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Os Desvios No Amor

Por: Renato Dias Martino Ranking do Autor Azul | Publicado em: 18-07-2008 | Comentários: 0 | Acessos: 94 | Avaliação:  (122) Ranking do Artigo Azul (?)

Os desvios no amor

Renato Dias Martino

 

            ...A saber, que o homem não é realmente um só, mas verdadeiramente dois em um. Digo dois, porque o estado dos meus conhecimentos não vai além desse ponto. Outros virão, outros me ultrapassarão nessa mesma direção, e aventuro-me a pensar que o homem será finalmente conhecido como um simples agregado multiforme de cidadãos incongruentes e independentes uns dos outros.

O Medico e o Monstro, Robert Louis Stevenson (1850-1894).

 

 

Dr. Jekill deixa uma carta relatando sua experiência. Escreve uma longa carta que antes de tudo traz a revelação de um momento reflexivo daquele que tivera um insight (compreensão interna) sobre si mesmo. Alguém que descobrira o terrível fato de que talvez sua maior perversão fosse justamente o que o permitira se manter intenso em suas realizações. Talvez em sua busca por ser alguém livre de imperfeições, tivera que criar no quarto dos fundos de sua alma, um perverso. Alguém que ele mesmo não conhecera. E quando o fez, foi o fim. Na obra de Stevenson, Dr. Jekyll, um dedicado medico que reunira em torno de seu nome, qualidades como as de cavalheirismo, educação e bondade, desenvolve uma formula que permite transforma-lo em Mr. Hyde, um frio e nefasto que age essencialmente por seus impulsos. O uso da poção decompunha a personalidade do medico que assim, se tornava alguém dividido. Um recurso criado por ele, antes de tudo, para continuar vivendo. Justifica-se com o argumento de que, amiúde era tomado por certos desejos estranhos que ameaçavam o desenvolvimento e até a existência do medico bem sucedido. O preparado farmacológico não criava alguém novo, mas revelava uma parte escondida do gentleman. Ao beber da poção, o medico era arremessado para a extremidade avessa do médico, a irracionalidade do monstro. O uso da substancia química criava um fenômeno onde era evitando assim a experiência do conflito, já que delegava a cada parte do eu, uma escolha. Enquanto Dr. Jekyll (que carrega a morte em seu nome; kill), abriria mão do desejo proibido e assim revelava um homem amável e preocupado com o outro; Mr. Hyde (escondido em inglês), de forma inversa, abre mão da realidade e satisfaz o impulso perversamente, atacando pessoas como que com que num ódio mortal do ser humano. Entretanto, o maior oprimido e grande sacrificado pelos atos perversos de Mr. Hyde seria exatamente Dr. Jekyll.

O que poderia nos permitir cogitar, com propriedade sobre o que é perversão, que tipo de argumento poderia nos autorizar diagnosticar ou designar algo como sendo perverso?

A palavra "perversão", se entendida por um vértice onde é utilizada a linguagem coloquial, ganha logo um formato malévolo, um representante venenoso da crueldade. No dicionário (Michaelis 2003), encontraremos a palavra como sinônimo de expressões que aparecem desde contaminação, infecção, até corrupção, ou mesmo depravação. Se estivermos utilizando um estilo em que se usa vocabulário e sintaxe bem aproximados da linguagem do dia-a-dia, ou seja, coloquialmente, encontraremos a palavra perversão como significado de algo que se encontre, quem sabe, no avesso do que é humano. Na medicina (quiçá a primeira ciência a estudar o termo), a palavra perversão aparece como classificação de uma enfermidade, ou descrição de algum tipo de degeneração. Contudo, se procurarmos a origem da palavra, encontraremos no latin, per vertio, por sua vez derivado de per vertere, que remete à noção de "pôr de lado", ou "pôr-se à parte".

A partir dos estudos da psicanálise, a conotação ganha alguns importantes ponderadores, apontando para a mesma direção semântica do radical determinador da palavra. Através de um exame mais polido, podemos apreciar maduramente a palavra em seu significado e assim perceberemos certos pontos de vista que permitem deslocar o conceito da posição fixa, no extremo oposto do bom, do bem, do humano e perceber um significado mais amplo que poderia abarcar o termo. Na psicanálise, o termo foi e é (esse trabalho é um exemplo disso) de essencial importância no escopo dos pensadores. Sendo cuidadosamente estudado e debatido desde o inicio dos estudos de Freud.

No segundo tópico do primeiro capitulo dos “TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE” (1905), Freud nos descreve o termo como uma espécie de desvio. Mas, é importante percebermos que esse desvio ocorre no caminho em direção ao encontro sexual, ou a copula em si. Como que um adiamento temporário no objetivo da copula, assim como um desvio no caminho do desenvolvimento sexual, descritos como sadismo, masoquismo, pedofilia, exibicionismo, voyerismo, etc. Um atalho que desvia do outro, ou do objeto e se direciona a satisfação narcísica. Como se em certo momento, o desejo de buscar o objeto convertesse simplesmente em desejo de satisfação do impulso. Em “UMA CRIANÇA É ESPANCADA - UMA CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA ORIGEM DAS PERVERSÕES SEXUAIS” de 1919, Freud propõe que:

“Uma fantasia dessa natureza, nascida, talvez, de causas acidentais na primitiva infância, e retida com o propósito de satisfação auto-erótica, só pode, à luz do nosso conhecimento atual, ser considerada como um traço primário de perversão.”

