Acadêmico de Direito
8º período
FAMINAS - Faculdade de Minas
As relações virtuais
Por Rodrigo Barbosa
Em seu constante vir-a-ser, tudo no Universo se manifesta por meio de relações. Elas estão presentes em cada momento em que as trocas energéticas ou fluxos de interação, que constituem os substratos mais primitivos de tudo quanto existe, fazem nascer a imensidão dos fenômenos que regulam a transformação das coisas. Assim, como na música, é a relação que gera a melodia resultante da emissão dos sons
Para que possamos compreender tais mecanismos como relação, necessário se torna que imaginemos algo permanentemente se transformando, no afã de se constituir como substância, mas se perdendo a partir de sua própria instabilidade. Pela idéia da relação se supera o dilema entre o existir e o não-existir, que passam a ser doravante concebidos apenas como estados momentâneos de uma melodia.
As maneiras de conceber as relações é que fazem as coisas aparecerem como nós as imaginamos. É a partir disso que são tão divergentes nossas explicações para os fenômenos. Como exemplos corriqueiros, basta citar nossa idéia do Universo como caos ou como cosmos (ordem); nossa idéia da alma; ou nossos conceitos sobre a liberdade. Como exemplos, o espaço só existe como síntese dos relacionamentos espaciais, daí surgindo a sua ambigüidade como objetivo ou subjetivo. É por isso que ele oscila entre o limitado e o sem limites, é por isso que ele só parece existir se houver objetos dentro dele (Kant).
O mesmo acontece com o tempo, síntese relacional de três momentos (passado, presente e futuro), que tomados isoladamente deixam de ter consistência própria. Sua percepção como duração ou sucessão resultam penas da forma com que concebemos as suas relações (Einstein). Nosso processo de conhecimento é também resultado das relações entre um sujeito cognoscente e um objeto conhecido, sendo que um não existe sem o outro. A cultura grega nos legou uma dicotomia impossível de ser superada,ao colocarmos a prioridade ora no sujeito (subjetivismo), ora no objeto (objetivismo). É evidente que a solução está num terceiro, a relação entre os dois, fazendo gerar os signos de nossa mente (Peirce).
É dessa forma que o fenômeno das ocorrências relacionais nos conduz a perceber que há, no processo de sustentação de todo o Universo, não causas isoladas, mas a confluência de três plexos de implicação simultânea: um agente motivador, um efeito "constrangedor" e a relação entre eles, como elo entre o que antecede e o que sucede.
Se todos os três são essenciais, não podemos deixar de enfatizar que é a relação que estabelece o verdadeiro nexo de compreensão do antecedente com o conseqüente, fazendo-os aparecer como motivações de nossa criatividade mental. A percepção da relação, por ser virtual e puramente simbólica, é experiência mágica e extática, o que evidencia a sua natureza espiritual. É a relação a fonte de nossas intuições racionais, criativas, emocionais ou libertárias, o que deixa transparecer a complexidade essencial de tudo o que ocorre. Nossa vida é também um processo contínuo de percepção relacional, que não tem em si nenhum conteúdo permanente, a não ser o momentum que faz surgir a autoconsciência. Sua duração é fugaz, apesar de estarem nela presentes os fluxos substanciais que pretendem superá-la como duração. Este é um impulso de nossa espiritualidade, que deseja intensamente colocar-se acima de sua instabilidade.
O mesmo ocorre com todo o mundo material que nos cerca, lugar contínuo de transformações, que só significam algo a partir de suas permutas ambientais. Pois nenhum corpo tem sentido, a não ser pela influência que causa ao seu redor, demonstrando a sua situalidade relacional. Deus é também uma experiência relacional, a ocorrência de um diálogo eterno entre as coisas e seus mecanismos de sustentação. É assim que o surgimento de cada coisa em seu ser só se sustenta enquanto se mantiver preso às suas Origens (Descartes). Seja na criação, seja na destruição aparente, a relação é sempre uma nova melodia, um apelo por novas ondulações de uma música eterna.


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