um homem não paga um jantar. Mas temos que ser justos, portanto, onde há cavalheiro deve haver dama. Será que a mulher atual tem atitudes e comportamentos de uma dama?

Contradições da mulher: dividir as tarefas domésticas, mas não dividir a conta do restaurante; ser considerada forte (como o homem) para assumir posições no trabalho, mas ser considerada frágil e delicada ao ser tratada pelos homens; ter filhos, mas não ter tempo para ser mãe; acreditar-se autosuficiente, mas chorar escondida o amor que não existe; desdenhar a fraqueza dos homens, mas suspirar solitária por um pouco de carinho; permanecer firme diante das dificuldades da vida, mas buscar colo e proteção de um homem; mostrar a racionalidade suficiente para organizar-se individualmente, mas querer ser amada, desejada e acarinhada pelo seu excesso de sensibilidade.

Ter filhos passou a ser necessidade social ou demonstração de feminilidade. Para existir enquanto mulher na sociedade é preciso ter filho. Sem preocupação com o ser e sua subjetividade futura. Nascem crianças, cujas mães conhecerão em algumas poucas horas do dia (2 ou 3 horas). Uma posição egoísta, que denota o não saber da mulher sobre seu lugar, seu desejo e sua vontade. 

Ao assumir a igualdade de direitos e deveres com os homens, deixam para trás a condição de feminino, pois desconhecem seu significado ou porque esta figura desapareceu ou se perdeu das identificações da mulher. Ninguém mais assume o papel antes definido feminino ou da mulher na constituição social, que se inicia com a constituição familiar. Família esta que, hoje, desagrega, pois cada ente vive sua posição em separado, levando consigo seus afazeres e suas vontades.

A mulher se deslocou de uma posição fundamental, que é de estruturação familiar, pois não se sentia útil, nem feliz. A mulher se viu impossibilitada de definir sua importância na constituição familiar e, consequentemente, na constituição social, na transmissão cultural, acreditando que vivia sob o julgo do homem. Entendeu que a sua posição, de base, era inferior a do homem, acreditou estar submissa a ele e não percebeu que seu lugar era o mais importante. E até hoje vemos o quanto uma família se estrutura, se consolida pela força da mulher. Não é suma responsabilidade, tampouco, culpabilidade, mas a possibilidade de sustentação que o constructo feminino pode oferecer. 

As mulheres confundiram o direito de respeito com a descaracterização do papel feminino. O que nos concedeu uma grande confusão com relação aos papéis masculinos e femininos na sociedade atual. Se, culturalmente, existe uma negação na diferenciação de papéis, subjetivamente, há uma falta de sentido e de significação para a mulher. Contudo, há um permanente resgate, atribuído àquelas que resistem e insistem no feminino anteriormente identificado e que talvez, um dia, possa responder o que quer a mulher.

Elizandra Souza

Psicanalista

Diretora da Comissão de Ética do SINPESP

Professora de cursos de Formação em Psicanálise

www.elizandrasouza.com.br    

Perfil do Autor

Elizandra Souza

Psicanalista, Professora de cursos de Formação em Psicanálise, Diretora da Comissão de Ética do SINPESP (Sindicato dos Psicanalistas do...