Porém, é importante percebermos que, apesar de parte do eu pressionar a totalidade a olhar para outro lado, só pode desviar aquele que segue uma direção. Freud postulara em 1905 sobre uma polemica idéia que ainda hoje nos parece de difícil compreensão, ou no mínimo, pega o leigo de surpresa, com certa sensação (muitas vezes repleta de restrições em seu reconhecimento) de que sempre sentira algo que acaba de conhecer. Logo, perceberemos o fato de que, utilizamos muito mal a palavra perversão, ou pelo menos limitamos muito sua utilização se atribuirmos a ela um movimento de reprovação.  A idéia é que, a perversão se apresenta como componente, até mesmo da vida sexual sadia, sendo considerada pelo sujeito como qualquer outro pensamento secreto. Freud da um passo imenso na direção da necessidade de desfazer a fronteira insolúvel entre saúde e doença, pelo menos no âmbito psicológico, ou seja, quando se estuda a mente humana.

“As perversões não são bestialidades nem degenerações no sentido patético dessas palavras. São o desenvolvimento de germes contidos, em sua totalidade, na disposição sexual indiferenciada da criança, e cuja supressão ou redirecionamento para objetivos assexuais mais elevados — sua “sublimação” — destina-se a fornecer a energia para um grande número de nossas realizações culturais.”

É o que sugere Freud no seu “FRAGMENTO DA ANÁLISE DE UM CASO DE HISTERIA” (1905[1901]), e se pudermos sustentar a direção deste pensamento freudiano, verificamos que reprovar a perversão é reprovar parte do eu. Este afastamento temporário do objeto tem a exclusividade e fixação (Freud 1905) como constituinte em seu modelo. Freud nos dizia que "a neurose é o negativo da perversão", ou seja, enquanto o neurótico fantasia, o perverso atua (accting out). Esse desvio ocorreria por uma impossibilidade de satisfação do desejo sexual, o que faria com que no neurótico, a partir da repressão do impulso, criassem-se sintomas que serviriam ao aparelho psíquico como substitutos da satisfação sexual.  Ou seja, a neurose esconde um desejo perverso, encoberto pelo sintoma. A partir deste ponto de vista, com auxilio da psicanálise pudemos reconhecer que todos temos uma coleção de neuroses, passamos assim a perceber a perversão como certa característica que pode ser descoberta, até mesmo no sujeito dito normal ou saudável. Mesmo no adulto que, pelo menos a priori, conquistara o status de maturidade, conserva-se em sua personalidade (em um lugar secreto) partes infantilizadas que amiúde se revelam em situação de hiperexcitação, ou mesmo no prenúncio da perda do objeto.

Através de um exercício de subjetividade poderíamos pensar em algo que se manifesta através do desejo, vem sempre acompanhada de certa ânsia. Desse modo, gradualmente suscita-se um processo gerador de um modelo de estrutura, algo que possa sustentar a viabilização desse desejo, mesmo que apenas imaginativamente. A partir dai produzir-se-ia uma qualidade especial de vinculo com o real, exatamente onde está o outro, o objeto. Antes de tudo, no caso aqui estudado, uma espécie de dificuldade de reconhecer, integrar-se e interagir com o real. Isso se pensarmos o ato sexual como um modelo de encontro entre duas partes diversas da realidade onde existe a possibilidade de criação de uma terceira.

Verificamos por esse caminho que através de uma escala de evolução, a perversão estaria para o amor, como primeiro tipo, um modelo menos desenvolvido, entretanto, em desenvolvimento. Um protótipo do amor que tenta bravamente seguir em frente na tentativa de desenvolver-se.

Longo é o caminho que percorre o bebê até que aprenda a amar. Até que possa ser capaz de retribuir aquilo que recebeu de seus dedicados cuidadores e criar assim um modelo que possa servir a cada nova aproximação amorosa em sua vida. Tento propor que, talvez quem hoje ame, um dia desejou perversamente. Eros (deus do amor) é filho de Afrodite (deusa da beleza, sedução) a geradora do afrodisíaco.

Mas voltando a belissimo romance proposto no inicio do texto, se o medico tivesse sido capaz de suportar a integração das partes em sua personalidade, teria assim uma chance de viver algo real, logo imperfeito. Talves custasse a ele momentos de “monstros”, contudo sob sua resposabilidade em detrimento da perfeição do gentil medico bem sucedido. Seguindo o mesmo caminho, percebemos que a despeito da formulação popular, onde o titulo de perverso é atribuido a descrição do vilão, malvado e agressor,  também o papel de vitima se encaixaria na descrição perversa, quando cada agressor carrega uma vitima dentro de si, pronta a ser projetada naquele que possa oferecer um modelo adequado para receber essa função.

 

Renato Dias Martino - Psicólogo e Psicoterapeuta

CRP - 06-75558 Fone: 17-30113866  renatodmartino@ig.com.br

 

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Tags do Artigo: Amor, Perversão

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