O brincar e a realidade

14/12/2010 • Por • 4,603 Acessos

As origens do brincar estão na necessidade do ser humano trabalhar seus conflitos, especialmente com seus pais. Conforme vai tomando consciência de seus pais (um bebe não tem a menor noção que possui uma mãe separada dele) surgem sentimentos como medo da dependência de um outro ser (um filho depende de seus pais e isso não é um sentimento que o ser humano goste muito), ódio quando os pais não fazem o que a criança deseja, não ser o centro do universo, etc …

A brincadeira é nesse sentido um instrumento terapêutico para a criança, permitindo que ela elabore seus conflitos. Criança que não brinca não tem essa oportunidade de se preparar para a vida, e pode ir para a idade adulta despreparada. Aquele que não resolveu conflitos básicos na brincadeira tende a resolve-los na idade adulta. Mas uma coisa é brincar no playground, outra é brincar (elaborar seus conflitos) no trabalho ou no casamento.

A qualidade da brincadeira nesse sentido é muito importante. Brincadeiras que estimulem o sentido, permitam a fantasia e possibilitem interação social com outras crianças são essenciais para o bom desenvolvimento do sujeito. Crianças que passam o dia trancadas em casa ou em apartamentos, com televisão (que em si não permite qualquer interação da criança) e vídeo games (geralmente em quantidade de horas desmesurado), ou mesmo brincando com babás (e não com outra criança) não têm um meio ambiente propício para a brincadeira sadia (essa que elabora os conflitos internos).

Outro ponto importante é que brincar não tem nada a ver com orçamento familiar. Uma criança é capaz de brincar com paus e pedras. Uma vassoura pode virar um cavalo, o arranhador do gato pode virar um castelo. A brincadeira serve justamente para isso – estimular a criatividade e a imaginação. Uma criança que diz somente poder brincar se tiver o brinquedo X, Y ou Z está nos dizendo que somente será feliz se tiver o carro X, a casa Y e o emprego Z. Em outras palavras tende a ser tornar um adulto com pouca criatividade, imaginação, e jogo de cintura – infeliz!

Vale lembrar que o brinquedo em si não tem nada a ver com o amor dos pais. O tamanho da bicicleta não reflete o tamanho do amor dos pais pelo filho. Amor não se mede por coisas materiais. Não adianta querer suprir a ausência com brinquedos caros – amor acima de tudo é presença. Substituir amor por brinquedo ensina a criança que nossas carências emocionais podem ser supridas por uma boa sessão de compras no shopping.

Finalmente quem não brinca leva a vida muito a sério. O adulto não deve perder a sua capacidade de reinventar o cotidiano como uma criança cria uma brincadeira nova a cada dia. Reinventar um trabalho novo com os mesmos instrumentos ou um casamento novo a cada ano com o mesmo parceiro esta diretamente ligada a nossa capacidade criativa. Só não vale o adulto confundir brincadeira com leviandade.

por Ale Esclapes

 

Perfil do Autor

Ale Esclapes

Ale Esclapes é psicanalista e diretor da Escola Paulista de Psicanálise - www.apsicanalise.com